“Fui dispensado… e agora?” ou como enfrentar uma situação negativa

Fernando SantosAgosto 27, 20186min0

“Fui dispensado… e agora?” ou como enfrentar uma situação negativa

Fernando SantosAgosto 27, 20186min0
O início de uma nova época desportiva pode também marcar o "fim" de algo. O que fazer quando um atleta é dispensado? O Muda o Teu Jogo explica e ajuda!

Está a começar uma nova época desportiva. Com ela reacendem-se sonhos de feitos heroicos e conquistas inigualáveis. Forjam-se desafios e constroem-se equipas que trabalharão afincadamente durante os próximos meses para que os sacrifícios dêem lugar a muitos sorrisos no final.

Mas há quem inicie a época já com poucos motivos para sorrir…

Com milhares de plantéis de equipas dos mais diferentes escalões e modalidades a serem actualmente definidos por este nosso País fora, não serão assim tão raros os casos de frustração logo no arranque da temporada.

Se não conseguiste conquistar o teu lugar, se foste excluído da equipa, se foste dispensado… este texto foi escrito a pensar em ti. A pensar no difícil momento que estás a viver.

Ficar de fora, ser excluído, não pertencer, não estar à altura, ser inferior, enfim, muitos serão os termos ou expressões que virão associados ao momento extremamente doloroso de não ouvirmos o nosso nome entre os escolhidos para realizar esta época ao serviço da equipa com que nos dispusemos a começar a treinar.

Se fizeste o que estava ao teu alcance, então sentes que deixaste tudo em campo, que te esforçaste até ao teu limite e que pouco ou nada do que sabes fazer bem ficou por mostrar. Contudo, a sensação com que geralmente ficamos quando somos dispensados é a de que poderíamos ter feito mais. De que poderíamos, porque sabemos, ter feito bem melhor.

Instintivamente entramos num processo defensivo de tentar encontrar “culpados”. Como a escolha é sempre sujectiva corremos o risco de desperdiçar tempo precioso num remoinho de análises estéreis que desaguarão em personagens que nada têm a ver com o que estás a sentir. E mesmo que tenham, tu não consegues mudá-las. Mais vale nem tentar, acredita.

Mas consegues mudar-te a ti.

É aí que reside a solução mágica para este momento incrivelmente triste que estás a viver. Dentro de ti. Na força da tua mudança.

O primeiro passo é aceitar. Aceitar a dor. Aceitar que outros foram melhores do que tu em algum aspecto. Este é um momento precioso para o teu crescimento e que te vai ser útil a vida toda. Não o desperdices. Aprende a aceitar o que a vida tem de menos bom. Há quem diga que “crescer é mesmo isto, é aprender a dizer adeus”.

Pode ser que encares este momento como um desafio ou que te deixes ficar pelo amargo sentimento de desilusão. Talvez ainda não tenhas desenvolvido as competências necessárias para jogar ao nível a que te propuseste. Em alguns casos a dispensa duma equipa até é o passo necessário para experimentarmos uma nova modalidade de que até acabamos por vir a gostar mais.

O segundo passo é perceber, dentro dos factores que podes trabalhar, o que fez com que fosses dispensado. Esta percepção ser-te-á útil caso te mantenhas na equipa/modalidade ou optes por trocá-la por outra.

Foto: Getty Images

Que aspectos do teu jogo merecem mais atenção da tua parte? Quais os teus pontos fracos? Terás conseguido mostrar eficazmente os teus pontos fortes? Se estás mesmo interessado em melhorar esses aspectos não há nada melhor do que uma conversa sincera e humilde com o treinador que te dispensou para tirares todas as dúvidas.

O terceiro passo é trabalhar mais e melhor. Transformar essa dor da rejeição em combustível que te fará trabalhar de modo e tentar evitar voltar a vivê-la. Mudar. Encontrar outra equipa. Outro clube. Outro treinador. Outros colegas. Sempre que se fecha uma porta, abrem-se muitas outras. O que te define não é a forma como cais mas sim o modo como te levantas dessas quedas. Identifica o que controlas e foca-te na melhoria dessas competências.

Aqui entra a preparação mental que pode ser decisiva. A dispensa duma equipa é sempre um momento que abala a nossa confiança. A sorte é que a confiança é como um músculo, que podemos reforçar a qualquer momento. Para que tal aconteça é fundamental avaliar a nova realidade (pós-dispensa) e reconstruir objectivos.

Se a realidade mudou, os nossos objectivos devem ser ajustados. Devo ir jogar para uma equipa mais modesta? Numa divisão inferior? Ou devo tentar numa divisão acima? Devo retirar-me? Tentar outra modalidade? Traçado o mapa, há que operacionalizar. O que é prioritário? O que introduzir na rotina diária? O que retirar dela que não nos está a trazer os resultados desejados? Definidos os novos objectivos, devem começar a ser escolhidas as acções que nos conduzirão a eles e a forma de irmos avaliando os nossos progressos.

Se no ano passado só consegui ir a 85% dos treinos, o que fazer para estar em 90% esta época? Se no ano passado só joguei em 10 jogos, e o meu desejo é jogar, o que fazer para jogar no mínimo 11? Se levei 10 amarelos, o que devo começar já a fazer para evitar repetir estes números? Prepara-te para começares a agir de modo diferente. Chama-se crescer. Crescer é aprender. E aprender é mudar. Por fim, mas não menos importante, é imperativo fazer uma análise ao nosso grupo de influência (grupo das pessoas que nos são mais próximas) e decidir o que mudar. Sim, podes ter que te afastar de alguns dos teus pseudo-amigos se queres ir à conquista dos teus sonhos.

E se acontecer ao meu filho? Como devo reagir? O que devo fazer?

Ouvir. Ouvir. Ouvir.

A dor é grande demais e precisa de ser exteriorizada. Dor para com o treinador, para com os colegas, para consigo. Dor para com tanta injustiça.

O que um jovem necessita é de alguém que o ouça e que mostre compreensão pelo momento difícil. Sem tentar resolver. Sem “paninhos quentes” ou “soluções mágicas”. Sem criar inimigos. Sem encontrar culpados. Sem juízos de valor. Sempre com o amor incondicional que caracteriza o bom pai ou mãe que desejamos sempre ser.

Pode demorar bastante até passar a dor da exclusão. Os timings a ter em conta aqui não são os dos pais ou os dos amigos. São os dele ou dela. De mais ninguém. Alguns aproveitarão esta oportunidade para procurar uma nova equipa e melhorar jogando, outros dedicar-se-ão a tentar mostrar a quem os excluiu que afinal têm o que é preciso para jogar a esse nível, outros procurarão acompanhamento individualizado para acelerar esse processo de crescimento. O papel de pai e mãe é absorver o impacto inicial, mostrar compreensão e confiança e ajudar a definir um plano de acção.

Depois da tempestade virá a bonança e o sol voltará a brilhar. Quanto maior for a capacidade de apoiar sem julgar, deixando claro que ele ou ela são e serão sempre bastante mais do que os seus desempenhos, mais rápida e eficaz será essa recuperação e a transformação daquele momento negativo num futuro cada vez mais positivo.

Foto: Getty Images

Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter