Os eventos de Track mais aguardados dos Mundiais de Doha 2019 pt.1

Pedro PiresJaneiro 2, 201912min0

Os eventos de Track mais aguardados dos Mundiais de Doha 2019 pt.1

Pedro PiresJaneiro 2, 201912min0
Depois dos eventos de Field, é a vez de falar sobre os 10 eventos de Track mais esperados em Doha2019! Qual estão mais expectantes de ver?

Depois de nos dois artigos anteriores termos falado dos eventos em destaque do Field, chegou a vez de falarmos dos eventos de pista, do Track, concluindo a nossa primeira antevisão aos Mundiais de Doha, ainda antes do início da temporada.

Os eventos de estrada, devido à sua imprevisibilidade – ainda maior no contexto de Doha -, não serão alvo desta primeira antevisão, bem como os desportos combinados. Decidimos também não incluir qualquer evento de longa distância devido à sua particularidade e nº de provas anuais – apesar dos 5.000 metros masculinos estarem bastante apetecíveis depois da final da Diamond League de Bruxelas.

NOTA: As idades dos atletas apresentadas serão as idades que os mesmos terão na data de início dos Mundiais.

10 – 110 metros com barreiras (Masculino)

O jamaicano Omar McLeod (25 anos) tem sido o claro dominador da disciplina nos últimos anos. É o atual campeão olímpico e mundial e em Londres foi mesmo o “salvador da pátria” que evitou a ausência de Ouros jamaicanos na competição, remando contra a maré no que respeita à prestação do país caribenhos nesses Campeonatos.

Teve um 2018 muito apagado, algo fustigado por lesões, mas também por alguma ausência de motivação no chamado “ano-off” (os anos sem eventos globais, uma vez a cada quatro anos). No entanto, para 2019 já prometeu que irá reregressar ao mais alto nível e que até espera superar o que já fez no passado.

O seu melhor pessoal de 12.90 (+0.7) coloca-o igualado como o 5º atleta mais rápido da história e em Doha espera revalidar o título. Deverá, no entanto, prestar especial atenção ao russo Sergey Shubenkov (28 anos). Shubenkov, que ainda não sabe se já poderá finalmente voltar a competir sob a bandeira russa ou não, foi o campeão mundial em Pequim (2015) e quer agora recuperar esse título, depois de ter sido Prata em Londres.

2018 foi um ano estranho para o russo: teve as melhores prestações da sua carreira com 4 marcas abaixo dos 13 segundos (o único no mundo este ano abaixo dessa marca), incluindo o seu recorde pessoal de 12.92 (+0.6) que o iguala a 8º mais rápido da história.

Venceu a Diamond League e a Continental Cup com performances de elevadíssimo nível, mas surpreendentemente deixou escapar o título europeu ao correr em “apenas” 13.17 depois de um péssimo arranque, que apenas chegou para a Prata. Não é comum o russo falhar nos momentos importantes e em Doha deverá ser um dos favoritos.

O surpreendente campeão europeu, o francês Pascal Martinot-Lagarde (28 anos) pode ser um nome a entrar na luta das medalhas caso volte ao seu melhor nível, assim como o Bronze nesses Europeus e Prata nos Jogos Olímpicos do Rio, o espanhol, nascido em Cuba, Orlando Ortega (28 anos) que fez um 2018 de grande nível mas que não esteve ao à altura em Berlim.

A grande incógnita vem, ainda assim, dos EUA. Para começar, sabemos que a qualificação será apertada. É difícil prever se o recordista mundial Aries Merritt (34 anos) terá ainda o nível competitivo necessário para entrar numa final tão competitiva, mas há outros nomes como Devon Allen (24 anos) – que foi 5º nos Olímpicos do Rio – sedentos de grandes palcos. Atenção especialmente a uma das maiores promessas vindas dos EUA: Grant Holloway (21 anos) é um monstro no bom sentido. Já correu em 2018 em 13.15 (+0.9) e não se sabe se Doha entra nos objetivos do atleta, uma vez que ainda estando a competir no desporto universitário terá a época a começar bastante cedo.

9 – 1.500 metros (Feminino)

Os 1500 proporcionam sempre finais de grandíssimo interesse, independentemente de serem provas mais rápidas ou mais táticas. Curiosamente os dois últimos eventos globais tiveram a mesma vencedora – a queniana Faith Kipyegon (25 anos) – o que não atesta a real competitividade e equilíbrio na distância.

As finais de eventos globais têm-se pautado ultimamente por esse tipo de provas mais calculistas – no Rio, Kipyegon venceu em 4:08.92… – mas sabemos que a queniana não tem qualquer problema em provas rápidas, o que é comprovado, por exemplo, pela sua vitória na final da Diamond League de 2017, em Bruxelas, onde terminou em 3:57.04, provando adaptar-se a qualquer estratégia das rivais. E as rivais serão muitas. Entre elas constará a etíope Genzebe Dibaba (28 anos).

Foi a campeã em 2015, mas depois no Rio já se ficou pela Prata e tem mostrado dificuldades em grandes eventos ao ar livre, totalmente fora da luta em Londres. Em Pista Coberta, o cenário tem sido diferente e ainda em 2018 sagrou-se, mais uma vez, bicampeã mundial dos 1.500 e 3.000.

A aposta mista da atleta nos 1.500 e nos 5.000 pode ser algo a repensar, caso os resultados não voltem aos níveis de outrora. Outro nome certamente à procura de brilhar em eventos globais é o de Laura Muir (26 anos).

A britânica conquistou o título europeu em Berlim e a vitória na Diamond League numa prova rápida mostrou que é candidata a algo mais do que conquistas continentais, depois de ter cheirado o pódio em Londres. As norte-americanas Shelby Houlihan (26 anos) e Jenny Simpson (33 anos) são apostas muito sérias, depois de Houlihan ter mesmo feito o segundo melhor tempo de 2018 (3:57.34) e de Simpson continuar a mostrar-se especialmente talhada para grandes eventos – duas Pratas e um Ouro em Mundiais e um Bronze em Jogos Olímpicos.

Existem depois 3 nomes que, caso estejam em prova, serão sempre candidatas ao pódio, mas que persistem dúvidas sobre quais serão os seus planos.

A holandesa Sifan Hassan (26 anos) tinha como sua distância de eleição os 1500 metros e foi aí que alcançou o Bronze em Pequim e conquistou o Ouro Indoor em Portland. No entanto, nos últimos tempos temos visto apostas díspares da atleta, seja nos 5.000 (onde foi Bronze em Londres) ou até a Meia-Maratona!

Ainda assim, caso os 1500 metros sejam uma das suas apostas, será uma clara favorita. Outro caso é o da queniana Hellen Obiri (29 anos) que é a campeã mundial dos 5.000 metros – e deverá ser essa a sua principal preocupação – mas que também já foi medalhada nos 1.500 metros, sendo que este ano voltou a correr muito rápido (3:58.88) na única prova que fez na distância.

Ainda há Caster Semenya (28 anos). O caso da sul-africana é ainda mais complexo, uma vez que a IAAF ainda procura aprovar uma legislação que limite os níveis de testosterona, o que poderá afetar muito a atleta. A sua especialidade são os 800 metros, mas em Londres já alcançou o Bronze nos 1500 e este ano bateu a sua melhor marca pessoal, baixando pela primeira vez dos 4 minutos.

Mesmo evitando falar de potenciais surpresas, são 8 os nomes aqui referidos com expetativas de medalha, o que atesta bem a qualidade e a profundidade do evento.

Faith Kipyegon (Fonte Athletics Weekly)

8 – 1.500 metros (Masculino)

Em 2018, a distância propiciou-nos algumas das provas mais interessantes do desporto, mesmo quando as mesmas não foram especialmente rápidas. Não é um ataque a recorde mundial que se espera em 2019 e a marca de El Guerrouj (3:26.00) parece relativamente segura por enquanto – ainda que os 3:28.41 de Cheruiyot coloquem-no já como o 7º mais rápido de sempre.

E é precisamente por Timothy Cheruiyot (23 anos) que podemos começar. O atleta queniano teve um ano quase totalmente dominador em 2018, perdeu apenas por duas vezes, mas foram duas derrotas bastantes importantes, na final dos Jogos da Commonwealth e depois na final dos Campeonatos Africanos.

Venceu ainda assim a Diamond League em Bruxelas, repetindo o triunfo de 2017 e procurará em Doha subir uma posição face à Prata alcançada em Londres. Em Londres quem venceu foi o também queniano Elijah Manangoi (26 anos) e também foi ele que derrotou Cheruiyot nas duas importantes finais deste ano acima referidas, mostrando estar talhado para os grandes momentos, o que poderá fazer a diferença.

O marroquino Abdelaati Iguider (32 anos) que foi 3º nos Jogos do Rio pode sempre entrar na luta do pódio, assim como o atleta do Djibouti Ayanleh Souleiman (26 anos) que foram o 6º e 5º mais rápidos do ano respetivamente.

No entanto, o campeão olímpico, o norte-americano Matthew Centrowitz (29 anos) é uma enorme dúvida, depois de em 2017 ter desiludido bastante, sendo que o 2018 apesar de melhor, também não foi brilhante.

Deixou no final do ano o Oregon Project de Alberto Salazar e veremos o que esta nova etapa da carreira trará para si. Muita curiosidade existe também para ver a prestação dos manos Ingebrigtsen em Doha. Nos 1500 deveremos contar com Filip (26 anos), 3º em Londres – depois de um 2018 que não lhe correu especialmente bem em pista – e Jakob (19 anos em Doha) que já está por aí na luta da “gente grande” e que este ano sagrou-se duplo campeão europeu sénior em Berlim (1.500 e 5.000). E por falarmos em jovens, quem sabe se não teremos uma medalha etíope em Samuel Tefera (19 anos), que foi o campeão mundial da distância em Pista Coberta em Birmingham.

Manangoi (Fonte TV5)

7 – 3.000 metros obstáculos (Feminino)

O recorde mundial alcançado pela queniana Beatrice Chepkoech (28 em Doha) tem sido sucessivamente negligenciado nas listas de momentos do ano em relação aos alcançados por Kipchoge (na Maratona) e Mayer (no Decatlo), sem que existam muitos motivos para tal. É verdade que os dois recordes masculinos mencionados foram enormes, passos gigantes face a performance anteriores, mas não se pode negar que o que Chepkoech fez tenha sido em alguma medida menor. Para se ter uma ideia, o recorde anterior de Ruth Jebet era de 8:52.78 e Chepkoech correu no Mónaco em 8:44.32, retirando mais de 8 segundos a essa marca!

É verdade que é um evento mais recente do que os outros e que por isso a margem de progressão da marca pode ainda ter mais espaço, mas isso não retira em nada o valor da proeza da queniana face ao que o mundo já viu.

Parece muito pouco provável que em Doha vejamos Ruth Jebet (22 anos) devido à falha de um controlo anti doping, mas veremos com certeza a grande promessa do Quénia Celliphine Chespol (20 anos) que é a 3ª atleta mais rápida da história e que destruiu todos os recordes nos escalões mais jovens. Também poderemos contar com mais uma integrante do clube sub-9, a também queniana Norah Jeruto (23 anos) que alcançou essa marca este ano em Bruxelas. Também do Quénia, a campeã do mundo em 2015, Hyvin Kiyeng (27 anos) será uma das candidatas (podem ir 4, caso uma vença a Liga Diamante).

Do resto do mundo, a maior ameaça deverá vir das norte-americanas a tentar repetir o incrível feito alcançado em Londres, quando Emma Coburn (28 anos) se sagrou campeã mundial roubando um título por tradição queniano.

Coburn teve uma época irregular e poderá enfrentar alguma animosidade das rivais depois de ter dito que tem dúvidas sobre a marca de Chepkoech, insinuando a utilização de doping por parte da rival. Será sempre um osso duro de roer, apesar de em 2018 não ter sido a mais rápida norte-americana. Esse feito ficou para a nova recordista nacional – ela que também já havia sido Prata nos Mundiais de Londres – Courtney Frerichs (26 anos) que tentará voltar a entrar nas medalhas.

Beatrice Chepkoech (Fonte IAAF)

6 – 400 metros com barreiras (Feminino)

Em 2018 a nível internacional assistimos a bastante equilíbrio e emocionantes batalhas disputadas ao limite maioritariamente entre 3 atletas. Uma delas a campeã olímpica, a norte-americana Dalilah Muhammad (29 anos), a sexta mulher mais rápida de sempre, que em Londres “apenas” foi Prata; a outra, a também norte-americana Shamier Little (24 anos), a nona mais rápida de sempre e que em Pequim foi Prata com apenas 20 anos; e a jamaicana Janieve Russell (25 anos) a quem ainda lhe falta uma medalha global como sénior (enquanto jovens, todas elas foram campeãs mundiais da distância).

Esteve também bem a experiente norte-americana Georganne Moline (29 anos), que tem começado muito bem as épocas, mas que invariavelmente parece chegar desgastada aos momentos-chave da temporada.

No entanto, o ano de 2019 terá, pelo menos duas adições de peso. A primeira é o regresso à distância de Kori Carter (27 anos), a norte-americana que é a atual campeã mundial. Depois de um 2018 em que andou a fazer distâncias mais curtas para ganhar mais velocidade, deverá atacar 2019 em força, agora que se mudou para o Texas com o seu treinador Edrick Floréal. No entanto, a maior expetativa reside numa outra jovem que deixou a companhia de Carter, ao não seguir Floréal para o Texas: Sydney McLaughlin (20 anos em Doha).

A jovem bateu todos os recordes imagináveis em escalões jovens e por margens enormes, não havendo paralelo com qualquer atleta no passado a nível de marcas, não só na distância com barreiras, mas também sem barreiras (principalmente indoor esta).

Quando ainda não tinha completado os 19 anos já havia corrido em 52.75, marca líder mundial do ano e que a iguala com Little como a 9ª mais rápida de sempre. Assinou um contrato milionário com a New Balance para a sua primeira época como profissional e mudou-se para Los Angeles e será agora orientada pela grande Joanna Hayes, ela que foi campeã olímpica da distância de barreiras mais curta.


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