“Cromos” com sapiência asiática: Hidetoshi Nakata e Ahn Jung-Hwan

Pedro PereiraMaio 18, 20215min0

“Cromos” com sapiência asiática: Hidetoshi Nakata e Ahn Jung-Hwan

Pedro PereiraMaio 18, 20215min0
Um procurou a sua sorte em Itália, outro só se queria divertir no futebol, e ambos contam histórias de cultura. Descobre Nakata e Jung-Hwan neste artigo

Hidetoshi Nakata e Ahn Jung-Hwan são os convidados de honra desta nova página da Caderneta dos Cromos, como uma viagem até a paragens asiáticas, mais precisamente Japão e Coreia do Sul para redescobrir estes dois “cromos” de alto requinte e com histórias importantes sobre cultura e compreender o outro.

A PRESERVERANÇA DE AHN JUNG-HWAN

Chegou a Itália depois do rasto nipónico de Hidetoshi Nakata. Luciano Gaucci, presidente do Perugia acabara de vender o japonês para a Roma e enchia os cofres do seu clube. Fórmula interessante. Então vamos buscar outros jogadores asiáticos. Et Voila: Ahn Jung Hwan. Para além de bom jogador, Jung Hwan era uma popstar coreana. Um autêntico David Beckham oriental. Mas este jogador não se deu bem nesta cidade que é tem uma das maiores fábricas de cioccolato do mundo (seria Willy Wonka italiano?). Nunca se afirmou como um jogador titular e, pior de tudo, não se adaptou ao clube e ao balneário. Marco Materazzi, era seu colega de equipa. No balneário, gritava que Jung cheirava a alho e outras coisas que o próprio tradutor se envergonha de traduzir. A mulher de Jung confessou anos mais tarde que Jung deixou de comer as comidas coreanas com receio que fosse gozado por Marco no balneário. Um encanto, este Marco.

Mas a parte mais bizarra desta história acontece em 2002 quando Jung enfrenta a Itália no Mundial 2002. Num jogo muito polémico, Ahn faz o golo da vitória que elimina os italianos. Luciano Gaucci, polémico como sempre, puxa do nacionalismo bacoco: “O que espera que faça? Que mantenha um jogador que arruinou o futebol italiano? Ele tinha de ter mostrado o talento dele enquanto estava conosco. Ele terá de voltar a Coreia para ganhar 100 mil liras (à época, cerca de 50 dólares) por mês. Não vou estender o contrato dele, pois ele não merece. Quando ele chegou, parecia uma cabra, pequena e perdida, que não tinha dinheiro para comprar um sanduíche. Ele ficou rico e não fez nada de excepcional. E no Mundial, ofendeu o futebol italiano. Sou um nacionalista e esse tipo de comportamento não só é uma afronta para o orgulho italiano como uma ofensa ao país que lhe abriu as portas há dois anos”. Tudo errado. Tudo distópico. Mas Jung respondeu à letra:

“Ele me ofendeu dizendo, entre outras coisas, que eu não tinha dinheiro para comprar pão antes de assinar pelo clube. Agradeço a Itália, que me acolheu. Tenho orgulho de dizer que joguei a Serie A, mas não quero atuar novamente pelo Perugia.”.

NAKATA E O FUTEBOL É UM HOBBY…

Nakata é o exotismo de chutaria nos pés. Um cromo manga difícil de manter preso numa caixinha de banda desenhada. Técnicamente irrepreensível, fintava quem o desafiava no um para um com a audácia de um samurai. Cresceu num país de costas voltadas para o futebol e, por isso, sem ídolos, sem cromos de referência. Focou-se na única referência futebolística que o mainstream lhe oferecia: Oliver & Tsubasa. Foi isso que o alimentou durante anos até chegar à Europa, ao Perugia. De lá, saltou para a Roma. Lá, foi campeão italiano, o último scudetto do clube.

Na sombra de Totti, vai para Parma e mais tarde para a Fiorentina, com passagem pelo Bolonha. Terminou a carreira prematuramente em Inglaterra, nos Bolton, aos 29 anos. O nipónico que sempre procurou jogar por prazer, deu por si num emaranhado em negociatas ao longo das últimas épocas. Decidiu terminar. “O futebol sempre foi um hobby para mim. senti que a equipa estava a jogar apenas por dinheiro, não pelo gosto de se divertir. Eu sempre senti que a equipa era como uma grande família, mas já não era mais assim.” Quando terminou a carreira viajou por mais de 100 países. “Quando eu era jogador, viajei muito, mas só vi hotéis, estádios, aeroportos. Queria ir sozinho para descobrir os países e as pessoas que me fascinam. Quero ver o mundo com meus olhos, não pela TV ou pelos jornais. As pessoas têm medo dos lugares que fui, porque não sabem que, além da guerra, existem povos estupendos. Se viajassem mais, existiriam menos idiotas preconceituosos.”.

Nestas viagens, perguntavam-lhe muito sobre a sua carreira e também pela cultura japonesa. Nakata sentiu que não possuía respostas sobre a sua própria cultura. Embarcou noutra aventura e foi conhecer os 47 prefeituras japonesas. Depois desta viagem, decidiu fundar uma empresa facilitadora de negócios para os produtores de sake das várias regiões japonesas. Mas o futebol, esse, continua um hobby.

“Por todos os lugares por onde passei, joguei futebol. Sinto a mesma paixão de quando tinha 10 anos. Para mim, é tão agradável jogar descalço na rua quanto em um estádio. E, depois, jogar uma pelada é a melhor maneira de se fazer amigos, descobrir o mundo real.”


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