Arquivo de Triatlo - Fair Play

João-Pereira_Vasco-Vilaça2.jpg?fit=960%2C821&ssl=1
João BastosJunho 19, 20175min0

O cenário idílico de Kitzbuhel foi o palco dos Campeonatos da Europa de Triatlo, entre os dias 16 e 18 de Junho. As atracções para os adeptos lusos da modalidade eram muitas…e as expectativas não saíram defraudadas

À partida para a prova que coroaria os novos campeões da Europa, havia uma certeza e uma dúvida. A certeza que os portugueses João Pereira e João Silva partiriam no lote dos favoritos à vitória final, mas que o grande candidato seria o líder do mundial, Fernando Alarza. A dúvida seria o estado de forma de Vanessa Fernandes nesta sua primeira abordagem a uma competição internacional.

Começando pelas senhoras, Vanessa não teve o regresso que certamente desejava. O lançamento da prova na natação foi extremamente rápido, com a britânica Jessica Learmonth a fazer o que já tinha ensaiado na última etapa do mundial, ou seja, a sair disparada na natação, mas desta vez a conseguir sair destacada na frente.

Este ritmo na natação provocou cortes, deixando a penta-campeã da prova sozinha no ciclismo. Como é seu timbre, e mesmo não se apresentando nas melhores condições, Vanessa assumiu que faria a perseguição a solo no segmento de ciclismo, mas momentos antes de iniciar os 10 km de corrida finais, cedeu e abandonou a prova.

Quem já não cedeu foi Learmonth, ao contrário do que tinha sucedido em Leeds, quando pagou caro o ritmo imposto na natação. Desta vez formou um trio no ciclismo com a sua compatriota Sophie Coldwell e com a italiana Alice Betto (que tem estado em boa forma) e deixaram a decisão dos lugares do pódio para a corrida. Learmonth viu recompensada a sua estratégia e sagrou-se campeã da Europa de elites. Coldwell completou a dobradinha para a Grã-Bretanha e Betto repetiu o 3º lugar da etapa de Leeds.

Foto: European Triathlon Union

Ainda nas senhoras, mas na categoria de juniores, destaque para as duas portuguesas que cumpriram a prova na distância de sprint. Gabriela Ribeiro conseguiu um bom 15º lugar, tendo em conta que competia com triatletas dois anos mais velhas e Mariana Vargem foi 41ª classificada, numa prova ganha por outra britânica: Kate Waugh.

Se no sector feminino as britânicas dominaram, no sector masculino foi outra potência do triatlo a ter a primazia. E provavelmente há poucas outras modalidades onde este país é uma potência. Falamos de Portugal!

O nosso país, particularmente no sector masculino, tem tido uma afirmação na modalidade estrondosa. Muito por culpa dos Joões (Pereira e Silva) e de Miguel Arraiolos que completa o triunvirato. Os três formam um verdadeira geração de ouro, que nesta prova ficou mostrado que terá continuidade.

O dia 17 de Junho de 2017 ficará guardado na História da modalidade como um dos dias mais felizes para as cores lusas. 

Por ordem inversa dos acontecimentos, começamos com a prova de elite. Os três triatletas portugueses já citados, acompanhados de Pedro Gaspar, partiram para a prova de Kitzbühel, sabendo de antemão que Silva e Pereira partiriam no lote dos candidatos à vitória (como partem em todas as provas), e que a mais forte oposição deveria vir dos espanhóis: Fernando Alarza e Vicente Hernandez seriam os nomes com maior cartel para contrariar as pretensões portuguesas.

Como tantas outras provas, Richard Varga saiu na frente da água, seguido pelos irmãos Polyanskiy. Pereira e Silva partiram logo a controlar Hernandez (o melhor nadador entre os dois espanhóis) e à saída da natação levavam uma vantagem interessante de 30 segundos para Alarza, vantagem essa que se dilataria no ciclismo.

Com cerca de um minuto de avanço no início da corrida, Alarza já não representaria perigo para os portugueses, apesar de ser um corredor fortíssimo (mas Silva e Pereira também são). No segmento de corrida só o francês Raphael Montoya teve pernas para os portugueses, sendo o único que ameaçava a dobradinha lusa.

O final foi disputado ao sprint com João Pereira a superiorizar-se aos adversários, sagrando-se Campeão Europeu de Triatlo pela primeira vez na carreira, e Montoya a intrometer-se entre os portugueses no pódio.

Veja o fantástico sprint que valeu ouro a João Pereira a.k.a. Puras:

O sucesso português em terras tirolesas não se ficou por aqui e Vasco Vilaça fez o pleno para os homens portugueses, sagrando-se Campeão Europeu de Juniores. O triatleta do Benfica fez um segmento de corrida extraordinário para bater ao sprint o espanhol Javier Lluch e o húngaro Csongor Lehmann.

Menção ainda aos restantes portugueses em prova: Na prova de elites, Pedro Gaspar foi 40º e Miguel Arraiolos desistiu. Na prova de juniores, Tiago Fonseca foi 14º, Duarte Brás foi 19º, Ricardo Batista foi 24º e Tiago Pinto foi 39º classificado.

brownleebrothers1808.jpg?fit=1024%2C683&ssl=1
João BastosJunho 12, 20177min0

O mundial de Triatlo chegou à Europa. Leeds foi o palco da 4ª etapa do circuito e viu estrear o campeão olímpico Alistair Brownlee no circuito, que liderou uma equipa britânica que, a jogar em casa, deu boa conta de si

O mundial está ao rubro! Quer no sector feminino, quer no masculino, as dúvidas quanto à liderança são mais do que as certezas.

Certeza mesmo é que já todos os candidatos se mostraram…e mostraram-se em boa forma. Em Leeds a armada espanhola não se fez representar na sua máxima força, deixando em terra o líder do circuito, Mario Mola, e o vencedor da primeira etapa, Javier Gomez.

Também na prova feminina se registou uma ausência de peso, a vencedora das duas primeiras etapas, a neozelandesa Andrea Hewitt.

Quanto a presenças, a grande nota de destaque vai para o regresso do campeão olímpico, Alistair Brownlee, que este ano se tem dedicado ao triatlo de longa distância.

Portugal vinha com os seus triatletas mais cotados fazer o teste final para os Europeus do próximo fim-de-semana: João Pereira, João Silva, Miguel Arraiolos, David Luís e Melanie Santos apresentaram-se em prova na cidade britânica.

Foto: Janos Schmidt

A dobradinha do costume

A jogar em casa, os britânicos surgiram com os seus melhores argumentos, entre os quais os irmãos Brownlee, que não fizeram por menos e deram à etapa de Leeds o desfecho que já se viu outras tantas vezes.

Como também se vê praticamente em todas as vezes que os irmãos estão em competição, o eslavaco e companheiro de treinos dos Brownlee, Richard Varga, veio para a frente na natação, na tentativa de deixar para trás triatletas que pudessem incomodar mais à frente.

Os manos não viram grande problema no facto de não se terem produzido grandes clivagens na natação porque assim que subiram às suas bicicletas trataram de o fazer.

Os dois fizeram um autêntico contra-relógio sentenciando esta etapa muito cedo. Quando começaram o segmento de corrida já tinham mais de um minuto de avanço para toda a gente, o que para o nível de corrida dos britânicos era sinónimo de que iriam disputar a etapa entre si, depois de um passeio a pé por Leeds.

Atrás vinha um grupo de perseguição que contava com o número 2 do ranking à entrada para esta prova, o espanhol Fernando Alarza, acompanhado por mais dois britânicos: Thomas Bishop (que já fez 2º lugar na 1ª etapa do mundial) e Adam Bowden.

Alistair não quis esperar pelo sprint e largou Jonathan a cerca de 1 km da meta, caminhando confortavelmente para a vitória na primeira etapa do mundial que faz.

Fernando Alarza fez o melhor segmento de corrida entre todos os presentes e ocupou o lugar mais baixo do pódio, mas, mais importante que isso, passou a liderar o mundial, trocando de lugar com o compatriota Mario Mola, sendo o terceiro espanhol a liderar o ranking, este ano.

Quanto aos portugueses, excelente prestação de João Silva que terminou no 7º lugar, batendo ao sprint o francês Pierre Le Corre. Este desempenho permitiu a Silva subir 26 posições na hierarquia mundial, estacionando agora no 17º lugar geral.

Foto: Janos Schmidt

Miguel Arraiolos voltou a pontuar pela segunda etapa consecutiva, produzindo o seu melhor desempenho do ano. Foi 25º em Leeds, amealhando 123 pontos, subindo 6 posições até ao 57º lugar.

David Luís também teve um bom desempenho. Teve um excelente segmento de natação, como é seu hábito, e terminou a prova no 36º lugar final-

João Pereira não foi tão feliz, sendo obrigado a desistir no segmento de ciclismo.

Nas contas do mundial, os espanhóis continuam em grande. Mantém os três primeiros postos e viram Vicente Hernandez entrar no top-10.

Fonte: World Triathlon Series

Bis para Flora Duffy

À quarta etapa, o mundial feminino de triatlo está bipolarizado em termos de vitórias em etapas e está super renhido em termos de classificação.

Se nas primeiras duas etapas (Abu Dhabi e Gold Coast) a neozelandesa Andrea Hewitt não deu hipótese à concorrência, agora é Flora Duffy que está imparável e desde que voltou à competição ainda não perdeu.

Depois de em Yokohama ter superado a concorrência, esperando 2 minutos para que chegasse a segunda, em Leeds terminou a prova com 1:30 de avanço, mostrando-se muitos furos à frente das rivais e mostrando que já não é só em cima da bicicleta que faz as diferenças. No segmento de corrida foi a mais rápida, apesar da vantagem que já levava.

A prova começou a correr de feição a Duffy logo no tiro de partida. A britânica Jessica Learmonth impôs um ritmo forte na natação que Duffy conseguiu seguir mas que deixou em apuros muitas das candidatas como Non Stanford, India Lee (o que evidencia que as britânicas não foram jogar em equipa, ao contrário dos homens) e Ashleigh Gentle.

A partir daí, Flora estava como queria. Não esperou por ninguém no ciclismo e apenas três triatletas conseguiram seguir na roda: Taylor Spivey (EUA), Maya Kingma (Holanda) e Alice Betto (Itália). Nenhuma das três deveria ser grande ameaça para a triatleta das Bermudas e, de facto, assim que Duffy meteu os pés no chão, ficou sozinha e correu triunfante para a sua segunda vitória consecutiva no circuito mundial.

Taylor Spivey (2ª) e Alice Betto (3ª) bem podem agradecer a Duffy o trabalho feito no ciclismo que as possibilitou ficar no pódio, apesar de terem perdido muito tempo na corrida para a 4ª (Kirsten Kasper) e sobretudo para a 5ª (Ai Ueda).

Foto: Janos Schmidt

Melanie Santos, regressada de lesão, teve um desempenho que a própria assumiu ter ficado longe do que esperava. Foi última entre as triatletas que terminaram, mas há que ter em conta que apenas 21 terminaram e 11 desistiram ou foram dobradas.

Nas contas do mundial tudo está em aberto. Kirsten Kasper (EUA) assumiu a liderança, subindo duas posições e relegando a sua compatriota Katie Zaferes (que não fez esta etapa) para a segunda posição. As vencedoras das etapas estão em 4º (Andrea Hewitt) e 6º (Flora Duffy). Spivey e Betto lograram entrar no top-10 depois desta etapa.

Fonte: World Triathlon Series

O circuito segue em Julho na Alemanha, na cidade de Hamburgo, mas já para a semana temos o Campeonato Europeu que decorre na cidade austríaca de Kitzbühel e que tem grandes atractivos para os adeptos portugueses como o regresso de Vanessa Fernandes à alta competição.

Andrea-Hewitt2-e1491736922376.jpg?fit=891%2C794&ssl=1
João BastosAbril 9, 20177min0

A segunda etapa do Mundial de Triatlo foi disputada na Gold Coast australiana, na distância de sprint (750 metros a nadar, 20 km a pedalar e 5 km a correr). Apesar desta ter sido apenas a 2ª de 9 provas, no sector feminino já se regista uma tendência

A Austrália foi o segundo dos 9 palcos por onde passará o Mundial de Triatlo 2017. Depois da etapa de Abu Dhabi ter consagrado Javier Gomez e Andrea Hewitt como grandes vencedores, a etapa de Gold Coast tinha a particularidade de ser disputada na vertente de sprint, o que favorece tritaletas como Richard Murray e desfavorece outros, como o próprio Gomez.

Portugal apenas se fez representar com um triatleta: João Silva.

Foto: Triathlon.org

2 em 2 para Hewitt

A neozelandeza está a fazer um início de época fantástico e, este ano, o circuito mundial ainda não conheceu outra vencedora que não Andrea Hewitt.

Até este ano, Hewitt apenas tinha vencido uma etapa do Mundial na sua carreira e tinha sido em 2011, em Auckland. Com estas duas vitórias consecutivas, está provado que estamos perante uma nova e renovada Andrea Hewitt.

À semelhança de Abu Dhabi, esta etapa voltou a não contar com muitos nomes capazes de disputar a vitória, como a campeã olímpica Gwen Jorgensen e a campeã mundial Flora Duffy, que continua a não defender o seu título.

Também a vencedora do ano passado, a britânica Helen Jenkins, não esteve presente e assim, das quatro primeiras classificadas do ano passado (Jenkins, Jorgensen, Hewitt e Duffy), apenas a neozelandeza estava presente, tornando-a na principal favorita.

No entanto, no ano passado esta etapa disputou-se em distância olímpica, o que poderia aumentar as hipóteses de outras triatletas para este ano que se competia na distância de sprint.

Andrea Hewitt na conferência de antevisão da etapa de Gold Coast | Foto: Triathlon.org

Sendo 1,5 km ou 750 metros a nadar, a história do segmento da natação nas provas internacionais é sempre a mesma. A espanhola Carolina Routier vai sempre sair em primeiro lugar da água e as americanas vêm logo a seguir.

E assim foi, Sarah True e Summer Cook saíram logo depois de Routier, sendo as indicadas para fazer o jogo de equipa no segmento de ciclismo. É que as americanas traziam aqui nada mais, nada menos do que 7 triatletas, sendo que Katie Zaferes era a mais cotada, pelo que seria espectável que as restantes fizessem jogo de equipa para ela.

No entanto (e como é normal nas provas de sprint), praticamente todas as atletas conseguiram seguir no pelotão principal do ciclismo (Sarah True acabou por descolar).

No segmento decisivo, foi a triatleta da casa, Ashleigh Gentle que mais perto esteve de contrariar o favoritismo de Hewitt, mas a neozelandeza levou a melhor, conseguindo até vencer de forma mais confortável do que em Abu Dhabi.

Foto: Tommy Zaferes

Na classificação do mundial, Andrea Hewitt lidera confortavelmente com 1600 pontos. São mais 462 pontos que a segunda classificada, Katie Zaferes, que nesta etapa foi quarta classificada. A japonesa Ai Ueda fecha o top-3.

Mola volta a vencer na Gold Coast

Mário Mola é campeão do mundo em título e no circuito do ano passado cimentou a sua vitória final no sucesso das primeiras etapas. O ano passado (como Hewitt este ano) venceu as duas primeiras etapas, mas este ano não foi tão feliz em Abu Dhabi, tendo-se classificado em 8º.

Em Gold Coast “emendou a mão” e voltou a subir ao lugar mais alto do pódio.

Para a Austrália, a armada espanhola trouxe a sua máxima força com Mola, Gomez e Alarza que podiam muito bem fazer o pleno no pódio, mas antes tinham de eliminar uma verdadeira pedra no sapato: Richard Murray.

O sul-africano é um adversário temível em qualquer distância, mas na vertente de sprint torna-se ainda mais perigoso.

Tendo isso em conta, o companheiro de selecção de Murray, e bronze olímpico, Henri Schoeman imprimiu desde logo o ritmo no segmento de natação. O problema é que se a natação é de longe o pior segmento dos espanhóis (exceptuando Javier Gomez que não tem segmentos maus…nem transições más), também é o pior de Richard Murray.

Schoeman foi assim o primeiro a sair da água, com Gomez a sair 7 segundos depois, com Murray a 22 segundos de distância e com Mola e Alarza a saírem 6 segundos depois de Murray.

Foto: Delly Carr

Apesar do esforço de Schoeman, tal como nas senhoras, o pelotão seguiu compacto e sem cortar os favoritos para um segundo grupo. Infelizmente cortou João Silva, o nosso único representante, que integrou um grupo de quatro e hipotecou aí as suas aspirações a uma boa classificação.

Com a decisão da prova a encaminhar-se para o sector de corrida, os quatro favoritos começavam a medir-se. Em teoria, Fernando Alarza seria o menos favorito, Murray tem sido aquele que se tem exibido em melhor nível na corrida, Gomez o que mais vezes se superiorizou aos demais na corrida e sobre Mola recaíam as maiores dúvidas, dado que ainda não se tinha mostrado ao seu melhor nível esta época.

A dúvida consubstanciou-se em certeza e de uma forma que para muitos, certamente, configurou surpresa. Mário Mola impôs-se na corrida como poucas vezes vimos, tendo em conta os contendores.

O espanhol, de 27 anos, superou o sul-africano no sprint final, vencendo com 4 segundos de avanço. Fernando Alarza completou o pódio, superando um Gomez que, apesar da vitória em Abu Dhabi, ainda está em subida de forma depois da lesão contraída em Julho do ano passado.

Foto: Delly Carr

Nas contas de um mundial que ainda não viu estrear os irmãos Brownlee, a disputa está mais renhida que no lado feminino, com Gomez a contabilizar 1433. Richard Murray subiu três posições e é agora segundo classificado com 1326 pontos. Alarza é terceiro, com 1318.

Com esta vitória, Mário Mola ascendeu à quarta posição, subindo quatro lugares. Apesar de não ter participado nesta etapa, João Pereira continua a figurar no top-10, fechando-o, precisamente. Recordamos que para a classificação final contam as 5 melhores classificações nas 8 etapas da ITU World Triathlon Series, mais a Grande Final.

Fonte: WTS Triathlon

O mundial continua em Yokohama nos dias 13 e 14 de Maio, sendo a última das três etapas da fase Ásia/Oceania, seguindo depois para as duas etapas europeias (este ano, a final é em Roterdão, pelo que as três etapas europeias são descontinuadas).

Javier-Gomez2.jpg?fit=960%2C960&ssl=1
João BastosMarço 5, 201712min0

O Mundial de Triatlo voltou e com ele também voltou Javier Gomez Noya, o azarado espanhol que ficou fora dos Jogos Olímpicos do Rio. Abu Dhabi marcou o arranque do circuito que percorrerá quatro continentes até Setembro

Os Emirados Árabes Unidos foram o primeiro dos 9 palcos por onde passará o Mundial de Triatlo 2017. A etapa árabe foi marcada por muitas ausências, mas também por alguns regressos.

Para as cores nacionais, foi uma prova onde se pôde ver os nossos atletas já a um nível bastante interessante para esta altura crepuscular da temporada.

Mario Mola e Flora Duffy não iniciaram da melhor forma a defesa dos seus títulos. Duffy, então, não iniciou de todo. Mas, certamente, ainda vamos ver ao longo do circuito o que os dois campeões mundiais em título são capazes de fazer.

Hewitt vence ao sprint

Como já falado, Flora Duffy não alinhou à partida da prova de Abu Dhabi, mas houve mais ausências de relevo na start list, sendo a mais notada a da campeã olímpica em título, Gwen Jorgensen, que deixou a representação americana a cargo de um quinteto de luxo composto por Sarah True, Katie Zaferes, Kirsten Kasper, Summer Cook e Renee Tomlin.

Também a britânica Helen Jenkins, sempre candidata, optou por não participar, mas a armada britânica nunca está desfalcada e apresentava outras candidatas como Jodie Stimpson e India Lee.

Outra das ausências foi (ainda) a de Vanessa Fernandes, que anunciou recentemente o regresso à competição e já estava inscrita nesta primeira prova, o que indicia que o seu regresso em pleno estará para muito breve.

Vanessa Fernandes anunciou o regresso à competição no passado dia 27 de Fevereiro | Foto: Lusa

A prova começou como tantas outras começam, com a espanhola Carolina Routier a vir para a frente na natação e a fazer a principal despesa dentro de água até ao parque de transição para o ciclismo.

À saída da água, as americanas Sarah True e Katie Zaferes vinham muito bem posicionadas (como também é apanágio das americanas).

Pedalando no autódromo de Abu Dhabi, o grupo mais restrito que seguia na frente rapidamente se deixou apanhar pelo pelotão mais numeroso que seguia atrás.

Por volta dos 20 km de ciclismo, Sarah True desiste e Zaferes passa ao ataque, voltando a fragmentar o pelotão, formando-se um grupo na frente formado pela americana, pelas australianas Gillian Backhouse e Charlotte McShane, pela italiana Alice Betto, pela japonesa Yuko Takahashi, pela holandesa Rachel Klamer, pela austríaca Sara Vilic e ainda pela neozelandeza Andrea Hewitt e pela britânica Jodie Stimpson, as duas que representavam as mais fortes ameaças às aspirações de Zaferes.

E na verdade foram as duas que passaram imediatamente ao ataque no segmento de corrida, deixando em dificuldades a americana que tanto tinha forçado no ciclismo para as deixar para trás.

A meio do segmento de corrida de 10 km, o pódio começava a definir-se quando Hewitt, Stimpson e Vilic deixam para trás Klamer, a última resistente do grupo de nove que começou a correr junto.

Sara Vilic também não viria a aguentar durante muito mais tempo o ritmo das duas triatletas mais cotadas.

A 50 metros da meta, Stimpson – que tinha sido a mais empenhada durante a corrida em ir encurtando o grupo – parecia ter tudo encaminhado para iniciar o circuito com uma vitória (como tinha feito no ano passado), mas num sprint final “do outro mundo” foi Andrea Hewitt que levou a melhor, conseguindo a vitória mesmo em cima da linha de meta.

Veja e impressione-se com o recta final da prova:

Hewitt sofreu uma experiência pessoal, há cerca de um ano e quatro meses, absolutamente traumática. O seu treinador e marido, o francês Laurent Vidal – um dos melhores triatletas do pelotão internacional, que por problemas cardíacos deixou a competição em 2014 e dedicou-se ao treino da neozelandesa – faleceu em Novembro de 2015, vítima de ataque cardíaco.

No final, uma Hewitt emocionada, dedicou a vitória a Laurent Vidal…que certamente lhe deu um empurrãozinho naquele final de prova!

A neozelandesa começa assim o circuito mundial da melhor forma. Ela que no ano passado foi 6ª no final das 9 etapas, mas que este ano quererá, certamente, melhorar essa posição.

Já Jodie Stimpson tinha ganho esta etapa em 2016, mas desta vez teve de se contentar com a prata.

Sara Vilic fechou o pódio, chegando 7 segundos depois das duas primeiras.

Veja o resumo da prova feminina:

Gomez volta ao seu lugar habitual: o primeiro

Tal como a prova feminina, também a prova masculina foi pautada por várias ausências, com a dos irmãos Brownlee a ser a mais notada (Jonathan lesionou-se poucos dias antes da etapa).

Mas a nota dominante não foi das ausências, mas sim das presenças. O maior vencedor de sempre de etapas do Mundial, Javier Gomez Noya, estava de regresso, depois de se ter lesionado o ano passado, a apenas um mês do início dos Jogos Olímpicos, o que o retirou da luta pelo ouro no Rio de Janeiro.

Fonte: MundoTRI

Gomez vinha liderar uma armada espanhola de luxo, composta também por Mario Mola, actual campeão do WTS e vencedor desta etapa em 2016 e Fernando Alarza, 3º classificado no ano passado, no final do circuito.

A probabilidade da primeira prova internacional do ano ser ganha por um espanhol era grande, mas o trio tinha de se preocupar com fortes rivais, nomeadamente Richard Murry (África do Sul) que este ano já se tinha mostrado em boa forma em provas no seu país.

Sem Richard Varga em prova (o habitual animador na natação), foi o francês Aurelien Raphael que impôs o ritmo…e que ritmo!

Durante o segmento de natação, Raphael chegou a andar completamente isolado, mas na saída da água já o medalha de bronze do Rio, Henri Schoeman e o russo Igor Polyanskiy tinham conseguido recolar ao francês.

No entanto, os estragos estavam feitos e o pelotão seguiu para o ciclismo completamente fragmentado. Na frente seguia um grupo composto por 10 elementos, onde seguia Gomez mas não seguia nem Mola, nem Alarza, nem Murray, o que começava, desde logo, a abrir expectativas animadoras para o espanhol, que passava a ter em Henri Schoeman e Vincent Luis os seus potenciais maiores adversários na corrida (se é que há adversários à altura do espanhol na corrida).

No entanto, na última volta do ciclismo, o grupo perseguidor, liderado por Murray, Mola e Alarza conseguiu inverter o que já parecia definitivo, recuperando o minuto de desvantagem que tinha para o grupo da frente, vindo baralhar as contas da prova.

Nem se pode considerar que os perseguidores estavam com um desgaste superior a Gomez, já que o espanhol assumiu muitas das despesas na imposição do ritmo, na frente da prova.

Mas como Javier não sabe correr de outra forma, veio para a frente ao km 0 do último segmento e com ele só levou o britânico Thomas Bishop e o sul-africano Henri Schoeman (que só aguentou 3 km ao ritmo de Gomez – 3 min/km).

Mais atrás, vinha-se formando um grupo perseguidor de luxo: Murray, Mola, Alarza e o português João Pereira, quatro excelentes corredores que vinham paulatinamente a recuperar posições.

A três quilómetros do fim, Gomez cansou-se da companhia de Bishop e desferiu o ataque final, que o levou tranquilamente até à sua 13ª vitória em etapas do Mundial de Triatlo.

Thomas Bishop chegou 14 segundos depois e Vincent Luis conseguiu chegar ao bronze, resistindo à aproximação de Fernando Alarza, que foi o mais rápido em prova no segmento de corrida.

Veja o resumo da prova masculina:

A prova dos portugueses

Abu Dhabi foi a prova de melhor memória para as cores nacionais em 2016, já que foi a única onde Portugal conquistou um pódio, por intermédio do 3º lugar de João Silva.

Este ano o feito não foi repetido, mas houve bons apontamentos por parte da comitiva portuguesa:

A primeira a entrar em acção foi Melanie Santos, que até começou bem no segmento da natação, saindo da água num segundo grupo, a 40 segundos do primeiro, lado a lado com as três triatletas que terminaram no pódio.

O problema veio no ciclismo. O forte ritmo do grupo onde seguia, que queria apanhar as fugitivas o mais rapidamente possível, obrigou-a a desistir por volta do 16º km. Não foi a estreia no circuito deste ano que Melanie desejaria, mas foi certamente uma etapa muito útil para a jovem do Benfica retirar ensinamentos tácticos para futuras etapas.

Foto: Unspot Design

Na prova masculina, João Pereira conseguiu um excelente 6º lugar. Ele que tinha perdido o comboio da frente na natação e seguiu no ciclismo no 2º grupo, mas mais uma vez fez um segmento de corrida em crescendo, tendo sido mesmo o quarto mais rápido em prova, nesse segmento, cumprindo os 10 km em 31 minutos e 25 segundos.

Ficou à frente de nomes como Mario Mola ou Henri Schoeman.

Foto: Triathlon.org

Já a João Silva a prova não correu da forma que tinha corrido em 2016. Foi ainda mais surpreendido na natação do que João Pereira e ficou num terceiro grupo do ciclismo, onde não rolavam grandes referências e a distância para a frente foi aumentando significativamente.

No entanto, na corrida, Silva puxou dos galões e imprimiu um ritmo muito forte (foi o sexto mais rápido na corrida). A diferença para os restantes grupos já era grande, o que não o permitiu fazer uma grande recuperação em termos de classificação. Quedou-se pelo 19º lugar final.

Pódio de 2016 com João Silva no 3º lugar | Foto: Triathlon.org

O terceiro português foi Miguel Arraiolos que seguiu no grupo de João Silva até ao início da corrida. Fez uma prova bastante regular, evidenciando que é já um triatleta mais maduro e experiente neste tipo de provas. A natação continua a ser o grande calcanhar de Aquiles de Arraiolos, ficando a expectativa sobre o que ele poderá fazer numa prova em que o ritmo imposto nesse segmento não seja tão alto.

Classificou-se no 27º lugar, subindo 6 pontos em relação à classificação nesta etapa em 2016, amealhando 105 pontos para o ranking WTS.

Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

O jovem David Luís, de apenas 21 anos de idade, tinha feito a sua estreia em etapas do Mundial no ano passado na Grande Final de Cozumel.

E nesta sua segunda participação quis mostrar serviço e começou a prova com um ritmo muito forte, conseguindo seguir no grupo da frente da natação, e na frente se manteve durante quase 8 km no ciclismo, mas o ritmo de 40 km/h em que o grupo da liderança seguia tornou-se insuportável para o português, que após estabilizar o seu ritmo, instalou-se no 33º lugar da classificação geral. Lugar que ocupou durante toda a corrida e onde acabou na classificação geral final. Uma estreia promissora para o jovem português.

Foto: Carlos Maia

Filipe Azevedo fechou o quinteto português. À semelhança de David Luís, também se tinha estreado em etapas da Mundial em Cozumel, sendo este o primeiro circuito integral que cumpre.

Nos Emirados Árabes Unidos o azar foi parceiro de Azevedo que no final da primeira volta do ciclismo se viu envolvido numa queda que o forçou a abandonar.

Foto: Clarisse Henriques

As World Triathlon Series seguem agora para a Gold Coast australiana, disputando-se a segunda etapa nos dias 8 e 9 de Abril.

Taça-do-Mundo.jpg?fit=1024%2C633&ssl=1
João BastosFevereiro 27, 20172min0

O Mundial de Triatlo começa já no próximo fim-de-semana na capital dos Emirados Árabes Unidos. Depois do ano olímpico, este ano as atenções dos melhores triatletas mundiais voltam-se para o circuito composto por 9 etapas

As ITU World Triathlon Series estão de volta!

Depois de 2016 ter consagrado o espanhol Mário Mola e a triatleta das Bermudas, Flora Duffy, como campeões do circuito, este ano os motivos de interesse do Mundial são mais que muitos.

Se no ano passado os Jogos Olímpicos levaram muitos triatletas a optar por disputar menos etapas, ou fizeram-no longe da sua melhor forma, este ano o circuito mundial será a grande aposta de todos os que tiverem hipóteses de o vencer.

Alistair Brownlee (GBR) e Gwen Jorgensen (USA) partem com o estatuto de campeões olímpicos e têm de ser encarados como favoritos. Mas atenção ao regresso do espanhol Javier Gomez Noya que falhou os JO por lesão.

Do lado português, há vários pontos de interesse. Nos homens, a participação olímpica de João Pereira leva a crer que o caldense está, ano após ano, mais próximo do topo da hierarquia mundial; João Silva foi o único português a alcançar o pódio de uma etapa na Taça do Mundo em 2016 mas abdicou da competição assim que assegurou a qualificação para o Rio; Miguel Arraiolos continua a sua escalada no ranking Columbia Threadneedle – o ranking mundial do Triatlo. (Revisite a entrevista do triatleta alpiarcence ao Fair Playhttps://goo.gl/N79yQr)

Já em femininos, espera-se muito da jovem sub-23 Melanie Santos que já no ano passado deu boa conta de si, acabando na 39º posição entre as melhores do mundo. Mas o grande destaque é o regresso de Vanessa Fernandes, que anunciou hoje que estava de volta à competição.

Apesar de não prometer resultados, as expectativas em torno da maior ganhadora de etapas do Mundial (19 na sua carreira) são sempre elevadas.

Conhece os 9 palcos da maior disputa do triatlo mundial em 2017:

Arraiolos15-e1484406133422.jpg?fit=796%2C630&ssl=1
João BastosJaneiro 14, 201717min0

Miguel Arraiolos é um dos representantes da geração de ouro do triatlo português. Olímpico desde o Rio de Janeiro, anda há já vários anos no circuito da elite mundial. Conheça o trajecto deste super atleta na entrevista exclusiva dada ao Fair Play

Perfil


Nome: Miguel da Cunha Arraiolos
Idade: 28 anos
Clube: Sport Lisboa e Benfica
Treinador: Lino Barruncho


fp: Como iniciaste a prática do Triatlo?

MA: No desporto escolar havia as provas de corta-mato onde costumava participar. Numa dessas provas, convidaram-me para experimentar o duatlo, que é uma variante do triatlo. Na primeira prova de duatlo que fiz, o “prémio” para os primeiros classificados era um estágio com a selecção nacional de triatlo, para o qual eu consegui ser seleccionado.

Na altura praticava futebol, mas comecei-me a interessar pelo triatlo e começar a treinar as disciplinas do triatlo foi uma coisa natural, também por culpa do meu treinador da altura, Miguel Jourdan.

fp: Ou seja, tu não começaste por praticar primeiro uma das três disciplinas do triatlo e depois evoluíste para as três. Começaste logo a nadar, pedalar e correr, certo?

MA: Andei na natação em criança, mas na altura não me interessei. Só mesmo a partir dos corta-matos escolares é que nasceu o interesse numa vertente mais competitiva de praticar desporto.

fp: Já falaste do Professor Miguel Jourdan. Não só teve uma grande influência na tua decisão de abraçar o triatlo, mas também teve uma grande influência naquilo que é hoje o triatlo nacional?

MA: Toda! Apesar de eu também ter tido a influência da minha irmã que já praticava triatlo, foi ele que me levou a experimentar de forma mais séria. Foi o meu primeiro treinador (em Alpiarça), levou-me para Lisboa e ficou comigo até se iniciar o projecto do Centro de Alto Rendimento do Jamor. Como ele estava ligado à selecção nacional, continuou a estar ligado também à minha preparação.

Quanto à influência que ele teve no triatlo nacional, basta dizer que foi ele um dos treinadores da Vanessa Fernandes. Por isso, o Miguel Jourdan está na génese de uma das maiores desportistas portuguesa de todos os tempos.

fp: Para quem nos lê e não esteja tão a par da modalidade, o Professor Miguel Jourdan faleceu prematuramente aos 41 anos. O triatlo e muitos dos melhores triatletas nacionais acabam por ser um grande legado que ele deixa?

MA: Sem dúvida. O Sérgio (Santos) era o Director Técnico Nacional, mas a equipa técnica eram os dois. Foram os dois grandes pilares da primeira grande geração de triatletas portugueses, e particularmente da Vanessa Fernandes.

fp: Como é que se treina triatlo? Descreve-nos o teu dia-a-dia.

MA: No início há muitas dificuldades nas transições, ou seja, na mudança entre cada uma das disciplinas do triatlo porque em cada segmento há a utilização de diferentes grupos musculares. No início é importante treinar as transições e o atleta familiarizar-se com essa questão para não ser surpreendido em prova.

Foto: Comité Olímpico de Portugal

fp: Ou seja, numa prova composta por três segmentos com cargas aeróbias bastante exigentes, é o intervalo que dura cerca de um minuto entre cada um desses segmentos que tu destacas como o ponto mais crítico no triatlo.

MA: Não são as transições em si, é essencialmente o choque de iniciar uma nova disciplina e a activação repentina de diferentes grupos musculares que constituem um grande desafio no triatlo. Há pessoas que correm muito bem mas fazem dois, três, quatro triatlos e sentem sempre muita dificuldade em imprimir o ritmo de corrida que conseguem facilmente em treino.

É por conta dessa complexidade que o triatlo é um desporto e não a soma de três.

fp: Treinas no CAR do Jamor integrado na Selecção Nacional de Triatlo. Que importância dás ao grupo de treino na tua preparação?

MA: Eu faço alta competição há 12 anos e posso afirmar que é impossível treinar triatlo sozinho. Treinamos sempre em altas intensidades, há momentos da época em que temos de treinar muito e se o fizermos sozinhos, vamos abaixo física e mentalmente. Se tivermos um grupo, há uma motivação extra mesmo nos piores momentos. Há muita solidariedade e ajudamo-nos uns aos outros a evoluir e a continuar a treinar, mesmo quando a vontade é parar.

Depois houve um aspecto fundamental na minha formação que foi, no início, poder aprender com os mais velhos e mais fortes. Quando integrei o grupo da selecção nacional, existia a Vanessa Fernandes e o Bruno Pais que já eram atletas de grande experiência e de grande estatuto a nível mundial. Eles ensinaram-me o que é estar num grupo e o que é a superação diária.

Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Foste campeão europeu sub-23 de duatlo em 2011, vice-campeão sub-23 de triatlo em 2008, terceiro classificado na Taça Pan-Americana de Triatlo em 2013, para além dos vários títulos nacionais. Há alguma prova que te tenha ficado marcada de maneira especial na tua memória?

MA: Os nossos melhores resultados ficam sempre mais marcados. Mas eu destaco as minhas primeiras provas da qualificação olímpica porque foi quando percebi que era possível alcançar uma coisa que até então não passava de um sonho.

Sempre achei possível a qualificação, mas quando iniciei esse período tinha a consciência que ia ser muito, muito difícil, mas os resultados que obtive no primeiro ano da qualificação olímpica (2014) fizeram-me acreditar, não só que era possível, mas que os Jogos estavam perfeitamente ao meu alcance.

E essas provas marcaram-me muito. Fiz top-12 na etapa da Taça do Mundo de Chicago em 2014 e fui 5º classificado na etapa de Alicante. Foi um excelente arranque do período de qualificação que me motivou para o resto.

fp: 2016 é um ano que certamente fica marcado na tua carreira: fizeste a tua estreia olímpica. Antes de falarmos dessa participação, conta-nos como se processa a qualificação para essa prova?

MA: A qualificação é feita em dois anos. Decorreu de Maio de 2014 a Maio de 2016. O apuramento é pelo ranking mundial e são apurados os 55 melhores do mundo, havendo um limite de vagas por país.

Portugal é um dos oito países que apura 3 triatletas no sector masculino, fomos precisamente o oitavo país do ranking.

Para me apurar contavam as 7 melhores provas na época 2014/2015 e as 7 melhores provas em 2015/2016, o que leva a que se tenha de se competir muitas vezes nos anos de qualificação.

João Silva, Miguel Arraiolos, João Pereira e o director técnico nacional Lino Barruncho de partida para o Rio de Janeiro | Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Ou seja, chegaste aos JO já com muitos km de competição nas pernas. Conseguiste chegar ao Rio de Janeiro na tua melhor forma?

MA: Entrei no ano de 2016 sem a qualificação assegurada. Tinha duas provas onde tinha de fazer pontos e mais duas onde iria tentar melhorar o conjunto das 7 melhores, “limpando” as duas piores.

Assim, fiz uma pausa muito curta entre as épocas 14/15 e 15/16 para estar no meu melhor o mais rapidamente possível.

Fui para a Austrália, onde fiz 4 provas, voltei, fui à África do Sul,…percorri quatro continentes nos meses de Maio e Junho.

Consegui, mas fiquei muito desgastado e por isso tive de tirar uns dias de férias mesmo antes dos Jogos porque o corpo já não respondia como devia à carga dos treinos.

A prova (nos Jogos) não correu bem, mas não vou atribuir nenhuma razão. Simplesmente não correu. Pode ter sido por desgaste de outras provas, mas eu prefiro olhar mais para os factos e menos para as desculpas.

fp: Independentemente da forma como a prova correu, a sensação ao chegar à meta foi diferente de outras provas?

MA: Claramente. Nós competimos muito e, como competimos num circuito mundial, os nossos adversários dos Jogos são os mesmos de todas as provas, mas o espírito e o ambiente envolvente daquela competição tornam-na diferente.

Até à prova não cheguei a estar com a comitiva olímpica, mas enquanto competia consegui sentir o tal “espírito olímpico”.

E isso ajudou-me porque a meio da prova, mesmo quando já percebia que ela me estava a correr mal, o sentimento que tinha era de dever cumprido. O meu objectivo era estar ali a competir e isso só por si era suficientemente recompensador. Estava satisfeito e feliz por ali estar!

Antes do tiro de partida, o meu treinador apenas me pediu que desse o meu melhor, que não pensasse em resultados e que fizesse a prova com a felicidade de estar a competir no maior palco desportivo do mundo. Foi nessas palavras que eu pensei durante a prova e foi esse sentimento que eu tive quando cruzei a meta.

Arraiolos a cruzar a meta do Rio | Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Com certeza que reviste a prova, agora achas que se cumpriu a máxima do triatlo que “não se ganham provas na natação, mas podem-se perder provas na natação”?

MA: Sem dúvida. Veja-se como foi a prova do João Pereira, saiu bastante atrás da água e ainda conseguiu acabar em 5º lugar. O normal no triatlo é que no segmento de ciclismo os atletas se agrupem e formem um grande grupo que acaba a discutir a vitória na corrida. Tenho a certeza que se isso tivesse acontecido na prova do Rio, tínhamos conseguido uma medalha pelo João Pereira.

No meu caso, a natação já é o segmento mais fraco, mas perdi demasiado tempo porque houve um grupo que desde o início teve interesse em fazer com que a natação fosse rápida para impedir a criação de um grande grupo no ciclismo. No primeiro km do ciclismo já estava completamente fora de prova.

fp: Os JO é uma prova diferente de todas as outras em termos de exposição mediática. Sentiste que essa exposição te motivou, pelas mensagens de apoio que foste recebendo ou, pelo contrário, transmitiu-te maior pressão?

MA: Eu sou um atleta muito relaxado, por vezes até de mais (risos) e não costumo sentir pressão antes das provas. E senti aquela como “mais uma prova”. Não tinha de provar nada a ninguém. O que tinha de provar era a mim mesmo e já o tinha feito: que conseguia estar nos Jogos Olímpicos.

O que senti muito foi o apoio…mais do que esperava. A quantidade de mensagens que recebi e a quantidade de pessoas que nos apoiaram durante a prova foi surpreendente porque não esperava tanto e isso fez-me ficar ainda mais feliz por estar lá.

Miguel Arraiolos e o Presidente da Câmara Municipal de Alpiarça, Mário Pereira | Fonte: noticiasdealpiarca.blogspot.com

fp: Depois do memorável ano de 2016, começaste 2017 a renovar com o teu clube – Benfica – até 2020. Colocava-te duas perguntas: em primeiro lugar, o que significa para ti esse voto de confiança e em segundo lugar que importância tem esta estabilidade na tua preparação para Tóquio?

MA: Tenho de fazer um esclarecimento. Eu renovei contrato até 2018, com mais 2 de opção. Saíram várias notícias que davam conta da renovação até 2020, mas o que é certo é que o contrato é válido até 2018 e depois poder-se-ão rever as cláusulas e, então prolongar até 2020.

O Benfica é o clube com o melhor projecto olímpico para o triatlo. Tem um grupo de elite e de jovens promessas muito bom e a aposta é muito forte.

No Benfica tenho tudo o que preciso para me preparar devidamente. Tenho gabinete médico, fisioterapia, piscinas, etc…tudo o que preciso do Benfica, eu tenho de um dia para o outro e isso é muito importante na minha preparação.

E depois é o Benfica, o maior clube de Portugal e do mundo, como sempre ouvi dizer (risos). Mesmo para obtenção de patrocínios, é muito vantajoso estar associado ao Benfica e a relação é muito boa.

E já que falo em patrocinadores, aproveito para agradecer à PROZIS, Under Armour e Zone3 a confiança que também eles depositaram em mim, continuando a apoiar-me.

Miguel Arraiolos renovou com o Benfica a 4 de Janeiro de 2017 | Foto: SL Benfica

fp: Percebendo já, claramente, quais são os teus objectivos daqui a 3 anos e meio. Quais são os teus objectivos mais imediatos, nessa tua caminhada para Tóquio?

MA: Um passo de cada vez. Primeiro há que garantir a qualificação olímpica, mas desta vez de forma mais confortável, se possível.

Não gostava de voltar a entrar no ano dos JO ainda com a qualificação em dúvida e ter de voltar a fazer muitas provas. Espero que em 2020 o meu foco seja única e exclusivamente a prova nos JO.

Depois há a participação em mundiais e europeus e atingir os meus melhores resultados em Taças do Mundo e ir subindo consistentemente nos rankings mundiais.

fp: Tu já referiste a Vanessa Fernandes, uma triatleta que é também uma grande referência do desporto nacional. Sentes que os sucessos dela abriram portas para ti e todos os que surgiram na cena internacional depois dela? E sobretudo, se a nível nacional ajudou a atrair mais praticantes para o triatlo (o número quase que quadriplicou nos últimos 10 anos)?

MA: Claramente! A maior parte das pessoas que hoje praticam triatlo, começaram por causa dela. Ela fez do triatlo uma modalidade conhecida em Portugal. O triatlo tem um antes e um depois da Vanessa.

Ela não é só uma referência para os jovens triatletas que estão agora a começar a competir no triatlo. Há muita gente que experimenta a modalidade de forma amadora por causa da Vanessa Fernandes.

E depois os sucessos da Vanessa também beneficiaram financeiramente a Federação. As suas vitórias fizeram aumentar bastante o número de federados, fazendo aumentar o financiamento da Federação via Instituto Português do Desporto e Juventude e via Comité Olímpico de Portugal.

fp: E tu, gostavas que daqui a uns anos os novos campeões de triatlo dissessem que escolheram o triatlo por causa do Miguel Arraiolos?

MA: Na minha rua já toda a gente pratica triatlo por causa de mim (risos).

O que eu gostava mesmo é que em Portugal houvesse pelo menos mais uma Vanessa Fernandes. A modalidade precisa de outra Vanessa para a ajudar a crescer ainda mais. O objectivo de todos os que estão envolvidos no triatlo é precisamente esse: contribuir, um bocadinho que seja, para o prestígio da modalidade.

fp: Há FairPlay no Triatlo?

MA: Há atletas um bocado malandros! Na natação em águas abertas há muito contacto e muitas vezes há um ou outro murro que aparece sem se perceber de onde veio, mas tudo isso é normal quando há muitos atletas à procura da melhor posição.

No final acaba por haver fairplay, porque sem adversários não havia competições. Eu gosto de chegar à meta e cumprimentar os adversários e sinto que toda a gente gosta de comunicar e partilhar os momentos, muitas vezes comuns, que se têm durante uma prova.

fp: Deixa-nos uma mensagem para os leitores do Fair Play e particularmente para os mais novos que te estão a ler e a ficar com vontade de começar a praticar triatlo.

MA: Quando se pensa em começar a praticar um desporto, por vezes há a indecisão se se vai experimentar o atletismo, a natação ou o ciclismo. No triatlo não é preciso decidir porque praticam as três. Por isso, venham para o triatlo que não se vão arrepender!

O triatlo é uma modalidade muito desafiante e quem experimenta gosta. Até pode não gostar muito de uma das disciplinas, mas em conjunto acaba por se divertir porque é um desafio terminar essa disciplina e iniciar a próxima. É como uma corrida de obstáculos.

Para a equipa do FairPlay, espero que venham todos experimentar o triatlo, pelo menos já têm quem faça a parte da natação (risos).

Allistair.jpg?fit=768%2C432&ssl=1
João BastosAgosto 18, 20167min0

A prova olímpica masculina de triatlo teve hoje lugar em Copacabana. Partiam para o percurso de 1,5km de natação, 40km de ciclismo e 10km de corrida 56 triatletas, dos quais 3 portugueses, onde alinhava o campeão olímpico e grande favorito, o britânico Alistair Brownlee.

Para enquadrar esta prova, importa fazer um preâmbulo referindo o grande ausente: o espanhol Javier Gomez Noya. O triatleta de 33 anos tem sido o crónico dominador das etapas da Taça da Mundo há largos anos e tinha uma malapata com os Jogos Olímpicos, depois de perder em Londres para o surpreendente (na altura) Alistair Brownlee, em de 24 anos superiorizando-se na parte final da corrida.

Pódio de 2012: Gomez (prata), Alistair (ouro) e Jonathan (bronze) | Fonte: Getty Images
Pódio de 2012: Gomez (prata), Alistair (ouro) e Jonathan (bronze) | Fonte: Getty Images

O espanhol acabou por se lesionar num treino a um mês dos Jogos Olímpicos e o aguardado duelo com o agora consagrado Brownlee ficou de parte. Para o espanhol fica, certamente, o amargo de boca de deter um palmarés recheado de títulos, onde falta o mais importante: o ouro olímpico (muito à imagem de Vanessa Fernandes, a maior ganhadora de etapas da Taça do Mundo de Triatlo).

Com o espanhol fora de jogo, era Alistair Brownlee o maior favorito na linha de partida na praia de Copacabana, mas eram vários os triatletas na posição de challenger. O primeiro era nada mais que o irmão mais novo de Alister, Jonathan Brownlee. Os irmãos britânicos iriam tentar a dobradinha, mas tinham de contar com a oposição da armada espanhola que mesmo sem Javier Gomez (3º do ranking mundial), trazia Mario Mola (número 1 do mundo) e Fernando Alarza (número 2), dois triatletas com aspirações legítimas ao ouro. Tinham de contar também com o sul africano Richard Murray e com os franceses Vincent Luis e Pierre Le Corre. Numa segunda linha de favoritos surgiam o mexicano Crisanto Grajales, os australianos Ryan Bailie e Aaron Royle (ambos com a responsabilidade de representar um país com fortes tradições na modalidade) e os portugueses João Pereira e João Silva.

Assim que foi dado o tiro de partida, os irmãos revelaram a sua estratégia: fragmentar o pelotão ao máximo logo na natação, afastando os melhores corredores do grupo do ciclismo. Para isso, contaram com a preciosa “ajuda” do seu colega de treino, o eslovaco Richard Varga que como é seu hábito imprimiu um ritmo forte na natação saindo em primeiro da água logo seguido dos britânicos.

Richard Varga imprimiu um ritmo avassalador na natação | Fonte: Triathlon.org
Richard Varga imprimiu um ritmo avassalador na natação | Fonte: Triathlon.org

O resultado desse primeiro segmento nadado a um ritmo insuportável para a maioria do pelotão foi a formação de vários grupos no ciclismo, sendo que o primeiro tinha 10 elementos, entre os quais Alistair e Jonathan, mas onde também figurava um triatleta perigoso para as aspirações da família Bronwlee, Vincent Luís.

O grupo perseguidor na verdade perseguiu pouco, uma vez que o único presente com pretensões à vitória era o espanhol Mario Mola que não teve grande ajuda no encalço dos da frente. Pouco atrás vinha o grupo de Pereira e Silva que contava também com Murray, Alarza e Grajales.

Alistair e Jonathan aproveitaram a falta de entendimento no segundo grupo e colocaram-se na frente do primeiro grupo continuando a imprimir um ritmo forte que fez a diferença entre grupos aumentar até 1 minuto e 15 segundos, estabilizando por altura do 15º quilómetro do ciclismo, aquando da junção do segundo com o terceiro grupo.

Depois da transição do ciclismo para a corrida, e à semelhança do que sucedera na primeira transição, Richard Varga foi o primeiro a começar a correr, mas rapidamente o trio composto por Alistair, Jonathan Brownlee e Vincent Luís se destacaram mantendo-se em trio até aos 2 km, altura em que os britânicos conseguiram descolar o francês que estoirou autenticamente, já que aos 2,5km já estava a ser ultrapassado pelo sul africano Henri Schoeman que vinha fazendo uma prova em subida.

Vincent Luis foi o único a seguir com os Brownlee na corrida | Fonte: Anthony Lefort
Vincent Luis foi o único a seguir com os Brownlee na corrida | Fonte: Anthony Lefort

Nesta altura, João Pereira destacava-se como o melhor português estando integrado num grupo de corrida de luxo com Mola, Murray e Bailie e vinha a recuperar posições aos triatletas que estavam no segmento de corrida a pagar caro a ousadia de terem seguido com os manos no ciclismo.

A 4 km do fim, e quando já começava a ser evidente que o ouro e a prata iriam ficar em família, Alistair mudou de ritmo para iniciar a sua “cavalgada” solitária para a linha de meta.

Ao cabo de 1 hora, 45 minutos e 1 segundo, Alistair Brownlee tornou-se no primeiro triatleta a sagrar-se bi-campeão olímpico, numa prova de sonho para os britânicos e particularmente para a família Brownlee. Antes de cruzar a meta ainda parou à espera do seu irmão que a cruzou logo de seguida. Jonathan tinha sido bronze há 4 anos e agora sobe um degrau no pódio. Os dois festejaram estendidos no chão completamente esgotados.

De forma algo surpreendente Henri Schoeman chegou ao bronze, cruzando a meta a 42 segundos do primeiro.

Os três medalhados no final da prova | Fonte: Twitter
Os três medalhados no final da prova | Fonte: Twitter

Depois de uma recuperação absolutamente épica conjuntamente com Richard Murray, João Pereira chegou ao 5º lugar depois de ter estado em 37º, ficando a apenas 9 segundos das medalhas! Para sempre ficará a dúvida se a prova não fosse lançada de forma tão rápida na natação e Pereira tivesse conseguido seguir no grupo da frente, se não chegaria às medalhas. É que o triatleta do Benfica realizou o segundo melhor percurso de corrida, só superado por Murray que foi mais forte no sprint pelo quarto lugar (há que ter em conta que Alistair parou antes de cruzar a meta). Para a história de Pereira e do triatlo português fica esta posição de diploma olímpico que é a melhor de sempre do triatlo masculino português.

João Pereira trouxe mais um diploma para Portugal | Fonte: JM
João Pereira trouxe mais um diploma para Portugal | Fonte: JM

João Silva, o único repetente olímpico do trio de portugueses (9º em Londres), seguiu sempre no grupo de ciclismo do companheiro de equipa, mas ao contrário de João Pereira, não conseguiu recuperar lugares na corrida ficando com o 35º lugar final.

João Silva foi o 35º a cortar a meta | Fonte: BeneditaFM
João Silva foi o 35º a cortar a meta | Fonte: BeneditaFM

Em relação a Miguel Arraiolos teve a prova bastante condicionada com o ritmo forte da natação, saindo no último grupo do ciclismo. Ainda assim, fez uma prova em constante recuperação indo do 52º até ao 44º lugar final. Refira-se que Arraiolos teve de fazer mais provas da Taça do Mundo em 2015 e 2016 para garantir os pontos necessários para chegar ao Rio (ao contrários dos triatletas mais cotados), tendo tido duas épocas de grande desgaste.

Miguel Arraiolos estreou-se em Jogos Olímpicos
Miguel Arraiolos estreou-se em Jogos Olímpicos

Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS