Arquivo de Dragão - Fair Play

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Diogo AlvesNovembro 16, 20174min0

Sérgio Conceição prometeu algumas surpresas quando lhe perguntaram sobre o sistema táctico a utilizar no FC Porto. Fugindo numa primeira fase ao tradicional 4-3-3 de Pedroto, a verdade é que, o novo timoneiro, no seu desenvolvimento de maturação teve de recuperar o 4-3-3 para jogos mais exigentes fora de portas.

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Diogo AlvesSetembro 21, 20178min0

Um ano depois Moussa Marega volta a estar na boca de todos. O maliano repete o inicio da época passada, mas agora, ao serviço do FC Porto, clube que já tinha representado durante meia época em 2015/16. Sem sucesso seguiu para o Vitória, onde apontou golos e foi a grande sensação entre Agosto e Outubro. Um ano depois volta a repetir o êxito diante das balizas portuguesas.

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Diogo AlvesAgosto 10, 201716min0

Os portistas depositam bastante confiança no novo timoneiro dos Dragões, Sérgio Conceição. Com um plantel construído com base na época passada, o ex-Nantes, Braga e Vitória SC, quer voltar a dar ao Dragão a alma de outros tempos.

Artigo feito em parceria com Francisco Isaac

COMPRAR OU NÃO COMPRAR, EIS A QUESTÃO…

Dos verões menos animados que existiram para o Reino do Dragão, com a realização de apenas uma entrada: Vaná (CD Feirense). O guarda-redes brasileiro, que deu várias “dores de cabeça” no empate a zeros na época passada, foi o único reforço fora-de-portas para o FC Porto. Porém, desenganem-se quem pensa que isto é sinal de fraqueza, fragilidade ou “morte anunciada” dos portistas… os “novos” reforços estavam nos empréstimos de anos anteriores.

Depois de várias épocas a esbanjar euros em jogadores que pouco ou nunca jogaram no Dragão, o FC Porto de Sérgio Conceição recuperou uma série de activos que podem dar outra profundidade ao plantel, não gastando qualquer valor no processo.

Vejamos: Aboubakar, Diego Reyes, Hernâni, Ricardo Pereira, Sérgio Oliveira, Bruno Indi (por esta altura a negociar uma hipotética saída para Inglaterra) e Marega. Ou seja, ao todo foram sete os retornos à equipa principal do FC Porto com duas a ganhar uma dimensão bem relevante para o 11 dos Dragões.

Falamos de Ricardo Pereira e Vincent Aboubakar. O lateral/extremo português regressou ao FC Porto após dois anos no Nice e tem sido uma das grandes surpresas durante a pré-época, dando outra profundidade ao corredor direito, apetrechado de um belo poder de cruzamento, boa visão de jogo e um ritmo bem mais alto do que Maxi proporcionava.

Aboubakar foi um autêntico matador na pré-época, com 7 golos, munindo-se de uma grande confiança, poder de choque e capacidade de moer a defesa a cada investida. Depois de um empréstimo ao Besiktas e de problemas com a anterior equipa técnica do FC Porto, o camaronês mereceu confiança de Sérgio Conceição e tem respondido com golos, golos e golos. Mas será só pólvora de pré-época?

Por outro lado, as saídas de André Silva e Rúben Neves poderão fazer-se sentir a médio prazo. O avançado, que deixou quase 40M€ nos cofres dos azuis-e-brancos, dava outras “armas” ao ataque, naquela que poderia ser uma época de total afirmação.

Já Rúben Neves poderia ter encaixado com qualidade no 4-4-2 de Sérgio Conceição, mas os quase 20M€ do Wolves parecem ter convencido a SAD do FC Porto a desfazer-se do médio. E se a saída de Danilo Pereira ainda se verificar, ficará um “buraco” por tapar no meio-campo… problemas antes do início da época?

Outras saídas a destacar foram os empréstimos de Boly (Wolves) e Mikel Agu (Bursaspor) e as vendas de Laurent Depoitre (Huddersfield), Andrés Fernández (Villareal) e potencialmente Josué (em negociações com o SC Braga). Ao todo o FC Porto somou 63M€ em transferências, apresentando um saldo positivo que agradará à Troika da UEFA, uma vez que o FC Porto está sob avaliação do Fair Play financeiro até 2020 (se considerarmos que a transferências de Óliver Torres só entra nas despesas de 2017/2018, o FC Porto conseguiu 43M€ positivos em transferências, não mencionando aqui os salários).

Vendo bem o FC Porto suprimiu a vaga de Boly com a inclusão de Indi e Reyes, a posição de lateral direito com Ricardo (com Layun a ficar o suplente directo de Telles), Sérgio Oliveira por Neves (não sendo uma troca directa, mas garante mais um “cérebro” para o miolo do terreno), Aboubakar, Marega e Hernâni por André Silva e Depoitre (o belga quase nunca foi opção nos Dragões) acrescentando mais uma opção para a frente de ataque ou extremidades do campo, o que perfaz um plantel mais audacioso, com mais escolhas e com outras soluções para os momentos mais intensos da época.

Todavia, um aviso aos mais esperançosos… a inclusão de Diogo Dalot (o lateral direito pode estar na calha para substituir Maxi ou Layun no plantel principal) e Rui Pedro não serão sinais que há alguma falta de recursos para ter opções mais experientes no plantel principal? Não faltará um ponta-de-lança suplente para entrar por Soares e Aboubakar? E não teria sido proveitoso chamar de volta Quintero, tendo um 10 “puro” como solução a Brahimi?

Vaná Alves a única contratação do FC Porto 2017/18 [Foto: fcporto.pt]

QUEM SAI NA FRENTE

A Pré-época é aquele período de trabalho das equipas que proporciona uma reviravolta na carreira de alguns jogadores… que o diga Vincent Aboubakar ou Ricardo Pereira, dois dos melhores jogadores do FC Porto durante todos os jogos da pré-época.

Ricardo Pereira encantou por completo as bancadas, com um futebol de classe, bem pautado, onde as investidas no ataque fizeram-se sentir, apresentando uma assertividade bem superior a Alex Telles no apoio aos extremos ou avançados dos Dragões. Para além disso, Ricardo traz velocidade, ritmo e resistência, ficando agora por confirmar a sua capacidade emocional para aguentar com o Tribunal do Dragão.

Aboubakar teve com Sérgio Conceição uma espécie de renovação aos olhos dos adeptos dos azuis-e-brancos… se os golos não foram os suficientes para agradar, o futebol aguerrido polvilhado com algum perfume (a fazer lembrar os primeiros tempos com a camisola do FC Porto) e raça na entrega acabaram por sanar o conflito com as bancadas, entrando numa nova reconciliação.

Sérgio Oliveira não tendo sido fantástico, fez o suficiente para agradar tanto o treinador como uma boa parte dos adeptos, denotando-se a capacidade para lançar jogo ao passe, comunicação intensa e boa capacidade de colocação (a velocidade e ritmo de jogo continuam a ser problemas no internacional sub-21 português).

Não deu para observar Diego Reyes com os “olhos” que todos queriam, mas o central mexicano parece ter amadurecido após dois anos de empréstimo na La Liga. Mais confiante, “raçudo” e competente, o central pode ser a solução para Marcano ou Felipe e durante os poucos jogos que fez cumpriu sempre com as suas obrigações.

Depois Soares voltou a deixar a sua marca com golos e entrega (continua a faltar visão de jogo mas já tem outra capacidade de ajuda na defesa). Brahimi com a classe do costume e sempre sob um bom certame, dominando bem as ingressões no meio-campo adversário, aplicando-se isto também a Corona.

Contudo, também houve lugar para desencantos com alguns jogadores nomeadamente com Hector Herrera (cada vez mais longe do jogador que foi em 2014/2015), Maxi Pereira e Miguel Layún.

O mexicano nunca demonstrou o porquê de ser um dos capitães no FC Porto durante os jogos de pré-época, realizando apenas um bom jogo em toda a pré-época (Cruz Azul). Falta de posicionamento, o ritmo nunca foi ideal e a sua participação no ataque foi longe da que Sérgio Conceição aprecia… para além disso, está atrás de Otávio e André André para opções no meio-campo. Estará o tempo do mexicano a terminar?

Maxi Pereira já não tem a intensidade de outrora e a perda de lugar para Ricardo Pereira prova, em parte, essa teoria. Para além disso, quando entrou em campo o lateral nunca foi a unidade mais competente, comprometendo o ataque em alguns momentos e a ter dificuldades em aguentar com adversários mais exímios a explorar as suas costas (pela qualidade mais baixa dos adversários, o FC Porto nunca teve um teste de fogo durante este início de época).

Por fim, Miguel Layún está definitivamente relegado para o banco de suplentes ou para a “equipa de reservas”, já que só pela sua polivalência irá convencer Sérgio Conceição a inclui-lo nos 18 convocados de cada semana. Layún está longe do lateral de 2015/2016 e uma hipotética transferência poderá estar para acontecer num futuro próximo.

Estes foram os jogadores a destacar por cima e por baixo da pré-época do FC Porto, com os retornados a ganhar um papel de destaque nos convocados do novo treinador dos Dragões.

Regressou, viu e venceu. A estrela da pré-época, Vincent Aboubakar [Foto: noticiasaominuto.com]

«Ardente voz»

Sérgio Conceição espelha na perfeição uma das frases marcantes do hino do FC Porto, com uma voz ardente e flamejante. Um homem íntegro, honesto, directo e frontal, sem medo de assumir riscos e de dizer o que lhe vem à alma no preciso momento. Transparente e igual a si mesmo em todas as conferências de imprensa ou flash-interview. Não deixa passar nada, não deixará nada por dizer.

Do discurso melancólico, monótono e monossilábico, os dragões agora têm um treinador com um discurso inflamado, directo e com imenso conteúdo. Conteúdo que deixou bem claro desde o primeiro dia, avisando desde logo toda a navegação que com ele sentirão pressão desde o dia 1, com processos de treino de qualidade e não esperem paninhos quentes nas horas mais duras.

Emocionado pela chegada ao seu lugar, à sua cadeira e ao seu Dragão, Sérgio Conceição tem sempre uma ponta emocional em todos os momentos. De lágrima no olho e voz algo embargada, procura fugir à emoção, até porque, como o próprio diz, a emoção retira-lhe a razão e no banco do Dragão a razão tem de estar acima de qualquer emoção.

Falou sempre do jogo, dos aspectos do jogo, do que pretende e do que não gostou e quer “afinar”. Não procurou os lugares comuns ou chavões da praxe em época onde tudo é treino, tudo é uma questão física. Não se refugia nos 20 remates conseguidos, não aponta a ineficácia como o mal para o empate ou derrota. Procura logo focar-se no que esteve menos bem, os 15’ minutos finais, do que os 75’ onde a equipa esteve realmente bem. Perfeccionista vai ao detalhe e não deixa escapar nada.

No banco de suplentes já vimos alguma da sua azia e da sua ginástica habitual. Não para nunca, gesticula, assobia, chama pelo jogador e se for preciso mandar um berro ele fá-lo. De garrafa de água na mão e com a mirada atenta no relvado, não deixa escapar um detalhe que seja, pede para a linha defensiva subir mais ou menos, questiona o jogador porque não deu cobertura ou porque “fugiu” da jogada. Nem os auxiliares e árbitro escapam ao novo timoneiro do Dragão.

Foi visível no jogo de apresentação, diante do Deportivo La Coruña, questionando Jorge Sousa (de forma respeitosa) se não havia um penalti. «Jorge, mão ali, não?». No México não deixou que o árbitro fizesse farinha com ele e ordenou que os jogadores não batessem as grandes penalidades, saindo assim de campo após o apito final.

[Foto: noticiasaominuto.com]

Porto à Porto

Na vertente mais técnica e táctica, o novo timoneiro prometeu um Porto diferente, nem melhor, nem pior mas diferente dos últimos 4 antecessores. Quer um Porto mais à imagem dos bons velhos tempos, agressivo, a jogar com bola, a sufocar o adversário desde o apito inicial até o final. Sem medo de assumir riscos para obter o resultado pretendido, procura um Porto mais à imagem do Porto. Determinado, ambicioso e de vertigem.

Em campo já se vê a imagem do treinador, a forma como ele quer que o Porto jogue, ainda não ao máximo, mas os jogos de pré-época deram para limpar a vista e elevar as expectativas, até mesmo dos mais pessimistas. Agressivos com bola e sem bola, a querer procurar baliza desde o primeiro instante, assim que há perda de bola o objectivo é logo recuperá-la com uma pressão muito sui generis e que não se via há algum tempo no Dragão. Alta, sufocante e até por vezes desordenada. O objectivo é atacar quando se tem bola, sem bola passa por recuperá-la para voltar atacar.

Ainda que do ponto de vista mais da organização o processo defensivo ainda terá de sofrer ajustes, de forma a torna-lo mais efectivo, já vemos coisas interessantes, e que, dentro de portas poderão funcionar muito bem. O Porto ainda sofre quando a 1ª linha de pressão é batida e quando começa a defender no seu próprio meio-campo, faltando melhores ligações entre sector médio e defensivo. Ainda assim é visível a melhoria de jogo após jogo durante a pré-época, sinais do perfeccionista Conceição.

Rasgar com o passado

Sérgio Conceição marca um fim de uma era, a era do 1-4-3-3, sistema muito utilizado desde os anos 80 no Porto. Desde Pedroto, passando por Mourinho e acabando em Lopetegui. O sistema que fez escola, marcou décadas e que deu títulos, vê agora o seu fim, pelo menos para já. O 1-4-3-3 era como uma pele para os portistas. Quem se atrevia a chegar e mudar com o seu sistema era logo olhando com desconfiança.

Que o digo Paulo Fonseca que tentou de uma forma tímida implementar um 1-4-2-3-1, e acabou engolido pelo Tribunal do Dragão. Mourinho é o único caso de sucesso com títulos, o seu 1-4-4-2 usando nas competições europeias, nomeadamente na Liga dos Campeões em 2004, foi essencial para a conquista de Gelsenkirchen.

Nuno Espírito Santo plantou a semente e agora cabe a Sérgio Conceição dar as dinâmicas de acordo com o clube. O 1-4-4-2 desta época é diferente do ponto de partida da época passada, desde logo porque as dinâmicas de jogo são muito diferentes. O calculismo e pragmatismo, deu a lugar à verticalidade e ao risco.

Afinal como joga este Porto de Sérgio Conceição

Dispostos em campo em 1-4-4-2, como já referido, o FC Porto procura agora um tipo de jogo mais posicional e menos anárquico, usando a ordem para desordenar o adversário, elaborando sempre com posse de bola como um meio e não um fim. Procurando provocar o adversário, chamando-o para zonas interiores – onde há desde logo mais unidades – para libertar os corredores.

Laterais a garantir amplitude e profundidade, com Alex Telles e Ricardo, os vaivém nos corredores estão garantidos e desde logo com boa variabilidade na forma de atacar. Sobretudo com Ricardo quem evidencia uma boa capacidade de atacar a profundidade para cruzar, ou diagonais interiores para chegar a zonas de finalização. Os centrais terão também um papel fundamental na manobra ofensiva, sendo eles com Casillas, os primeiros construir com bola.

Dois médios-interiores, com papéis distintos mas de complementaridade. Um médio mais posicional, mas de construção e menos de destruição. Danilo será esse jogador, mas tem mostrado muitas dificuldades com bola, o que poderá obrigar a uma adaptação de André André à posição. À sua frente jogará um médio com maior raio de acção e que será o cérebro do jogo, o processador, Óliver Torres. Com os dois extremos – Brahimi e Corona – metidos bem por dentro para libertar os corredores para os laterais, mais entrelinhas para participarem em criação nas zonas de decisão.

Na frente dois homens de área – Aboubakar e Tiquinho – mas que têm a missão de à vez irem baixando para dar suporte aos médios, e assim existirem uma maior ligação entre todos. Com dois avançados “puros” o Porto terá mais força dentro da área e aumentado assim a percentagem de sucesso em zonas de finalização. Algo que na época passada foi muito debatido.

A defender haverá uma pressão imediata sobre o recuperador da bola, aumentado assim o sucesso de recuperação em zonas mais adiantadas. Pressionar logo que possível para roubar a bola ao adversário e voltar atacar. Sempre com 6 unidades no meio-campo alheio, formando muitas vezes um losango com os médios para dificultar as tarefas de construção ao adversário.

Em suma, teremos um Porto mais à sua imagem, onde irá imperar a sua força e vontade de querer muito vencer e dominar os jogos. Voltará o Porto de maior posse de bola, mas com a diferença de ser uma posse de mais qualidade e menos estéril. Havendo espaço ataca-se, não havendo provoca-se esse espaço. O futebol Rock N’Roll parece estar de volta ao Dragão depois de vários anos de ausência.

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Diogo AlvesMaio 29, 201714min0

Mais uma época se passou, e, volvido mais um ano o balanço feito para os Dragões continua a ser pouco positivo. Nova época sem conquistas que marca o fim da uma hegemonia portista que durava há mais de 30 anos.

“É um momento de grande emoção, de enorme prazer e é uma honra estar aqui e sentir que fui a pessoa em que o FC Porto confiou para ser treinador para a próxima temporada. Creio que não é o momento de promessas, mas de garantias. Sou uma pessoa que segue as suas convicções e que tem uma convicção absurda de que podemos ganhar sempre. Garanto à nação portista que com trabalho e união vamos conseguir o que todos pretendemos, que é ganhar”.

Estas foram as primeiras palavras de Nuno Espírito Santo há sensivelmente um ano no relvado do Dragão aquando da sua apresentação como treinador-principal dos azuis e brancos. Palavras fortes, ambiciosas e de esperança dirigidas a toda a nação portista que ouvia atentamente o novo timoneiro. O homem que há uns anos, numa célebre conferência de imprensa, foi autor da palavra “Somos Porto” que hoje vulgarmente é utilizada. Esperava-se o regresso da mística e de alguém que coloca-se o clube na rota dos títulos.

Nuno Espírito Santo recebeu em mãos um plantel com algumas lacunas – não tantas como se quis passar – a nível defensivo, e, sem um avançado de créditos firmados, alguém com maior maturidade competitiva. Houve também casos estranhos como o “vende, não vende” de Yacine Brahimi, o afastamento e logo depois a reintegração de Adrián Lopez. Houve também a aposta numa fase inicial da pré-época em Vincent Aboubakar, Juanfer Quintero e Josué, mas, que na hora da verdade acabaram dispensados. Sentia-se a necessidade de ir ao mercado contratar mais um defesa-central e um avançado para competir com André Silva.

O plantel foi emagrecendo mas ainda assim foram ficando algumas “gorduras” como Evandro, Sérgio Oliveira e Adrián Lopez (que numa fase ainda chegou a ser aposta) as quais só foram resolvidas pelo novo director-geral Luís Gonçalves no mercado de inverno.

INVESTIMENTO DEFENSIVO

Os reforços foram chegando a conta-gotas e só mesmo no dia 31 de Agosto já pela noite dentro o plantel ficou completo com a entrada de Boly. O defesa-central que faltava para ser alternativa a Felipe e Marcano.

O investimento desta época foi todo canalizado para o reforço defensivo, o sector que na época de 2015/2016 mais críticas recebeu. Da época passada manteve-se Layún, Maxi e somente um defesa-central, o espanhol Iván Marcano.

Um dos grandes louros de NES esteve na forma como conseguiu montar muito bem a sua teia defensiva durante toda a época. Além do quarteto defensivo conseguiu ainda potencializar ao máximo Iker Casillas e o médio-defensivo Danilo Pereira. Estes seis jogadores foram fundamentais na temporada e só mesmo lesões ou castigos os afastaram das escolhas iniciais.

O FC Porto terminou a época com menos onze golos sofridos em relação à época passada, desta vez sofreu apenas 19 golos e foi durante largas jornadas a melhor defesa do campeonato, e, também da Europa. É factual que em termos defensivos o trabalho do timoneiro azul e branco foi meritório.

MARASMO OFENSIVO

Se do ponto de vista defensivo a época esteve dentro das expectativas – até mais tendo em conta os números da época passada -, do ponto de vista ofensivo a época não foi um regalo para a vista. Apesar de os números – por mais incrível que pareça – nos dizerem exactamente o contrário. Foram 72 golos marcados – menos um que o campeão nacional Benfica.

As equipas de Nuno Espírito Santo nunca foram conhecidas por terem uma grande organização ofensiva, de resto nas épocas do Rio Ave os vila-condenses eram conhecidos por ganhar mais pontos fora de casa do que em casa. Não gostam de assumir o jogo as equipas do (agora) ex-treinador do FC Porto. E isso como se sabe é um contra-senso muito grande quando pensamos que os dragões têm de assumir o jogo e manipular o adversário através da posse de bola.

As ideias ofensivas foram sempre muito viradas para o lado mais individual e menos colectiva do grupo. Viveu sempre das referências individuais. Numa primeira fase da época graças à afirmação de André Silva na frente de ataque e na criatividade de Otávio. Mais tarde coube a Yacine Brahimi tomar conta da batuta ofensiva.

O avançado para competir com André Silva só chegou em Janeiro, talvez já tarde demais, uma vez que, a primeira opção passou por Laurent Depoitre, um avançado belga totalmente desconhecido do público em geral e até do presidente.

Ainda hoje está-se para perceber as razões que levaram o FC Porto a comprar o “pinheiro” Belga ao Gent por uma módica quantia de 6,5M€. Ainda assim conseguiu ser decisivo contra o Desportivo de Chaves numa altura do jogo que o FC Porto perdia por 1-0, foi o belga que empatou o jogo e ajudou na reviravolta.

O OXIGÉNIO VINDO DA FORMAÇÃO

O momento marcante da temporada teve como protagonista um Sub-19. Rui Pedro de apenas 18 anos. O inexperiente avançado foi uma carta lançado numa altura em que os dragões atravessavam a maior seca de vitórias da época. Eram seis jogos sem vencer, entre Liga NOS, Liga dos Campeões e restantes competições internas.

O jogo com o SC Braga foi o ponto de viragem, e, quando já se esperava pelo sétimo empate consecutivo, um passe de Diogo Jota isolou o jovem de Cinfães e este “só” teve de picar a bola – cheio de classe – sobre Marafona.

Este jogo marcou um ponto de ruptura com os seis jogos que ficaram para trás e deram ao timoneiro e ao clube um balão de oxigénio para atacar as jornadas que faltavam até à pausa natalícia. As exibições foram melhores, houve afirmação definitiva de Brahimi, melhoraram os resultados e houve uma aproximação clara ao líder do campeonato.

[Foto: maisfutebol.iol.pt]

DA AFIRMAÇÃO AO ESQUECIMENTO

André Silva prometeu e cumpriu. O jovem gondomarense na época passada deixou boas sensações quando foi chamado à equipa principal pela mão de José Peseiro. O avançado teve um arranque de época muito bom, e, como qualquer avançado que se preze, conseguiu fazer o gosto ao pé por várias vezes. A afirmação foi imediata e rapidamente conseguiu a chamada à selecção principal.

No decorrer da época o rendimento foi sendo inconstante, apesar dos bons sinais demonstrados no início da mesma, o rendimento colectivo acabou por prejudicar o individual de André Silva. E como os golos não apareciam as culpas foram começando a ser colocadas em André Silva.

Como aqui já analisamos as tarefas do artilheiro-mor (antes de Soares) dentro de campo eram, por vezes, algo exageradas para aquelas que um ‘9’ deve ter em campo. Não raras vezes desgastava-se com acções que em nada o ajudavam para ter frescura naquilo que é mais forte: a finalização. Um problema de impetuosidade e de excesso de tarefas dadas por Nuno Espírito Santo.

A época do internacional A foi de mais a menos, e, depois de experiência como extremo-direito acabou mesmo por cair do onze portista. A chegada de Tiquinho Soares acabou por relegar para segundo plano a jóia do Dragão. Um término de época bastante abaixo do que seria de esperar. Ainda assim para época de estreia foram 21 golos em 44 jogos.

O DESCARRILAMENTO DO COMBOIO

[Foto: sicnoticias.sapo.pt]

A máquina azul e branca a determinado momento pareceu ter entrado nos eixos, e, após o empate na Mata Real, na 16ª jornada, os azuis e brancos puseram pés a caminho e melhoraram de forma exponencial os seus resultados. Foram nove vitórias em nove jogos consecutivos.

Neste iate de tempo houve a chegada de Tiquinho Soares que ajudou bastante ao óptimo momento de forma do FC Porto. Dava boas sensações o momento que se vivia no Dragão e tudo parecia estar a conjugar-se para que houvesse um final feliz. Vitórias em catadupa, entre as quais uma por 7-0 ao Nacional da Madeira no reduto azul e branco.

O comboio do Dragão ia a uma velocidade elevada e parecia chegar a bom porto, no entanto, tudo começou a desmoronar-se em casa contra o Vitória FC em vésperas da ida ao Estádio da Luz. Um empate que acabou por tirar a oportunidade aos dragões de assaltarem a liderança da Liga NOS.

Os empates após a jornada 26 voltaram em força e as boas sensações voltaram a dar lugar à incerteza e ao desespero entre adeptos, e, também deu sinais de chegar aos jogadores. As exibições eram más e os resultados por arrasto também o eram.

Voltou o fantasma da (in)eficácia. Já nem Tiquinho Soares conseguiu salvar a honra do Dragão, sobretudo desde que sentiu ser o artilheiro-mor do Dragão, o rendimento do brasileiro, que chegou em Janeiro vindo do Vitória SC, baixou jogo após jogo, já não era o mesmo. Nem ele, nem o mesmo grupo que tinha conseguido nove vitórias em nove possíveis. Um descarrilamento há muito anunciado na recta final da Liga NOS.

FALTA DE EXPERIÊNCIA OU DE MAIOR OUSADIA?

Nuno mostrou sempre ser um treinador conservador. [Foto: DN.pt]

É factual que o plantel azul e branco é jovem e faltou alguma ponta de maior maturidade e/ou experiência em momentos decisivos da época. Como foi a deslocação à Luz e os jogos em que, uma vitória poderia levar os portistas para a liderança isolada do torneio.

Nos momentos de maior tensão / pressão não houve discernimento suficiente. E em muitos momentos sentiu-se a falta de ousadia do timoneiro. Na forma pausada como abordava os jogos nas conferências de imprensa (não passava mensagens fortes para o exterior e interior), e nas escolhas técnicas e tácticas que foi fazendo ao longo do tempo.

O conservadorismo esteve sempre presente e, inclusive, na última jornada do campeonato, sem nada a ganhar ou perder, esse conservadorismo não deixou de existir. Em momentos oportunos não houve maior ousadia, assumir o risco e procurar somar mais alguma coisa ao jogo que não faço o previsível, o lado mais seguro.

Um problema que parece já ser intrínseco de Nuno Espírito Santo, um modo de estar dentro do futebol. Muito seguro, muito equilibrado e sem fugir muito a esse padrão da segurança máxima. Prepara o jogo com um objectivo muito claro: não o perder. Falta dar o passo seguinte, assumir mais o jogo e preparar os jogos para vencer, sem ter em mente que um ponto pode ser suficiente. Sobretudo quando estamos a falar de um clube como o FC Porto.

RESTANTES COMPETIÇÕES

A época do Futebol Clube do Porto começou com um teste de fogo, o jogo com a AS Roma a contar para o Play-Off da Liga dos Campeões. Um jogo de máxima importância até para as contas do clube que procurava o encaixe financeiro para atacar ainda o mercado, e, com isso atrair ainda mais 2/3 jogadores. Foi que aconteceu, chegou Óliver Torres, Diogo Jota e Boly.

Uma eliminatória de risco, mas de uma certeza inicial, passar este teste era uma demonstração de força. Melhor o jogo em Roma que no Dragão, logo a começar pelo resultado, como é óbvio, mas também, muito pela qualidade exibicional. Algo atípico em Roma, com duas expulsões para os romanos, num jogo que culminou com uma vitória sem espinhas por 3-0.

A carreira europeia foi inconstante e chegou a correr riscos. Num grupo extremamente insólito com Leicester, Copenhaga e Brugge, a decisão final ficou guardada para a última jornada onde os dragões conseguiram o 2º lugar com uma vitória esmagadora de 5-0 sobre o Leicester. Chegados aos oitavos de final e defrontado a Juventus era impossível pedir mais. Em suma, cumpriram com os objectivos estabelecidos. Chegar à fase de grupos e depois aos oitavos de final.

Nas Taças internas, os dragões não fizeram boa figura. Em ambas foi eliminado por muito cedo, na Taça de Portugal caíram em Chaves, num jogo muito polémico. E na Taça da Liga ficaram-se pela fase de grupos da prova. Um desempenho muito pobre, sobretudo na Taça de Portugal.

QUE FUTURO PARA O FC PORTO?

Qual será o projecto que Jorge Nuno Pinto da Costa apresentará ao novo treinador? [Foto: rr.sapo.pt]

O futuro não avizinha-se risonho, muito pelo contrário, há a necessidade de fazer urgentemente receitas a rondas os 115M€ para escapar a uma multa pesada da UEFA por incumprimento do Fair-Play Financeiro.

Novamente o timoneiro cai, o elo mais fraco é sempre o treinador e o caminho mais fácil é o de rescindir contrato com o mesmo. Ainda que, de certa forma, era já anunciado que NES pudesse sair do clube, por todas as razões. Resultados, falta de títulos e um futebol triste, pobre e que definitivamente não se coaduna com o Porto.

Ainda sem novo treinador, a resposta urge e tem de marcar pela diferença. Os adeptos já começam a desconfiar da capacidade de decisão da actual SAD, a resposta dos mesmos terá de ser afirmativa e audaz.

A massa associativa chama por alguém que marque pela diferença e com um passado de sucesso, ideias fortes, mas também, um modelo de jogo ofensivo, alguém que tecnicamente e tacticamente seja superlativamente superior aos antecessores. Um discurso forte e cativante e um bom condutor de homens, alguém que saiba liderar e potencializar todas as unidades do plantel.

DISTINÇÕES FAIR-PLAY

Jogador do Ano: Danilo Pereira

Revelação do Ano: Alex Telles

Desilusão do Ano: Miguel Layún

Melhor Guarda-Redes: Iker Casillas

Melhor Defesa: Iván Marcano

Melhor Médio: Danilo Pereira

Melhor Avançado: Francisco Soares

GOLO DO ANO

DEFESA DO ANO

ONZE DO ANO

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Diogo AlvesAbril 27, 20176min0

A crise dos golos parece ter regressado ao Reino do Dragão, um filme já visto há cinco meses atrás, e, que, aqui já o tínhamos avisado. A culpa é da “eficácia” ou do “processo”? Questionávamos na altura. Cinco meses volvidos e os problemas do FC Porto continuam bem visíveis a todos.

Faltam 4 “finais” para o final da época e os dragões continuam atrás do Benfica, agora a 3 pontos de distância, já foi de apenas 1 ponto, e, em determinado momento houve a oportunidade para realizar uma ultrapassagem ao actual campeão nacional. Os pupilos de Nuno falharam os dois rounds que tiveram para serem líderes da Liga NOS e ainda permitiram que o tri-campeão nacional aumentasse a distância pontual. Fica no ar a ideia de que falta estofo de campeão ao grupo azul e branco. A idade jovem não pode ser usada como desculpa para tudo, quem chega à casa do Dragão sabe que vem para lutar por títulos e jogar debaixo de uma enorme pressão.

O timoneiro azul e branco tem culpas no cartório, o antigo guardião de Deportivo da Corunha e FC Porto continua a acumular erros na forma como monta o onze inicial de jogo para jogo, e, apesar de continuar a falar num processo em evolução, a verdade é que vemos um Porto com um modelo de jogo descontextualizado para a sua realidade, sem evolução e sem ferramentas que ajudem a potencializar jogadores como Óliver, André Silva, Corona e até Brahimi.

O FC Porto vai vivendo imenso das acções individuais para sustentar o seu jogar. Em todos os momentos os dragões vivem muito da qualidade dos executantes e não da qualidade colectiva.

Defensivamente foi montada uma fortaleza e é um dos momentos de jogo – a organização defensiva – que mais vezes foi elogiada pela crítica. Numa análise quantitativa vemos que o Porto melhorou de uma forma superlativa de uma época para a outra, nem há comparação possível com os 39 golos encaixados na época passada por Casillas.

Esta época os dragões são a melhor defesa da Liga NOS – apenas 14 golos sofridos – e uma das melhores dos principais campeonatos. Numa análise mais qualitativa já vemos que, muito do mérito defensivo parte de um conjunto de individualidades que estão ao dispor do clube. Neste caso, Felipe, Marcano e Danilo. Este trio tem sido fundamental. Também Casillas com as suas magníficas defesas tem ajudado – e de que maneira – a manter as balizas da Invicta invioláveis. Assim como na organização ofensiva também na fase defensiva os azuis e brancos apoiam o seu processo num conjunto de acções individualizadas e não em mecanismos e dinâmicas colectivas.

Sem ideias e sem critério…

[Foto: www.fcportonosjornais.blogspot.pt] Com Brahimi o rendimento de todos melhorou bastante.

Sem Brahimi o FC Porto empobrece bastante na fase mais decisiva do terreno, a magia do astro argelino é fundamental para rasgar as defesas contrárias, inventar, procurar espaços e servir em condições os avançados residentes. A expulsão diante do Braga fez disparar os alarmes do Dragão, ainda por cima com Corona – de novo – lesionado os portistas diante do Feirense viram-se privados dos dois maiores artistas.

Com o Feirense notou-se todas as dificuldades que a equipa tem mostrado nos últimos tempos. Sem criatividade, ideias e critério. Basearam o seu jogo na procura incessante dos corredores laterais – sobretudo Alex Telles – e apostaram em chegar ao golo através de cruzamentos para a área. Caótica e aleatória a forma como iam chegando à baliza do Feirense. Confiavam no lado mais imprevisível do jogo, uma bola pelo ar, um canto ou um livre.

A dupla que não é dupla

[Foto: www.11tegen11.net]

Com ajuda deste mapa de redes-sociais que vão acontecendo ao longo do jogo, é possível ver que André Silva e Soares não comunicam (através de passes) entre si. Uma dupla de avançados tem de viver em sintonia, criar as suas dinâmicas (sem fugir ao padrão colectivo) e ajudar-se entre si.

Os dois avançados jogam longe um do outro, quase não convivem dentro da área do adversário. André Silva desloca-se para o corredor direito e Soares cai muitas vezes no corredor esquerdo. Ambos vivem melhor dentro da área, mas por algum motivo, que só Nuno saberá, os dois têm jogado em zonas exteriores.

Em contra-relógio até ao fim

Um dos passos que terá de ser dado para os quatro jogos que faltam é voltar a associar os dois avançados. Voltar a criar mini sociedades entre jogadores para conseguirem resolver os problemas que irão encontrar em Chaves, na Madeira, com o Paços de Ferreira em casa e com o Moreirense.

Esteticamente já não veremos nada demais nestes próximos jogos, o tempo é pouco para grandes inovações e agora o que realmente importa são os três pontos. O técnico azul e branco e o seu staff terão de tentar pelo menos criar alguns mecanismos e dinâmicas simples para que os criativos como Óliver, Corona e Brahimi consigam impor a sua magia em campo. Deixar de lado a nuance de André Silva no corredor, exterminar com os movimentos exteriores de Soares e focá-lo para estar no seu habitat que é a grande área do adversário. Permitir que haja mais corredor central e um jogo mais metódico em busca do golo e não querer chegar ao golo através da garra, da aleatoriedade e do lado mais caótico do jogo.

O tempo corre contra Nuno e os seus pupilos, mas já vimos um pouco de tudo ao longo dos últimos anos no campeonato português. Achar que isto está decidido é um erro.

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Diogo AlvesDezembro 22, 20168min0

Costuma-se dizer que há males que vêm por bem, e, no caso do FC Porto, a lesão de Otávio permitiu que o argelino Brahimi voltasse às contas de Nuno Espírito Santo. O regresso de Brahimi foi muito importante, não só no jogo com o Braga – quando entrou para substituir Otávio -, mas em todos os encontros que se seguiram para o FC Porto, entre os quais um desafio decisivo diante do Leicester. Um olhar sobre os Dragões em Dezembro.

Otávio desde que regressou ao FC Porto tornou-se rapidamente uma das principais peças no onze de Nuno Espírito Santo. O pequeno criativo brasileiro teve um início de época soberbo onde encantava os adeptos com dribles desconcertantes que deixavam os rivais de cabelos em pé. Otávio actuava a extremo-esquerdo e relegou para o banco o argelino Yacine Brahimi que no início da época parecia estar de saída do Futebol Clube do Porto. Apesar de não ter muito golo – apenas dois -, o médio brasileiro era fundamental na criação de jogo do FC Porto no último terço.

O bom momento de Otávio terminou com o Braga, embora já nos jogos anteriores o médio brasileiro começasse a dar sinais de alguma fadiga e já não solucionava muito bem os problemas que iam surgindo ao longo do jogo, tornando-se por vezes num jogador que emperrava a equipa.

As soluções para substituir o médio não eram muitas e naquela altura só havia mesmo Yacine Brahimi, que parecia esquecido e até mesmo excluído do plantel do FC Porto,. Mas, por obra do acaso (ou não), a verdade é que nos últimos tempos revelou-se como pedra fulcral nas recentes vitórias dos azuis e brancos. A lesão de Otávio acabou por abrir a porta a Brahimi que parecia, a dada altura, fechada.

Entrou no decorrer do jogo com o Braga – ainda na primeira parte – e foi um dos maiores agitadores do jogo a favor do Porto. É verdade que Rui Pedro foi o herói e Diogo Jota o obreiro, mas muito do jogo ofensivo do Porto passou – e bem – pelos pés de Brahimi.

Cimentou o seu lugar no pós-Braga e não mais saiu do onze, assim como também nunca mais Nuno Espírito Santo mexeu na equipa titular. Nos três jogos seguintes ao seu regresso, Brahimi fez questão de dar sinais de total compromisso com o treinador, com os colegas e com o clube. Mais comprometido em missões defensivas, mas sobretudo mais assertivo nas acções ofensivas. Menos individualista e mais colectivo. O drible em vez do passe estará sempre lá, porque é-lhe intrínseco, corre-lhe nas veias, mas já vemos um Brahimi a usar esse lado mais individual para ajudar mais a equipa e menos para jogar para ele e para a plateia ver.

Diante do Leicester, Feirense e Marítimo, o argelino apontou três golos, um em cada partida. Com o Leicester apontou um dos golos mais bonitos desta fase de grupos da liga milionária: de calcanhar a fazer lembrar outro argelino que passou pelo FC Porto, o inesquecível “mago” Rabah Madjer.

O que trouxe Brahimi à forma de jogar de Nuno

O 4x4x2 de Nuno Espírito Santo ganhou assim dois extremos “puros” em ambos os corredores e possibilitou que Óliver – indirectamente também beneficiou com a saída de Otávio – se posicionasse, em exclusivo, no corredor central ao lado de Danilo. Com Corona e Brahimi a partir dos flancos, a manobra ofensiva do FC Porto melhorou em relação aos jogos anteriores. Viu-se mais dinâmica, mais criatividade, mais fluidez e, finalmente, apareceram os golos.

No entanto, a manobra ofensiva do FC Porto, ainda precisa de ser refinada e terá de levar com afinações nas oficinas do Olival. Ainda é tudo muito feito na base da individualidade e não tanto, para já, com trabalho colectivo através de ideias colectivas ou de jogadas padronizadas. Embora haja sinais de melhorias que podem deixar os adeptos do FC Porto esperançados numa segunda parte da época com melhor rendimento em todas as fases do jogo.

Um FC Porto que cada vez mais é paciente com bola, menos futebol directo e mais pausado, uma construção mais bem definida com Danilo próximo dos centrais, mas a soltar-se cada vez mais, apesar de algumas limitações a nível de visão de jogo, passe e criatividade. Enquanto isso, o criativo Óliver aparece mais numa segunda linha da fase de construção e aproxima-se do último terço do campo, associando-se mais com Diogo Jota e com os extremos Brahimi e Corona.

Os laterais continuam a dar a profundidade e largura nas faixas e deixam que os extremos, Brahimi e Corona, tenham liberdade para aparecer em zonas interiores, que é onde jogadores como o argelino e o mexicano poderão ser mais preciosos para desmontar as defesas compactas que habitam na Liga NOS.

A saída do onze do mexicano Héctor Herrera também tem de ser analisada como algo positivo para a forma como a equipa quer jogar, e não apenas como o “castigo” do pós-Benfica. Com Herrera na meia-direita, o FC Porto era pouco assertivo a atacar e as decisões nem sempre eram as melhores nem as mais céleres, porque Herrera sentia-se como peixe fora de água a jogar numa posição mais de extremo e menos de médio-interior. Tornava muitas vezes o jogo mais físico e pouco fluido e sem a imprevisibilidade e criatividade que há agora com Corona na meia-direita.

[Foto: Record.xl.pt]

O que se segue para Nuno Espírito Santo em 2017

O grande desafio para Nuno Espírito Santo agora em 2017 será o de conseguir trabalhar a manobra ofensiva com o mesmo afinco que fez com a organização defensiva – aí ninguém tem dúvidas que o FC Porto melhorou significativamente. É uma das melhores defesas da Europa com apenas 7 golos sofridos, e para trás ficam 7 jogos sem sofrer qualquer golo.

Essa boa solidez defensiva deve-se muito às boas rotinas criadas entre Felipe e Marcano que contam também com o bom momento de Iker Casillas e o trabalho “invisível” de Danilo, que tem sido fundamental na manobra defensiva da equipa. Danilo tem sido o jogador mais importante para impor uma pressão alta e agressiva no momento da perda de bola. No entanto, sente-se em toda a equipa muito empenho para recuperar logo a bola quando a perde. Tudo muito bem trabalhado até aqui.

Com Brahimi na CAN como será?

Nuno Espírito Santo não terá apenas o desafio mais táctico para solucionar em 2017, o treinador portista terá de agora lidar com a ida de Brahimi para a Taça das Nações Africanas (CAN) já no início de Janeiro. Perderá o jogador mais influente actualmente na manobra ofensiva da equipa, um jogador que lhe estava a trazer golo, assistências e ajudava a desbloquear os jogos quando estes estavam mais complicados.

Voltará a ter Otávio e ganhará um jogador mais altruísta e disciplinado tacticamente ao contrário de Brahimi, mas será que Otávio conseguirá ter o mesmo peso do argelino no onze? Uma resposta que só saberemos em meados de Janeiro, data prevista para o regresso de Otávio, que, por agora, continua em recuperação.

João Carlos Teixeira nas próximas semanas poderá ter a verdadeira oportunidade de se mostrar, e até poderá ser o substituto imediato de Brahimi no onze. Nuno Espírito Santo tem lançado o jogador português nos últimos jogos e este tem entrado sempre para o lugar de Brahimi. Por natureza João Carlos Teixeira é mais um médio-interior, mas também poderá actuar como ala esquerdo no 4x4x2 de Nuno Espírito Santo, uma vez que no Liverpool começou a jogar mais vezes como ala e menos como médio-interior.

João Carlos Teixeira poderá ter a sua oportunidade [Foto: Global Imagens / Leonel de Castro]

Em Janeiro abre também o mercado de inverno e o FC Porto, como os outros clubes, estará atento a bons negócios que possam surgir, seja para vender ou para comprar. Nos últimos tempos têm surgido rumores de que os dragões estarão interessados em mais um avançado e a imprensa vai avançado com insistência o nome de Luiz Adriano. Não saberemos se o brasileiro a actuar no AC Milan virá ou não, mas certo é que o Fair-Play estará atento e trará artigos sobre este defeso de inverno.

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Francisco IsaacDezembro 19, 201610min0

Nunca gostei de Iker Casillas, é assim que se inicia este artigo. O guarda-redes espanhol que bateu recordes e números, para além de ter conquistado todos os títulos ao seu “alcance”, foi sempre alvo de uma eterna paixão ou irritação por parte dos adeptos do desporto Rei. Um olhar e uma opinião sobre quem é Iker Casillas

Nunca gostei de Iker Casillas, o guardião espanhol que conquistou um Mundial e dois Europeus ao serviço da Roja. Durante anos olhava para o madrileno com algum desdém, seja pelo olhar “arrogante” com que fitava os seus adversários, seja pelo modo como defendia “agressivamente” as cores do Real Madrid e a sua Espanha ou pelo facto de ter dominado o balneário dos madrilenos durante anos a fio depondo os treinadores que iam contra a “sua vontade”.

Casillas foi o epíteto de sucesso do Real Madrid durante anos a fio, com três Champions League em mais de 16 aparições na prova máxima de clubes na Europa. Para além disso, Iker Casillas conquistou mais 15 troféus (destaque para as 5 La Ligas) nos tais 16 anos ao serviço de um dos maiores colossos a nível Mundial.

Foram cerca de 725 jogos com a camisola dos merengues (no caso de Iker seriam outras cores), um número “pesado” e histórico para o futebol mundial. Outro número curioso é o cruzamento de jogos com golos sofridos. Em toda a carreira, o guardião espanhol somou cerca de 830 jogos, consentindo 798 golos, saindo “impune” em 291 ocasiões.

Casillas participou em mais de 10 competições diferentes (está incluída a Liga NOS, já que curiosamente o guarda-redes do FC Porto não participou nem na Taça da Liga nem na Taça de Portugal em dois anos no clube), defendendo remates, soqueando cruzamentos e organizando a sua defesa com grande qualidade.

Olhando para todos estes números e metas, qualquer apaixonado pelo Desporto Rei tem respeito pela imensa carreira do guardião. Porém, continuo a dizer que nunca gostei de Iker Casillas.

Casillas com a Copa na mão (Foto: The Guardian)

Aquela Bomba de Nuno Gomes em 2004

Tinha sempre mais gosto quando Portugal, ou as equipas portuguesas, conseguiam completar uma jogada com um golo ao portero da Roja. Recordo-me bem daquele remate do Nuno Gomes no Euro 2004: Casillas, com o nº23 nas costas, nem teve reacção ao potente remate do avançado do SL Benfica, levando os portugueses a uma emoção que iria continuar nos seus picos até à desditosa final.

Ver Casillas a cair na fase de grupos trouxe um sentimento “venenoso”, já que guardava algum rancor para com ele. Os anos passaram, a Espanha reergueu-se e conquistou – quase – tudo o que havia para conquistar entre 2008 a 2012. O seu mérito na baliza de la Roja ficou sempre algo “obstruído”, pois “viveu” com outros maestros durante esses anos de grandes vitórias.

O espectáculo que era aquele jogo dos espanhóis tinha vários responsáveis: entre o “namoro” táctico de Xavi, a “arte” apaixonada do drible e criação de Iniesta, a eficácia cruel de Fernando Torres ou a ligação surpreendente entre Ramos-Piqué. Mas Casillas estava lá e foi fundamental para que conseguissem levantar os troféus nas três competições máximas da FIFA/UEFA.

É ainda mais interessante quando observamos o Euro 2008 e 2012 e o Mundial 2010 e notamos que Casillas sofreu zero golos na fase a eliminar… Zero! É um número inédito para qualquer guarda-redes que tenha marcado presença em vários torneios europeus e mundiais.

Os golos sofridos foram só consentidos na fase de grupos. Curiosamente, no Euro 2008 sofreu três golos, no Mundial 2010 foram só dois os remates certeiros (começou com uma derrota frente à Suíça por 1-0) e no Europeu de 2012 só um remate é que encontrou o caminho da baliza do espanhol.

Mais uma vez, os números são interessantes e merecem respeito por toda comunidade do futebol… mas não garante que tenhamos de gostar da imagem de Iker Casillas. Para quem está de fora da capital espanhola, o guardião de 1,85 metro era encarado como o exemplo da arrogância máxima e desconsideração de Madrid perante os restantes territórios de Espanha.

As Peleas com Barcelona e o sanar do Conflito

As guerras entre Casillas e Piqué eram entendidas como uma batalha entre a Andaluzia e a Catalunha, entre o espírito de domínio e o de rebeldia anunciada, atingindo o seu êxtase em plenos clássicos entre os culés e os merengues.

Curiosamente, foi o próprio Casillas (com Xavi) a colocar “fim” ao intenso espírito de guerra que se sentia em La Liga, entre os catalães do Barcelona e os andaluzes do Real Madrid. A reunião foi alvo de críticas por parte das gentes de Madrid, mas Iker só queria pôr fim (motivado pelo balneário) a uma forma de se estar errada no desporto. Xavi, que também foi responsável por alguns episódios menos bons, trouxe o seu melhor lado para “cima da mesa” e o acordo de mútuo respeito ficou estabelecido. Este foi, talvez, um dos momentos mais categóricos da passagem do espanhol pelo futebol de nuestros hermanos.

Depois chegou o “adeus” ao Real Madrid, um dos momentos mais trágicos da história recente dos madrilenos. Por que é que falamos em tragédia? Pela forma como a direcção do clube espanhol “despachou” o guarda-redes, sem direito a honras nem mercês, sentado sozinho perante os repórteres que, acima de tudo, ficaram pasmados com a situação que estavam a viver.

Para surpresa de muitos, o lendário guardião escolheu (se assim o podemos dizer) o FC Porto como novo destino profissional. Sair de uma “casa” que habitava desde sempre para agora um destino desconhecido era, no mínimo, “assustador”.

A primeira temporada nos dragões não foi satisfatória, apesar de ter brilhado em alguns jogos: na Luz e no Dragão frente ao SL Benfica (fenomenal no 1×1 frente quer a Jonas quanto a Pizzi); em Tondela (segura um penalty que daria o empate à equipa da casa); ou diante do Vitória de Guimarães, em casa; entre outros tantos.

Em abono da verdade, Casillas também falhou em momentos críticos da época para o FC Porto, com aquele lance em Guimarães a ficar como uma “mancha” pesada no seu reportório. Porém, subitamente ocorreu algo que mudou a minha opinião perante Iker Casillas.

No meio daquele marasmo de temporada que foi 2015/2016 para os azuis-e-brancos, o espanhol teve sempre uma postura de defesa dos ideais do clube, de trabalho intenso que muitas vezes não teve retorno e uma forma de estar com os adeptos mais próxima do que a maioria alguma vez pensou.

A época terminou sem títulos (no jogo da Taça de Portugal ficou no banco, não deixando de ficar histérico com o 2º golo de André Silva), com críticas “agressivas” a todos os parâmetros e secções da equipa, com a própria permanência de Casillas a ser questionada.

A saída fácil para a lenda da Roja seria o abandono do Dragão para ir em busca de outras paragens mais rentáveis (Estados Unidos da América ou Inglaterra), terminando a carreira de forma mais segura, estável e calma.

Aquelas defesas… (Foto: Ojogo)

A grandiosidade da carreira no Dragão

Todavia, para surpresa de todos aqueles que seguem a carreira de Casillas, o guarda-redes decidiu ficar na cidade do Porto, apostando em mais uma temporada na Invicta. Com esta decisão o respeito pela sua imagem cresceu, os adeptos ganharam um “carinho” especial e até os seus adversários “aplaudiram” a humildade de Iker.

Em 2016/2017, a equipa do FC Porto sofreu, até agora, 9 golos em 22 jogos, tendo Casillas alinhado em 20 partidas. Na Champions League os dragões foram a 3ª defesa menos batida (só Juventus e Atlético Madrid se saíram melhor); e, em termos internos, é a formação com menos golos sofridos na Liga. Para tal registo, Casillas já foi “senhor” de uma série de belas defesas a remates complicados, especialmente em jogos que culminaram em empates para os dragões – no estádio do CF “Os Belenenses” salva a sua equipa de um golo de Camará que poderia ter sido fatal.

Para além disso, nota-se uma excelente comunicação com os seus parceiros da defesa, como demonstram as situações nas bolas paradas (apesar de alguns golos terem provindo dessa situação, isto no início de temporada), ou a leitura de várias situações de perigo iminente (destaque para a reacção e estratégia a defender em situação resultante de contra-ataque).

Nota-se um Casillas mais “calmo”, concentrado e “alegre” com a vida na Invicta, com uma raça mais fiel ao código do que é o FC Porto.

“Nunca gostei de Iker Casillas” – foi assim que começámos esta breve rábula de ideias… No final, posso dizer que não sou apaixonado pela forma de ser do espanhol, mas ganhei um respeito e carinho especial pela forma como tem representado a sua carreira enquanto guarda-redes.

Façam um simples exercício de reflexão: Iker Casillas passou mais de 820 jogos “sozinho” entre os postes. Sentiu várias as vezes o “Mundo” contra si, com um coro de assobios, de críticas e de vexame escusado.

Em Madrid a relação com a direcção, treinadores e afición foi sempre de amor-ódio, onde foi “obrigado” a provar que era o melhor dos melhores entre os merengues. Salvou o Real de muitas derrotas, levou a que a Espanha subisse aos pódios e carimbou o seu lugar entre as maiores lendas do Desporto.

Casillas jogou com e contra todas as grandes lendas da viragem do século XX para o XXI, festejou com os Ronaldos, sofreu golos de Messi ou Henry, digladiou-se com Tévez e Kluivert, trocou de camisolas com Kahn ou Buffon, entre outros marcos.

Uma lenda do futebol mundial, um mito da sua Espanha e um “bombeiro” de categoria mundial, Iker Casillas merece mais respeito, carinho e consideração pela enormidade de guarda-redes que foi/é e será na memória histórica do Desporto Rei.


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