Cromos de toque canarinho: Jairzinho, Adriano e Zé Roberto

Pedro PereiraJaneiro 8, 20196min0

Cromos de toque canarinho: Jairzinho, Adriano e Zé Roberto

Pedro PereiraJaneiro 8, 20196min0
O Futebol Brasileiro sempre produziu algumas das melhores estrelas do Desporto-Rei. A Caderneta dos Cromos relembra três com um toque canarinho inesquecível!

JAIRZINHO E A COPA DE 70′

Este cromo é especial. A sua enorme carreira como futebolista começou quando a sua família decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro, para a rua General Severiano, ao lado do Botafogo. Cresceu a ver jogar craques do Botafogo de 50 como Garrincha, Nilton Santos, Amarildo. E foi num avançado genial que se tornou.

Era praticamente impossível pará-lo, um touro indomável que só o golo o parava. Uma força da Natureza. Teve a dura missão de substituir um dos melhores jogadores de sempre do Brasil: Garrincha. E conseguiu.

Mais que isso, fez história no Mundial de 1970 ao ser o único jogador a vencer o Mundial e a marcar golo em todos os jogos dessa competição.  Mas para além de agradecemos pelo tanto que este craque ofereceu ao futebol, há que agradecer outra “coisinha”.

Jairzinho viu um craque com muito talento a jogar no São Cristóvão. Vendo que ele ali não teria muito por onde crescer, decidiu comprar o passe desse miúdo por 10 mil dólares. Com os direitos do jogador, decidiu levá-lo para o Cruzeiro, clube onde Jairzinho jogava. Esse jovem prodígio chamava-se Ronaldo, mais tarde “o Fenómeno”. O resto é história.

Foto: Old Panini

ADRIANO E O REGRESSO ÀS ORIGENS

Crescer na pobreza, na favela, ser resiliente e sobreviver a todas as injustiças sociais sem cair nas tentações criminosas, formar-se como jogador, chegar ao topo do futebol mundial e depois.. voltar à favela. Meio estranho para padrões sociais que tomam como lógico se tu sais dos locais da pobreza, não voltas para lá.

Mesmo com mais dinheiro que os seus vizinhos, Adriano fez questão de voltar para perto dos seus amigos (muitos deles envolvidos no mundo criminoso), fez questão de voltar para a sua favela, faz questão de soltar pipa (lançar o papagaio) com as crianças da favela, jogar futebol com elas.

No fundo apesar dos seus 36 anos, continua um menino grande, com um pé esquerdo canhão, que simplesmente não esqueceu como cresceu e que, na verdade, gostou muito daquele mundo mais ou menos atractivo para os empresários/dirigentes/jornalistas.

Ele quer ser feliz e escolheu as suas raízes para se plantar. Aquele 1,89m de barba rija esconde o menino carente que ama tanto os seus como a ele mesmo. Talvez por isso tenha voltado para a sua terra, à procura de conforto.

O pai morreu em 2004, numa altura em que Adriano tinha acabado de assinar pelo Inter, depois ter brilhado na Fiorentina e Parma. No Inter, Adriano lutou, brilhou mas conheceu o pior lado da riqueza, aquele que alicia para o álcool e para a luxuria quando a mente não está nos eixos. Zanetti contou que a pior derrota da sua vida foi não ter conseguido salvar Adriano do mundo da depressão.

Adriano esteva doente, sujeito aos efeitos colaterais que normalmente estão associados.  Voltou para o Brasil em 2009 já numa fase em que surgiam fotografias do brasileiro em festas e em má forma. Voltou ao clube do seu coração, o Flamengo, aquele que ele disse que jogaria por amor e não por dinheiro.

Numa época, em 32 jogos fez 19 golos sendo o melhor jogador da equipa e devolvendo à sua torcida o titulo de campeão do Brasil. Foi o canto do cisne deste génio do futebol mundial. Ainda tentou continuar a jogar ainda assinou seis contratos até 2016, mas não realizou mais de 20 jogos nesses anos todos.  O futebol já não tem nada para lhe oferecer. Que seja a vida e a favela a dar-lhe tudo o que ele procura.

Foto: Old Panini

ZÉ ROBERTO E A COPA RUBRO-VERDE

Aos 43 anos, Zé Roberto terminou a sua ligação com o Palmeiras e disse que ia parar de jogar. Mas há jogadores que têm a alma maior que o seu próprio futebol, e olhem que neste caso isso é tarefa difícil, considerando o seu talento monstro.

Zé Roberto começou a sua carreira na Portuguesa. Em 1994 estreou-se profissionalmente e em 1996 estava naquela lateral esquerda do clube brasileiro que chegou à final inédita do Campeonato brasileiro. Perdeu, mas o Zé chamou a atenção dos maiores clubes do mundo. Ano seguinte, rumou ao Real Madrid.

Fez carreira no Leverkusen no Bayern, Santos, Flamego e no HSV. Passou pelo Grêmio e pelo Palmeiras, onde foi campeão da copa e do campeonato brasileiro. Mas a sua história não podia terminar ali. Ele sabia que tinha que retribuir de alguma forma ao clube que acreditou nele, quando ele tinha 16 anos.

O Portuguesa SP está longe dos holofotes que viram o clube brilhar nos principais palcos brasileiros na década de 90. Hoje o clube está na segunda divisão do campeonato paulista e não participa campeonatos nacionais, fruto de gestões ruinosas.

O extremo com o olhar sensível dos grandes Homens entendeu que estava na hora certa de voltar a vestir a camisola da Fabulosa Lusa. Aos 43 anos, o craque brasileiro volta a casa para participar na Copa Rubro-Verde, torneio amigável que reúne os clubes de origem portuguesa: Portuguesa SP, Portuguesa Santista, Portuguesa RJ e Portuguesa Londrinense.

“Hoje foi uma volta ao tempo. Lembrar de onde saí até chegar a federado com 16 anos na Portuguesa. Meu primeiro contrato está no museu do clube até hoje. E isso para mim vale mais que um título, mais que fama, que dinheiro. Tudo o que está acontecendo traz à tona que a Portuguesa pode voltar a ser o que era antes. E isso me comove porqueiro que no futebol não existe só dinheiro. Existe paixão. E é isso que pode fazer a história mudar.”

A final da Copa Rubro Verde será realizada domingo às 18:30 locais. Estou a torcer pelo futebol e pela alegria do Zé Roberto. “AU AU AU Zé Roberto é animau!”

Foto: Old Panini

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