20 Set, 2017

O Presente e o Futuro do Andebol Nacional

Tomé BritoAgosto 14, 20178min0

O Presente e o Futuro do Andebol Nacional

Tomé BritoAgosto 14, 20178min0
O que falta a Portugal para ser uma selecção de topo no Andebol? Neste artigo tentamos explicar alguns aspectos que Portugal tem que melhorar para lá chegar

Qualidade individual? Trabalho desde a formação? Mais investimento? Melhores infra-estruturas? O que falta a Portugal para ser uma selecção de topo no Andebol? Neste artigo tentamos explicar alguns dos aspectos que Portugal tem que melhorar para chegar à elite do Andebol.

HISTORIAL

Já lá vão 11 anos desde a última participação de Portugal numa grande competição internacional de Andebol (Euro 2006) sendo que o melhor resultado conseguido em Europeus foi um 7º lugar no Euro 2000 na Croácia, e em Mundiais foi um 12º em 2003 curiosamente cá em Portugal. Em 1994 Portugal também já teve o privilégio de organizar um Europeu onde terminou em 12º lugar.

Mais recentemente, sob o comando de Rolando Freitas, Portugal esteve bastante próximo de conseguir a qualificação para o Mundial de 2017, perdendo apenas no Play-off contra a Islândia. Já em 2017, com Paulo Pereira ao comando, no grupo de qualificação para o Euro 2018 onde estavam incluídas as seleções da Alemanha (campeã europeia em título), Eslovénia (3º lugar no Mundial 2017) e Suíça, Portugal acabou em 3º lugar do grupo em igualdade pontual com a Eslovénia, acabando por não conseguir regressar a uma grande competição.

Portugal depois da qualificação para o Playoff em 2016 (Foto: Bom Dia Europa)

EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL

Um dos grandes fatores que distingue Portugal do resto da elite Europeia é a experiência dos jogadores Portugueses em competições de clubes. Nos últimos amos isto tem vindo a alterar-se com várias equipas Portuguesas a conseguirem qualificar-se para a fase de grupos da Champions League e chegando mesmo a vencer a Challenge Cup e a conseguir bons resultados nesta competição.

Nos últimos anos tem-se assistido a um “êxodo” do jogador Português, sendo normal ver-se vários jogadores a saírem para melhores campeonatos (Polónia, França, Espanha e Alemanha) e a conseguir singrar nas respetivas equipas. Isto tem levado a um ganho de experiência de vários jogadores cruciais na nossa seleção. Ao jogarem contra e com alguns dos melhores jogadores do Mundo e ao serem treinados por treinadores com mais conhecimento do jogo é esperado que os jogadores desenvolvam a sua capacidade individual bem como coletiva, para além tiram-se ilações sobre as fintas mais naturais, para onde rematam e os pontos fracos de alguns jogadores que podem ser adversários em jogos de seleções.

Gilberto Duarte – 5 – ao serviço dos Polacos do Wisla (Foto: O Jogo)

COMANDO DA EQUIPA

Se com Mats Olssen os resultados estiveram aquém da expetativas, com Rolando Freitas estes melhoraram um pouco, contudo a qualidade de jogo era abaixo do esperado, com a equipa a demonstrar pouca agressividade defensiva, saindo pouco ao portador da bola e no ataque dependia muito do que Gilberto Duarte e João Ferraz conseguiam produzir. O agora treinador do Águas Santas foi por vezes duramente criticado pela suas escolhas nas convocatórias (deixou vários jogadores que estavam em boa forma de fora e raramente promoveu a entrada de novos jogadores à Seleção) o que levou a que em 2016 fosse “trocado” por Paulo Jorge Pereira como selecionador nacional.

A chegada de Paulo Pereira ao comando da equipa foi uma lufada de ar fresco para o andebol nacional visto que não só a qualidade de jogo aumentou, como o ex-treinador da Tunísia (femininos) promoveu vários jogadores juniores com qualidade para jogarem na seleção A (Gustavo Capdeville ou André Gomes) bem como também promoveu o regresso de vários jogadores e trouxe para a seleção novas caras (Pedro Seabra Marques ou Daymaro Salina). Convocatórias acertadas, caras novas, melhor qualidade de jogo e mais importante, resultados, foi isto que Paulo Pereira conseguiu trazer para a seleção nacional no seu primeiro ano ao comando de Portugal.

Paulo Pereira (esq.), Ulisses Pereira – femininos (centro) e Rolando Freitas (dir.)

FORMAÇÃO

Ao nível da formação os resultados de Portugal não têm diferenciado muito ora a conseguirem bons resultados, ora a conseguirem outros menos bons. Contudo a nova geração de jogadores juniores (sub-19) parece poder trazer um futuro risonho a Portugal, como é demonstrado com os resultados que têm tido no Mundial de Sub-19 que está agora a decorrer na Geórgia e onde Portugal já garantiu o apuramento para os oitavos de final, tendo terminado em 1º lugar do seu grupo.

Uma das grandes diferenças que se evidencia no escalão de seniores envolve o aspeto físico dos jogadores, com as outras seleções a demonstrem ser na maioria das vezes superiores a Portugal neste aspeto. O trabalho de ginásio é um trabalho que deve ser feito a partir do escalão de Juvenis mas que em grande parte dos clubes portuguesas não acontece por diferentes razões, podendo estas ser financeiras (muitos clubes não têm um ginásio disponível para os atletas) ou simplesmente por não fazer parte dos projectos dos clubes investirem neste trabalho para os seus atletas. Isto faz com que mais de 90% do trabalho físico que muitos atletas fazem seja apenas na pré-época.

Apesar de perder no aspeto físico contra muitas outras seleções, Portugal ganha noutros aspectos que são mais trabalhados na formação. É bastante usual os jogadores Portugueses sejam mais rápidos e mais evoluídos tecnicamente do que os atletas de outras seleções. Caso os clubes consigam chegar a um equilíbrio entre o trabalho físico e o trabalho técnico-táctico é possível que os resultados internacionais possam melhor ainda mais e no futuro poderemos ter uma seleção ainda mais competitiva. Para tal é necessário haver um maior investimento de várias instituições de forma a tentar ajudar os clubes a terem as melhores condições para os atletas poderem evoluir.

Seleção de sub-19 presente no Mundial da Geórgia (Foto: Banhadas Andebol)

ANDEBOL

Como foi dito acima Paulo Pereira mexeu muito com o andebol de Portugal essencialmente para melhor. No ataque a selecção nacional mostra-se muito mais organizada e já não demonstra depender muito do que Gilberto ou Ferraz conseguem fazer. Neste momento as opções atacantes são mais com Portugal a poder substituir a maioria dos jogadores sem a qualidade de jogo diminuir. Neste momento temos um leque de jogadores bastante diferentes para todas as posições e que conseguem trazer cada um algo de diferente ao jogo de Portugal.

Por exemplo, na posição de central Pedro Seabra e Miguel Martins (as opções mais utilizadas na posição) são dois jogadores com estilo de jogo diferentes, com o primeiro a ser mais um organizador de jogo conseguindo trazer o melhor dos seus jogadores mas sem nunca deixar de atacar a baliza e de ir no um contra um e fazer uso do seu forte remate apoiado. Já Miguel Martins é um jogador mais evoluído tecnicamente, que aposta mais no um contra um e que joga bastante bem com o pivot, conseguindo abrir espaços na defesa para entradas em cunha dos laterais.

É na defesa que se encontram as grandes lacunas do andebol nacional. Nos últimos anos Portugal nunca foi uma seleção forte no aspeto defensivo do jogo e isso tem continuado ainda atualmente. A chegada de Paulo Pereira veio a ajudar um pouco neste aspeto, com o novo selecionador a apostar em “novos” sistemas defensivos, mais abertos e mais saídos que conseguem causar em grande parte das vezes erros não forçados nos ataques adversários. Contudo, para este tipo de sistemas funcionar é necessário que os jogadores tenham uma boa mobilidade nos membros inferiores e que sejam muito móveis, de forma a conseguirem acompanhar as entradas dos atacantes.

A naturalização de Daymaro Salina (Cubano) veio ajudar bastante a defesa de Portugal ou não fosse o jogador do FC Porto um jogador muito possante mas ao mesmo tempo bastante móvel e forte no um contra um defensivo.

Daymaro Salina, ao centro, ao serviço da seleção nacional (Foto: Zimbio)

Resumindo, o futuro de Portugal parece risonho. Paulo Pereira trouxe inovação ao andebol Português e caso as novas gerações de jogadores consigam chegar perto do potencial que demonstram ao que se junta uma continuação do trabalho feito até aqui, pode ser que o regresso de Portugal a uma grande competição esteja para breve.


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