22 Mai, 2018

[Aqua Moments] Arrivederci, Pippo

João BastosDezembro 4, 20177min0

[Aqua Moments] Arrivederci, Pippo

João BastosDezembro 4, 20177min0
O italiano Filippo Magnini pôs um ponto final na sua brilhante carreira, aos 35 anos. O Fair Play revive os pontos altos da carreira de Pippo.

O Fair Play continua a sua série de artigos que recordarão momentos históricos da natação. O Aqua Moments olhará para o retrovisor e reviverá marcos incontornáveis da história da modalidade


2017 tem sido um ano de despedidas dos grandes ícones do desporto italiano. Depois do futebolista Gigi Buffon, foi agora a vez do nadador Pippo Magnini anunciar a sua retirada das piscinas, aos 35 anos. Vale de consolo aos italianos que o motociclista Valentino Rossi já garantiu que pretende continuar a competir até aos 40 anos…ainda faltam dois!

Com o pretexto da despedida do histórico capitão da selecção italiana de natação, o Aqua Moments revive os principais momentos do bi-campeão mundial de piscina longa e eneacampeão da Europa (também em piscina longa).

O ponto de partida

A estreia em grandes competições internacionais do italiano deu-se em 2003, aos 21 anos, nos Campeonatos do Mundo de Natação em Barcelona quando integrou uma memorável estafeta italiana de 4×100 metros livres. Magnini alinhou na final conjuntamente com Lorenzo Vismara, Christian Galenda e Michele Scarica, fechando a estafeta italiana e fazendo o melhor tempo dos quatro.

Os italianos classificaram-se no 6º lugar, numa prova que tinha como principal atractivo a luta entre a Rússia de Popov (que venceu) e a Austrália de Thorpe (que desiludiu e terminou no 4º lugar).

A primeira medalha internacional veio no mesmo ano, no Europeu de Piscina Curta, em Dezembro de 2003, na cidade irlandesa de Dublin. O italiano sagrou-se vice-campeão europeu dos 100 metros livres, apenas superado pelo recordista mundial da prova, Pieter van den Hoogenband, o holandês voador.

2004 foi o ano da afirmação definitiva do Superpippo. Nos Europeus de Piscina Longa de Madrid foi tri-campeão da Europa, levando o ouro nos 100 livres (precisamente à frente de Hoogenband), nos 4×100 livres e nos 4×200 livres, esta última uma estafeta que em ano de Jogos Olímpicos fazia sonhar os italianos que contavam com Rosolino, Brembilla, Pelliciari e Magnini.

Os Jogos atenienses chegaram e foi precisamente através da estafeta de 4×200 metros livres que Magnini alcançou a sua primeira (e única) medalha olímpica da carreira. Com Cercato a entrar para o lugar de Pilliciari, o quarteto fantástico italiano classificou-se no terceiro lugar, superado apenas pelos EUA de Phelps e Lochte e pela Austrália de Thorpe e Hackett, numa das melhores finais olímpicas da prova:

Pippo, il imperatore

Por essa altura, Magnini estava no topo da sua carreira e o ano seguinte confirmou-o. Montreal acolhia os Campeonatos do Mundo de 2005, o ano em que o czar Popov anunciou a sua retirada e o ano em que Hoogenband, como tantos atletas olímpicos no ano pós-Jogos, decidiu abrandar um pouco a sua carreira.

Nos mundiais canadianos, o trono do rei da prova rainha, ou seja, os 100 metros livres, estava vago e muitos eram os candidatos a ocupá-lo. Desde logo os líderes da fantástica equipa campeã olímpica dos 4×100 livres em Atenas, os sul-africanos Roland Schoeman e Ryk Neethling. Também Michael Phelps ia tentar vencer a prova e Magnini ainda tinha de contar com a oposição do americano Jason Lezak e do canadiano Brent Hayden.

No meio de tantos candidatos emergiu o imperador italiano que levou o ouro no tempo record dos campeonatos de 48.12, superando tangencialmente Schoeman que liderava destacado aos 50 metros…Aos 23 anos, Pippo chegara ao topo do mundo.

E dois anos depois, o desafio era no topo se manter. Entre 2005 e 2007, Magnini voltou a ser tri-campeão europeu de piscina longa (nas mesmas três provas: 100 livres e estafetas de livres), foi quatro vezes campeão europeu de piscina curta e duas vezes campeão do mundo de piscina curta.

Mas a principal manchete do currículo do italiano estava guardada para os Campeonatos do Mundo de Melbourne em 2007. Ao contrário dos Mundiais de 2005, em 2007 toda a gente estava presente. Primeiro porque era o ano anterior aos Jogos de Pequim, representando os mundiais uma excelente competição para que os principais nadadores “tirassem medidas” a si próprios e aos adversários. Depois, porque decorriam no país da natação, a Austrália.

Para além do regresso de Hoogenband, Magnini precisaria de defender o seu título novamente contra Schoeman, Neethling, Lezak e Hayden, e ainda tinha de contar com dois jovens que estavam numa fase de progressão acelerada na carreira (ambos viriam a tornar-se recordistas do mundo nos 100 livres): o brasileiro César Cielo e o homem da casa, Eamon Sullivan.

Um alinhamento perfeito para consagrar o italiano em caso de repetição da vitória, mas, ao mesmo tempo, o mais difícil que podia pedir.

Surpreendentemente, não foi Schoeman que passou à frente aos 50 metros, mas sim César Cielo em 22.83, ou 33 centésimos abaixo do parcial para record do mundo. Magnini era 7º a meio da prova e só tinha atrás de si o único nadador em prova que tinha uma segunda metade mais forte do que a sua: Hoogenband.

A remontada protagonizada pelo italiano foi épica. Pippo atropelou toda a gente menos o canadiano Hayden, com quem teve de repartir o ouro, mas o grande objectivo estava alcançado: o italiano tornava-se bi-campeão mundial dos 100 livres, igualando as lendas Matt Biondi e Alexander Popov (o russo ainda conseguiu ser tri-campeão).

Anos difíceis

Em 2007 tudo indicava que Magnini iria escrever uma longa história de domínio na prova rainha, mas a revolução da borracha que varreu a natação nos dois anos seguintes deixou Magnini para trás. Com efeito, o italiano não era um velocista com uma grande estampa física, antes pelo contrário. E baseava a sua superioridade face aos adversários na técnica e na capacidade hidrodinâmica fora do comum que lhe estava intrínseca.

Esta vantagem dissipou-se quando chegaram os fatos de poliuretano, que a Magnini não ofereciam grande vantagem adicional mas a nadadores mais musculados e com maiores dificuldades de flutuação (como Alain Bernard ou Jason Lezak) permitiam-lhes aplicar a força numa posição mais alta na água.

Esses dois anos foram castradores para a carreira do italiano que nesse período falhou a final olímpica em 2008 e a final mundial em 2009 (esteve presente apenas nas estafetas) e a nível europeu individualmente não conquistou nenhuma medalha.

Desde então, e já sem fatos, o italiano nunca mais voltou ao patamar que exibiu entre 2004 e 2007, mas tornou-se um símbolo da natação italiana e o capitão que inspirou várias gerações de novos talentos italianos, dentro e fora da piscina, notabilizando-se pelo seu activismo na luta contra o doping.

Tal como Buffon, Magnini não se despediu ao serviço da selecção italiana da forma que certamente gostaria. Foi no ano passado, nos Mundiais de Budapeste, que nadou pela última vez com a touca dos Azurri tendo sido 6ª classificado na final dos 4×200 livres. Curiosamente terminou a carreira internacional classificando-se na mesma posição que quando a iniciara, igualmente num campeonato do mundo e igualmente numa estafeta.

No passado fim-de-semana, aos 35 anos, e durante os Nacionais de Piscina Curta de Itália, Pippo despediu-se das piscinas, pondo fim a uma das carreiras de maior longevidade da natação mundial.

Arrivederci, Pippo!

 


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