O Baú de “Mister’s”: Fatih Terim e a ambição “otomana” europeia!

Francisco IsaacDezembro 30, 201713min0

O Baú de “Mister’s”: Fatih Terim e a ambição “otomana” europeia!

Francisco IsaacDezembro 30, 201713min0
O Fair Play visita alguns treinadores que estiveram em voga no seu tempo e começamos por Fatih Terim, o líder do melhor Galatasaray da História

O Fair Play lança a sua rubrica para falar única e exclusivamente de treinadores, do seu impacto em um (ou mais) Clube(s), país(es) e na própria mentalidade do futebol. O primeiro? Fatih Terim, aquele que é chamado do Imperador, pelo carácter “totalitário” com que dominava as suas equipas e pela sua ânsia de conquistas. Mas quem é Fatih Terim? Fez assim tanta coisa ao ponto que perdemos tempo a falar do mesmo?

Começamos então com uma das melhores declarações do treinador turco,

“As estatísticas são como as mini-saias… não revelam tudo!”

Não sendo a frase mais elegante da história do Imperador é sem dúvida uma das melhores, demonstrando que Terim tinha e tem uma forma de estar diferente, positiva e bem disposta. Terim foi um jogador reconhecido na Turquia, com mais de 300 jogos nas pernas pelo Galatasaray durante os anos 70-80. Actuava no centro da defesa, ocupando os espaços e apresentando sempre uma “agressivamente” mesclada com elegância, como contam os almanaques da época.

A forma como se impunha no eixo defensivo talvez é a razão pelo qual foi e é conhecido como Imparator, ou seja, Imperador. O turco era um líder dentro de campo, com uma ferocidade total e que o elevou ao “Olimpo” de Lenda do Gala. Infelizmente o tempo apanha-nos a todos e Terim a certa altura foi forçado a dizer não um “adeus”, mas um “até já” aos relvados.

Relembrado por muitos como um dos jogadores mais inteligentes e técnicos dos anos 70 da Turquia, o seu conhecimento do jogo, a forma de estar positiva e animada e a vontade de vencer, empurraram-no na direcção do banco de suplentes, assumindo o lugar de treinador.

O IMPÉRIO DE TERIM COMEÇOU COM A JUVENTUDE TURCA…

A história de Terim com o cargo de “Mister” começa em 1987, quando aceitou o desafio de treinar o Ankaragücü, um clube que tinha baseado o seu revivalismo numa decisão política e não desportiva. Recuando só uns anos para trás (e afastando-nos de Terim por momentos) o clube da capital da Turquia (Ankara), foi colocado na 1. Liga (até então a principal divisão de futebol no país) por decisão do presidente turco da altura, Kenan Evren.

Baseado na equipa da capital, Terim teve uma estreia “normal” e calma, terminando no 10º lugar, num campeonato conquistado pela sua maior paixão de sempre, o Galatasaray. Aguentou-se durante duas temporadas ao serviço do clube da capital e depois decidiu abraçar novos projectos, deixando o Ankaragücü num “belo” 6º lugar (histórico) na 1.Lig.

Seguiram-se 10 meses no Göztepe (equipa onde joga actuamente o português André Castro) que militava na 2ª divisão (TFF League) da Turquia. Terim trabalhou bastante para elevar a equipa de Güzelyalı a subir de divisão, porém terminariam em 2º no Grupo B de promoção à Super Lig. Não um total fracasso, mas Terim não podia dar-se por satisfeito, já que era um dos nomes mais badalados em terras “otomanas”.

Depois da curta passagem pelo Göztepe, começou a lenda de Terim no banco a ser construída… convidado para assumir a selecção de sub-21 a partir de 1990, Terim lançou as bases daquilo que viria a ser uma das melhores gerações do futebol turco onde despontavam Hakan Sukur, Arif Erdem, Sergen Yalçın (um dos melhores dessa geração de 93′), Bülent Uygun ou Alpay Özalan (chegou a ser “estrela” no Aston Villa).

Terim inspirou estes jogadores e mais uma série deles, munindo-os de alguns complementos que lhes faltavam, seja o conhecimento táctico, como fazer pressão intensa ou assumir o risco do jogo. Essa correlação de uma geração “diferente” e um treinador ambicioso e leal, levaram à Turquia atingir um dos títulos mais importantes da sua história (em termos de formação): Campeões dos Jogos do Mediterrâneo em 1993.

Nessa competição, a Turquia jogou contra a França, Itália ou Croácia todas munidas de jogadores talentosos e que podiam decidir jogos a qualquer momento… seja na baliza (Toldo), no centro da defesa (Lillian Thuram ou Stefano Torrisi), no centro do terreno (Di Bagio ou Zinedine Zidane) ou no ataque (Marco Delvecchio ou Christian Vieri), as grandes equipas estavam apetrechadas com grandes jogadores.

Bem, no final de contas nem Zidane, Buffon, Thuram ou outro qualquer fizeram a diferença, pois os “meninos” turcos de Terim arrebataram o torneio e conquistaram a medalha de ouro. A partir daqui as portas da selecção principal foram abertas com uma agressividade total que o Imperador pôde fazer a revolução que lhe apetecia. Chega em 1993, após mais um fracasso de apuramento para um campeonato da Europa e Mundial.

Para o CE de 1992, terminaram em último lugar no grupo com 0 pontos, só com um golo marcado e 14 sofridos), na fase de apuramento, algo muito longe do que estamos habituados nos últimos anos. Para o Mundial de 94′, ficariam em penúltimo só à frente do São Marino, com 7 pontos de um total de 20 (as vitórias e empates valiam 2 e 1 ponto respectivamente). Olhando para este prisma, a Turquia assumia-se sempre como uma das piores na fase de qualificação.

UM NOVO PODER ERGUE-SE DO ORIENTE

Com Terim a situação mudou… com os olhos postos sempre no “impossível“, o Imperador formatou a selecção, alterou a forma de jogar e pôs em prática o seu plano de atingir outros patamares. Na fase de apuramento para o Euro 1996, a Turquia terminaria em 2º lugar atrás da Suíça, com o super Hakan Sukur a desferir seis remates certeiros, rumo ao europeu realizado em terras inglesas.

O mote estava dado, a Turquia agora sim tinha uma equipa (com letras maiúsculas) com um futebol de poderio, “agressivo”, dominador, “totalitário”, onde a intensidade defensiva só era superada pela eficiência mordaz da sua frente de ataque. A Turquia deixou de ser um “patinho” feio, facilmente derrotado (e goleado) para atingir outra maturidade e capacidade.

O Euro 96′ não foi de todo positivo, já que Terim não conseguiria mais que um último lugar na fase-de-grupos, sem qualquer golo marcado… nesse grupo constava Portugal, Dinamarca e Croácia. Mas o mote estava dado, afinal o futebol turco poderia fazer algo mais do que até então conseguiu fazer. O fim de ligação com a federação turca chegou em 1996 quando a sua maior “paixão” chamou por si: era altura de voltar a banhar-se na loucura do Galatasaray.

Recorde os jogadores turcos de então

Esta seria a primeira de quatro ligações com os Aslanlar (significa os Leões), e talvez a mais bem sucedida pois ira fazer algo que ninguém nunca antes fez, mas já vamos lá.

O Galatasaray estava francamente “mal”, afastado da luta pelo título há duas edições da Super Lig, superado pelo Besiktas e o rival de sempre, Fenerbahçe, que estava a aproveitar para arrebatar o poderio do futebol turco mais uma vez. Perante este cenário, o Galatasaray foi recuperar Hakan Sukur, contratou o “Maradona dos Cárpatos” Hagi, Umit Davala, Iulian Filipescu e Adrin Ilie, todos futebolistas que podiam dar outra magnitude ao futebol do Gala.

A verdade é que logo em 1996-1997, a equipa de Istambul voltou a recuperar o título, terminando em 1º com 82 pontos, à frente dos rivais do Besiktas e Fenerbahçe… Hakan Sukur terminou com 38 golos marcados, Hagi com 20 e poucas assistências (mais 14 golos…coisa pouca para um jogador com 31 anos) e o Gala com 90 golos marcados no total. O primeiro passo estava dado.

EXIBIÇÕES DE GALA AO SOM DE MESTRIA DE TERIM

Entre 1996 e 2000, o Galatasaray conquistou todos os campeonatos nacionais, completou duas dobradinhas (96 e 97), com um futebol prático, rápido, dominador e autoritário, ao bom jeito do Imperador. O Gala era uma equipa temível, com um goleador total na frente, com um “mago” romeno nas alas, com uma super defesa e uma visão de jogo completamente alternativa para o que as lides turcas estavam acostumadas.

A dupla Fatih Terim e Faruk Süren (presidente entre 1996 e 2000) despoletou uma reacção em cadeia, construindo ambos o melhor Galatasaray da História do futebol turco, algo que viria a ser confirmado em Maio de 2000.

Na época de 1999-2000, o Galatasaray tinha nas suas fileiras alguns nomes conhecidos, lendas e jovens que esperavam a todo o momento para explodir e se afirmar no contexto europeu e mundial. De quem falamos? Lendas tínhamos Hagi, Taffarel (enorme o guarda-redes brasileiro durante o seu “mandato” com Terim) ou Popescu (soberbo no centro da defesa); nomes conhecidos como Capone ou Hakan Ünsal; e jovens como Emre Belözoğlu, Hasan Şaş ou Ahmet Yıldırım.

O Galatasaray acabou em 3º na fase-de-grupos da Liga dos Campeões (atrás do Chelsea e, vá-se lá imaginar, Hertha de Berlim), passando para a segunda competição mais importante da UEFA. Uma nota… na Champions, lutaram com o AC Milan por essa vaga da Taça UEFA, dando cabo dos milaneses em casa num jogo que terminou num 3-2… inesquecível aqueles minutos finais, no qual Davala marcou o penalti da vitória.

Na fase a eliminar da prova, o Galatasaray nunca perdeu um jogo, ganhando em casa do Dortmund, derrotando os “desconhecidos” do Bolonha e Maiorca e  o soberbo Leeds, que uns anos a seguir iria dar um tombo total. Contra a equipa inglesa nas meias-finais houve um incidente que ainda hoje mancha a reputação do futebol europeu… uma querela entre adeptos de ambos os lados em plena Istambul que levou à morte de dois adeptos ingleses… reacção a esta situação, os adeptos do Gala foram impedidos de viajar até Inglaterra.

Terim sendo o senhor que sempre foi, falou sobre o assunto pré 2ª mão, depois da UEFA ter concordado em não realizarem qualquer acção de lamento dos adeptos que pereceram na Turquia,

“Peço desculpas pelo que aconteceu. Preferia ter perdido o jogo do que aqueles dois adeptos terem perdido a vida.”

A UEFA decidiu não permitir a viagem de qualquer adepto até Elland Road, de forma a limitar possíveis retaliações. Num estádio desprovido de adeptos seus, Fatih Terim fez de “coro” para os adeptos, apresentando-se altamente emotivo mas racional, totalmente ambicioso mas cauteloso na forma como a equipa se entregava ao jogo.

O Galatasaray nunca perdeu o “fio à meada” e com aquele futebol “autoritário” próprio do Imparator Terim, carimbaram a passagem à final que seria frente ao Arsenal de Wenger.

Numa das finais mais “pobres” da Taça UEFA (em termos de golos), a formação turca aguentou o poderio ofensivo dos londrinos, impedindo Henry, Bergkamp ou Suker de marcar qualquer golo… Taffarel estava intransponível.

A Batalha de Copenhaga foi bem jogada dentro de campo e, francamente, mal jogada fora, já que se desenrolaram richas entre os adeptos de ambas as equipas… o episódio da morte dos adeptos do Leeds ainda estava bem presente, o que levou a um escalar de agressões em plena Copenhaga, local da realização do jogo. Mas falando do jogo, Terim colocou a sua equipa num frenesim total, sem entregar a posse de bola por completo ao Arsenal que estava “desesperado” por conseguir marcar golos.

O tempo passava, o Arsenal tentava e por pouco Sukur marcava para o Gala. Nada aconteceu e então chegaram os penaltis. Nesse momento o Galatasaray agigantou-se e conseguiu meter a bola na “gaveta” por quatro vezes… o Arsenal, para variar, acertou por duas vezes nos ferros, oferecendo, deste modo, a competição aos turcos.

Nunca antes uma equipa turca tinha chegado a uma final, era insólito o que Terim tinha acabado de fazer… a loucura apoderou-se das bancadas dos adeptos do clube que usa tons de dourado e vermelho, explodindo de alegria. Se em 1993 tinha dado um título improvável à Turquia (sub-21), se em 1996 colocou-os num Campeonato da Europa, agora tinha metido o Galatasaray nas bocas do futebol europeu.

A “magia” de Terim ficou para sempre nos melhores pergaminhos da História do Futebol da Turquia, elevando gerações a outro tipo de futebol que permitiu ao país assumir-se como uma equipa quase impossível de ser derrotada em casa. Irascíveis, intoleráveis, “agressivos” e rápidos, os jogadores “idealizados” por Fatih Terim iriam começar a difundir-se por toda a Europa.

O QUE FICA PARA A HISTÓRIA DE FATIH TERIM?

O treinador turco terminou a sua 1ª passagem pelo Gala com 70% de vitórias, sendo que em toda a carreira como treinador conquistou 385 vitórias em 695 jogos. A seguir ao Galatasaray, seguiram-se estadias curtas na Fiorentina, Milan sem nunca atingir o sucesso dos tempos do Galatasaray.

Apesar do insucesso fora de portas, Terim conseguiu sempre pôr a Turquia nas bocas do Mundo, com as meias-finais no Euro 2008 que ainda hoje mora na memória dos adeptos. A Turquia chegou a esse jogo com menos 5 jogadores na ficha-de-jogo, todos lesionados e suspensos, algo que ia forçando Tolga Zengin a ser pensado como avançado, quando era guarda-redes.

Com menos 5 titulares (Nihat, Emre ou Gungor eram jogadores indispensáveis à equipa), a Turquia aguentou o que pôde, realizando um jogo de coragem, raça e de contra-ataque letal… não fosse o sempre magistral Phillipe Lahm com aquele golo aos 90′ e Terim tinha tido boas possibilidades de ir à final do Euro.

Os últimos anos Terim teve em mãos a crise de identidade da selecção turca, já que desde 2002 não atingem um Mundial… valeu o Euro 2016, que se apuraram mas terminaram em último na fase-de-grupos. O Imperador decidiu pôr fim à sua 3ª ligação à federação turca (96-2000; 2005-2009; e 2013-2017), assumindo o Galatasaray pela 4ª vez na sua carreira. O sonho está em repor o título de volta ao gigante de Istambul, que para já está em 2º lugar.

Com 64 anos, Terim ainda tem alguns anos para dar ao futebol turco, tendo impulsionado o futebol do seu país de uma forma sem igual… lançou Sukur, Sas, Emre, Davala, refez um clube que estava a caminhar por estradas sinuosas e deu a possibilidade aos adeptos “otomanos” de sonharem com algo mais. Terim com o seu futebol “agressivo”, de pressão alta, de domínio ditatorial, de liderança exemplar e de contra-ataque mordaz deixou uma “pegada” profunda no futebol mundial.

As palavras de Terim ao intervalo da Taça UEFA 2000


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