Momentos parapsicológicos do futebol português

João FreitasDezembro 11, 20214min0

Momentos parapsicológicos do futebol português

João FreitasDezembro 11, 20214min0
João Freitas conta algumas histórias curiosas do futebol português que envolvem "feitiços", macumbas e muito mais, relatado neste artigo

“Se macumba ganhasse jogo, o campeonato Baiano acabava empatado”, estas são as palavras de Neném Prancha – esse carioca que era olheiro, roupeiro e sobretudo um filósofo do futebol. Esta simples observação revela muito do estado de espirito de muitos dos interpretes do futebol, não raras vezes vemos jogadores entrarem com o pé direito e ou benzerem-se ou pedirem algum tipo de proteção divina ao subir ao relvado.

A superstição não é um exclusivo do futebol, não faltam achados arqueológicos ou relatos que apontam para essa procura por algum desejo de precaver-se das peripécias do destino. Mas, sendo o futebol – ou qualquer outro desporto – um momento em que milhares de pessoas – desde o jogador ou adepto – são colocados sobre altos níveis de ansiedade e sujeitos as voltas da roda da fortuna.

Os jogadores e treinadores acrescem da pressão da sua profissão de risco – instabilidade laboral, risco de uma lesão, a vergonha de um golo falhado, etc. – , não é estranho que mecanismos que possam garantir algum sentimento de conforto para controlar o “factor sorte” assumam um espaço de destaque.

Atualmente, a figura do psicólogo desportivo vem crescendo, porém no século XX eram os “bruxos” e os “parapsicólogos” que eram donos e senhores no controlo do destino alheio. Um dos primeiros a assumir um lugar de destaque foi o místico madeirense Professor Zandinga. Zandinga, nascido João Almeida Emanuel, apareceu no mundo do futebol nos anos 80, ao serviço do FC Porto. Dizia que não era uma bruxo, mas um “parapsicólogo”.

O sempre supersticioso António Oliveira, quando saiu do Porto para o Penafiel, levou o Professor consigo. Verdade seja dita, aquando da deslocação do Penafiel ao Estádio das Antas, o clube duriense conseguiu empatar 2-2 (Domingo,30 Novembro 1980 ) mantendo-se na primeira liga.

Foto: Gazeta

Zandinga aproveitou o momento para reclamar o seu quinhão na manutenção dos penafidelenses. Cavou buracos atrás da baliza do guarda-redes Fonseca, onde colocou relva “enfeitiçada” para fragilizar a baliza portista. Com a notoriedade pública que atingiu conseguia ter algum espaço na comunicação social a fazer previsões – quase sempre erradas.

Zandinga chegou a dizer que o Sporting nunca seria campeão enquanto não o contratasse – a verdade é que os leões só quebraram o jejum de 18 anos em 1999-2000, quando Zandinga ja tinha “abandonado o mundo material”. Também chegou a prever títulos do Benfica, sem sucesso. Mas se há nome que ficou incontornavelmente ligado aos sucessos do FC Porto na década de 1980 foi Delane Vieira.

Delane Vieira era parapsicólogo brasileiro seguidor da Umbanda tendo como mentor João de Camargo – “Preto Velho” -, uma das maiores entidades da Umbanda. Delane começou a trabalhar em Portugal ao serviço do Benfica, compondo a equipa técnica de Otto Glória. Ele dizia que :“Eu no futebol não trabalho para destruir o adversário mas para vencer”.

Delane ingressou no FC Porto na época de 1984/85, terceiro ano de Pinto da Costa como presidente do clube. Mas ano que Delane fez a sua reputação foi o de 1987, ano do primeiro titulo de Campeão Europeu. A quando da final de Viena, Delane já se encontrava na capital austríaca com 12 dias de antecedência para “preparar” a grande final. Jornalistas dizem que viram Delane a enterrar 2 sapos no relvado do Pratter e que horas antes da partida garantiu a imprensa uma vitória por 2 golos – a verdade é que o FC Porto ganhou por 2-1 a um poderosíssimo Bayern Munich.

Mas as proezas de Dalene não ficam por ai, no mesmo ano, garantiu aos responsáveis do clube azul e branco que iria ocorrer um fenómeno metrológico estranho em Tóquio no dia da Final do Mundial de Clubes – surpresa, caiu um nevão branco Tóquio, uma situação que não ocorria faz 40 anos.

Seguiram-se outros “bruxos” como Alexandrino – gabava-se de evitar a descida de divisão do Vitória Sport Clube em 2000/2001 -, o “Bruxo de Fafe” – que dizia trabalhar para o Benfica em 2015 – ou, mais recentemente, a existência de supostos contatos entre o Benfica e um bruxo guineense de nome Nhaga.

Se Neném Prancha abriu este artigo, fecho com mais duas frases dele, que revelam a minha opinião sobre o que pode deixar uma equipa mais perto do sucesso que a macumba: “Bola tem que ser rasteira, porque o couro vem da vaca e a vaca gosta de grama” e “Jogador de futebol, tem que ir na bola com a mesma disposição com que vai num prato de comida. Com fome, para estraçalhar.”

Foto: FC Porto

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