Os melhores juniores são os melhores seniores?

João BastosJulho 12, 201814min0

Os melhores juniores são os melhores seniores?

João BastosJulho 12, 201814min0
Helsínquia foi a sede do último campeonato da Europa de Juniores de onde Portugal trouxe duas presenças em finais e seis novos recordes nacionais

Depois de uma grande competição é sempre tempo de balanços. É isso que o Fair Play se propõe fazer olhando para o que tem sido o desempenho de Portugal em Campeonatos da Europa de Juniores


* Artigo elaborado com a colaboração do Professor Carlos Freitas

Ainda no rescaldo do recentemente disputado Campeonato da Europa de Juniores, o Fair Play olha pelo retrovisor para tentar perceber se os juniores portugueses com melhores desempenhos na competição continental conseguem explanar todo o seu potencial quando ascendem a seniores, uma transição nem sempre pacífica por diversos factores: vida académica, desgaste físico e mental, estagnação ou desmotivação.

A análise consiste em destacar os nadadores que nas últimas 10 edições dos Europeus de Juniores conseguiram chegar a finais, ou no caso das edições onde Portugal não esteve representado em nenhuma final (apenas duas edições nos últimos 10 anos), os nadadores com as melhores classificações.

Começamos a viagem em Praga, no ano de 2009.

Praga 2009

Em Praga, Portugal teve uma das maiores selecções de sempre. Foram 19 os juniores que representaram as cores lusas, onde se destacavam nomes como Alexis Santos (no seu primeiro ano de júnior) ou Luís Vaz mas a única final alcançada pela nossa selecção foi da responsabilidade de uma nadadora: Ana Pinho Rodrigues.

A nadadora, que na altura militava na Associação Estamos Juntos, foi a 6ª melhor da Europa na sua grande especialidade, os 50 metros bruços.

Ana Rodrigues é actualmente a recordista nacional absoluta dos 50 e 100 metros bruços em piscina longa e dos 50 metros bruços em piscina curta. Em termos de presenças internacionais, o grande destaque do seu currículo é a presença nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, mas ainda conta com duas presenças em Campeonatos da Europa de Piscina Longa e quatro presenças em Campeonatos da Europa de Piscina curta, faltando-lhe – entre os grandes certames internacionais – apenas a presença em Mundiais…mas ainda vai a tempo.

Foto: Luís Filipe Nunes

Helsínquia 2010

Tal como na presente época, também em 2010 os melhores juniores europeus competiram na capital finlandesa e também à semelhança deste ano, Portugal apresentou-se com uma equipa de 10 nadadores, uma equipa mais pequena que em Praga 2009 mas mais eficiente já que alcançou cinco finais por intermédio de três nadadores.

Tal como no ano anterior, Ana Pinho Rodrigues voltou a marcar presença na final dos 50 metros bruços e teve as medalhas à vista. Foi 4ª classificada com 32.50 a 2 centésimos do bronze.

Os outros finalistas foram dois sportinguistas: Gustavo Santa, que também ficou perto das medalhas tendo sido 4º nos 400 metros livres (numa final vencida por Yannick Agnel com Sergiy Frolov no segundo lugar) e ainda foi 6º na final directa dos 800 metros livres e Alexis Santos que também chegou a duas finais. Foi 7º nos 200 metros estilos e 9º (nesta edição as finais tinham 10 nadadores) nos 50 metros costas.

Gustavo foi um dos maiores fenómenos no escalão de juniores. Nesta edição de Helsínquia ainda era júnior de primeiro ano, mas a nível absoluto não alcançou nenhuma grande competição (considerando Europeus, Mundiais e Jogos Olímpicos). De resto, as últimas provas que fez em solo nacional fê-las quando tinha apenas 20 anos.

Quanto a Alexis Santos é bem conhecido o percurso de sucesso que o actualmente tetra-recordista nacional absoluto de piscina longa está a ter no nível absoluto. Destaque para a sua medalha de bronze nos Europeus de Londres e para a sua meia-final olímpica no Rio de Janeiro, sempre nos 200 estilos, mas no currículo ainda conta com dois campeonatos de mundo de piscina longa, dois campeonatos do mundo de piscina curta, três europeus de longa e quatro europeus de curta.

Foto: FPN

Belgrado 2011

Belgrado não foi uma das edições mais bem sucedidas para os portugueses, uma vez que foi das raras que não teve representação lusa em finais. Foi das delegações mais reduzidas (8 nadadores) e as melhores classificações obtidas foram três 13ºs lugares: dois por Cátia Martinheira e um por Paula Oliveira.

Cátia foi 13ª das meias finais nos 100 e 200 metros costas e Paula classificou-se na mesma posição nos 200 metros bruços.

A nível absoluto, ambas as nadadoras atingiram um bom nível, com destaque para o recorde nacional absoluto de piscina longa dos 200 metros costas que Cátia Martinheira estabeleceu, quebrando um máximo que durou 20 anos, mas nenhuma das duas representou Portugal em competições como Europeus, Mundiais ou Jogos Olímpicos.

Curiosamente nestes Europeus estiveram presentes duas nadadoras que não conseguiram melhores resultados que Cátia e Paula, mas que a nível absoluto são, actualmente, duas das melhores nadadoras portuguesas de todos os tempos. Falamos de Victoria Kaminskaya (que esteve na meia final dos 200 metros bruços – 16º lugar) e Diana Durães, cujo melhor resultado foi o 26º lugar nos 400 estilos. Elas são dos raros exemplos de nadadores portugueses que chegam a um nível elevado em termos absolutos não tendo atingido uma final nos Europeus de Juniores.

Foto: FPN

Antuérpia 2012

Mais uma equipa relativamente pequena (10 nadadores), mas que neste ano atingiu uma final.

Paula Oliveira tinha-se ficado pelas meias finais em Belgrado mas em Antuérpia chegou mesmo à final, continuando uma sequência de presenças em finais de uma prova que, curiosamente, não tem assim tanta tradição na natação feminina portuguesa, os 50 metros bruços. Estivemos representados na final da prova em 2008 por Joana Carvalho, em 2009 e 2010 por Ana Rodrigues e novamente em 2012 por Paula Oliveira que foi 7ª classificada com o tempo de 33.17.

Foto: FPN

Poznan 2013

Poznan teve a mais pequena delegação portuguesa das 10 edições analisadas neste artigo. De resto, foi a mais curta representação nacional desde 1996. Apenas foram 5 os nadadores qualificados para esses Europeus: Adriana Castro, Inês Fernandes, Joana Silva, Miguel Nascimento e Tomás Veloso.

Se Poznan teve essa nota negativa da curta participação nacional, teve uma nota positiva chamada Miguel Nascimento, que se apurou para três finais.

Miguel foi finalista dos 50 metros livres, 100 metros costas e 100 metros mariposa, sendo que a sua melhor classificação foi o 5º lugar dos 50 livres. Foi 7º nos 100 costas e 9º nos 100 mariposa (mais uma edição com final a ser disputada por 10 nadadores).

Nascimento é mais um caso de sucesso na transição de júnior para o nível absoluto. Detém os recordes nacionais absolutos dos 400 e 800 metros livres em piscina curta e conta no currículo com uma participação em cada um dos grandes certames europeus e mundiais a nível absoluto, ou seja, já esteve num Europeu de Curta, num Europeu de Longa (irá agora para o segundo), num Mundial de Curta e num Mundial de Longa. Só faltam mesmo os Jogos Olímpicos, mas é uma das maiores esperanças para Tóquio.

Foto: Luís Filipe Nunes/FPN

Dordecht 2014

Em Dordecht a equipa aumentou para 8 nadadores e 2 deles alcançaram uma final cada.

Tomás Veloso já tinha participado em Poznan onde chegou à meia final dos 200 metros estilos. Na Holanda conseguiu mesmo alcançar a final, no caso dos 400 metros estilos. O nadador do Náutico Académico de Coimbra foi 8º classificado nessa final.

Tomás é hoje um nadador de elite na natação portuguesa. Está apurado para os Europeus de Glasgow no próximo mês, que serão os segundos Europeus de Longa da sua carreira, que também conta com uma participação em Europeus de Curta.

Dordecht foi o primeiro sinal do surgimento de um fenómeno chamado Tamila Holub. Ainda em idade de juvenil, Tamila classificou-se no 7º lugar da final directa dos 1500 metros livres. Sobre o percurso de Tamila falaremos mais à frente quando fizermos menção à edição dos Europeus de Juniores de 2016.

Foto: Luís Filipe Nunes

Baku 2015

Em 2015 não houve Campeonatos da Europa mas houve Jogos Europeus. Na capital do Azerbeijão estiveram 9 juniores portugueses.

Dos 9, houve dois nadadores a qualificarem-se para as finais.

O melhor classificado foi Gabriel Lopes na sua prova de eleição, os 200 metros estilos. O nadador da Lousã foi 7º classificado com 2:03.03.

Gabriel faz parte do trio português dos sub-2 aos 200 estilos e é o recordista nacional absoluto dos 100 costas em piscina longa. Com apenas 21 anos já participou em dois campeonatos da Europa de Piscina Curta, um campeonato da Europa de Piscina Longa (está a caminho do segundo), um campeonato do Mundo de Piscina Curta e um campeonato do Mundo de Piscina Longa.

Depois de em 2014 ter havido uma juvenil numa final em Dordecht, em 2015 voltou a haver outra juvenil portuguesa numa final. Foi Raquel Pereira, a nadadora do Algés que chegou à final dos 200 metros bruços tendo-se classificado no 8º lugar. Sobre o percurso de Raquel falaremos quando chegarmos à edição de Netanya 2017.

Foto: FPN

Hódmezővásárhely 2016

Os Europeus de Juniores que decorreram na cidade húngara tiveram a presença de 9 portugueses. Hódmezővásárhely passou a ser um nome mais comum entre a comunidade aquática portuguesa por ser sinónimo de conquistas para a nossa natação.

Foi lá que, 11 anos depois, voltamos a ouvir “A Portuguesa” ser tocada no palco de uns campeonatos da Europa. Tamila Holub sagrou-se campeã europeia de juniores dos 1500 metros livres e ainda vice-campeã europeia de juniores dos 800 metros livres.

Nesse mesmo ano Tamila apurou-se para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Para além da participação olímpica também conta no currículo com dois Europeus de Curta, um Mundial de Curta e um Mundial de Longa. Está a cerca de 15 dias de se estrear em Europeus de Longa…e ainda tem 19 anos. Tamila é, sem dúvida, um dos maiores fenómenos da história da natação portuguesa.

Mas nem só a nadadora do Sporting de Braga esteve em destaque nestes Europeus, uns campeonatos que correram de feição para os nossos fundistas já que Guilherme Pina também esteve presente em duas finais. Foi 6º classificado quer nos 800 metros livres, quer nos 1500 metros livres.

Guilherme também já é um habitué da selecção nacional absoluta, ou não fosse ele o recordista nacional absoluto dos 1500 metros livres em piscina longa. Esteve presente nos Mundiais de Piscina Longa em Budapeste, no ano passado, e este ano estará em Glasgow nos Europeus de Longa.

Nesta edição há ainda a destacar a presença de João Vital, um nadador que a nível absoluto já esteve em dois Europeus de Curta e um Mundial de Curta e se vai estrear em Europeus de Longa já em Glasgow.

Foto: FPN

Netanya 2017

Portugal esteve presente em Israel com uma selecção robusta composta por 13 nadadores, mas nem por isso com os resultados de maior relevo. À semelhança de Belgrado 2011 não tivemos presentes em nenhuma final.

No entanto, a nadadora que conseguiu a melhor classificação para a equipa portuguesa já sabia o que era estar numa final de um campeonato da Europa (no caso, Jogos da Europa). Foi Raquel Pereira, a nadadora 9ª classificada (primeira fora da final) da meia final dos 100 metros bruços.

Raquel está a cumprir actualmente o seu primeiro ano de sénior e já confirmou a nível absoluto as boas indicações que desde muito cedo foi dando. É recordista nacional absoluta dos 200 metros bruços em piscina curta e está apurada para a sua primeira grande competição absoluta, os Europeus de Piscina Longa. É, por isso, mais um caso de sucesso na transição de júnior para sénior.

Foto: Luís Filipe Nunes / FPN

Helsínquia 2018

Uma dezena de nadadores competiram ainda este mês na capital finlandesa e Portugal voltou a estar presente em finais.

Se leu o artigo até aqui, já lhe podemos confessar a verdadeira intenção desta viagem de 10 anos: prognosticar o fabuloso destino que espera por José Paulo Lopes.

O nadador do Sporting de Braga foi o grande destaque da comitiva portuguesa presente em Helsínquia. O júnior português esteve em duas finais e pelo caminho bateu três novos recordes nacionais juniores.

José Paulo esteve muito perto da medalha de bronze nos 200 metros estilos, mas teve de se contentar com o 4º lugar. Já nos 400 estilos foi 6º classificado.

Tendo em conta o seu desempenho, tendo em conta que, como vimos anteriormente, a esmagadora maioria dos nadadores portugueses que chegam a finais de europeus de juniores conseguem chegar com regularidade a grandes competições absolutas e, já agora, tendo em conta o que tem sido a sua evolução nos últimos anos (ou até mesmo meses), podemos afirmar que José Paulo será o próximo júnior a chegar rapidamente ao convívio dos grandes (de resto, o seu tempo aos 400 estilos já foi a baixo do mínimo exigido para Glasgow).

Adicionalmente, o nadador orientado pelo técnico Luís Cameira vem trazer mais competitividade a provas já de si bastante competitivas em Portugal como os 200 e os 400 metros estilos.

O futuro próximo revelará se José Paulo Lopes seguirá a boa tradição dos finalistas portugueses.

Foto: Luís Filipe Nunes/FPN

Mas de Helsínquia não basta tomar nota do nadador do Braga. Destaque para o facto de 4 das 5 nadadoras que estiveram na Finlândia serem ainda juniores de primeiro ano mas já com resultados de destaque, com enfoque para o 10º lugar nos 800 metros livres e 11º lugar nos 1500 metros livres de Alexandra Frazão e para o 13º lugar de Ana Sousa nos 200 metros livres, ou seja, lugares de semifinalistas. Veremos se são elas as próximas a levar as cores portuguesas a uma final europeia.

Em jeito de conclusão, verificamos que nos últimos 10 anos não houve uma geração que representasse Portugal ao nível daquela que esteve em Budapeste em 2005, onde estiveram seis nadadores que viriam a ser olímpicos – Carlos Almeida, Diana Gomes, Diogo Carvalho, Pedro Oliveira, Tiago Venâncio e Vânia Neves – e que trouxeram da capital húngara 8 medalhas, mas tem havido uma consistência interessante no que respeita à evolução dos melhores juniores quando chegam ao escalão de seniores.

É certo que têm sido poucos os que chegam ao topo europeu em idade de júnior e é importante que o funil seja menos estreito no topo para que a natação portuguesa tenha qualidade em quantidade, mas também é fácil concluir que em Portugal está a ser feito um esforço meritório para não perder os melhores talentos através do correcto planeamento e gestão de carreira. Haja disponibilidade financeira para permitir que mais nadadores consigam chegar a esse patamar de excelência levando a natação portuguesa a lugares de destaque também a nível absoluto.


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