23 Out, 2017

[Aqua Moments] A primeira abaixo do minuto

João BastosSetembro 24, 20173min0

[Aqua Moments] A primeira abaixo do minuto

João BastosSetembro 24, 20173min0
Revisitamos a história de uma das maiores nadadoras de sempre. Dawn Fraser foi a primeira nadadora a nadar 100 metros abaixo de 1 minuto

O Fair Play continua a sua série de artigos que recordarão momentos históricos (uns mais do que outros) da natação. O Aqua Moments olhará para o retrovisor e reviverá marcos incontornáveis da história da modalidade


A 19 de Julho de 1922 aconteceu um acto simbólico na natação. Pela primeira vez um ser humano conseguia nadar uma prova de 100 metros abaixo de 1 minuto. Foi o tarzan Johnny Weissmuller que teve o privilégio de ficar para sempre associado à natação (também) com este feito.

Nessa ocasião, o americano nadou em 58.6, batendo o record do mundo do seu compatriota (e bi-campeão olímpico dos 100 livres) Duke Kahanamoku que estava fixado em 1:00.4.

Por esta altura, as mulheres estavam, obviamente, muito longe de superar a fasquia do minuto, mas quando isso aconteceu, aconteceu com estrondo.

Passaram-se 42 anos e, em 1964, a veterana australiana Dawn Fraser ia tentar conquistar o seu terceiro ouro olímpico consecutivo nos 100 livres, em Tóquio. Antes disso, Fraser tinha de cumprir a formalidade de se apurar para os Jogos Olímpicos, o que, na altura, não era algo de extrema facilidade nem para ela que, para além dos títulos olímpicos, ia numa sequência de 8 recordes do mundo consecutivos aos 100 livres, já que a Austrália tinha um excelente naipe de especialistas nos 100 metros livres.

Na realidade, quando Fraser chegou ao apuramento olímpico, disputado em Sydney, já tinha nadado os 100 livres abaixo do minuto…por duas vezes, mas tinha sido numa piscina de jardas (110 jardas).

E a grande australiana não fez por menos: 58.9 foi o tempo que Fraser fez no dia 29 de Fevereiro de 1964 para se apurar para os seus terceiros Jogos Olímpicos aos 27 anos.

Para além da história desportiva, a história de vida de Fraser foi notícia pouco antes dos Jogos de 1964. A nadadora lesionou-se com gravidade num acidente rodoviário que vitimou a sua mãe. Dawn esteve muito próxima de não competir no Japão, quer pela lesão, quer pelo trauma mas recuperou a tempo de se sagrar tri-campeã olímpica dos 100 livres e dedicar o título aos seus pais (o pai morreu em 1960 vítima de cancro), que viram a sua filha nadar pela primeira vez em 1958, quando Fraser bateu pela 5ª vez o record do mundo dos 100 livres.

Na final olímpica, a australiana voltou a nadar abaixo do minuto, mas não melhorou o seu record mundial. De resto, Dawn Fraser nunca mais melhorou os 58.9, mas a final de Tóquio viu pela primeira vez duas mulheres a nadarem abaixo dos 60 segundos. Dawn Fraser venceu com 59.5 e a americana Sharon Stouder levou a prata com 59.9.

A carreira de Fraser praticamente terminou nesses Jogos Olímpicos quando foi acusada de ter roubado uma bandeira ao imperador do Japão e, no seguimento dessa acusação, a Federação Australiana suspendeu a nadadora por 10 anos. Ao fim de 4 anos, em 1968, provou-se a inocência da australiana e ofereceram-lhe a bandeira como recordação. Com 31 anos, Dawn ainda tentou alcançar os seus quartos Jogos Olímpicos mas já sem sucesso.

A vida pessoal de Fraser foi pontuada de desgosto. Para além dos seus pais, também um dos seus 7 irmãos morreu prematuramente, vítima de leucemia em 1950, mas a vida desportiva da australiana foi pontuada de êxito. Coincidiu com a primeira grande geração de nadadores australianos, que viriam a afirmar o país dos cangurus como uma das principais potências da natação mundial, mas passados todos estes anos, Dawn Fraser continua a ser a grande referência da natação australiana, tendo atingido um patamar que nem Ian Thorpe conseguiu atingir.

Veja o vídeo da prova dos 100 metros livres femininos nos Jogos Olímpicos de Tóquio 1964:


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter