26 Mai, 2018

[Fact Check] A natação portuguesa está a evoluir em piscina curta?

João BastosJaneiro 3, 201811min0

[Fact Check] A natação portuguesa está a evoluir em piscina curta?

João BastosJaneiro 3, 201811min0
Os resultados dos campeonatos nacionais de juniores e seniores de piscina curta serviram de base a este estudo comparativo das últimas 3 edições

Já passou quase um mês sobre a realização dos campeonatos nacionais de juniores e seniores em piscina curta, mas agora que atravessamos uma fase de acalmia competitiva, importa fazer balanços e tirar conclusões


Já tínhamos saudades de submeter a natação portuguesa a um fact check e desta vez olhamos à lupa os recentes resultados dos nacionais de piscina curta, que decorreram de 8 a 10 de Dezembro, na Piscina do Clube Fluvial Portuense.

De um modo geral, houve bastantes motivos para considerar que os resultados verificados no Porto foram bastante positivos. Com 22 novos recordes nacionais, 8 dos quais absolutos, ainda para mais com os nadadores que representaram Portugal nos Europeus a não nadar toda a competição, o balanço só pode mesmo ser positivo. Mas será que os números indicam isso mesmo? E mesmo que o balanço seja positivo, será que o nível competitivo foi superior às edições passadas?

Para responder a essas perguntas, fomos avaliar quatro parâmetros, comparando-os nas três últimas edições dos campeonatos nacionais de juniores e seniores de piscina curta. Apenas pudemos fazer esta comparação com as edições 2015/2016, 2016/2017 e 2017/2018 porque anteriormente o campeonato era de absolutos, não sendo possível avaliar equitativamente a prestação dos nadadores juniores.

Os parâmetros que fazem parte das nossas observações são os seguintes:

  1. Tempo de acesso à final;
  2. Tempo do último classificado na final;
  3. Tempo a que fechou o pódio;
  4. Tempo do vencedor.

Passamos, então, a apresentar os dados:

Tempo de acesso à final

Fonte: Fair Play

Quer neste, quer no parâmetro seguinte não podemos tecer grandes considerações por uma razão muito simples: as edições de 2017 (Porto) e 2016 (Funchal) foram disputadas em piscinas de 10 pistas, ao passo que em 2015 (Porto) a piscina foi a mesma deste ano (com 10 pistas), mas optou-se por apenas apurar 8 nadadores para as finais.

Por essa razão, é normal que os tempos de acesso à final sejam melhores na edição de 2015.

Importa ainda esclarecer que neste quadro não estão as provas com final directa ou nadadas em “séries rápidas” – 400, 800 e 1500 metros livres, 400 metros estilos e estafetas. Outro aspecto que importa esclarecer são os espaços “em branco”: isso acontece nas provas que não tiveram o número suficiente de inscritos para se proceder a eliminatórias e, portanto, tiveram final directa. Também é natural que nas edições de 2016 e 2017 haja mais finais directas do que em 2015, mas desde já salta à vista um dado que merece preocupação: houve demasiadas finais directas nos juniores masculinos (5), bizarramente em provas habitualmente muito concorridas como os 100 livres.

Outro esclarecimento que serve para todos os quadros que iremos mostrar tem a ver com o tempo assinalado a azul: essa é a melhor marca na comparação dos três nacionais, entre escalão e género, ou seja, na linha dos 50 livres, a melhor marca de acesso à final sénior feminina foi aquela que foi feita no ano 2017, à final júnior masculina foi a de 2016, e por aí fora…

Dito isto, há um dado de enorme realce: o ano de 2017 foi, de longe, o mais competitivo no sector feminino, no escalão de juniores. 79% das melhores marcas de acesso às finais foram feitas o mês passado, no Porto.

Os juniores masculinos (64%), as seniores femininas (57%) e os seniores masculinos (86%) apresentaram a maioria das marcas mais exigentes de acesso às finais no ano de 2015, mas como já explicamos anteriormente, há que relativizar estes números. Servem, sim (e sublinhamos isso) para valorizar a geração de nadadoras juniores que temos na actualidade.

Tempo do último classificado na final

Fonte: Fair Play

Por vezes há uma relação inversa entre a exigência do acesso à final e os tempos que se fazem nessa final, porque se o acesso é mais exigente, já há muitos nadadores a nadar no limite nas eliminatórias, não conseguindo voltar a responder tão bem na prova decisiva. Neste quadro encontramos esse efeito várias vezes.

Outro esclarecimento: as células assinaladas com “ND” = Não Definido, correspondem às finais que não tiveram 8 nadadores (em 2015) ou 10 nadadores (em 2016 e 2017). Mais uma vez, destaque pela negativa para a última edição, sobretudo para as seniores que em 23 provas não preencheram as “quotas” de participação em 9.

No entanto, as seniores de 2017 também merecem um destaque positivo, porque mesmo com muitas provas sem 10 finalistas, ainda conseguiram fazer as melhores marcas de “fecho da final” em 7 provas, apenas menos uma que na edição de 2015, que mais uma vez foi a melhor edição quer para as seniores (35% das melhores marcas), quer para os seniores (57%), quer para os juniores (48%).

As juniores de 2017 voltam a ser a melhores em comparação com as juniores de anos anteriores com 43% das melhores marcas da última classificada na final. De realçar que pela primeira vez a final júnior feminina dos 100 livres se nadou integralmente abaixo do minuto, em 2017.

Livres é um estilo que em 2017 também foi mais competitivo entre as seniores. Em todas as distâncias que tiveram 10 nadadoras na final, as marcas foram melhores, com destaque para o primeiro sub-2:10 nos 200 metros e o primeiro sub-4:30 nos 400 metros.

400 metros livres foi a prova com melhores finais em 2017, já que em ambos os sexos e ambos os escalões as marcas foram melhores que nos anos anteriores.

“Curioso” o que se passa com os 400 metros estilos: nos últimos três anos nunca a final sénior esteve completa. Porém, este ano foi uma prova que também evoluiu em todos os escalões e sexos.

Tempo a que fechou o pódio

Fonte: Fair Play

Aqui sim, já podemos fazer comparações fidedignas.

E voltamos a começar pelo mesmo dado negativo, que no caso do acesso ao pódio ainda é mais gritante. Pela primeira vez nos últimos três anos houve uma prova individual cujo pódio não esteve completo. Foi a prova dos 1500 metros livres femininos, no escalão de seniores. E de facto, é preocupante que ao longo dos anos vá aumentando o número de pódios incompletos (em 2015 não houve nenhum).

Pelo lado positivo temos vários dados a realçar:

Neste parâmetro, em 2017, só mesmo os seniores (masculinos) não apresentaram marcas de pódio mais exigentes. De resto, as juniores, os juniores e as seniores foram melhores em 2017 do que nos anos anteriores.

As juniores conseguiram uma percentagem de melhores marcas de 74%;

Os juniores chegaram as 57% de melhores marcas de pódio em 2017;

As seniores atingiram os mesmos 57% de melhores marcas.

Foi preciso chegarmos aqui para responder com um elevado grau de confiança à pergunta inicial

Neste parâmetro há várias provas a evoluir nos dois géneros e nos dois escalões, nomeadamente os 400 livres, os 200 bruços e os 400 estilos (onde ocorre outra vez um fenómeno com as seniores: só este ano o pódio sénior foi melhor que o pódio júnior…e por pouco).

Livres e estilos parecem ser mesmo as técnicas que estão a evoluir a um ritmo mais acelerado, ao contrário de mariposa que parece ser a técnica mais estagnada em Portugal nos últimos 3 anos.

Os seniores masculinos também não saem muito beneficiados na análise deste parâmetro. O nacional com melhores marcas de acesso aos pódios seniores masculinos volta a ser o de 2015, com 60% de melhores marcas.

Tempo do vencedor

Fonte: Fair Play

Último parâmetro a analisar: o tempo do vencedor. E aqui as coisas não mudam muito. É, no entanto, importante referir que no escalão de juniores este critério “flutua” bastante, em consequência da qualidade isolada de um nadador em determinado ano. Repare-se no “efeito Tamila” em 2015. Os 400, 800 e 1500 metros livres femininos no escalão de juniores são os únicos melhores tempos das vencedoras de 2015.

Também em 2016 há um “efeito Raquel”, que venceu todas as provas que estão a azul nas juniores de 2016, excepto a dos 200 mariposa (aí é o “efeito Inês Henriques”).

As juniores de 2017 (e já que começamos por aí), até como geração apresentam resultados mais consistentes, e os resultados das estafetas mostram isso mesmo. As juniores de 2017 voltam a levar a melhor com 57%.

Nos juniores masculinos, as estafetas desequilibraram a favor dos juniores de 2017, face aos de 2015 (52% para os juniores de 2017). Merece destaque a tripla vitória de Rafael Simões nas provas de bruços que resultou nas melhores três marcas nas provas de bruços dos últimos três anos.

Mas as grandes dominadoras foram as seniores. Excelente evolução se registou nas vencedoras de 2017. A isso não é alheio o facto de 6 dos 8 recordes nacionais estabelecidos nos nacionais do Porto terem sido por parte de nadadoras seniores. 70% das melhores marcas foram para as seniores de 2017!

Os seniores continuam abaixo de anos anteriores. As vitórias de 2015 renderam a enorme percentagem de 83% de melhores marcas entre os vencedores.

Conclusões

Face a estes dados, não parece haver dúvidas: a natação portuguesa está a evoluir em piscina curta e evoluiu nos últimos três anos. Desta conclusão salientam-se os seguintes aspectos:

  1. A actual geração feminina de juniores tem potencial para ser uma das melhores de sempre. Veremos quantas nadadoras se apuram para os Europeus de Juniores e Jogos Olímpicos da Juventude, mas para a competição europeia podemos vir a ter condições de apresentar, pelo menos, uma estafeta competitiva – provavelmente a dos 4×200 livres;
  2. Também as melhores nadadoras seniores femininas estão a aumentar muito o nível da nossa natação. Os nacionais do Porto não foram uma excepção, fizeram parte da regra. Não tardará que a nossa selecção seja composta na sua maioria por mulheres.
  3. Livres e estilos são as técnicas que estão a evoluir mais, sobre todos os parâmetros que aqui analisamos. Mariposa é a técnica mais estagnada, excepção feita às seniores.

Feita a conclusão principal, há, no entanto, aspectos negativos que merecem reflexão e, eventualmente, rápida actuação:

  1. Há um fosso grande que separa os melhores nadadores seniores das segundas linhas nesse escalão, o que a médio prazo se pode traduzir num problema de renovação da nossa selecção;
  2. Nas seniores não há um problema de qualidade, mas sim um problema de quantidade, que pode conduzir a um problema de competitividade. A realidade actual desmente a frase anterior, uma vez que a natação feminina nunca teve tanta competitividade como agora: Diana e Tamila nas provas de fundo; Victoria, Raquel e Ana nas provas de bruços; Rita, Inês e Francisca nas provas de costas; Inês e Ana Catarina nas provas de mariposa; Victoria, Diana e Raquel nas provas de estilos…O que é certo é que começa a faltar “massa crítica” nas provas internas e essa falta pode-se fazer notar no médio prazo;
  3. Número de participantes em provas de estafetas que não chega para completar o pódio é um sinal que deve ser tomado em conta pois é indicador do vigor (ou no caso, falta dele) dos clubes;
  4. Como side note fica o facto do nacional de 2016 (que decorreu na Madeira) ter sido o menos competitivo em todos os parâmetros dos últimos três. Vamos esperar que os nacionais de piscina longa em Março de 2018 (que vão decorrer na Madeira) não lhe sigam o exemplo.

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