Ondas grandes e escritor, o João Meneses abre o livro.

Palex FerreiraMaio 12, 20217min0

Ondas grandes e escritor, o João Meneses abre o livro.

Palex FerreiraMaio 12, 20217min0
João Meneses, conhecido também como "Flecha", é o convidado de Palex Ferreira nesta entrevista que podes ler na íntegra aqui no Fair Play

Sabes quem é João Meneses? Fica a conhecer um ícone/lenda/surfista/apaixonado pelo mar do espectro nacional, nesta entrevista que fala do passado, presente e futuro, dos momentos e episódios mais especiais, das aventuras e viagens realizadas!

Quem é o João “Flecha” Meneses?

JM. 44 anos, 30 como surfista. Comecei este caminho nas ondas de S. João da Caparica, a praia da minha adolescência e juventude. Foi por ali que evolui enquanto surfista. Foi também ali que fiz amizades para a vida. Guardo tantas e tão boas memórias. Os Invernos com aquela imensidão de areia sem ninguém, balizada pelos pontões da praia do Norte e da Cova do Vapor. No verão enchia-se de gente e eu passava literalmente os dias inteiros na praia, a surfar ou como nadador-salvador, sempre com livros cheios de areia. Estava na universidade e os meus verões eram assim, livres mas com responsabilidade de salvar vidas. Após os exames começava a trabalhar de sol a sol com aquele uniforme encarnadinho e branco, cheio de armas de salvamento, como a bóia torpedo (risos).

Mas a prancha era a minha opção de salvamento não oficial. Salvei muita gente e até tenho uma história engraçada. Uma vez estava numa loja em Lisboa e uma senhora dirigiu-se a mim e disse-me que me conhecia mas não sabia de onde. Olhava-me de perto e dizia “eu conheço esse olhar”. Chegámos à conclusão que tinha sido salva por mim na praia de São João da a Caparica. Esse encontro após tantos anos, foi um momento bonito.
Lembro-me também de falar de livros de Jorge Amado com a actriz Cármen Dolores. Eu ali de calções e de livro na mão, a falar com a diva do teatro. Lembro-me dela de chapéu de palha a passear junto ao mar. Há mulheres que têm uma elegância natural.

Com 22 ou 23 anos e já apaixonado pelas ondas da Ericeira, decidi passar um verão inteiro por aqui. Arranjei emprego na praia de S. Julião, também como nadador-salvador. O Alexandre Grilo era o meu colega e os putos da praia estavam a dar os primeiros passos no surf. Aquele posto de praia era uma alegria, eram os metros quadrados mais animados do areal, com surfistas experientes, aprendizes, banhistas, miúdas, parava lá tudo. Eu e o Grilo fazíamos uma boa dupla e surfávamos todos os dias. Íamos à vez. O que estava a surfar tinha sempre que estar atento ao que se passava para lá da linha de rebentação e o outro ficava por ali à beirinha de água de apito na boca. Foi um verão memorável.

Ondas preferidas

Eu gosto de todo o tipo de ondas. Há pessoas que me associam sempre com ondas grandes, mas acho que é exagerado. O que eu gosto é de me desafiar! De nadar, de remar, de sair a rebolar pelos quebra cocos. Gosto de dropar umas ondas boas e de apanhar bons tubos. Gosto de me aventurar mas também tenho medo. Respeito o mar e preparo-me para os desafios. O António Silva (big rider) uma vez disse-me uma frase que não esqueço, “ o mar faz de ti o que ele quiser.”

Não há nada como passares uma noite mergulhado em ansiedade e depois a surfada corre-te bem e sentes-te no céu. É uma grande aprendizagem. O surf é lúdico mas se aproveitarmos o lado do desafio, levamos as maiores lições de humildade e conseguimos extrapolar essas aprendizagens para a vida em sociedade. Se estiveres sempre na tua zona de conforto não vais evoluir em nada.

Gosto de surfar sem crowd. Prefiro surfar meio metro sozinho ou com amigos do que 2 metros perfeito e cheio de gente. O surf para mim não é terapêutico se houver um mau ambiente dentro de água. Aqui no continente as minhas ondas preferidas são na zona da Ericeira. Nas ilhas tenho uma relação muito especial com aquele cantinho do Jardim do Mar, na Madeira. Quero ver se volto lá com mais regularidade. Comecei a ir por volta dos 20 anos e tenho lá bons amigos. Gostava de ter uma casinha por lá para passar umas belas temporadas. Surfar e caminhar. Mas por agora vivo na Ericeira e sou muito feliz aqui.

Falta-me fazer tantas viagens. Mas talvez viagens sem serem de surf. Hoje em dia é difícil chegar a sítios sem encontrares mil pessoas na água. Gostava de ir a Jbay, a Nias, gostava de surfar tantas ondas, mas já têm muita gente. Ando com a Libéria e a Serra Leoa debaixo de olho. E também queria visitar o Bizuca que está em Angola e voltar a Cabo verde para surfar outras ondas. Bem, estava aqui o dia todo a dizer-te onde queria ir. E onde queria voltar.
Já tive uma boa dose de viagens para longe de Portugal. Ainda bem que as fiz! Que boas memórias. Mas sabes que às vezes as melhores estão mesmo aqui ao lado. Há uns anos fiz sozinho o Caminho desde o Porto até Santiago de Compostela. Foi uma das viagens da minha vida e acabei por conhecer pessoas fantásticas. Mais uns aninhos e vou fazer o Caminho desde França.

Onde arranjas inspiração para os teus artigos

JM. A minha maior inspiração vem do mar e das pessoas honestas. Em tempos só conseguia escrever quando viajava. Já ultrapassei esse bloqueio. Saía-me muito caro cada texto (risos). Eu juro que tentei ser um escritor boémio, embriagado pelas ruas de Lisboa, mas gosto de me deitar cedo e de aproveitar o dia dentro de água. Não preciso do cigarro nem do vinho para criar. Mas um bom tinto dá sempre umas boas ideias. (risos)

Como achas que o surf evolui desde os anos 80 até hoje?

JM. Já fui mais crítico do que sou hoje. O surf massificou-se e há pessoas que não sentem vontade de ir ao mar mas vão porque é giro, porque é moda, porque hoje é fácil aprender. Mas se forem para dentro de água e passarem um bom momento, óptimo. A vida é melhor com bons momentos!

Hoje em dia há miúdos que já pensam numa carreira como freesurfers. Isso é brutal. Começa a haver espaço para esse trilho. Por outro lado, a competição será sempre muito importante para a evolução do desporto.
É claro que gostava que o surf voltasse um bocadinho às raízes, que houvesse mais irreverência. Acho que já estivemos mais longe desse passado. Acredito que nos próximos anos o surf caminhe mais para o core do que para os jogos olímpicos.
Jogos Olímpicos

Não adoro a ideia. E não me venham chamar purista. Consigo encontrar argumentos só pela parte técnica. Os jogos olímpicos não vão medalhar o melhor surfista do mundo. Para definirmos o melhor surfista do mundo temos que avaliar a sua experiência e a sua técnica em diferentes ondas.

Consigo perceber que para um surfista profissional ir aos jogos olímpicos é um sonho como atleta. Tenho um primo que foi nadador olímpico, o Ricardo Pedroso. Sei a importância que teve para ele enquanto atleta. Foi um marco. É o topo das competições. Mas uma piscina olímpica é a mesma aqui ou no Japão. As ondas são outro assunto…

História do surf

JM. Acho que qualquer surfista devia mergulhar um pouco na nossa história. Não precisa de andar a decorar nomes dos Reis das 4 dinastias ou de todos os surfista havaianos, mas se mostrar algum interesse acredito que isso até se reflicta no seu nível de surf. Conhece as ondas, os surfistas tuberiders, de ondas grandes e pequenas. Aprende-se imenso a ver surf dos anos 70 e 80. A base está toda lá. Bottoms, cutbacks e encaixes para os tubos. Se um bom surfista dos anos 70 viajasse num túnel do tempo e aterrasse nas nossas praias ia continuar a ser um bom surfista em 2021.

Uma bela bomba de Flecha (Foto: José Leal)

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