As Crónicas do Sr. Ribeiro – Nove minutos e trinta e seis segundos

Fair PlayNovembro 27, 20175min1

As Crónicas do Sr. Ribeiro – Nove minutos e trinta e seis segundos

Fair PlayNovembro 27, 20175min1
Nove minutos e trinta e seis segundos... ou como quando há vontade de jogar o jogo pelo jogo. Nova Crónica do Sr. Ribeiro no Fair Play

Aconteceu num Sábado normal. Um daqueles dias condenados a não ficar na memória. Um qualquer fim-de-semana de Novembro. Nem chovia, nem fazia sol. Estava assim-assim. O jogo também não era especial. Não era a final do campeonato do mundo, nem sequer era uma final.

Era um jogo de calendário, do campeonato nacional de sub-16, a Agronomia recebia o CDUP.

O jogo foi um bocado como o dia. Nada de especial.

Na primeira jogada, fiquei com impressão que o CDUP tinha mais rugby. A Agronomia marcou logo na segunda, mostrando-me que estava errado.

Já tinha visto esta equipa da Tapada a jogar, há pouco mais de um mês, por isso achei que sabia o que eles valiam, mas a sua evolução foi tremenda. Muito mais organizados, mais certinhos a atacar, com boas linhas corridas, opções de passe, e muita capacidade de manter a posse de bola.

Do lado do CDUP, cada placagem que entrava era comemorada como se tivessem marcado pontos, rucks limpos a mil à hora e um jogo bem esclarecido. O CDUP é o CDUP.

Mas as equipas encaixaram bem. E o jogo não teve grande história.

Faltava pouco mais de um minuto para terminar o jogo e a Agronomia vencia por 25-0. Assinalei uma mellee, dentro da área de 22 do CDUP, com introdução para a equipa da casa.

“Vai acabar”, pensei.

Eles formaram, mas o pilar do CDUP não estava bem encaixado. Segurança primeiro. Apitei, mandei levantar e repetir. O tempo ia avançando.

Baixaram, ligaram-se e formaram. O talonador da Agronomia não recolheu o pé, para a bola ser introduzida, embora eu até tenha tentado gritar para ele se lembrar de o fazer. Assinalei pontapé livre para o CDUP.

A mellee desformou, o formação do CDUP agarrou a bola e o meu cronómetro tocou.

“Se chutar para fora o jogo acaba?”, perguntou o jogador portuense.

Quando ia tentar explicar, o capitão não deu hipótese “Nós vamos marcar um ensaio”.

E saíram a jogar. Já fora do tempo, deixei o relógio correr por curiosidade.

Era só esperar uma paragem e acabar o jogo.

O CDUP começou a jogar a uma velocidade que ainda não tinha utilizado nesse dia e ia surpreendendo a Agronomia que foi defendendo, mas recuando muito.

A bola circulava de um lado para o outro do campo, de mão em mão, os rucks quase inexistentes punham a bola cá fora, para voar entre os jogadores que apareciam embalados, vindos de todos os lados. Um ataque de cavalaria parecia, pela velocidade e pelos ângulos de onde vinham.

A infantaria agrónoma encheu-se de brio e coragem e defendeu tudo.

Deram por eles, em cima da própria linha a defender. A defender com a vida, aquilo que para si seriam só pontos. O jogo estava sentenciado, a Agronomia ganhava, sofresse ou não o ensaio. Mas não era opção. Não naquele dia.

Defenderam a sua linha e recuperaram a bola. Um chuto cruzado e eu suspirei de alívio. Ia terminar. Mas, por capricho, a bola não chegou a sair, recuperada por um jogador do CDUP, nova investida nortenha.

Nova defesa irrepreensível até que os agrónomos ganharam uma penalidade.

“Eu quero um ensaio. Quero o ponto bónus!”… Sentenciou o capitão da Agronomia, enquanto os jogadores iam decidindo o que fazer.

E foi a vez da Agronomia atacar com tudo. Jogar à mão com uma qualidade incrível.

Alguns momentos espetaculares de sofrimento e técnica individual. Vi jogadores de 14/15 anos a serem placados por dois defesas, simultaneamente, um aos pés, outro à cintura. E mesmo sendo projectados para trás, conseguiam manter a bola.

Várias vezes achei que a bola ia ser cuspida e o jogo ia acabar. Várias vezes achei que os pontas que ganhavam espaço para fugir iam pisar a linha, achei que alguém sob pressão ia chutar e a bola ia sair.

Mas nada…

Jogo pelo jogo.

Finalmente, não sei quantas fases e investidas foram precisas, o CDUP marcou um ensaio à ponta, bem à ponta, porque não havia espaço para mais.

Não tenho a certeza se apitei, se aplaudi, tal foi a descarga de adrenalina que tive depois de tanta tensão.

A conversão, encostada à linha, saiu irrepreensível.

Apitei para acabar, o director de equipa da Agronomia aproximou-se de mim, mostrando-me o seu relógio “Não deu tempo a mais?”

Olhei para o meu relógio e respondi – “Nove minutos. Nove minutos e trinta e seis segundos. Parabéns, não me lembro de um final assim”.

É que o árbitro no rugby não manda. Não há um tempo de desconto dado por qualquer motivo ou atraso. O jogo acaba à primeira paragem depois de terminado o tempo. E a primeira paragem, neste Sábado, foi nove minutos e trinta e seis segundos depois.

Dizem que o rugby é uma escola da vida. Deve ser verdade, porque este fim-de-semana aprendi muito sobre resiliência e orgulho com o CDUP, e também sobre respeito e ambição com a Agronomia.

Aos jogadores agradeço a lição, aos treinadores, agradeço a preparação que dão a estes craques.

Que dia! Que jogo! Que privilégio estar onde estive! E pensar que era um Sábado normal…

O Fair Play e as Crónicas do Sr. Ribeiro tentaram arranjar imagens ilustrativas do jogo descrito. Infelizmente não foi possível encontrá-las.

Foto: Luís Cabelo Fotografia


One comment

  • António Amorim Alves

    Novembro 28, 2017 at 7:21 pm

    que maravilha… este desporto é, definitivamente, fantástico!

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