[Aqua Moments] A epopeia de Mark Spitz em Munique

João BastosFevereiro 10, 20185min0

[Aqua Moments] A epopeia de Mark Spitz em Munique

João BastosFevereiro 10, 20185min0
No dia do seu 68º aniversário, recordamos Mark Spitz e o seu feito que catapultou a natação para o lugar de destaque no calendário dos Jogos Olímpicos

O Fair Play continua a sua série de artigos que recordarão momentos históricos da natação. O Aqua Moments olhará para o retrovisor e reviverá marcos incontornáveis da história da modalidade


No dia em que Mark Spitz completa 68 anos de idade, recordamos aquele que foi o melhor nadador do mundo da era A.P. (Antes de Phelps) e recordamos o evento que o consagrou como o maior vencedor de ouros olímpicos numa só edição dos Jogos.

Ainda antes de Munique’72, o norte-americano já era o grande nome da natação mundial. Obteve o seu primeiro recorde mundial na prova de 200 metros mariposa (tal como Michael Phelps), corria o ano de 1967, tinha Mark Spitz 17 anos (mais um que Phelps aquando do seu primeiro máximo mundial).

Nos Jogos de 68, na cidade do México, Spitz já era apontado como favorito a vencer várias provas, mas sentiu-se afectado pela altitude da capital mexicana e apenas conseguiu chegar ao ouro nas provas de estafeta – 4×100 e 4×200 livres – ficando com a prata nos 100 mariposa e com o bronze nos 100 livres.

Entre os Jogos Olímpicos de 1968 e os de 1972, Mark Spitz tornou-se recordista mundial de mais duas provas, os 100 e os 200 livres, chegando a Munique como o detentor de quatro recordes do mundo, sendo o óbvio favorito a vencer essas quatro provas, às quais juntava as três estafetas onde não se antevia grande oposição aos norte-americanos.

Assim, Spitz propunha-se conquistar, de forma inédita, sete ouros olímpicos na mesma edição dos Jogos, superando o atirador norte-americano Willis A. Lee que se mantinha desde 1920 como o maior vencedor de ouros olímpicos numa só edição dos Jogos, com 5 ouros.

Foto: The Daily Dose

A odisseia de Spitz em Munique começou no dia 28 de Agosto com a sua prova de eleição, os 200 metros mariposa, dando o mote para o que se passaria no resto do evento. Spitz não só venceu a prova como alcançou um novo recorde mundial de 2:00.70. Na mesma sessão veio o segundo ouro e o segundo recorde do mundo, pela estafeta 4×100 metros livres. 3:26.42 foi o tempo feito pelos americanos na final, tendo já batido o recorde do mundo nas eliminatórias (3:28.84), mesmo sem Spitz na equipa.

E a história foi-se escrevendo. No dia 29 de Agosto, nova vitória e novo recorde do mundo, desta vez nos 200 metros livres com o tempo de 1:52.78.

Dois dias sem nadar finais e, no último dia de Agosto Spitz ia tentar chegar ao topo do olimpo e conquistar a sua 5ª medalha de ouro, visto que nesse dia iria nadar os 100 mariposa e os 4×200 livres. Assim foi e no final do dia podia contar 5 medalhas no seu pecúlio de Munique. Mais dois ouros e mais dois recordes do mundo: 54.27 nos 100 mariposa e 7:35.78 na estafeta.

Em termos de provas individuais só faltavam os 100 livres onde Spitz tinha um grande oponente, o seu compatriota Jerry Heidenreich que tinha feito o melhor parcial da estafeta norte-americana de 4×100 livres (50.78 no terceiro percurso contra os 50.90 de Spitz no último percurso), mas a fibra de campeão e a adrenalina de se consagrar como o melhor desportista de todos os tempos vieram ao de cima e Mark superou o compatriota e toda a concorrência marcando o seu sexto recorde do mundo na competição, com o tempo de 51.22, deixando Heidenreich a mais de 4 décimos de distância.

Ao último dia do torneio de natação dos Jogos Olímpicos, Sptiz já tinha passado o alto da montanha. Só faltavam os 4×100 metros estilos onde os Estados Unidos eram super-favoritos. Compunham a equipa, Mike Stamm, vice-campeão olímpico dos 100 costas, Tom Bruce, vice-campeão olímpico dos 100 bruços, Mark Spitz, campeão olímpico dos 100 mariposa e Jerry Heidenreich, vice-campeão olímpico dos 100 livres.

A prova acabou por não ser um “passeio no parque” para os americanos, uma vez que Mike Stamm era o segundo melhor costista do mundo mas muito atrás do melhor, que era o alemão Rolland Matthes, que abriu a estafeta da RDA com um novo recorde do mundo dos 100 costas de 56.30, abrindo uma vantagem de 2 metros para a Alemanha Oriental. Vantagem essa que persistiu no percurso de bruços e teve de ser Spitz a meter ordem na casa e trazer os Estados Unidos definitivamente para a frente, dando a Heidenreich uma vantagem bastante confortável que o especialista de crawl ainda ampliou, oferecendo a Spitz o ouro número 7 e o recorde do mundo número 7, com o tempo de 3:48.16.

Foto: Atomic Ranch

Spitz tinha conseguido! Numa epopeia algo bíblica (Deus também só considerou que a Sua criação estava completada ao 7º dia e, então aí, descansou), Spitz abandonou a sua carreira logo após Munique e com apenas 24 anos. Apesar da jornada dourada que teve na capital da Baviera, o americano regressou da RFA em circunstâncias traumáticas, sendo retirado bruscamente depois do massacre dos 11 israelitas (e porque Spitz é judeu) que ficou conhecido como o Setembro Negro e que acabou por ser a nota dominante dessa edição dos Jogos, relegando para segundo plano o feito histórico e inédito de Spitz.

O mundo perdeu o seu maior atleta precocemente, quem muito tempo tinha ainda para escrever mais linhas e para, quem sabe, tornar ainda mais difícil que Michael Phelps, 36 anos depois, o conseguisse superar.

Hoje, dia 10 de Fevereiro, Mark Andrew Spitz faz 68 anos de uma vida que será eterna nos anais da História da natação e dos Jogos Olímpicos.

Parabéns, Mr. Spitz!


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