Arquivo de Guangzhou Evergrande - Fair Play

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Ricardo LestreFevereiro 16, 201715min0

Perante o aproximar do início de mais uma temporada da Super Liga Chinesa, o Fair Play, em parceria com Leonardo Hartung, jornalista do China Brasil Futebol, decidiu presentear os seus leitores com algumas previsões sobre o que se pode suceder no campeonato que tanto amedronta o futebol europeu.

Leonardo, em primeiro lugar, gostaria de te agradecer, em nome do Fair Play, por teres aceitado o nosso convite para a realização desta Flash-Antevisão da Super Liga Chinesa 2017. Partindo agora para a acção, quais são as tuas apostas para…?

A contratação

LH. Oscar (Shanghai SIPG) – Impossível não ver o meia brasileiro como a principal contratação do futebol chinês em 2017. € 60 milhões de euros e Oscar chegou ao Shanghai SIPG para ocupar a vaga do lesionado argentino Darío Conca. Deve-se também olhar além dos valores. Oscar, assim como foram Hulk, Elkeson e André Villas-Boas simbolizam uma nova era do SIPG. Única equipe presente no G4 das últimas três edições da Super Liga (fora o campeão Guangzhou Evergrande), fazendo sua segunda participação consecutiva na Champions Asiática e a segunda que mais cede jogadores à Seleção Chinesa (só perdendo para o Evergrande). Para a diretoria do SIPG, chegou a hora de colher os frutos do bom trabalho com os jogadores locais e do investimento estrangeiro. E isso deve passar pelos pés de seu novo camisa 8.

Hernanes (Hebei China Fortune) – Não tendo sido, propriamente, uma transferência bombástica como a de Oscar – estima-se que o valor ronde os 8 milhões de euros mais 2 por objectivos –, por tudo o que se mencionou em cima, Hernanes foi, do ponto de vista táctico, uma contratação brilhante. A cedência de Gäel Kakuta, um dos elementos com melhor toque de bola do meio-campo, ao RC Deportivo, abriu caminho para a entrada de mais um extra-comunitário no plantel e, perante a permanência de Stéphane Mbia, esse elemento teria abarcar uma grande versatilidade em terrenos centrais. Eis que surge a opção Hernanes, médio-centro brasileiro que nunca teve a sua situação definida na Juventus FC. Manuel Pellegrini assegura assim um catalisador de enorme calibre que tratará de pautar todo o futebol de ataque da equipa.

A equipa sensação

LH. Guangzhou R&F – Segunda maior posse de bola e segunda equipe que mais passa na Super Liga. O Guangzhou R&F faz tudo isso gastando pouco e sem contratações bombásticas. E também com bons valores nacionais, como Tang Miao, Jiang Zhipeng, Wang Song e Xiao Zhi, além de estrangeiros de qualidade e baixo custo (se comparado com os rivais) como Eran Zahavi, Renatinho e Jang Hyun-Soo. Os 58,39% de posse de bola e 14.722 passes na Super Liga 2016 impressionaram o país. E a chegada de Júnior Urso mostra bem o que o técnico Dragan Stojkovic quer em 2017: mais bola nos pés e muita velocidade em sua equipe.

Tianjin Quanjian – A par do Guangzhou R&F, o Tianjin Quanjian, um dos recém-promovidos à Super Liga tem tudo para deixar boas impressões nesta nova edição. Fabio Cannavaro, conhecedor da realidade chinesa, levou o Tianjin a um excelente campeonato na segunda divisão, a China League One, onde viria a terminar no primeiro lugar da tabela. Óptimo plantel, bom futebol, e reforços de peso. Nomes como Axel Witsel, Alexandre Pato, Wang Yongpo e Kwon Kyung-won preenchem, com muita qualidade diga-se, as opções do técnico italiano que ainda procura atrair um ponta-de-lança de créditos firmados no recente defeso. Muita expectativa, portanto, na cidade de Tianjin, local onde se disputará um intenso derby entre Quanjian e TEDA, este último treinado por… Jaime Pacheco.

A equipa desilusão

LH. Shandong Luneng – Tradicional equipe do futebol chinês, o Shandong Luneng sofreu na Super Liga ao mesmo tempo em que fazia história na Champions Asiática na última temporada. A 14ª posição com apenas dois pontos a mais que o rebaixado Hangzhou Greentown pareciam ligar o sinal de alerta em Jinan. Mas o desmanche do elenco com as saídas de Walter Montillo, Jucilei, Wang Yongpo e ainda prováveis de Yang Xu e Zhao Mingjian preocupam apesar da chegada de Zhou Haibin e o retorno de Diego Tardelli. 2017 pode ser mais um ano difícil para os torcedores do Shandong Luneng.

Beijing Sinobo Guoan – A gestão do Shandong Luneng tem levantado imensas questões nos últimos tempos, mas, o que esperar do histórico Beijing Guoan? Com a entrada da Sinobo Land, cujo investimento total se traduziu numa larga fatia de 64% dos direitos administrativos, os Guardas Imperiais enfrentam a nova temporada colocando-se na lista dos clubes mais valiosos do mundo. 2016 não foi um ano feliz para a formação de Pequim que decidiu apostar no espanhol José González para comandar o novo ano desportivo. O mercado de transferências não tem sido muito movimentado, pelo que já se confirmaram várias saídas de peso para os rivais directos e apenas certas entradas com alguma relevância. Mesmo admitindo publicamente a necessidade da aquisição de um novo avançado (!) – Burak Yilmaz permanece no plantel –, o problema do Beijing Guoan é bem claro. O plantel é rico, contudo, mal aproveitado e há uma necessidade urgente que a equipa se reerga.

O treinador

LH. Manuel Pellegrini (Hebei China Fortune) – Esqueça o fraco segundo turno do Hebei China Fortune com duas vitórias, oito derrotas e apenas 14 gols marcados em 15 partidas. O período de ambientação do chileno Manuel Pellegrini na China terminou. Agora sim começa a cobrança, que o experiente treinador já conhece de longas datas. Para 2017, o Hebei focou no mercado interno e mostrou a vontade do clube com as chegadas do zagueiro Ren Hang e dos meias Zhang Chengdong e Yin Hongbo. A cereja do bolo veio no final da janela: a chegada de Hernanes dá o toque de classe e técnica que o Hebei tanto precisa para mostrar o seu projeto à China. Se em 2016 a equipe brigou pela vice-liderança no início da liga, este ano promete ser mais um forte candidato às vagas na Champions Asiática. E quem sabe, ao tão sonhado título chinês.

André Villas-Boas (Shanghai SIPG) – Naquela que foi uma decisão surpreendente por parte do jovem treinador português, André Villas-Boas assumiu um projecto ambicioso no Shanghai SIPG, instituição que pretende quebrar com a hegemonia do Guangzhou Evergrande o mais rápido possível. O ciclo fantástico, futebolísticamente falando, sob o leme de Sven-Göran Eriksson terminou e a chegada de AVB funciona como um all-in da direcção que pretende, assim, tornar o SIPG uma referência do continente asiático. A capacidade técnica/táctica de Villas-Boas é inegável e, embora na sua carreira tenha algumas experiências menos positivas, o núcleo que tem ao seu dispor não deixa qualquer tipo de dúvida. O Shanghai SIPG é o mais forte candidato a destronar o Guangzhou Evergrande e André Villas-Boas o homem ideal para conseguir tal proeza.

O jogador

LH. Alex Teixeira (Jiangsu Suning) – O início de ano do brasileiro de 27 anos era tímido. Poucos gols e uma queda precoce na Champions Asiática. Até a chegada de Choi Yong-Soo e do colombiano Roger Martínez, e Alex Teixeira voltou a ser o homem-gol visto no Shakhtar Donetsk. Antes engessado na ponta esquerda, o jogador passou a fazer dupla de ataque com o ex-atacante do Racing. Assim, Alex Teixeira se tornou o artilheiro do Jiangsu Suning e o destaque da equipe, chegando a 11 gols e sete assistências na Super Liga 2016. Com uma equipe entrosada e sem mudanças para a temporada 2017, Alex Teixeira e o Jiangsu Suning prometem vir ainda mais forte para enfrentar o poderoso Guangzhou Evergrande.

James Chamanga (Liaoning Whowin) – Uma menção honrosa para James Chamanga, veterano capitão do Liaoning Whowin que mesmo com 37 anos de idade continua a desempenhar um papel extremamente importante no seu conjunto. A experiência do avançado zambiano tem sido fulcral nas últimas temporadas, onde os Liao-Tigerkins acabaram por evitar grandes dissabores. Juntamente com Anthony Ujah e com o especial apoio de Robbie Kruse, Chamanga tratará de liderar o Liaoning Whowin a aventuras menos perigosas, porque 2017 não será nada fácil para os pupilos de Ma Lin.

Fonte: Daily Express

O goleador

LH. Eran Zahavi (Guangzhou R&F) – Difícil falar do incrível futebol do Guangzhou R&F e não mencionar o talento do atacante israelense. Custando menos que Graziano Pellè, Anthony Ujah e outros mais, Eran Zahavi fez incríveis 17 gols em 19 partidas na temporada passada. Dos 11 gols marcados na Super Liga, dez foram marcados dentro das áreas dos oponentes. Eran Zahavi teve formidável desempenho em apenas seis meses na China e promete fazer muito mais na temporada que se aproxima.

Elkeson (Shanghai SIPG) – O melhor marcador estrangeiro de sempre da Super Liga não tem vivido os melhores tempos da sua carreira. Durante a sua estadia no Guangzhou Evergrande, o avançado brasileiro marcou uma quantidade absurda de golos e ajudou o clube a conquistar inúmeros troféus nacionais e internacionais. A sua transferência para o Shanghai SIPG, na época transacta, reacendeu a chama após algumas lesões complicadas: 34 jogos, 15 golos e 14 assistências. Números interessantes, mas dada a contagem habitual de Elkeson, acabam por não deslumbrar. Agora, o panorama mudou. O avançado canarinho tem nada mais, nada menos do que Hulk, Oscar e Wu Lei como seus colegas e um treinador que privilegia imenso o futebol de ataque. Caso tudo corra sem sobressaltos, o seu nome figurará no topo da lista de melhores marcadores.

A táctica

LH. O 5-3-2 do Jiangsu Suning – A chegada de Choi Yong-Soo no comando do Jiangsu Suning foi um divisor de águas na equipe de Nanjing. Antes engessada no 4-2-3-1 de Dan Petrescu, a equipe passou a jogar em um promissor 5-3-2. Sem dúvida a chegada do colombiano Roger Martínez também agregou muito ao Jiangsu Suning, mas a mudança no estilo de jogo deu grandes resultados. No segundo semestre, o Jiangsu chegou a ser uma real ameaça à liderança do Guangzhou Evergrande na Super Liga e encarou o rival com todas as forças nas finais da Copa da China. Apesar do vice-campeonato em ambas as competições, o Jiangsu manteve a base com esperanças de ter um 2017 ainda melhor pela frente.

. O 1-4-2-3-1 do Yanbian Funde – Facilmente desdobrável num 1-4-1-4-1, o sistema táctico adoptado pelo experiente Park Tae-ha provocou imensas surpresas na temporada anterior. O Yanbian Funde foi o maior tomba-gigantes e registou resultados absolutamente surpreendentes contra adversários de maior dimensão. Futebol rápido, muito focado no contra-ataque e com grande ênfase nas acções do pequeno maestro Yoon Bitgaram. Apenas com uma saída de peso, do capitão Cui Min, e com várias contratações cirúrgicas, o Yanbian Funde prepara 2017 de modo assegurar o mais breve possível a manutenção no principal escalão do futebol chinês, mas sempre com a caixa das surpresas bem aberta.

Os relegados

LH. Guizhou Hengfeng Zhicheng – Grande surpresa da China League One 2016, quando conquistou o vice-campeonato com a mesma pontuação do campeão Tianjin Quanjian, o Guizhou Hengfeng Zhicheng estreia na Super Liga em 2017. Junto com a equipe campeã, os comandados de Li Bing tiveram a melhor defesa na segunda divisão. O Guizhou Zhicheng manteve o seu treinador e quase todo o sistema defensivo. As saídas do zagueiro Iban Cuadrado e do atacante Mazola, artilheiro da equipe no último ano, podem ser sentidas apesar das chegadas de Tjaronn Chery, Ali Ghazal e Michael Olunga. O Guizhou Hengfeng Zhicheng é um dos grandes candidatos ao rebaixamento, como o Yanbian Funde também era no início da temporada anterior após o vice-campeonato da China League One 2015. Se espelhar no estreante do ano anterior é uma boa ideia para o Guizhou.

Henan Jianye – Na última temporada chinesa, a equipe de Jia Xiuquan ficou notabilizada por ter o pior ataque da Super Liga com 26 gols marcados e uma das defesas mais vazadas com 44 gols sofridos. Bem fechada e com rápidos contra-ataques, o Henan freqüentou a parte de cima da tabela no primeiro semestre de 2016, mas teve forte queda e terminou a temporada em 13º. As saídas do talentoso meia Ivo, do bom zagueiro Ryan McGowan e de seu melhor valor local o meia Yin Hongbo deixam uma grande pulga atrás da orelha dos torcedores do Henan Jianye. A equipe precisa urgentemente de reforços, faltando três semanas para o início da Super Liga 2017. O atraso pode custar caro.

.  Changchun Yatai – Depois de uma luta intensa contra a descida de divisão durante toda a época de 2016, o Changchun Yatai respirou de alívio ao somar quatro vitórias consecutivas nos últimos cinco jogos da Super Liga e fugiu de uma realidade que se aproximava a cada dia – os comandados de Lee Jang-soo estiveram cerca de 25 (!) jornadas na zona da despromoção. Na ainda activa janela de transferências – fecha a 27 do presente mês – o Changchun movimentou-se bem relativamente às opções atacantes. Saíram Marcelo Moreno – o ‘herói’ e melhor jogador da equipa –, Julien Gorius, Mislav Orsic, Darko Matic e Ognjen Ozegovic e entraram Odion Ighalo, Marinho e Szabolcs Huszti. Retirando o sector ofensivo, cuja qualidade está, aparentemente, assegurada, o plantel vive com muitas lacunas defensivas. O Changchun Yatai continua a ser, portanto, um conjunto desbalanceado e a despromoção volta a ser uma realidade concreta.

Liaoning Whowin – Por muito que a situação do Henan Jianye seja, de facto, mais alarmante em relação às restantes, o Liaoning é outra formação que se insere no leque de potenciais relegados à China League One. 47 golos sofridos na edição anterior – uma das defesas mais batidas da competição – e com a dupla Chamaga-Ujah ao resgate em várias ocasiões, o Liaoning viveu momentos conturbados no que toca a movimentações de jogadores estrangeiros. O mercado australiano voltou a estar no foco da direcção, com a chegada de James Holland e de Robbie Kruse, porém, a matéria nacional existente não enche medidas. Será uma autêntica corrida contra o tempo para os Liao-Tigerkins.

O campeão

LH. Guangzhou Evergrande – 2017 deve ser o ano do heptacampeonato consecutivo da equipe do Cantão. Mas não será nada fácil. A concorrência tem aumentado e a temporada promete trabalho duro para os comandados de Luiz Felipe Scolari. Jiangsu Suning, Shanghai SIPG e Hebei China Fortune, um pouco mais distante, prometem atrapalhar os planos do Guangzhou Evergrande. Ainda assim, os atuais hexacampeões começam mais uma temporada chinesa como favoritos ao títulos. O motivo? O Evergrande tem os melhores jogadores locais e é a equipe que mais coloca jogadores na Seleção Chinesa. Sem contar do talento brasileiro de Paulinho, Ricardo Goulart e Alan, que torna o Guangzhou Evergrande ainda mais temido.

Guangzhou Evergrande – A máquina campeã do futebol chinês aparece, mais uma vez, na pole position para atingir o título. Em ‘equipa que ganha não se mexe’, e o Guangzhou Evergrande voltou a manter o seu núcleo de jogadores e a sua equipa técnica bem coesos. O valor dos hexacampeões é incontestável, mas irão os mecanismos funcionar na perfeição? A época não se avizinha fácil para os Tigres do Sul por muito que as odds continuem a apontar o contrário. 2017 será, ao que tudo indica, o ano mais duro – pelo menos a nível interno – para os meninos de Luiz Felipe Scolari.

O XI ideal

LH.

Fonte: Lineup Builder

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Fonte: Lineup Builder
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Ricardo LestreJaneiro 29, 20179min0

Guangzhou Evergrande Taobao é sinónimo de hegemonia. De vitórias. De finais. De conquistas. Construído pela raposa cinzenta, Marcelo Lippi, reforçado internamente por Fabio Cannavaro e desenvolvido por Luiz Felipe Scolari, o núcleo dos hexacampeões chineses adquiriu, rapidamente, um estatuto privilegiado no seio do futebol asiático e carregou consigo, competição atrás de competição, o nome do futebol chinês.

São largos os anos de domínio absoluto do maior conjunto da cidade de Cantão, não só a nível nacional mas também a nível internacional. Contudo, nos dias que correm, a realidade é completamente diferente. O investimento levado a cabo pelos restantes clubes rivais, que apontam um lugar no pódio/o acesso à Liga dos Campeões Asiáticos como principal objectivo, ameaça a hegemonia dos Tigres do Sul no panorama chinês. Em 2015, dois pontos separaram o Shanghai SIPG de Sven-Göran Eriksson do primeiro posto e, no ano transacto, o novo Jiangsu Suning, a contas com alguns sobressaltos, terminou a 7 pontos de distância dos actuais campeões. Agora, no ano desportivo de 2017, a contestação ao trono está mais do que iminente. Mas para um clube vencedor como o Guangzhou Evergrande Taobao esse é apenas mais um obstáculo a contornar.

Assim sendo, quais são os mecanismos que definem uma máquina campeã como o Guangzhou Evergrande?

Primeiramente, é necessário ressalvar o grupo coeso de jogadores chineses no plantel. Desde a entrada de Marcelo Lippi, no ano de 2012, atletas de maior calibre nacional como Gao Lìn, Zhang Linpeng, Zheng Zhi, Feng Xiaoting , Zheng Cheng  ou Huang Bowen foram recrutados pelo técnico italiano e continuam, actualmente, a usufruir de um estatuto bem elevado quer no clube quer na seleção nacional. O efeito Scolari garantiu, por outro lado, um maior endurecimento das qualidades desses mesmos activos.

CONSTRUÇÃO DE JOGO

No momento da saída de bola, Kim Young-gwon destaca-se entre os demais. Recorte técnico refinadíssimo e uma inteligência posicional acima da média para um defesa-central. Apesar de pouco físico – Feng Xiaoting complementa e muito bem essa lacuna – e propenso a lesões, o coreano funciona como constructor de jogo recuado da equipa e executa essa função com tremenda eficácia. Zhang Linpeng e Li Xuepeng – em detrimento da lesão prolongada de Zhou Zheng atuou várias vezes no flanco esquerdo assim como Rong Hao –, os defesas laterais, dão largura e profundidade aos corredores, permitindo um maior adiantamento dos extremos e uma outra liberdade aos médios no centro do terreno. Têm ambos uma óptima propensão ofensiva mas não se deslumbram no momento de transição, o que faz com que a equipa não fique descompensada facilmente.

Por sua vez, Zhang, agora com 27 anos, é uma das maiores figuras do futebol chinês e fora considerado, em tempos, como um das grandes promessas do atual grupo de jogadores internacionais. Fisicamente semelhante a Sérgio Ramos assim como no seu estilo de jogo e, inclusive, na posição, ‘Zhangmos’ iniciou a sua carreira como defesa-central apesar de se ter estabelecido, nos últimos anos, como um excelente defesa-direito. Um pouco à imagem do espanhol, mas no sentido inverso.

Kim Young-gwon (a vermelho) é um elemento muito importante na fase de construção devido à sua inteligência e elevada capacidade de passe

PROCESSO DEFENSIVO

A melhor linha defensiva do Guangzhou Evergrande, embora tenha sofrido com imensas lesões na temporada passada, é, no clímax da sua forma física, tradicionalmente composta por Zhang Linpeng, Feng Xiaoting, Kim Young-gwon e Zou Zheng. Linha defensiva alta, pressionante, posicional, versátil e, sobretudo, bastante completa.

Relativamente à transição defensiva, mais do que o posicionamento zonal dos quatros membros da defesa, o auxílio dos falsos alas adquire uma importância significativa. Dada a facilidade e a liberdade com que os médios se movimentam, o elemento que recua pode variar inúmeras vezes. Desde Huang Bowen, por norma um pouco mais descaído no flanco direito, a Zheng Long, passando por Gao Lin, Ricardo Goulart ou até Alan. Dependendo da posição que estes eventualmente desempenhem dentro de campo, a ajuda defensiva aos flancos está sempre presente, libertando Paulinho e Zheng Zhi para zonas mais interiores. A imagem que se segue ilustra perfeitamente como o ala, neste caso Gao Lin, recua no terreno para auxiliar Li Xuepeng e o pressing em bloco médio, diga-se, que a equipa efectua no momento da perda de bola, reduzindo espaços e limitando as opções do adversário.

A pressão zonal e em bloco médio-alto é frequentemente exercida pelo Guangzhou Evergrande. Desta feita, Gao Lin (a vermelho) auxiliou Li Xuepeng na missão defensiva

Como já referido anteriormente, Kim Young-gwon é o primeiro elemento a ter em conta na construção de jogo. Ainda assim, os papéis de principais catalisadores recaem em Zheng Zhi e Paulinho, os dois elementos do meio-campo mais recuados. O internacional brasileiro, desde a sua chegada ao Guangzhou Evergrande, revitalizou a sua carreira de tal forma que hoje é considerado um dos melhores box-to-box – se não o melhor – em todo o continente asiático e no restante mundo futebolístico. Peça crucial no esquema de Scolari, Paulinho realizou um total de 4.143 minutos, envolvendo todas as competições, e marcou vários golos de enorme relevância. A sua resistência, força e disponibilidade física nos 4 momentos do jogo fazem com que seja um apoio indispensável para Zheng Zhi.

O veterano chinês, com 36 anos de idade, caminha para a sua 7ª temporada ao serviço dos hexacampeões, mas as suas qualidades técnico-tácticas permanecem intactas. É o cérebro do jogo. Como a sua condição física actual não permite grandes aventuras, Zhi actua numa posição recuada pelo que auxilia, e muito, nas tarefas defensivas. Mas não só. A sua apurada visão de jogo, assim como uma grande técnica de passe, dá um outro embelezamento à construção de todo o futebol da equipa. Zheng Zhi é como que uma ‘aranha’ na forma como pensa e executa o jogo. Apesar de Paulinho o fazer com regularidade, é Zhi quem faz com maior qualidade.

Zheng Zhi (a vermelho) acompanha e vigia a movimentação do seu oponente directo sempre com muita atenção
Paulinho (a vermelho) e Zheng Zhi (a preto) alternam entre si a função de segundo receptor

PROCESSO OFENSIVO

A parte mais fascinante da máquina de Felipão. A frente de ataque do Guangzhou Evergrande, na sua plenitude de forma, é capaz de produzir momentos de futebol absolutamente estonteantes. Alan, após o larguíssimo atraso da sua debut, devido a complicações físicas graves, reacendeu a chama de uma equipa que passara por uma dura crise na época ao ser eliminada da Liga dos Campeões Asiáticos na fase de grupos. O avançado brasileiro mostrou uma superioridade abismal em relação a Jackson Martínez, beneficiando, por outro lado, da lesão do colombiano, e, juntamente com Ricardo Goulart e Gao Lin formou um trio temível. A mobilidade destas três unidades – sem esquecer o papel fundamental de Huang Bowen no esquema táctico – torna o tradicional 4x2x3x1 de Scolari autenticamente camaleónico. Isto porque o entrosamento entre os três roça quase a perfeição. A capacidade de jogar entre linhas, a forma como baralham as marcações contrárias e a agilidade com que se movimentam em campo é, de facto, assinalável.

Fonte: Twitter @HartungLeo
A disposição composta por Gao Lin (à direita), Ricardo Goulart (ao centro) e Alan (à esquerda)
Já é perceptível a troca de posições entre Alan (ao centro) e Ricardo Goulart (à esquerda)

Do três, Ricardo Goulart é o verdadeiro maestro. A habilidade técnica do brasileiro sobressai-se entre a dos demais e é dos seus pés que sai grande parte da magistralidade ofensiva da equipa. Sempre muito activo na procura da bola e com um sentido posicional entre linhas excepcional, Goulart tem, dentro do plantel, um valor incalculável. Por tudo o que acrescenta ao jogo.

Ricardo Goulart explora na perfeição o espaço entre linhas de modo a criar rapidamente uma linha de passe

A imagem seguinte ilustra na perfeição a forma como Gao Lin, Alan e Ricardo Goulart auxiliam o portador da bola Li Xuepeng, procurando criar triangulações rápidas e eficazes.

Alan, Gao Lin e Ricardo Goulart prestam auxílio imediato ao portador do esférico

Em várias ocasiões, o conjunto de Scolari chega ao golo a poucos toques e aplica, regularmente, um ritmo notável.

O Guangzhou Evergrande Taobao é prova viva de que o capital, mesmo investido em quantidades astronómicas, consegue, por si só, criar histórias de sucesso. Desde a entrada da Evergrande Real Estate Group e, mais tarde da Alibaba Group, os Tigres do Sul ascenderam do oito ao oitenta numa mera questão de tempo. Um clube de futebol que desde o seu corpo directivo aos restantes funcionários apresenta um alto grau de profissionalismo. O Guangzhou Evergrande Taobao quebrou, à sua maneira, as barreiras provocadas pelo eurocentrismo. Existe muito (e bom) futebol no continente asiático.

Foto: Xinhua Press

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