23 Nov, 2017

David Almeida e a difícil realidade de um clube de Formação

João NegreiraOutubro 15, 20179min0

David Almeida e a difícil realidade de um clube de Formação

João NegreiraOutubro 15, 20179min0
Entrevista do Fair Play para que fique a conhecer melhor como funciona a formação nos clubes regionais

A Formação não é nada fácil. Por vezes pensamos que é estar ali apenas e meter os miúdos a dar uns chutos numa bola, mas é muito mais do que isso. Numa entrevista, onde não queremos fazer do clube entrevistado um rótulo ou a exceção, mas um exemplo, de entre muitos, de como opera a formação.

David Almeida, coordenador-técnico do Cerca Futebol Clube, explica o funcionamento da formação num clube que só tem o objectivo de potenciar novos atletas e metê-los em palcos maiores assim como desenvolver as suas qualidades humanas.


Quais as dificuldades financeiras de um clube de formação?

DA: O bolo maior de quem está na formação é o vínculo que os clubes têm que ter para com a Associação de Futebol de Lisboa (AFL) que é a entidade que promove os vários clubes de Lisboa, e dizer que, os escalões de futebol 11 são muito mais vinculativos, nesse aspeto, do que os escalões de futebol 7; falando ainda de arbitragens, policiamento, seguros, inscrições e tudo mais. Dizer também que esses valores, para um clube amador, que vive do apoio dos pais, das empresas que tentam ajudar dentro dos possíveis e da própria Câmara Municipal, são elevados comparando com outras associações espalhadas pelo país; mas que sabemos que são necessários pois alguém tem que organizar e alguém tem que sustentar.

 

O objetivo destes clubes é deslocarem-se àquele local para dar àquela comunidade jovem alguma coisa que tenha que ver com o futebol.

Quais são os critérios de escolha em relação ao pagamento de mensalidades?

DA: Bom, o futebol hoje em dia é um negócio; não podemos fugir a isso até porque para haver condições tem que haver valores que têm que ser comportados. O que antigamente custava 20€ ou 30€, hoje já custa 60€ ou 70€ e obviamente os clubes adaptaram-se ao valor financeiro que tem que ser comportado, como por exemplo eu, que fiz 8 anos de formação, nunca paguei para jogar futebol e hoje já é completamente diferente.

Fechando um pouco mais o círculo e focando-me um pouco mais nos clubes mais pobres e nos da zona de Torres Vedras até porque eu não gosto muito de dizer que nós somos diferentes dos outros porque não somos, nós no concelho de Torres Vedras somos iguais a todos os outros clubes, e dizer então que, no meu ver, o objetivo destes clubes é deslocarem-se àquele local para dar àquela comunidade jovem alguma coisa que tenha que ver com o futebol.

Obviamente todos nós com métodos diferentes, mas a Cerca tem um método de orientação financeira muito próprio, ou seja, nós temos um valor anual que consideramos para um determinado atleta, englobando tudo que já disse em relação à AFL, em relação ao equipamento, ao material desportivo necessário e ainda à alimentação, sendo que depois os pais adequam-se, ajudando com o tal valor anual.

Em relação a nós especificamente, não gosto muito de falar pois como já disse nós não somos diferentes de ninguém, mas o projeto da Cerca, é um projeto com orientação muito clubística e quase todos os que lá estão, como pedagogos, já receberam muito mais da Cerca do que já deram, esses mesmos fizeram quase toda a sua carreira amadora desportiva lá e aí fizeram muitas amizades num paradigma antigo do futebol amador onde as pessoas jogavam porque gostavam de jogar futebol. E basicamente dessas amizades que não se perderam, houve a possibilidade de fazer um projeto desportivo na Cerca e nós tentámo-nos adequar à realidade atual mas sempre com os princípios antigos, ou seja, para nós o valor financeiro só é importante para assegurar as condições mínimas dos atletas. Contudo, não gosto de dizer que os outros são uma máquina de fazer dinheiro e nós não; o que digo é que nós estamos ali com um princípio diferente.

 

Aquela ideia do “perder ou ganhar está tudo bem” não é verdade. Pois toda a gente tem o objetivo final de vencer, mas talvez o mais importante é que os atletas estabeleçam entre eles um bom momento desportivo.

 Passando agora para a parte desportiva, como é que os ideais, em termos de educação/competitividade, funcionam num clube desta dimensão.

DA: Eu diria que tem que haver um pouco dos dois, sendo que o mais importante de todos é compreender o conceito de desporto, isto é, fortaleceres o teu corpo a nível físico e mental. Desenvolveres a seguir a isso um espírito de comunidade com todos os outros que fazem parte desse âmbito desportivo, ou seja, perceberes que fazes parte desse grupo e tens que respeitar esse mesmo grupo, sendo que todos são diferentes.

Por fim, e não diria que a temos que desprezar totalmente, a vertente competitiva em que há um jogo, e como a própria modalidade tem implícita, há regras e ao mesmo tempo existem resultados e tu tens que impor e ter que saber lidar com isso desde cedo. É sempre difícil dizer que temos que colocar em segundo plano os resultados, pois aquela ideia do “perder ou ganhar está tudo bem” não é verdade. Pois toda a gente tem o objetivo final de vencer, mas talvez o mais importante é que os atletas estabeleçam entre eles um bom momento desportivo, e se no final o objetivo for a vitória e se conseguirmos alcançá-la, ainda bem; se não acontecer, há que educar também nesse sentido.

Creio é que existe uma relação de causa efeito entre tudo isto, teres então 3 partes do processo ,atletas, treinadores e pais, bem conectadas, bem orientadas e bem explícitas daquilo que cada um deve fazer, isto é, os atletas fazerem o seu desempenho desportivo dentro da área de jogo, os treinadores adequados ao processo de treino e de jogo dos atletas, nunca desrespeitando nem maltratando os atletas, mas ao mesmo tempo exigindo deles para que consigam ultrapassar as suas dificuldades, e dos pais, depois de tudo isto, dizerem que estão cá para apoiar, ajudando, sem prejudicar nenhuma das partes que já falei, sempre a melhorar algo que não está bem. E isso é a maior das vitórias, sendo que se conseguires juntar tudo isto, os resultados serão mais fáceis de atingir.

Que papel é que os pais têm na formação dos seus filhos?

DA: Creio que é irredutível que ninguém substitui nenhum pai nem nenhuma mãe. Mas, no meu ver, estes órgãos familiares têm que ter 3 bases elementares: a simplicidade, a humildade e o aceitar as orientações desportivas que o clube oferece ao filho. Explicando um pouco melhor, junto a simplicidade à humildade e aí os pais têm que perceber os limites e as valências do filho, o que por vezes, não acontece; e também aceitar a orientação do treinador pois, apesar do educando poder ter uma perspetiva diferente da do treinador, há que chegar a uma concordância para que o atleta não saia prejudicado.

Para que isso aconteça da melhor forma, nós costumamos fazer sempre uma reunião no início da época para que todos os pais consigam perceber quais são os nossos objetivos e um deles, que é algo que nós fazemos questão de esclarecer logo à partida, é que nós não fabricamos estrelas, nós não fabricamos nada nem ninguém, nós apenas tentamos orientar, para a vida e para o desporto e por isso nós não valorizamos os craques ou estrelas. Nós achamos que todos têm que partir dos mesmos princípios, todos têm que seguir os mesmos princípios e todos têm que chegar ao final com os mesmos princípios.

Obviamente, todos são diferentes, há atletas mais evoluídos do que outros, há atletas com um processo mental superior ao dos outros, mas um caminho não se faz sozinho e isso é logo explicado aos pais independentemente das características dos filhos.

Existe alguma dificuldade quanto à orientação que cada treinador dá?

DA: Apesar de ser impossível de não haver discordâncias, creio que 95% das pessoas com quem já trabalhei aqui, são pessoas inteligentes, com um rigor enorme nos princípios e nos ideais que nós desenvolvemos, e aí fica fácil de trabalhares. Dizer, então que são eles quem faz este clube e apesar de eu ser o coordenador da formação, a minha figura é sustentada por todos eles, e é de louvar esta equipa. E a partir daí dizer que são eles quem dá a cara pelos miúdos, quem lhes ensina, quem está com eles 2 ou 3 vezes por semana e eles respeitam ao máximo todos os ideais do clube e conseguem transmitir isso aos miúdos e por isso são eles quem fazem e quem representa o clube e o eleva.

No entanto, nem tudo é um mar de rosas e existem escalões que, por inerência à idade do mesmo, dificultam o trabalho do treinador; por muito que o treinador seja qualificado, dizer que é uma tarefa muito complicada e que nem todos os treinadores conseguem comandá-lo.


São muitas as variáveis que interferem com um clube de formação, e o trabalho fica ainda mais difícil quando falamos de um clube pobre. Todos os dias surge um desafio novo, sobre o qual os responsáveis têm que se debruçar e arranjar uma solução para o imediato. Há que mencionar que um clube desta dimensão não é para todos e apenas aqueles que têm um amor incondicional ao clube é que o conseguem liderar e, por conseguinte, carregá-lo às costas.

De realçar que o clube entrevistado não se superioriza nem se afasta muito do que é a realidade dos outros clubes; este artigo tem por objetivo exemplificar a maneira de um clube de formação de trabalhar, não o de elevar o mesmo a um patamar superior ao dos outros.


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