A ANTF e Rúben Amorim: oportunismo, incoerência ou orgulho ferido?

Francisco IsaacMarço 8, 20218min1

A ANTF e Rúben Amorim: oportunismo, incoerência ou orgulho ferido?

Francisco IsaacMarço 8, 20218min1
Rúben Amorim foi visado pela ANTF que exige a suspensão do treinador do Sporting. Mas é legítima esta posição? A crítica à instituição e o problema que abre para o futuro

Fraude… uma acusação forte e agressiva, que normalmente terá de ter um fundo legal sustentável, dependendo, claro está, dos casos e da sua perspectiva. Raramente se vê este elemento jurídico a ser envolvido na prática desportiva e ainda mais raro é, quando se envolve a Associação Nacional de Treinadores de Futebol e um treinador de futebol sénior da principal divisão portuguesa, que é a situação actual entre esta instituição e o técnico do Sporting Clube de Portugal, Rúben Amorim. A ANTF acusa o treinador dos “leões” de fraude, ao se fazer passar por treinador-principal de uma equipa do escalão máximo em Portugal sem ter a acreditação para tal, quando na realidade a sua inscrição na plataforma da Federação Portuguesa de Futebol e Liga determina-o como “treinador-adjunto”, o que significa que não deveria se poder apresentar em conferências de imprensa, de assinar as fichas técnicas, de ver o seu nome inscrito como tal de forma oficial, entre outros procedimentos oficiosos.

Foi quase um ano depois de Rúben Amorim se ter tornado treinador do clube de Alvalade, que a ANTF, do nada, avançou para esta acusação e exigência legal de suspende-lo entre um a seis anos, numa tentativa de fazer o antigo jogador um exemplo para os demais, demonstrando também o “poder” desta instituição na regulamentação da prática desportiva em território nacional. Contudo, no meio das acusações e exigências punitivas da ANTF, fica exposto também a sua hipocrisia, incoerência e falta de latitude moral, já que antes de Rúben Amorim, diversos outros treinadores estiveram ou estão na mesma situação, e nunca foram alvo de qualquer situação jurídica ou punitiva do género, o que só criará problemas nos termos de que esta associação está a efectuar esta acção pelos motivos certos, ou se quer simplesmente punir alguém por não possuir o nível máximo de creditação de treinador e estar a ter um sucesso assinalável na sua ainda carreira curta como técnico.

Para quem dúvida ou duvide de que há outros técnicos exactamente na mesma posição que Rúben Amorim, fazemos questão de deixar aqui alguns nomes que durante um certo período (no passado ou presente) não possuíam a tal creditação, mas não deixavam de orientar clubes da Primeira ou Segunda liga portuguesa.

A lista, como podem ver, é longa, e, curiosamente, nenhum destes foi alvo de qualquer processo disciplinar, carta de intimação ou processo legal que visasse suspender ou condená-los por serem treinadores-principais, quando a nível legal assinam como adjuntos. Todos, excepto um, foram alvo de palavras duras da ANTF, e não estamos a falar de Rúben Amorim, mas sim de Jorge Silas. Quando o agora treinador do FC Famalicão saiu do Belenenses SAD para o Sporting CP em 2019, foi imediatamente alvo de um ataque da instituição por parte do seu presidente, José Pereira, que disse na altura que,

“O Silas desempenha as funções, oficialmente, de treinador adjunto. É assim que está inscrito na Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Ele não pode ser treinador, porque não está qualificado para desempenhar esse cargo e é essa a questão”.

Contudo, enquanto Silas foi treinador dos azuis do Jamor, nunca houve qualquer comunicado público da ANTF ou de qualquer seu dirigente, no sentido de fazer a mesma crítica e ataque que se fez quando o técnico assumiu o Sporting CP, abrindo aqui um precedente perigoso nos termos das teorias da conspiração ou de construção de conjecturas que podem comprometer a ANTF enquanto associação independente e isenta.

O comportamento, decisão e vocalização da Associação Nacional de Treinadores de Futebol padece de várias falhas e incongruências, tendo já demonstrado um exemplo com a situação de Silas, mas é possível ainda trazer outros elementos comprometedores. Como exposto no quadro acima, está na mesma situação, neste momento, Luís Freire (levou o CD Nacional da segunda à primeira liga em 2019/2020), sendo que Mário Silva, ex-técnico do Rio Ave entre Agosto e Dezembro de 2020, também não tinha o nível IV, tal como Rúben Amorim. Porém, nenhum dos dois foi intimado pelo mesmo mecanismo legal da ANTF, pondo mais pressão nesta instituição no que toca à falta de coerência e de real justiça.

Outra questão é o facto da ANTF ser intransigente nos cursos, em especifico, nos horários dos mesmos, comprometendo seriamente o percurso de uma percentagem dos técnicos mais velhos, ou seja, aqueles que terminaram a carreira como futebolistas e que têm uma oportunidade de se lançar logo na carreira de treinadores-adjuntos (se é justa ou injusta para aqueles que começaram a tirar o curso mais cedo, esse problema cabe aos clubes e agentes desportivos) ou até treinadores principais. Se os jogadores de futebol merecem um tratamento diferenciado no que toca a horários para se formar é uma questão fracturante para alguns, então o que estes terão a dizer de quem tem de tirar uma licenciatura/mestrado/doutoramento/formação-profissional em horário pós-laboral, visto terem uma ocupação que lhes limita as opções?

Mas este é um problema estrutural e que deveria ser profundamente discutido entre clubes, agentes, treinadores, jogadores e dirigentes, e que para o caso de Rúben Amorim só ajuda a explicar o facto de que para tirar o nível IV (no qual está inscrito) dificilmente conseguiria treinar uma equipa sénior de um escalão principal, impondo a ANTF uma limitação de opções profissionais e sobrevivência pessoal com este comportamento, uma faceta nada positiva e de quem parecer não ser uma pessoa de bem, a nível institucional, jurídico ou social.

Poderá a ANTF ter optado por só atacar o alvo em melhor posição profissional de forma a evitar uma defesa colectiva de todos os treinadores que estejam na situação de Rúben Amorim, caso avançasse com o mesmo tipo de decisão para com Luís Freire, Mário Silva Jorge Silas ou Petit – os dois últimos já obtiveram o nível IV no entretanto, mas poderiam cair dentro do mesmo processo judicial? Ou simplesmente seleccionaram o treinador do Sporting CP porque há uma vontade de punir e mostrar que a ANTF é uma instituição com plenos poderes e rege, também ela, o futebol português? Existe ainda um terceiro cenário, de índole macabro e imoral, que passa por a existência de uma pressão exterior para tentar, de alguma maneira, criar uma tempestade contra o Sporting CP, ameaçando assim o que os “leões” conseguiram até este momento da temporada, devendo esta conspiração se manter no universo das conspirações infundadas.

Todavia, o facto presente é que a ANTF tem vindo assumir Rúben Amorim como o seu adversário preferencial, pois o treinador já tinha sido alvo em 2019, quando o técnico dos “leões” passou pelo SC Braga durante alguns meses, com José Pereira (presidente da ANTF), o facto da Liga ter demasiados poderes,

“A ANTF irá propor ao Governo a alteração do Regime Jurídico das Federações Desportivas, no sentido de ser retirada aos clubes (Liga) a autonomia que, presentemente, lhes assiste para decidirem em causa própria em matérias tão sensíveis como a elaboração do regulamento de competições, assim como as consequências do seu incumprimento”.

A Associação Nacional de Treinadores de Futebol sente-se ameaçada e no precipício de perder importância nos destinos do futebol português, querendo ela ditar quem pode ou não ser treinador, limitando o acesso desta carreira através de cursos e formações que quanto mais alto o nível, piores as condições de acesso são para quem quer efectivamente começar a trabalhar na área, um comportamento algo similar ao elitismo que circunda a algumas universidades ou outras associações que regem certas carreiras profissionais. Lembrar ainda que a própria ANTF está a criticar e a tentar desmerecer o artigo 82º do regulamento das competições organizadas pela Liga Portugal, no qual Rúben Amorim está supostamente “protegido”,

Foto: BJSTOR

Não há dúvidas que Rúben Amorim deve completar o nível IV o mais celeremente possível, assim como todos os outros nesta situação, contudo, cabe à ANTF o dever de proporcionar soluções de horário e calendários que encaixem na vida laboral de pessoas na mesma situação que o treinador do Sporting CP. Infelizmente, a posição da Associação Nacional de Treinadores de Futebol foi de optar pela via ditatorial e de punir aqueles que não alinhem com as regras absolutistas, colocando de lado os conceitos de igualdade e equidade, revelando uma atitude comprometedora e arcaica, em que não promove soluções positivas para quem necessita de mais um nível/formação, mas que prefere em se assumir como antagonista.


One comment

  • Toni o bêbedo.

    Março 9, 2021 at 1:15 pm

    É uma pouca vergonha, não contra o Sporting em si mas contra o seu atual treinador. O elitismo pela qual a ANTf se quer regir é de um absurdo imensurável e só reflete a decadência do futebol português atualmente. Vale tudo quando se quer destabilizar um projecto.

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