Fair Play apresenta… Ultras

Pedro AfonsoJunho 6, 20205min0

Fair Play apresenta… Ultras

Pedro AfonsoJunho 6, 20205min0
O Fair Play apresenta... "Ultras", produção italiana da Netflix sobre a cultura dos Ultras na cidade de Nápoles! Descobre tudo aqui!

Em tempos de confinamento, o consumo de séries e filmes assume um papel importante para “desligar” de uma realidade desconfortável e preocupante, transportando-nos para um mundo distinto, mais livre e mais alegre. O scroll pelos conteúdos que as várias plataformas de streaming têm para oferecer substituiu, em grande medida, o zapping e, de quando em vez, somos presenteados com algumas pérolas desconhecidas. É este o caso de “Ultras”, uma produção italiana da Netflix.

A abertura do filme alerta-nos para que qualquer semelhança com pessoas e acontecimentos verídicos é pura coincidência e que nenhum dos elementos das claques do clube Napolitano participaram no filme. Apesar de esta comunicação trazer pouco conteúdo acerca da história e ser, no mínimo, discutível, a verdade é que nos demonstra outra faceta desta obra: não é suposto ser documental. E é este o ponto fulcral do filme que, não pretendendo transmitir a realidade tal qual ela é, permite-nos afastar em direção a um mundo fantasioso, mas alicerçado no real, que se apresenta como mais universal.

Seguindo duas personagens que guiam a ação, Sandro e Angelo, o filme segue uma estrutura bastante comum de filme de redenção. Sandro é Mohicà, líder histórico da claque “Apache”, figura carismática e incontornável no desenvolvimento do grupo. Angelo é um jovem adulto, irmão de um dos fundadores da claque, Sasà, que morrera anos antes em confrontos na capital, Roma. A escassas jornadas do final do campeonato, a equipa da Sicília segue na frente e em direção à conquista do campeonato, discutido na última jornada em casa dos rivais Romanos, num confronto épico. O twist? Sandro é um dos muitos ultras banidos dos estádios pelos seus comportamentos violentos no passado e que, em conjunto com os fundadores da claque, tentam manter o seu controlo, a sua ligação, a um grupo que não podem apoiar dentro do estádio.

O contraste entre o novo e o velho líder da Claque

É nesta tensão entre presença e ausência, entre o passado e o futuro (Sandro com 50 anos e Angelo na casa dos 18), entre o futebol e o modo de vida, que o filme trabalha e prospera.

Longe do Estádio e da Redondinha

Apesar da clara influência do “Desporto-Rei” no filme, a verdade é que o espectador não deve partir para este filme à espera de ver grandes jogos e momentos épicos dentro do Estádio. Apesar do amor que grande parte de nós nutre pelo fenómeno, a Vida vive-se em mais momentos do que aqueles que se passam “Ao Domingo, às três”, como cantam os ultras na cena final. E o trabalho de Francesco Lettieri, napolitano de gema, é o espelho desta busca na humanidade defiguras que não existem apenas no dia do jogo.

Sandro e Angelo, num dos vários “momentos” do filme

Com uma grande bagagem na realização de videoclipes para artistas italianos (dos quais se destacam os do rapper napolitano Liberato), a estética e a abordagem de Lettieri baseiam-se no uso dos néons, do slow-motion, na captura dos momentos fugazes da juventude, dos pequenos prazeres da vida, mais do que na vivência exagerada de um fenómeno desportivo. Não interessa demonstrar com veracidade como é que funcionam as claques napolitanas (que se organizam de uma forma muito mais complexa do que se possa pensar, com facções, disputas por poder e imensas divisões internas, muitas baseadas em bairros da cidade), nem o próprio jogo (é curioso como são raríssimos os momentos em que é possível vislumbrar um jogo de futebol profissional e como os próprios ultras insistem em ouvir o jogo na rádio, ao invés de o ver na televisão). Trata-se de um filme que procura humanizar estes intervenientes, demonstrar os seus erros, as suas falhas, mas também as suas virtudes e tentativas de redenção.

Vale a pena?

Como já afirmado acima, não se trata de um filme convencional de Desporto, preocupando-se mais com o drama das vidas das personagens e as suas histórias de crescimento e de redenção, do que com uma claque ou com um clube. Altamente estilizado, tal como os videoclipes que o realizador vinha fazendo, o filme é visualmente interessante e apresenta uma visão fantasiosa, mas bela, de uma cidade complexa, violenta e perigosa. A banda sonora é magistral, com o rapper napolitano Liberato a honrar a sua cidade e as atuações são competentes, sem deslumbrar.

No entanto, a história acaba por cair em alguns clichés que lhe tiram o valor de choque e de impacto junto do público. São criados momentos emotivos, de arrepios, mas não é fácil sentir empatia pelas personagens, que habitam um mundo e uma cultura muito diferentes da nossa. Um bom entretenimento em tempos de excessiva realidade.

Nota do Fairplay: 6.5/10


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter