O Baú de “Mister’s”: Carlos Bianchi, o Vice-Rei da Argentina pt.2

Francisco IsaacMarço 11, 20218min0

O Baú de “Mister’s”: Carlos Bianchi, o Vice-Rei da Argentina pt.2

Francisco IsaacMarço 11, 20218min0
Um ícone em Buenos Aires e na Argentina, Carlos Bianchi levantou títulos e títulos por onde passou. A História do treinador contada em duas partes e esta é a parte 1

Esta é a 2ª parte do Baú de Mister’s dedicado a Carlos Bianchi, o Vice-Rei da Argentina. Recorda neste artigo a 1ª parte da história do treinador argentino.

Entre 1996 e 1998 é a 2ª fase de “baixa” de Bianchi, já que a passagem na Roma em 1996 foi um desastre e acabou por ficar adormecido até 1998, efectuando outros trabalhos como comentador desportivo ou escritor para alguns jornais argentinos e internacionais. Porém, a revanche de Bianchi não tardou a chegar e veio pelos contornos das cores do azul escuro e dourado… falamos do Bocas Juniores. Por mais estranho que pareça, até pela rivalidade que o Vélez tem com o Boca – lembrar que a rivalidade em Buenos Aires expande-se para vários clubes -, o treinador aceitou comandar os xeneizes desde que lhe permitissem montar o seu próprio projecto, oferecendo-lhe liberdade e total controlo na reconstrução de um dos principais emblemas do futebol mundial.

O Boca não era campeão da Argentina desde 1992 – Apertura – e andava aos tropeções nos últimos anos, sofrendo não só derrotas dentro de campo, como também fora dele (alguns problemas entre jogadores e direcção), tornando a missão do antigo técnico do Vélez ainda mais complexa, que rapidamente foi ultrapassada como se prova pela vitória no Apertura e Clausura de 1998/1999.

Nessa campanha interna, o Boca Juniores só sofreu uma derrota e imperava no campo com uma estupenda equipa, onde despontava Martín Palermo (20 golos no Apertura, um registo ainda histórico nos dias de hoje), Hugo Ibarra, Walter Samuel, Diego Cagna, Jorge Bermudez, Gustavo e Guillermo Barros Schelotto, Roberto Abbondanzieri, Mauricio Serna e Juan Riquelme, o mágico e fantasista deste 1º take de Carlos Bianchi nos xeneizes.

Melhor ataque (80 golos) e defesa (29), um futebol rico e elétrico, com tonalidades intensas tanto na recuperação de bola, como no atacar da área ou na luta nos corredores, identificando este Boca Juniores como um dos melhores da América do Sul, que conseguira a “cereja no topo do bolo” com a vitória da Libertadores logo no ano seguinte. No caminho até à conquista do troféu, o Boca só sofreu duas derrotas, uma delas nos quartos-de-final ante o River Plate (goleada na 2ª mão por 3-0) e defrontou na final o Palmeiras. Quis o destino que Carlos Bianchi voltasse a ganhar o título pela marcação das grandes-penalidades, somando a sua 2ª Libertadores e a 3ª do Boca Juniores.

O virtuosismo do meio-campo deste Boca Juniores, impulsionado pela visão de Bianchi de manter o pé no acelerador e ir sempre à procura do golo, criava sérias dificuldades a equipas que tentavam impor um futebol defensivo ou de contra-ataque, esperando uma queda anímica/emocional do Boca Juniores, algo que só acontecia em certos e raros momentos. A capacidade para se sobrepor a qualquer adversário ficou bem patente na conquista da Taça Intercontinental frente ao Real Madrid dos galácticos, numa final resolvida nos primeiros minutos graças a um bis de Martín Palermo e a uma exibição magistral de Juan Riquelme, com o médio-ofensivo a desmanchar a defesa madrilena uma e outra vez. Esta vitória não foi a última grande dos xeneizes de Carlos Bianchi, seguindo-se a revalidação da Libertadores, onde derrotaram os mexicanos do Cruz Azul, novamente nas grandes penalidades.

Todavia, e apesar de todos os feitos alcançados, o presidente Mauricio Macri, que nunca quis Bianchi no clube, continuava num braço-de-ferro com o treinador aguçado agora pela saída apressada de Martín Palermo, entre outras estrelas da companhia, sem que se contratassem substitutos à altura. O ambiente tenso e a falta de títulos nacionais acabaram por ser as razões que ditaram a saída do treinador, levando a um alvoroço entre os adeptos, jogadores e staff técnico, que não aceitavam esta separação, até porque sentiam que o projecto ainda tinha mais para oferecer. Veja-se a carta de amor de uma hincha (escrita pela sócia nº56 mil, de seu nome María Elena), deixada no balneário do Boca Juniores quando decorria o último jogo de Bianchi (carta que a imprensa argentina acabou por ter acesso),

“Obrigado por me ter dado tantas alegrias nestes três anos e meio como treinador do Boca Juniores, no qual ganhámos três títulos nacionais e três internacionais. Vem outro treinador, mas você é insubstituível. Eu estou segura que em 2003 estará outra vez no banco da tua querida Bombonera”.

Observem que esta carta foi escrita em 2001 e, impressionantemente, a autora acertou no ano de regresso de San Carlos ao clube: 2003. O Boca passou de bicampeão da Libertadores e candidato ao título da Argentina para eliminado precocemente nas provas internacionais e sem capacidade para lutar pelo título nacional, e isto colocou pressão em Mauricio Macri, com os adeptos a exigirem a retoma do que tinha sido alcançado entre 2000 e 2001, passando o plano pela contratação de Carlos Bianchi.

O regresso voltou a ser “pintado” com letras de ouro no pergaminho da história do futebol argentina, sul-americano e mundial, uma vez que o Boca Juniores alcançou o título de campeão nacional, a Libertadores – a única de Bianchi que não foi decidida nos penaltis – e Taça Intercontinental, esta ganha nas marcações das grandes-penalidades frente a um velho conhecido, o AC Milan, clube que Carlos Bianchi já tinha derrotado quando treinava o Vélez Sarsfield. Esta 2ª passagem d’ El Virrey já não havia nem Palermo, Riquelme ou Walter Samuel, mas foi possível resgatar Diego Cagna, que era uma das traves-mestras dos xenezeis, manter o mesmo nível de qualidade de Guillermo Barros Schelotto e Nicolás Burdisso, e continuar a lançar “pérolas”, que era o caso de Carlos Tevez, oferecendo a mesma identidade sem ser tão espectacular ou mágico na produção ofensiva.

Depois de 2003, e do triplete, Carlos Bianchi começou a preparar a sua retirada enquanto treinador, optando por ficar na posição de director-técnico no Boca Juniores, sendo que as duas últimas épocas como treinador-principal foram “erráticas”: 2005/2006 pelo Atlético de Madrid e 2013/2014 no Boca Juniores. Verdade seja dita, o Vice-Rei fez tudo o que sonhava, conquistou todos os títulos possíveis na América do Sul e foi reconhecido como o Melhor Treinador do Ano para a IFFHS por duas ocasiões, e escolheu o momento para desenhar um ponto final numa carreira de ilustre tanto enquanto jogador e treinador, com um boletim invejável no que concerne a dados e números: 707 jogos, 342 vitórias, 199 empates, 166 derrotas, 1056 golos marcados e 719 sofridos.

O futebol de Bianchi, como puderam ver pela sua história, foi pautado por épocas consecutivas de domínio, aplicado através de uma manobra ofensiva dominadora e demolidora, por uma comunicação inteligente, directa e humilde, retirando o melhor dos jogadores, recuperando-os quando entravam num vórtice negativo de forma e exibições, optando por se entregar às paixões (em 2002 recusou ir para o FC Barcelona, ficando mais concentrado nas funções de comentador desportivo) da bola redonda e do conhecimento técnico. Deixamos no final quatro frases que marcam a carreira de Carlos Bianchi como treinador,

“O momento mais glorioso com o Vélez foi sair campeão intercontinental. Conseguimos que um bairro fosse campeão do Mundo.” (1994)

“Entre 1981 e 1998 decorreram 34 campeonatos e o Boca só foi campeão por uma ocasião. Formar uma equipa, dar-lhe uma identidade, não é assim tão fácil como vocês dizem sobre o “telemóvel de Deus”. Agora estão se aperceber que eu não o tenho.” (2000)

“Eu acho que sou um treinador simples. Não complico as coisas. Joguei futebol antes deles e não trato de complicar a vida dos jogadores. Só lhes peço que cumpram o que lhes peço, que não é nada que eles não o saibam fazer, porque sou eu que faço o sistema de jogo. Creio que quem vê os jogos percebe que eu sou o treinador. Eu sei quem são os jogadores que tenho e quais as necessidades tanto deles como da equipa.” (2003)

“Eu tenho de dar graças à vida. Em míudo vendia jornais e em adulto jogo futebol. E vou a seguir este caminho até ao dia da minha morte, como treinador ou o que seja” (1981)

“Alguns dizem que eu cresci no Boca, mas o Boca já era muito grande quando eu cheguei. Fico feliz de poder ter ajudado ao clube ser ainda maior.” (2009)

Breve nota final, Carlos Bianchi vive hoje em dia em Paris, cidade que ele considera como o centro do Mundo.

 


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