ATP 2026: talento sem hegemonia

André Dias PereiraDezembro 26, 20254min0

ATP 2026: talento sem hegemonia

André Dias PereiraDezembro 26, 20254min0
O circuito ATP entrou em um novo momento. Novos nomes, muito talento, mas ainda sem hegemonia de um atleta só

Durante quase duas décadas, o tênis viveu sob uma lógica de que havia um dono do jogo. Às vezes dois, por vezes três. Foi assim com Federer, primeiro, Nadal e Federer, depois, e por fim a tríade: Federer, Nadal e Djokovic.

A temporada de 2025 veio confirmar que essa era terminou. Pelo menos por enquanto. Não por falta de talento, mas porque sobram candidatos e não há um domínio absoluto. A temporada de 2026 não responderá à pergunta sobre quem é o melhor do mundo, mas quem vai conseguir manter-se no topo da hierarquia por mais tempo ao longo do ano. E a resposta para isso será quem se consegue sustentar num circuito cada vez mais físico, tático e mentalmente instável e competitivo.

Os primeiros nomes que surgem à cabeça são, por motivos evidentes, Carlos Alcaraz e Jannick Sinner. Os dois têm sido, sim, os maiores protagonistas mas nenhum deles conseguiu ainda impor uma autoridade plena. Alcaraz venceu e brilhou, mas oscilou. Sinner foi consistente, mas mostrou limites emocionais extra court.

Em 2025 o jogo, como em qualquer outro desporto, continua a evoluir estruturalmente. Cada vez mais, o tênis exige potência constante, resistência física (até para rallies mais longos), capacidade de adaptaçãoa circuitos diferentes e estratégias táticas, bem como estabilidade mental em temporadas longas e com mais torneios intermediários. Fraquejar em um desses pilares representa um risco elevado de perder espaço no jogo.

Alcaraz vs Sinner

O espanhol e o italiano são hoje, provavelmente, as duas grandes referências da modalidade. Mas nenhum garante a hegemonia. Alcaraz é, possivelmente, o mais completo, mas 2025 deixa a nu que o seu jogo depende ainda do seu contexto. O rompimento com o seu treinador, Juan Carlos Ferrero, é relevante e pode mexer com a sua identidade de jogo. A pergunta para 2026 não é se ele vai dominar, mas se vamos ter uma versão mais pragmática de si mesmo.

Sinner, por seu lado, representa o oposto. Menos espetacular, menos físico, mas mais eficiente. Porém, o seu teto emocional ainda é uma incógnita. O ano de 2025 mostrou que quando pressionado, extra court, não é tão inabalável quanto Alcaraz ou os seus antecessores: Nadal, Djokovic e Federer.

Os outsiders

A época é longa. E há espaço para outro tipo de perfil de jogadores brilharem, dependendo o contexto. Ben Shelton não é vistoso tecnicamente, mas é competitivo o suficiente para criar problemas grandes a qualquer um. Jack Draper, se saudável, pode competir de igual para igual com qualquer adversário. Alex de Minaur talvez nunca venha a ser número 1 do mundo, mas certamente ninguém quer ter o australiano pela frente. Depois, claro, há Zverev e Medveded. O alemão é um dos mais talentosos do circuito. Disso ninguém duvida. Só que o seu problema de mentalidade competitiva deixou de ser circunstancial e passou a ser estrutural. Zverev continuará a ganhar jogos e torneios, mas se não mudar o chip continuará a perder os jogos que definem legados.

Claro, Djokovic, é outro nome que não pode ser ignorado enquanto jogar. O sérvio não precisa de provar nada, por esse motivo o que ele pode entregar em 2026 não é no domínio semanal, impacto cirurgio. Obviamente, não voltará a dominar o circuito, em torneios relevantes pode ainda desorganizar chaves, eliminar favoritos e transformar jogos em batalhas mentais.

Medvedev também não pode ser ignorado. O russo vide de altos e baixos. Ele ainda é elite mas já não define o jogo. Para dar o salto a outro nível deverá reajustar o seu jogo de serviço e ser mais agressivo. Só assim voltará a ser candidato a títulos relevantes ao invés de candidato a semi finais.

Nuno Borges e Francisco Cabral

Não é expectável que Portugal apresente um nome que vá impactar o ténis mundial. Sejamos realistas, Portugal ainda está na fase de consolidação do ténis e não da explosão de grandes nomes. Ainda assim, será interessante acompanhar Francisco Cabral e Nuno Borges.

Francisco Cabral teve um ano histórico, sem depender de singulares. Atingiu o top-20 do ranking mundial de pares, atingiu finais importantes ao lado de Lucas Miedler, e venceu três torneios (Hangzhou, Gstaad e Atenas), chegou às meias-finais do master de Paris e flerto com o ATP Finals de duplas. Veremos como vai consolidar-se em 2026, se consgue chegar no top-15 ou até ser cabeça de chave em um Grand Slam.

Nuno Borges, por seu lado, teve uma temporada mais complexa que Cabral. Regressou ao top 50, em singulares, foi até à terceira ronda de Wimbledon e Roland Garros (venceu Casper Ruud) mas também teve momentos menos bons. Para o novo ano, não é utópico pensar num top 30 ou até mesmo top 20. Para isso, precisa manter níveis físicos e técnicos mais estáveis, isto é, ser mais consistente. Borges já provou ser capaz de vencedor nomes de elite, como Casper Ruud, mas terá agora fazê-lo de forma mais frequente.

Nuno Borges é um talento ainda em construção e um jogador a acompanhar de perto em 2026.


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