22 Mai, 2018

[Aqua Moments] Riscada da História

João BastosNovembro 20, 20175min0

[Aqua Moments] Riscada da História

João BastosNovembro 20, 20175min0
Fair Play é o valor fundamental do desporto que este website mais procura promover. Hoje recordamos uma embaixadora desse conceito, Shirley Babashoff

O Fair Play continua a sua série de artigos que recordarão momentos históricos da natação. O Aqua Moments olhará para o retrovisor e reviverá marcos incontornáveis da história da modalidade


O Aqua Moments de hoje honra o valor fundamental do desporto que denomina este espaço e conta a história da norte-americana que se dedicou ao activismo por um desporto com mais…fair play.

Hoje contamos a história de Shirley Babashoff.

Munique 1972

Shirley estreou-se em grandes competições internacionais nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. Tinha, então, apenas 15 anos, a mesma idade que a australiana Shane Gould, o grande destaque feminino dos Jogos Olímpicos onde a maior manchete foi Mark Spitz.

Gould venceu 3 ouros, num total de 5 medalhas, ao passo que Babashoff venceu um ouro e duas pratas. Antecipava-se, assim, grandes confrontos entre as duas jovens nadadoras nos anos seguintes, algo que não se chegou a verificar, uma vez que Gould se retirou com apenas 17 anos, detendo todos os recordes do mundo de livres (dos 100 aos 1500 metros livres). Nunca ninguém antes o tinha feito e nunca ninguém voltou a consegui-lo.

Belgrado 1973

O primeiro campeonato do mundo organizou-se no ano seguinte, em Belgrado, e a perspectiva do início da era Babashoff estava escancarada, mas da competição que seleccionava a equipa da Alemanha de Leste para esses mundiais veio o primeiro aviso.

Com apenas 14 anos, Kornelia Ender tinha baixado os 58.5 aos 100 livres de Shane Gould para 58.25. Chegaria aos mundiais com o estatuto de recordista do mundo e favorita a levar o primeiro título mundial dos 100 livres, mas para Babashoff, haveria outras provas onde era candidata ao ouro.

A americana nadou os 100 e 200 livres, 4×100 livres e 4×100 estilos. Em todas as provas ficou com a prata. Nos 100 livres atrás de Ender, assim como nas duas estafetas que os EUA perderam para a RDA, e nos 200 livres perdeu para a sua compatriota Keena Rothhammer.

As alemãs de leste, até então ilustres desconhecidas, venceram 10 das 14 provas em disputa e desde logo se questionou a forma como as suas performances foram obtidas.

Cali 1975

Chegamos a 1975, aos segundos campeonatos do mundo, disputados em Cali, e Shirley Babashoff volta a perder para Kornelia Ender nos 100 livres, mas desta feita consegue chegar ao ouro e logo por duas vezes: aos 200 e 400 livres. Nas duas estafetas volta a perder para as alemãs.

Babashoff começa, ela própria, a questionar o anormal desenvolvimento muscular das alemãs, mas por essa altura já se assumia que Ender era muito superior à americana, assim como as estafetas da RDA face aos EUA.

Por isso era aceite que os resultados de 1975 eram aqueles que se esperavam, antecipando-se uns Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal, de consagração de uma grande geração da RDA composta por nomes como Kornelia Ender, Barbara Krause, Hannelore Henke e Ulrike Richter, entre outras.

Ulrike Richter, Hannelore Henke, Andrea Pollack, e Kornelia Ender | Foto: Getty Images

Montreal 1976

De 1973 a 1976, Kornelia Ender (agora com 17 anos) tinha melhorado de 58.25 para 55.73 nos 100 livres e consagrou-se como a primeira mulher a baixar da barreira dos 2 minutos aos 200 livres, nadando em 1:59.78 nos trials para os Jogos Olímpicos de ’76 – chegou a esses trials com record pessoal (que também já era record do mundo) de 2:02.27.

Entretanto (e para evitar Ender), Babashoff tinha-se dedicado às provas de fundo e apresentou-se em Montreal para nadar 100, 200, 400 e 800 livres, com o foco voltado para os 400 e 800, já que os 100 e 200 seriam uma tarefa hercúlea para a americana.

Nos 100 livres falhou completamente e quedou-se pelo 5º lugar, com a sua maior rival a estabelecer novo record do mundo com o tempo de 55.65, feito que repetiu nos 200 livres nadando em 1:59.26. Babashoff ficou com a prata, no tempo de 2:01.22. Até aqui, já Shirley antecipava que o desfecho poderia ser este, o que não significava que a americana não subisse o tom das críticas face ao que via. Mas aquilo que Babashoff menos esperaria foi o que aconteceu nos 400 e 800.

Vinda do nada, outra alemã, de seu nome Petra Thümer, com apenas 15 anos sagrou-se bi-campeã olímpica e bateu os recordes do mundo dos 400 e 800 livres, relegando a americana para a posição de prata, apesar de também ela ter nadado abaixo dos anteriores recordes do mundo.

(Ainda) sem final feliz

Durante esses Jogos de Montreal, Babashoff tornou-se notícia mais pelas suas declarações anti-doping do que pelas suas conquistas. O mundo dividiu-se entre os que a consideravam uma injustiçada e (a maioria) os que a consideravam uma má perdedora.

Para os primeiros (e para ela própria) a estafeta 4×100 livres femininos dos JO de 1976 ficará para sempre identificada como um símbolo da luta pelo desporto limpo, materializado no grito de revolta de Babashoff quando ajudou os Estados Unidos a superiorizar-se à República Democrática da Alemanha.

Apenas 30 anos depois, em 2007, o Comité Olímpico Alemão admitiu que 167 atletas da RDA competiram dopados entre 1973 e 1989. Babashoff reagiu a esta notícia ironizando com a pergunta “Só 167?!”…é que na verdade, há suspeitas de que nesse período mais de 10 000 atletas alemães tomavam esteróides.

Apesar da admissão de culpa, os títulos e recordes da batota continuam nos livros oficiais da FINA e Shirley Babashoff continua à espera que lhe seja atribuído o seu lugar na História.


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