Arquivo de Sara Oliveira - Fair Play

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João BastosMarço 23, 201712min0

No país à beira-mar plantado, frequentemente se pergunta porque a natação não é uma das modalidades com resultados de maior destaque a nível internacional. Talvez por isso mesmo, porque os 1000 km de praia afastam os portugueses da piscina. Mas ultimamente surgiu uma tendência que pode ser a chave para o caminho para a glória da natação portuguesa. Será que encontramos a nossa prova de eleição?

A natação não é um desporto em que haja uma especialização promovida por caracteres genéticos, anatómicos ou morfológicos, tão evidente como, por exemplo, no atletismo, onde os jamaicanos dominam os sprints, os quenianos e as etíopes o fundo e os polacos os lançamentos.

Mas, também na natação, há algumas provas, distâncias ou estilos que se identificam mais com determinada nação. Por exemplo, dos últimos 6 recordistas mundiais dos 200 metros bruços masculinos em piscina longa, 3 são japoneses; a Austrália já deu ao mundo especialistas em provas de livres, como Ian Thorpe, Grant Hackett, Lisbeth Trickett, Dawn Fraser, Shane Gould, Kieren Perkins, ou mais recentemente Cate Campbell, Cameron McEvoy, James Magnussen e Kyle Chalmers; os americanos…bom, os americanos são bons em tudo, mas repare na progressão do record mundial dos 100 metros costas masculinos, nos últimos 40 anos:

Fonte: Fair Play

O caso Português

No caso português, houve uma prova em particular que nos deu os melhores resultados internacionais: os 200 metros bruços. Foi nesta prova que a natação portuguesa chegou à sua única final olímpica, quando em Los Angeles’84, Alexandre Yokochi foi 7º classificado na distância.

Ainda hoje o feito olímpico de Yokochi é tido como o momento mais alto da natação lusa, mas o nadador do Sport Lisboa e Benfica não ficou por aí. Foi vice-campeão europeu de juniores e de seniores e campeão mundial universitário, sempre na mesma prova: 200 metros bruços.

Yokochi terminou a sua carreira após os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992, mas Portugal não esperou muito pelo próximo dominador do estilo de bruços. Com apenas 18 anos, José Couto qualificou-se para os Jogos Olímpicos de Atlanta’96.

Um dos pontos altos da carreira de Couto viria a acontecer em casa, quando nos Europeus de Piscina Curta de 1999, disputados na piscina do Jamor, adaptada para o efeito, o nadador do Sporting Clube de Portugal sagrou-se vice-campeão europeu dos 200 metros bruços, dois dias depois de ter obtido o bronze nos 100 metros da mesma técnica.

A segunda metade da sua prova de 200 metros foi absolutamente excepcional:

Depois de um período mais conturbado da sua carreira, que culminaria com a troca do Sporting pelo Clube de Natação da Amadora, Couto volta a brilhar num palco internacional. Foi em 2002, desta vez em Moscovo e nos Mundiais (também de piscina curta), que o brucista português se sagrou vice-campeão do mundo dos 50 metros bruços, obtendo assim medalhas internacionais nas três distâncias da técnica de bruços.

José Couto terminou a sua carreira em 2004, nos Jogos Olímpicos de Atenas, os mesmos para os quais a jovem Diana Gomes, de apenas 14 anos, se apurou para nadar os 100 e os 200 metros bruços.

Um ano depois, nos Europeus de Juniores de Budapeste, Diana sagra-se bi-campeã da Europa (nos 100 e 200 metros bruços), juntando mais um bronze, nos 50 metros bruços.

Julgava-se estar encontrado um dos maiores, se não o maior talento de todos os tempos da natação portuguesa, mas lamentavelmente Diana Gomes estagnou a sua progressão e nunca conseguiu ter no escalão de seniores o desempenho que havia tido em júnior. Apesar de hoje ainda só ter 27 anos, a sua última competição internacional foi em Pequim’08, aos 19…

Os campeonatos europeus de juniores de 2005 foram memoráveis para a natação portuguesa. Para além de uma delegação record de 18 nadadores, Portugal trouxe de Budapeste 8 medalhas, ocupando o 8º lugar do medalheiro. Para além das três medalhas de Diana, subiram ao pódio Tiago Venâncio, Pedro Oliveira e Carlos Almeida, este último na prova de 200 metros estilos (foi, portanto, o propulsor da tendência que desenvolveremos mais à frente), mas foi no estilo de bruços que mais se notabilizou no escalão de seniores.

Carlos Almeida rumou aos EUA, em 2010, para nadar pela Universidade de Louisville, e foi representando a sua Universidade que conseguiu um feito inédito (e ainda único) para a natação portuguesa. Em 2012 Almeida sagrou-se campeão universitário dos EUA na prova de 200 jardas (a piscina curta dos americanos) bruços no decorrer da 1ª divisão dos NCAA (National Collegiate Athletic Association).

O nadador que, em Portugal, representou o Clube de Natação da Amadora, o Futebol Clube do Porto e o Estrelas de São João de Brito retirou-se no final do ano de 2014 deixando como legado recordes nacionais em todas as distâncias de bruços, e em ambas as piscinas (curta e longa). Recordes esses que ainda vigoram e que parecem estar para durar.

Mas há vida para além de bruços

Indubitavelmente, foi nos 200 metros bruços que Portugal escreveu as páginas mais douradas da sua História na natação mundial, mas há outra prova que há já vários anos tem tido excelentes executantes, em ambos os géneros, o que se tem traduzido numa continuada evolução dos respectivos recordes nacionais: os 200 metros mariposa.

Nas senhoras, as únicas 4 classificações no top-20 em Jogos Olímpicos foram precisamente nessa prova: Sandra Neves (18ª) em Seul’88, Joana Arantes (19ª) em Barcelona’92, Raquel Felgueiras (20ª) em Atenas’2004 e Sara Oliveira (19ª) em Pequim’2008. A nível de juniores, o nosso primeiro (e único, durante 10 anos) título europeu foi obtido por Ana Francisco, em Genebra’95…nos 200 mariposa, claro está.

Mas também nos homens, esta tem sido uma prova com um excelente nível em Portugal. Considerando só o século XXI, o record nacional absoluto dos 200 metros mariposa evoluiu mais de 5 segundos em piscina olímpica e mais de 6 em piscina curta. Tudo graças a nadadores como Pedro Oliveira, Diogo Carvalho, Duarte Mourão, Simão Morgado e Luís Monteiro, aos quais se podem juntar os nomes de Miguel Nascimento, Nuno Quintanilha, João Araújo ou Fábio Pereira, que muito contribuíram (e contribuem) para o aumento da competitividade interna da prova.

Mas actualmente, em Portugal nada-se com estilo(s)

O historial da natação portuguesa revela-nos que as características antropométricas e biomecânicas médias dos nadadores portugueses favorecem o desenvolvimento das chamadas técnicas alternadas (mariposa e bruços) e, nesse sentido, há outra especialidade onde os nadadores podem (e estão a) dar cartas: as provas de estilos, sobretudo os 200 metros estilos.

Com efeito, as glórias da natação nacional mais recentes têm vindo pela mão de Diogo Carvalho e Alexis Santos, com Victoria Kaminskaya a aproximar-se cada vez mais da elite internacional.

Diogo Carvalho é um dos nadadores com maior currículo da natação portuguesa. Os pontos mais altos da sua carreira são as duas medalhas de bronze nos Europeus de Piscina Curta, ambas na prova de 200 metros estilos, nas edições de Herning (2013) e Netanya (2015).

Carvalho tem uma malapata com os Jogos Olímpicos, onde já ficou às portas das meias-finais nas três edições em que participou (Pequim, Londres e Rio de Janeiro). Em Tóquio poderá ter a derradeira oportunidade de quebrar o enguiço e conquistar uma posição mais consentânea com a sua qualidade e estatuto.

O nadador aveirense sempre foi um excelente nadador de estilos nos escalões de formação, mas parecia mais um destinado a cruzar-se com a mariposa. O certo é que há 10 anos bateu o seu primeiro record nacional absoluto dos 200 metros estilos e, desde então, já o fez evoluir 14 vezes, entre piscina curta e longa. Foi, inclusivamente o primeiro português a nadar abaixo dos 2 minutos, em piscina olímpica.

Foto: FPN

Alexis Santos começou a notabilizar-se como costista. E continua a dar boa conta de si na técnica de costas a nível internacional, mas definitivamente é a estilos que se projecta como um dos melhores nadadores do planeta.

Depois de Yokochi, é Alexis que detém a melhor classificação da natação pura portuguesa em Jogos Olímpicos. O sportinguista teve um ano de 2016 absolutamente memorável chegando à meia-final dos 200 metros estilos no Rio – na sua estreia olímpica -, três meses depois de conquistar a medalha de bronze na mesma prova, nos Europeus de Piscina Longa de Londres.

Tem sido um privilégio para os adeptos da natação poder vivenciar esta espécie de confronto Phelps-Lochte à portuguesa, entre Alexis e Diogo. Os dois têm trilhado um caminho novo para a natação portuguesa. Basta ter em consideração que pela primeira vez Portugal teve dois nadadores qualificados para os Jogos Olímpicos com o mínimo A na mesma prova, e que esta rivalidade amiga tem feito baixar substancialmente os recordes nacionais das distâncias de estilos (100, 200 e 400 metros estilos).

Mas também no feminino há uma referência que, cada vez mais, se assume no panorama internacional. Victoria Kaminskaya, ao contrário de Diogo e Alexis, sempre foi uma especialista “pura e dura” das provas de estilos, e foi no escalão de júnior que começou a contestar a supremacia da nadadora Nádia Vieira, até então intocável nas distâncias do “medley”.

Com uma evolução contínua e ininterrupta, Victoria tem levado as melhores marcas nacionais de estilos para níveis inimagináveis, para a realidade portuguesa.

Presença assídua em todas as competições internacionais, desde 2012, a nadadora de 21 anos, nascida na Rússia, é, para já, a 12ª melhor mundial do ano aos 400 metros estilos em piscina longa com o seu novo record nacional de 4:42.39 estabelecido na Flandres Speedo Cup, numa prova em que só foi batida pela recordista do mundo Katinka Hosszu.

Mas, apesar de estarmos perante três nadadores de excelência que ainda podem vir a atingir patamares superiores, não estão desacompanhados no panorama nacional, o que são perspectivas animadoras para o que o nosso país pode evoluir nesta especialidade, em concreto.

O jovem Gabriel Lopes está cada vez mais perto do nível de Alexis e Diogo. Na sua primeira época de sénior (2015/2016), o nadador do Clube Desportivo Lousanense experimentou uma excelente evolução, ficando muito próximo de ser o terceiro nadador português a baixar da barreira dos 2 minutos aos 200 metros estilos.

Esta época já deu boas indicações, nomeadamente nos mundiais de curta de Windsor, e recebeu, já depois dessa competição, um companheiro de treino de luxo: Diogo Carvalho.

João Vital (18 anos) e Tomás Veloso (21 anos) são também jovens “estilistas” com aspirações legítimas a marcar presença na capital japonesa em 2020. Mais vocacionados para a prova mais longa (400 metros), vêm paulatinamente melhorando as suas marcas e cimentando o seu estatuto internacional, sobretudo Vital que em 2016, por três vezes baixou o record júnior dos 400 metros estilos em piscina longa, que era pertença de Alexis Santos, e em piscina curta tem-se aproximado consistentemente da barreira dos 4’10.

Perante as evidências, é constatável que em Portugal há condições competitivas para evoluir uma especialidade que tem a vantagem de não ser especializada. O facto de termos bons nadadores de estilos significa, também, que temos nadadores com potencial para evoluir outras técnicas: Alexis Santos é recordista nacional dos 50 metros costas, Diogo Carvalho é recordista nacional dos 100 metros mariposa, Victoria Kaminskaya é a segunda melhor nadadora de sempre dos 200 metros bruços, assim como Gabriel Lopes é o segundo melhor dos 100 metros costas.

O potencial está aí e entusiasma qualquer adepto da modalidade que deseja ver Portugal melhor cotado entre a elite mundial. Mas o potencial por si só não chega. Há que capitalizar o talento desta geração e pôr Portugal a nadar com estilo(s).

O presente artigo foi realizado no âmbito da parceria que o Fair Play estabeleceu com o Sapo24, e a sua publicação original pode ser consultada aqui.

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João BastosFevereiro 22, 201715min5

A natação é o terceiro desporto com maior número de praticantes federados em Portugal, mas para o grande público não tem sido sinónimo de feitos extraordinários a nível internacional. O Fair Play foi tentar perceber o que falta à natação portuguesa para estar ao nível da elite mundial

Bessone Basto, Alexandre Yokochi, José Couto, Nuno Laurentino, Diogo Carvalho ou Alexis Santos são nomes de nadadores portugueses mais ou menos conhecidos do público menos familiarizado com a natação nacional.

Eles (e outros) foram responsáveis pelas páginas mais douradas da História da natação portuguesa a nível internacional, contribuindo para o “nosso” palmarés com finais em Jogos Olímpicos e pódios em campeonatos da Europa.

Mas apesar destes feitos, a natação portuguesa ainda está longe de ter o sucesso internacional de outras modalidades que até têm menor expressão em termos de praticantes, como o atletismo, judo, canoagem ou triatlo.

De facto, é unânime afirmar que ainda há um longo caminho a percorrer nesta modalidade para atingir o topo e por isso o Fair Play tira o retrato à natação portuguesa à luz de três critérios, tentando situar o estado da arte de um dos desportos mais globalizados do Planeta.

É claro que há muitos outros critérios que podem e devem ser objecto de análise no sentido de perceber se estamos a evoluir ou a regredir, tais como as classificações internacionais, o número de mínimos obtidos para as grandes competições mundiais, o aumento da exigência correlacionado com o número de participantes em campeonatos nacionais, etc…

Mas escolhemos outros três, todos relacionados com as nossas melhores marcas: 1) As diferenças dos recordes nacionais para os recordes do mundo, 2) a evolução dos recordes nacionais vs evolução dos recordes do mundo e 3) em que ano os recordes nacionais seriam recordes mundiais.

Para estimar a evolução, preferimos fazer este exercício por comparação entre os recordes nacionais e mundiais que vigoravam no dia 1 de Janeiro do ano 2000 e os que vigoram no dia da publicação deste artigo (22 de Fevereiro de 2017).

Nesta análise apenas vamos considerar as 16 provas do calendário olímpico (e em piscina longa, obviamente), porque por serem nadadas em contexto de JO confere-lhes maior competitividade.

Qual a evolução da valia dos recordes nacionais face aos recordes do mundo?

Começando pelo sector masculino, tentamos analisar a diferença entre os recordes nacionais para os recordes mundiais nos dois períodos em observação.

Do lado esquerdo da tabela seguinte encontramos os recordes nacionais (a preto) e mundiais (a azul) no dia 1 de Janeiro de 2000. Do lado direito os mesmos recordes mas nos dias de hoje.

Diferença entre os recordes nacionais e mundiais no sector masculino | Fonte: Fair Play

As percentagens significam a valia do record nacional quando comparado com o equivalente record mundial. Pegando no exemplo de uma prova de 100 metros (que facilita a explicação quando extrapolada para a sua percentagem), o record nacional dos 100 livres que vigorava no ano 2000 – Nuno Laurentino, com 51.33 – equivalia a 93,92% do record mundial nesse ano – Alexander Popov, com 48.21.

“Trocando por miúdos”, se Popov e Laurentino nadassem lado a lado (se estiverem a ler, fica o desafio. Ainda hoje seria muito prazenteiro de assistir) e registassem aqueles tempos, quando o russo tocasse na parede, Laurentino estaria exactamente nos 93,92 metros, faltando 6,08 metros para a concluir.

Já se Artur Costa desafiasse Kieren Perkins nos 1500 metros livres, afastar-se-ia do australiano 5,80 metros em cada 100, faltando-lhe completar 87 metros no momento em que Perkins tocasse na parede.

Ultrapassada a explicação, vamos à observação.

E desta observação, salta logo à vista que (e apenas considerando estes dois períodos), o nadador português que mais se aproximou de um record mundial foi José Couto nos 100 metros bruços, com um tempo que lhe valeu 96,65% do record do mundo do belga Deburghgraeve. E para além de Couto, mais nenhum nadador ultrapassou a barreira dos 96%.

Mas o que mais importa analisar nestes dados é a capacidade dos recordes nacionais evoluírem como um conjunto, significando isso que a natação portuguesa estará mais longe ou mais perto do nível internacional.

E com base nestes dados, concluímos que o nível da elite masculina portuguesa está mais próxima da elite masculina internacional.

Mas muito pouco! Com efeito, a média das performances nacionais no ano 2000 era de 94,25% face aos recordes do mundo. Em 2017 é de 94,54%. Ou seja, a natação portuguesa no sector masculino evoluiu 0,29 pontos percentuais no século XXI face à natação internacional.

Relativamente às senhoras, é notório que ainda há mais trabalho a fazer no sentido de alcançar a elite mundial do que nos homens, se não, vejamos:

Diferença entre os recordes nacionais e mundiais no sector feminino | Fonte: Fair Play

Ao contrário dos homens, o record nacional que mais se aproxima do record mundial é “actual” – as aspas estão a ladear a palavra porque o record nacional dos 100 metros mariposa da portista Sara Oliveira já data de 2010. De resto, quando Sara estabeleceu os 58.76, o record mundial era de 56.06. Ou seja, a nossa mariposista chegou a nadar em 95,4% do record do mundo que já em 2010 pertencia a Sarah Sjoström.

Repare-se que a nossa melhor performance feminina, fica abaixo da média de performances masculinas em 2017. Isso é sintomático de uma realidade que também é observável nas convocatórias para as grandes competições internacionais, em que invariavelmente são convocadas menos nadadoras do que nadadores para representar a selecção nacional: o nível da natação feminina portuguesa é mais baixo que o nível da natação masculina.

E como está a evoluir?

Existindo esta realidade, há que perceber se ela tende a ser corrigida ou agravada, tentando perceber se a nossa elite feminina – para além de estar a progredir – progride a um ritmo superior à elite masculina.

A verdade é que no virar do milénio a natação portuguesa “valia” 92,66% da natação mundial, ao passo que no dia 22 de Fevereiro de 2017 (hoje, para quem está a ler o artigo no dia da sua publicação), a natação feminina tem uma valia média de 92,74%.

Isto é, as nossas nadadoras estão-se a aproximar das melhores nadadoras do mundo, mas de uma forma muito ténue (0,08 pp) e a uma taxa de evolução 3,2 vezes inferior à dos homens.

Um dado positivo que não vem plasmado na tabela é o facto de no ano 2000 e nos anos seguintes, na natação feminina haver provas que estavam estagnadas há vários anos e hoje isso não acontecer.

Exemplo maior é o record nacional dos 800 metros livres de Alexandra Silva, que foi estabelecido em 1983 e no ano 2000 ainda vigorava. Também o record nacional dos 200 costas de Ana Barros foi estabelecido em 1993 e só viria a ser batido em 2014.

Hoje é notório que a natação feminina em Portugal evolui mais rapidamente e os recordes são batidos com maior cadência. Mas isso veremos em seguida.

Evolução dos recordes no século XXI

Outro critério que aqui abordamos é a evolução dos recordes nacionais e mundiais.

Ou seja, já analisamos as diferenças entre os recordes nacionais e mundiais, mas há que perceber as tendências das duas realidades. Para que se cumpra o óbvio objectivo da natação portuguesa se aproximar do nível internacional, é preciso que os nossos recordes evoluam mais rápido que os recordes do mundo.

Pode parecer redundante esta análise, uma vez que já concluímos que os nossos recordes estão mais próximos dos recordes mundiais, mas este critério traz um factor de correcção importante nas provas em que o record português evoluiu bastante mas o record mundial evoluiu mais ainda (em proporção).

Nesse caso – segundo o primeiro critério – ficamos mais longe, depreciando a média. Com o critério que agora vamos seguir, o exemplo referido acaba a valorizar a média de progressão.

Evolução dos recordes nacionais e mundiais masculinos no século XXI | Fonte: Fair Play

Neste critério, a probabilidade de existir um outlier (observação muito afastada das demais) é grande, o que pode desvirtuar a análise. Basta que apareça um talento absolutamente fora do comum (como Adam Peaty nos 100 bruços), ou que em 2000 o record fosse pertença de um nadador que não era um verdadeiro especialista da prova (Nuno Laurentino foi um especialista dos 50 e 100 costas, mas “a perninha” que fazia aos 200 costas, 100 livres e 200 estilos chegava para ser recordista nacional também nessas provas).

Mas feito o interlúdio, analisemos este critério que até é animador para as nossas cores, ou não se verificasse logo que a maior evolução da tabela é de um record português (6,2% de Nuno Laurentino para Diogo Carvalho nos 200 estilos), enquanto o que menos evoluiu é um record do mundo (0,77% de Ian Thorpe para Paul Biedermann nos 400 livres).

Outra observação animadora é o facto de nas 16 provas consideradas, os portugueses registarem uma evolução maior que os melhores do mundo em 10 provas.

Relativamente às médias de evolução, aqui sim, encontramos valores muito semelhantes aos que encontramos nas médias das diferenças percentuais. Segundo este critério, a natação mundial masculina evoluiu 3,31% no século XXI, ao passo que a natação portuguesa melhorou 3,66%.

Ou seja, estamos a melhorar os nossos recordes a um ritmo de 0,35 p.p. superior à evolução da natação mundial.

Evolução dos recordes nacionais e mundiais femininos no século XXI | Fonte: Fair Play

Relativamente ao sector feminino, há que fazer a ressalva que os dados nacionais estão deflacionados pelas estafetas. Sobretudo pela estafeta de 4×200 livres cujo actual record nacional absoluto é de uma equipa júnior.

Mais uma vez é Sara Oliveira e os seus 58.78 dos 100 mariposa que mais se destacam, chegando quase aos 7% de evolução, face a Ana Francisco. Esta evolução é tanto mais notável porque Ana Francisco não era uma nadadora “qualquer”, tendo batido por 7 vezes este record ao longo da sua carreira.

O “problema” do record nacional de Sara Oliveira é que parece que está para ficar mais alguns anos…mas isso é outra conversa.

No sector feminino, a distribuição da evolução dos máximos é mais parcimoniosa entre nacionais e mundiais, do que no sector masculino. Em 8 provas os nossos recordes evoluíram mais do que os recordes mundiais e em 8 provas as melhores marcas do mundo evoluíram melhor que as melhores marcas portuguesas.

Relativamente à média, as portuguesas evoluíram 3,37% no mesmo período em que o mundo evoluiu 3,28%.

A conclusão é semelhante à do critério da diferença (o que indica que em termos médios, os dois estão perfeitamente alinhados): a natação feminina portuguesa não está estagnada, mas está a evoluir menos que a natação masculina.

Para o espaço que a natação feminina tem de fechar para a elite mundial, é desejável que os recordes nacionais melhorem mais do que apenas 0,09 pontos percentuais acima da evolução dos recordes mundiais.

Mas também neste ponto há uma vantagem para a natação feminina em relação à masculina. É que dos recordistas masculinos apenas Diogo Carvalho e Alexis Santos estão no activo (Luís Vaz também, mas tem-se apresentado longe do seu melhor). Já nas senhoras, Diana Durães, Tamila Holub e Victoria Kaminskaya têm pulverizado sistematicamente os seus recordes, sendo que também Francisca Azevedo, Ana Leite e Ana Rodrigues estão aí na luta por melhorar os máximos que já são seus.

Daqui a quanto tempo teremos um recordista do mundo?

O terceiro dado que aqui tentaremos analisar relaciona-se com a localização temporal da natação portuguesa no contexto desportivo mundial. Ou seja, vamos tentar perceber em quantos anos o nível nacional está atrasado em relação ao nível internacional.

Para tal, vamos analisar um parâmetro muito simples: perceber retrospectivamente em que ano é que os recordes nacionais seriam recordes mundiais e daí tirar a conclusão sobre os anos de atraso que levamos em relação ao topo.

Anos de atraso para o record do mundo | Fonte: Fair Play

Este é, de longe, o item mais desmoralizante!

À frente das marcas estão os anos em que o respectivo record nacional seria record mundial. Dos actuais máximos portugueses, o que seria máximo mundial mais recente é o dos 100 bruços masculinos de Carlos Almeida que é melhor que o tempo estabelecido em 1991 pelo húngaro Norbert Rózsa. 26 anos já passaram!

Mais! Ainda temos tempos que são piores que o primeiro máximo mundial registado (estafeta feminina 4×200 metros livres – o primeiro record mundial oficial é de 1982, com 8:02.27).

E pior ainda, perceber que neste critério estamos (muito) pior que no início do século!

No ano 2000 o atraso da natação masculina era de 27,31 anos e o da feminina de 27,57. Em 2017, o atraso da natação masculina é de 34,69 anos e da natação feminina de 40,47. Juntando os dois sectores, levamos um atraso de 37,58 anos para a elite mundial.

O mesmo que dizer que a natação portuguesa está agora a chegar ao ano de 1980!

Bom, mas agora que já fizemos soar os alarmes, é importante contextualizar estes números. É que nos finais dos anos 70 e no início da década de 80 a natação internacional viveu um período de grande evolução.

A regulamentação muito liberal (não havia o limite dos 15 metros para o percurso subaquático, por exemplo), aliada ao boom tecnológico que trouxe piscinas mais “rápidas” e ao período de guerra fria que deu a conhecer ao mundo as “vitaminadas” alemãs de leste (a título de exemplo, Kornelia Ender estabeleceu como record do mundo dos 100 livres o tempo de 58.25 em 1973. 3 anos depois a mesma Ender já fazia 55.65) e os portentosos soviéticos levaram a que nesse período os recordes do mundo caíssem com uma velocidade alucinante.

Um período que só encontrou paralelo em 2008/2009 aquando da introdução dos fatos de poliuretano (entretanto banidos).

A natação portuguesa está neste momento ao nível desse período turbulento. Uma vez ultrapassada essa zona de turbulência, esta comparação vai melhorar substancialmente, uma vez que nos anos 90 grande parte dos recordes mundiais ficaram estacionários durante muito tempo.

Continuando no exemplo dos 100 livres femininos, depois das nadadores da RDA, o record mundial precisou de 18 anos para baixar 1 segundo.

Mas afinal, está a natação portuguesa a aproximar-se da elite mundial?

Depois de analisar os dados que aqui transmitimos, a conclusão parece óbvia: a natação portuguesa ainda tem de fazer um caminho das pedras muito longo para poder chegar ao topo mundial.

Os números não mentem, mas no final do dia não são os números que nadam.

Uma coisa podemos ter a certeza: o grau de profissionalismo com que a natação é trabalhada em Portugal é desmesuradamente superior ao que assistíamos há alguns (não muitos) anos.

Já é raro haver populações no nosso país sem acesso a uma piscina; a geração de técnicos que está a tomar conta dos destinos da natação portuguesa é altamente qualificada e absolutamente devota à natação, funcionando permanentemente em rede com a comunidade internacional; nas autarquias ainda há muito trabalho a fazer no sentido de compreender que as escolas de natação só podem fazer sentido se coordenadas pelos clubes; e obviamente a política desportiva nacional tem de ter estratégia. Os sucessivos governos teimam em perceber que quanto menos investem, mais dinheiro gastam!

No meio deste quadro, obviamente que o contexto não é o mais favorável, mas havendo piscinas, havendo profissionais de excelência, havendo nadadores determinados…por que não havemos de acreditar que um dia venhamos a inscrever o nome de Portugal na lista de recordes do mundo?!

Porque numa coisa os nadadores portugueses são melhores que os melhores do mundo: no amor e na dedicação à sua modalidade e essa é a melhor casa de partida para o projecto da natação portuguesa.

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João BastosNovembro 12, 20167min0

A época desportiva 2016/2017 de natação já arrancou e algumas das mais importantes competições são já em Dezembro. O FairPlay faz a sua análise aos campeonatos nacionais de clubes da 1ª à 4ª divisão.

O primeiro ciclo de campeonatos nacionais começa já este mês com o Campeonato Nacional de Clubes das 3ª e 4ª divisões, seguindo-se o Campeonato Nacional de Clubes das 1ª e 2ª divisões, em Dezembro.

Os campeonatos nacionais de clubes (quer das principais divisões, quer das divisões secundárias) são sempre motivo de grande interesse na fase inicial da época. A competição colectiva num desporto predominantemente individual promove sempre momentos de superação e abnegação dos nadadores.

Derby é sempre derby

Na primeira divisão masculina, o Sporting Clube de Portugal irá tentar a sexta vitória consecutiva. Se nos últimos dois anos, a diferença para o Estrelas de S. João de Brito foi mínima, este ano prevê-se que o Sport Lisboa e Benfica, campeão da 2ª divisão da época passada, seja o principal adversário dos rivais da 2ª circular.

Apesar do previsível equilíbrio, o Sporting com uma equipa liderada por Alexis Santos, bastante bem secundado por Pedro Pinotes, Igor Mogne, João Vital, Miguel Cruchinho, Guilherme Dias, Mário Bonança e agora também Guilherme Pina e Francisco Santos parte como favorito. Para além de ser a equipa penta-campeã nacional, apenas perdeu Alexandre Ribas e apresenta três recém-olímpicos (Alexis – Portugal, Pinotes – Angola e Mogne – Moçambique).

Foto: Facebook Lfnunes
Foto: Facebook Lfnunes

O Estrelas perdeu Miguel Nascimento para o Benfica, Pedro Oliveira terminou a carreira e também Artiom Poliakov abandonou o clube, mas reforçou-se com dois jovens seniores de primeiro ano, ambos campeões nacionais de juniores – Frederico Riachos e António Carriço – que se juntam aos experientes João Gigante, Diogo Sousa, Hugo Ribeiro e Nuno Rola e que tentarão disputar o título como nos últimos dois anos, mas desta feita com outro desfecho.

O Benfica vem intrometer-se nas contas pelo título e depois de vencer a 2ª divisão em 2015 apresenta-se como um sério candidato ao título da 1ª em 2016. Miguel Nascimento e Rafael Gil são reforços de peso que se juntam a nomes como Luiz Pereira, João Santos ou André Farinha.

O FCPorto, Náutico de Coimbra, Famalicão, SFUAP e Colégio de Monte Maior prometem uma disputa muito equilibrada que terá de terminar de forma inglória para duas das equipas que descerão à 2ª divisão.

Do lado feminino, a equipa do FCP faz jus ao cognome da sua cidade e está invicta há 8 anos!! Porém, este ano sofreu um forte revés com a saídas de Diana Durães (para o Benfica) e Adriana Castro (Aquático Pacense). Ainda assim com as experientes Sara Oliveira e Marta Abreu (que há anos se dedicam em exclusivo a esta competição) e as jovens Maria Cabral, Ana Rita Faria, Paula Oliveira e Maria Teresa Amorim pode ser suficiente para chegar ao eneacampeonato.

Foto: FCP
Foto: Facebook Lfnunes

Porém terão de superar a jovem equipa do Sport Algés e Dafundo que há dois anos ameaça a hegemonia do FCP. Com Francisca Azevedo, Rita Frischknecht, Madalena Azevedo, Raquel Pereira e Bárbara Barata, a equipa algesina tem argumentos suficientes para chegar ao ceptro.

O Sporting, à semelhança do ano passado, é a favorita ao lugar mais baixo do pódio. Mafalda Beleza, Inês Fernandes, as irmãs Beatriz e Raquel Ranito, Sofia Dionísio e Catarina Mestre compõem uma equipa bastante homogénea.

A equipa campeã da 2ª divisão do ano passado – Tavira – e a Desportiva de Viana apresentaram no ano passado várias nadadoras “importadas” do nosso país vizinho. Se mantiverem a aposta deverão ocupar os 4º e 5º lugares ou mesmo ameaçarem o pódio do Sporting. O Ginásio de Vila Real liderado pela internacional por Portugal Ana Sofia Leite e pela olímpica por Angola Ana Sofia Nóbrega estão na corrida pelos lugares entre o 4º e o 6º lugar, ficando o Galitos de Aveiro e a SFUAP a lutar para fugir aos lugares de despromoção.

À procura do convívio dos grandes

Olhando para o alinhamento e também para a pré-época, salta à vista um claro favorito na 2ª divisão masculina: o Clube de Futebol Os Belenenses. Com uma equipa que em 2015 ficou a apenas 2 pontos da subida reforçada este ano por Nuno Quintanilha, vindo do Colégio Vasco da Gama, a equipa do Restelo apresenta argumentos para ser campeão da 2ª divisão sem sobressaltos.

Nuno Quintanilha trocou o CGV pelo CFB | Foto: NadarCFB
Nuno Quintanilha trocou o CVG pelo CFB | Foto: NadarCFB

Para acompanhar os azuis na subida, o Algés surge como o candidato melhor posicionado, mesmo perdendo João Gil. Com uma equipa jovem, promete obter boas classificações nas provas de mariposa, estilos e provas curtas de livres.

O Louletano, acabado de vir da 3ª divisão, o Sporting de Braga e o Galitos de Aveiro do olímpico Diogo Carvalho podem baralhar as contas.

Já na 2ª divisão feminina os prognósticos são mais reservados. O Sporting de Braga surge na linha da frente com Tamila Holub a liderar a equipa que foi reforçada com Maria Madalena Silva, mas o Benfica que conta agora com Diana Durães e Jéssica Brito pode passar da primeira equipa acima da linha de água em 2015 para uma posição de subida em 2016.

SCB é o grande favorito na 2ª divisão feminina | Foto: Facebook Lfnunes
SCB é favorito na 2ª divisão feminina | Foto: Facebook Lfnunes

Também Os Belenenses parte em igualdade de circunstâncias com Braga e Benfica no que respeita às aspirações de subida. Ana Beatriz Pereira vem fortalecer uma equipa onde pontificam Jéssica Vieira, Laura Rodrigues, Lisa Soares e Rita Costa.

Marinha Grande, Académica de Coimbra, Fluvial Portuense e Aquático Pacense também estarão na luta por um dos dois lugares elegíveis para a subida.

A um passo de entrar nas 24 melhores equipas

Com a repescagem de duas equipas para a 2ª divisão, a 3ª divisão masculina reveste-se de maior incerteza. Clube de Natação de Torres Novas, Náutico da Marinha Grande, GesLoures e Colégio de Santa Maria de Lamas parecem estar na pole-position para ocupar as 4 posições de acesso à divisão secundária.

Do lado feminino o Náutico de Miranda do Corvo e o Louletano deverão voltar à 2ª divisão depois de terem descido no ano transacto. Deverão ter a companhia do Colégio de Monte Maior e da Associação Estamos Juntos.

A imprevisibilidade do primeiro degrau

Na divisão mais baixa normalmente participam equipas de um nível competitivo mais elevado que competem pela primeira vez o formato de clubes. Assim é nesta edição no sector feminino. Mas analisando antes a competição masculina o equilíbrio é a nota dominante. O Ginásio de Vila Real parte na pole position com a chegada de Alexandre Ribas do Sporting que com Koen Westink darão ao clube transmontano seis boas classificações. Náutico de Miranda do Corvo, Palmela, Desportivo de Gouveia, Viana e Fafe deverão disputar os três lugares restantes.

No sector feminino, o Estrelas de S. João de Brito da olímpica Victoria Kaminskaya não deverá ter problemas em Abrantes (onde se disputam os Campeonatos). Também vindos da fase de qualificação o Clube de Natação de Rio Maior e o Clube de Propaganda da Natação devem acompanhar a equipa de Alvalade até à 3ª divisão. Naval Setubalense, Torres Novas e Bairro dos Anjos deverão disputar a quarta vaga.

No final de contas, que clubes celebrarão e que outros se frustrarão? Estes são os prognósticos FairPlay mas uma coisa é certa: quando a partida for dada, a teoria fica no bloco.


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