E de repente, o Judo teve honras de prime time…

João CamachoJunho 11, 20196min0

E de repente, o Judo teve honras de prime time…

João CamachoJunho 11, 20196min0
A comunicação social acordou para o Judo, mas acordou para os assuntos menos interessantes e que não mereciam qualquer destaque. Um comportamento negativo?

Quando um atleta ganha protagonismo por uma situação insólita

O Grand Slam de Baku, uma das principais etapas do Circuito Mundial da Federação Internacional de Judo (IJF), que decorreu entre os dias 10 e 12 de Maio, ficou marcado pela situação insólita que envolveu o judoca Anri Egutidze. O Judo Português teve honras de prime time, em praticamente todos os canais generalistas, o que por um lado é muito positivo, pois dá destaque a uma modalidade frequentemente esquecida (como praticamente todas as modalidades desportivas à exceção do Futebol), mas por outro motivou um amplo debate, onde se incluíram especialistas de futebol, políticos, ex-políticos, especialistas de temas que vão desde a política geoestratégica mundial a análise da vida alheia.

Ora por muito insólito que tenha sido este episódio, torna-se pertinente dar uma explicação do ambiente que antecede estes combates, pois o desconhecimento é óbvio e, como diz o povo, “a ignorância é atrevida”.

O Circuito Mundial reúne os melhores atletas do Mundo num conjunto de etapas, divididas em seis Grand Slam (as mais importantes e que mais pontos atribuem aos atletas), dez Grand Prix (ocorrem em maior numero mas atribuem menos pontos) e um Masters (evento que reúne os 16 atletas mais bem classificados no ranking de cada categoria de peso), que permitem amealhar pontos, fundamentais para a classificação dos atletas no ranking mundial e, em paralelo, desde o final de Maio de 2018 e durante dois anos, o ranking que definirá os atletas que estarão presentes nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Anri Egutidze, nasceu na Geórgia, antiga Republica Soviética, um País com uma grande tradição nos desportos de combate e, atualmente, uma das grandes potências do Judo, especialmente no género masculino. Veio muito novo para Portugal onde, desde muito cedo, iniciou a sua prática no Sporting Clube de Portugal. Tem diversos títulos Nacionais individuais e de equipas, foi campeão da Europa de Clubes o ano passado (feito histórico para o Judo Português), ao serviço do Sporting Clube de Portugal, foi Vice-Campeão da Europa de Juniores em 2016 e já conta com diversas medalhas no Circuito Mundial, o que o coloca, atualmente, entre os atletas com mínimos para as Olimpíadas de Tóquio 2020.

Anri Egutidze (Foto: EJU)

Realidade de um atleta de alto rendimento

Um atleta de alto rendimento é, na prática, um atleta profissional, que treina uma média de 5/6 horas por dia, divididas em 2 ou 3 sessões de treino, que incluem sessões técnicas, de preparação física e de combate, sem esquecer a fisioterapia (para debelar ou recuperar de lesões) ou apoio psicológico e de nutrição.

A maioria dos atletas que competem a este nível – e que fique claro que estamos a falar da elite, dos melhores dos melhores – são atletas de alto rendimento, com uma dedicação profissional, sujeitos a uma enorme pressão, que começa uns dias/semanas antes, com a perda de peso, um verdadeiro pesadelo dadas as privações a que são sujeitos para que possam entrar na categoria de peso em que estão inscritos, com trabalho para a recuperação de lesões (algumas crónicas), ou pelo menos para minimizar as mesmas, sujeitando-se a sessões intensivas de fisioterapia e tratamentos. Isto para não falar de toda a ansiedade pré-competição, desde o momento do sorteio, em que os atletas conhecem os seus adversários.

No dia da prova, os atletas, depois do aquecimento e sessão de fisioterapia/massagem, aguardam o seu combate na sala de aquecimento e são obrigados a cumprir escrupulosamente a chamada, observam os combates dos seus potenciais adversários, num clima de tensão, de muita ansiedade. Quando o atleta é chamado para o combate, é sujeito a uma verificação do equipamento, o fato de Judo (Judogui) é inspecionado criteriosamente (limpeza, medida), depois passa para uma zona de espera, onde recebe as ultimas instruções do seu treinador, e tenta manter a concentração, o foco, estando autorizado a recorrer, à tecnologia (auscultadores ou headphones ligados por tecnologia sem fio a um telefone ou smartphone) para escutar uma determinada banda ou ouvir musica que permita manter a concentração e abstrair o atleta do ambiente tenso que o rodeia, focando-se no que é verdadeiramente essencial, o próximo combate.

Anri, como todos os outros competidores, esteve sujeito a toda esta rotina e, por lapso, no momento em que se encaminhou para o tapete onde iria decorrer o seu combate, apenas retirou os auscultadores, ficando o telefone dentro do casaco do seu Judogui, de onde caiu ao fim de 13 segundos de combate. O Judo não permite ao atleta que combata com qualquer elemento estranho, que possa colocar em risco a integridade física dos atletas, por isso foi de imediato desqualificado pelo árbitro. Uma situação insólita, que deixou o atleta frustrado e inconsolável. Compreensivelmente, apesar de ter sido negligente, pois deveria ter garantido que estava tudo preparado e em conformidade.

O acontecimento rapidamente propagado, sinal dos tempos modernos – pelas redes sociais, foi objeto de notícia em praticamente todos os órgãos de informação, tendo sido tema de debate em diversos painéis de comentadores.

Não haveria nada a estranhar sobre a visibilidade dada ao incidente, podendo até entender-se que correspondia a um maior interesse pela modalidade, mas a realidade é que, na véspera, Catarina Costa, atleta da categoria de 48Kg, tinha conquistado a medalha de Bronze nesta importante etapa do Circuito Mundial, e a notícia, tirando um pequeno apontamento nos diários desportivos, passou quase despercebida. Catarina Costa, para além de atleta de alta competição que está em excelente posição para a sua primeira qualificação Olímpica, para Tokyo 2020, é também finalista do curso de medicina, na Universidade de Coimbra.

Salvo melhor opinião, o bom resultado de Catarina Costa deveria ter sido a notícia a merecer destaque e ampla divulgação, em benefício do Judo e do nosso País. Mas este episódio demonstrou, mais uma vez, que estamos perante uma alarmante confusão de valores, lamentavelmente com o patrocínio sensacionalista dos media e com um veículo de propagação demolidor chamado redes sociais….

Teddy Riner-Bi campeao Olimpico e 10 vezes campeão do Mundo (Foto: Le Person)

Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter