Uma estafeta no horizonte

João BastosFevereiro 8, 20189min0

Uma estafeta no horizonte

João BastosFevereiro 8, 20189min0
A natação portuguesa está perante o mais forte elenco de nadadoras de 200 metros livres de sempre. Será isso suficiente para Portugal ter uma boa estafeta?

Um dado inédito serviu de mote para esta análise do Fair Play. Daí surge um cenário bastante optimista mas não inatingível


8 de Fevereiro de 2018, dia em que está a ser redigido este artigo, ou seja, nos primórdios da temporada de piscina longa da época 2017/2018, numa altura em que os dedos de uma mão chegam para contar o número de competições em piscina longa que já aconteceram esta época, numa altura em que muito poucos nadadores portugueses já nadaram a mesma prova mais do que uma vez em piscina longa esta época e numa altura em que ainda nenhum nadador está em forma.

O introito pode parecer desnecessário, sobretudo aos leitores mais familiarizados com a calendarização da época da natação, mas para o facto que pretendemos assinalar, não é. Antes pelo contrário, dar-lhe-á ainda maior valor do que aquele que lhe está naturalmente associado:

Pela primeira vez, Portugal tem quatro nadadoras a nadar os 200 metros livres abaixo dos 2:05, na mesma época

Com a afirmação anterior já percebeu onde queremos chegar.

No ranking nacional das melhores nadadoras de sempre, apenas 10 conseguiram nadar abaixo dessa fasquia, mas até há três semanas eram apenas 8. As jovens juniores de primeiro ano Ana Sofia Sousa e Letícia André entraram no restrito lote das sub-2:05 no passado dia 21 de Janeiro, na Flanders Swimming Cup.

A juntar às duas nadadoras de 15 anos, as crónicas líderes do ranking nacional da prova – Diana Durães e Tamila Holub são, respectivamente, a número 1 e número 2 do ranking nacional desde 2014 – já se posicionaram no topo da lista. Diana lidera o ranking com os 2:03.73 que fez no Meeting Internacional de Uster e Tamila segue de perto a benfiquista com os 2:03.99 que fez no TYR Swim Series em Austin, no Texas.

Assim, o top-4 dos 200 metros livres está ordenado da seguinte forma:

  1. Diana Durães – 2:03.73
  2. Tamila Holub – 2:03.99
  3. Ana Sousa – 2:04.43
  4. Letícia André – 2:04.71

Do lote de 10 nadadoras sub-2:05 que referimos anteriormente, há ainda mais uma nadadora que se encontra no activo. É a nadadora do Sport Algés e Dafundo, Rita Frischknecht que ainda não nadou esta prova em 2018, mas que estabeleceu um novo recorde pessoal de 2:04.40 na última competição que nadou na época passada: as Universíadas de Taipé.

Rita está inscrita para nadar a prova já neste fim-de-semana no X Meeting Internacional de Lisboa WOS, onde irá encontrar Ana Sousa e Letícia André, numa prova que promete oferecer um bom espectáculo. Às três nadadoras juntam-se Ana Rita Faria, a nadadora do FC Porto que na época passada foi a quarta melhor portuguesa, ficando também à beira dos 2:04, nadando em 2:05.16, ainda Beatriz Viegas, a velocista que esta temporada está a ter uma evolução estrondosa na prova de 200 livres e nadou em 2:02.57 em piscina curta e também Madalena Azevedo, mais uma nadadora que nadou em 2:02 em piscina curta esta época (2:02.23)

Ou seja, se já era inédito haver quatro portuguesas a nadar em menos de 2:05 na mesma época, 2018 pode trazer algo ainda mais inédito que é esse número ser alargado.

Mas será suficiente para Portugal constituir uma estafeta de 4×200 metros livres competitiva no plano internacional?

Ainda não, e já balizaremos quanto será necessário para isso, mas parecemos estar a caminhar para lá.

O Fair Play fez o levantamento do top-4 de cada ano na última década e é indesmentível que a evolução nesta prova, no sector feminino, tem acontecido.

Fonte: Swimrankings

No quadro anterior é feita uma simulação dos melhores quatro tempos anuais somados, sendo evidente a melhoria que ocorreu ao longo dos últimos anos, com destaque para o salto qualitativo dado do ano 2016 para 2017.

A soma dos quatro melhores tempos deste ano (ainda) não é melhor que no ano passado, mas as perspectivas são animadoras.

O panorama nacional no contexto internacional

Já evidenciámos a progressão que esta prova tem demonstrado nos últimos anos, mas para viabilizar uma estafeta feminina 4×200 metros livres, será necessário ter em conta o nível internacional.

Em primeiro lugar, há um critério que deveria ser tido em conta na avaliação da hipótese de Portugal vir a constituir esta estafeta numa grande competição internacional: ter quatro nadadoras a fazer mínimo para a prova individual.

Este critério afigura-se muito difícil de concretizar, uma vez que o mínimo para os Campeonatos da Europa 2018 e 2020 é de 2:00.09 e para os Campeonatos do Mundo de 2019 é de 1:59.38 e não temos nenhuma nadadora a fazer, para já, marcas desse nível.

O segundo critério é analisar o histórico dessas competições.

No Europeu de Londres, em 2016, a final dos 4×200 metros livres fechou em 8:07.50 (Bélgica), dando uma média por percurso de 2:01.87.

No Mundial de Budapeste, em 2017, o acesso à final fechou em 7:56.49 (Canadá), correspondendo a uma média por percurso de 1:59.12.

Nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, a última equipa a apurar-se para a final (Suécia) nadou em 7:53.43, perfazendo uma média de 1:58.35.

Como seria de esperar, o nível dos Campeonatos da Europa é aquele que é menos difícil de atingir e, mesmo assim, exigiria que as quatro melhores portuguesas nadassem, em média, dois segundos melhor do que os seus recordes pessoais. É difícil, mas não é utópico!

Sobretudo tendo em conta i) a idade das candidatas a integrar essa hipotética estafeta; ii) o percurso recente das candidatas; e iii) considerando, mais uma vez, que estamos no início da época de piscina longa.

Mesmo com todos esses considerandos, ainda ninguém é capaz de apostar que é já nestes Europeus que a natação portuguesa conseguirá alcançar tamanha conquista, mas para 2020 não falta muito.

O suporte das bases

Se apurar uma estafeta absoluta para uma competição internacional é algo que surge no horizonte, também é verdade que esse horizonte ainda é algo longínquo. Já uma estafeta júnior para o campeonato da Europa da categoria pode ser uma possibilidade imediata.

Neste momento, a seguir a Ana Sousa e Letícia André surgem no ranking das nadadoras juniores dos 200 livres Alexandra Frazão (2:05.94) e Mariana Barbosa (2:06.55) – ambos os tempos feitos na época passada, quando as nadadoras ainda eram juvenis – perfazendo a soma dos quatro tempos o registo de 8:21.63, um bom registo quando comparado com a soma dos melhores tempos nacionais absolutos feitos nesta década e que daria o 10º lugar nos últimos Europeus de Juniores (o acesso à final foi de 8:20.00).

Na última vez que tivemos uma estafeta feminina de 4×200 metros livres a competir nuns Europeus de Juniores, foi batido o recorde nacional absoluto com Tamila Holub, Inês Henriques, Raquel Pereira e Madalena Azevedo a nadarem em 8:28.70.

Uma prova com ADN português

No sector feminino é nos 4×100 metros estilos que Portugal tem maior palmarés, no que respeita a estafetas. A única participação de uma estafeta feminina em Jogos Olímpicos deu-se em Atlanta’96 pela equipa de 4×100 estilos composta por Maria Carlos Santos, Joana Soutinho, Ana Francisco e Ana Alegria, uma equipa que trouxe dos Estados Unidos o 21º lugar. Dois anos antes, registou-se a única presença de uma estafeta feminina em Campeonatos do Mundo. Também foi nos 4×100 estilos com Petra Chaves, Joana Soutinho, Joana Arantes e Ana Alegria que foram 13ªs em Roma’94.

Mas nos 4×200 metros livres, Portugal tem tradição…só que no sector masculino.

Tradição essa que se iniciou nos Jogos Olímpicos de Montreal’76 com a equipa constituída por José Gomes Pereira, António Botelho de Melo, Rui Abreu e Paulo Frischknecht, os 17º classificados nesses Jogos Olímpicos.

Mais recentemente, Portugal teve um excelente leque de opções para nadar os 4×200 livres. Em 2004 participou nos Jogos Olímpicos de Atenas com Luís Monteiro, Adriano Niz, João Araújo e Miguel Pires (14ºs) e apresentou-se em três Mundiais consecutivos com esta estafeta, com uma rotatividade de nadadores que indicava o forte nível competitivo que experimentava o nosso país entre 2004 e 2009. Tiago Venâncio, Luís Monteiro, Adriano Niz, Fábio Pereira, Diogo Carvalho, César Faria e Jorge Maia foram os nomes que foram compondo os 4×200 livres em mundiais. Mário Pereira e Luís Vaz fizeram parte da equipa no Europeu de 2012.

Neste momento o sector masculino não parece ter condições para produzir uma boa equipa de 4×200 livres. Passará o testemunho para as senhoras?

E nas outras?

Bom, nas outras estafetas o cenário não é tão optimista. Nos 4×100 livres as quatro melhores nadadoras de 2010 fizeram um tempo conjunto de 3:50.82, pouco pior que o tempo combinado das melhores quatro nadadoras de 2017: 3:50.18.

Já nos 4×100 estilos, uma estafeta onde Portugal esteve representado nos Europeus de há dois anos, a melhor combinação de quatro nadadoras faria um tempo de 4:12.01 em 2010 e um tempo de 4:11.77 em 2017.

Ou seja, a evolução tem sido muito tímida nas distâncias que compõem os 4×100 livres e os 4×100 estilos.

Resta-nos, por isso, a aposta nos 4×200 livres!


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