Entre os Postes e a Repressão: A Queda de um Ídolo do Futebol Português, a vida de António Roquette

João FreitasJaneiro 25, 20265min0

Entre os Postes e a Repressão: A Queda de um Ídolo do Futebol Português, a vida de António Roquette

João FreitasJaneiro 25, 20265min0
António Roquette, do sucesso entre os postes a ser membro da PVDE, esta é a história da queda de ídolo do futebol português

A prestação da Seleção Portuguesa nos Jogos Olímpicos de Amesterdão (1928) foi o primeiro ponto alto do futebol português no século XX. Até à prestação no Mundial de 1966 — em que Eusébio e os seus companheiros conquistaram o terceiro lugar —, o alcançar dos quartos de final dos Jogos Olímpicos de 1928 fora a melhor prestação internacional da Seleção Nacional. Por esta altura, o futebol português ainda dava os seus primeiros passos; muitos dos nossos clubes tinham entre 10 a 20 e poucos anos de vida. Em paralelo, a imprensa desportiva nacional, agora com o auxílio da fotografia, começava igualmente a assumir formas mais modernas e uma maior capacidade de difusão e alcance.

Estavam assim reunidas as condições para a criação dos primeiros grandes ídolos do futebol nacional. A boa prestação da Seleção na sua estreia em competições internacionais, apoiada por figuras como Pepe — jovem craque do Belenenses que perdeu a vida precocemente — catapultou os jogadores às ordens de Cândido de Oliveira para a ribalta.

Neste artigo vamos falar do guarda-redes António Roquette, uma das estrelas da campanha de Amsterdão, cujo percurso viria a ser desviado pelo destino e pela história política do país, bem como pela figura do homem que o lançou na Seleção Nacional: o ‘Mestre’ Cândido de Oliveira. Roquette era natural de Salvaterra de Magos, mas entraria na Casa Pia de Lisboa ainda com tenra idade, em virtude das dificuldades económicas que a sua família enfrentava. Dotado de forte estampa física, o jovem ribatejano encontrava no desporto um caminho natural.

Entre natação, basquetebol, pólo aquático e futebol, foi nos relvados, defendendo as cores dos Gansos, que Roquette mais se destacou. Inclusive, partilhava balneário com Cândido de Oliveira, à época jogador e capitão da formação casapiana. Roquette era descrito pela imprensa da época como um guarda-redes bastante dominador da grande área e dotado de reflexos apurados. Essas qualidades fizeram dele uma das principais figuras do desporto português da segunda década do século XX. Com a chegada de Cândido de Oliveira à Seleção Nacional, em 1926, o nome de Roquette começou a figurar entre os convocados, tendo feito a sua estreia frente à França, em Toulouse.

Nos Jogos Olímpicos de 1928, Roquette foi uma das figuras de destaque da Seleção. A combinação da sua destreza e coragem entre os postes, aliada a uma presença física imponente e às primeiras vitórias internacionais da equipa das quinas, fizeram dele uma das estrelas da campanha. Muitas das fotografias mais emblemáticas dessa participação portuguesa retratam intervenções decisivas de Roquette na sua grande área. Se, por um lado, no aspecto desportivo o país vivia os seus primeiros tempos de glória, a nível político caminhava para o seu período mais trágico. A 28 de Maio de 1926, saíam de Braga grupos de militares revoltosos, aliados a forças civis conservadoras e autoritárias, que depuseram a Primeira República Portuguesa e iniciaram um período de ditaduras militares, culminando em 1933 com a institucionalização do Estado Novo de Oliveira Salazar.

A República cairia, mas não sem resistência. A oposição democrática às ditaduras militares encetou, desde 1926, um conjunto de ações de protesto — algumas armadas — com o objetivo de derrubar os governos militares. Entre 1926 e 1940, várias ações ocorreram de norte a sul do país, nas ilhas e nas colónias, colocando sob pressão as ditaduras militares e, posteriormente, o Estado Novo. A queda da Monarquia e a implantação da República na vizinha Espanha colocaram as forças reacionárias portuguesas sob maior pressão para reforçar o seu aparelho coercivo, repressivo e de vigilância. A República Espanhola tornou-se, assim, um espaço relativamente seguro para que os republicanos portugueses preparassem as suas actividades contra as ditaduras.

Em 1933, com apenas 26 anos, Roquette realizou a sua última época ao serviço do Casa Pia. Abandonou precocemente os relvados, para espanto dos seguidores da modalidade. António Roquette abdicou da carreira desportiva para ingressar na recém-criada Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), futura PIDE/DGS. Teve um primeiro posto em Valença do Minho, cidade fronteiriça no norte de Portugal, onde vigiava as atividades dos republicanos na Corunha — onde se encontrava, por exemplo, exilado Bernardino Machado. Durante esse período, chegou ainda a participar em algumas partidas pelo clube local, o Sport Clube Valenciano. Mais tarde, foi colocado em Elvas, outra cidade fronteiriça, onde também vestiu as cores do clube local, o Sport Lisboa e Elvas. Em ambos os postos ficou conhecido pela sua reputação de violento e impiedoso, características apreciadas pelo regime e que lhe valeram a promoção a inspetor.

Por seu lado, Cândido de Oliveira foi um militante antifascista que conheceu alguns dos cárceres mais temidos do regime. Em 1942, foi preso pela PVDE e deportado para o Tarrafal. Em 1944 regressou do Tarrafal, sendo transferido para Caxias e, posteriormente, para o Aljube, saindo em liberdade condicional nesse mesmo ano. Em 1945 regressaria ao futebol, treinando o Sporting dos Cinco Violinos e fundando o jornal A Bola.

Durante muitos anos correu o rumor de que Roquette teria participado na detenção e nas sessões de tortura e espancamento de Cândido de Oliveira. Contudo, não existe qualquer prova documental que sustente essa acusação. Roquette abandonaria a polícia política apenas em 1961, passando então a trabalhar como chefe de segurança do Banco Nacional Ultramarino e da Caju Industrial de Moçambique. Regressou a Portugal em 1975, onde foi constituído arguido, mas nunca condenado. Faleceu em 1995, vítima de uma broncopneumonia. Para encerrar esta história de um dos vários algozes do aparelho repressivo da ditadura, subsiste ainda uma curiosidade trágica envolvendo um atleta que defrontou Roquette no seu jogo de estreia pela Seleção Nacional, em Toulouse. Do lado francês figurava o nome de Alexandre Villaplane, que viria a tornar-se colaborador nazi, integrando a Carlingue — forças francesas que apoiavam a Gestapo e as SS.


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