A Ginástica Acrobática no Clube Atlético de Alvalade

Sofia GoulartMarço 2, 20188min1

A Ginástica Acrobática no Clube Atlético de Alvalade

Sofia GoulartMarço 2, 20188min1
O Fair Play foi descobrir como é o dia-a-dia da Ginástica Acrobática num dos clubes mais emblemáticos de Lisboa: o Clube Atlético de Alvalade. Conhecias?

Num Sábado em Fevereiro, igual aos outros para muitas pessoas, as bátegas da chuva começam a ganhar força e a vontade de sair de casa não é muita…

No entanto, no nº 20 da Rua Acácio Paiva, situada em pleno coração de Alvalade, o dia começa cedo. Começam-se a ouvir vozes infantis e juvenis no ar, de meninos e meninas que sobem as escadas para o edifício do CAA, entusiasmados para mais um treino de ginástica acrobática. Juntamo-nos ao pequeno grupo de jovens ginastas e entramos no Clube Atlético de Alvalade (CAA). Pé ante pé, chegamos num instante ao ginásio A, onde todos se apressam a montar os praticáveis e os colchões.

Dá-se início ao aquecimento. Entre pinos, pontes e espargatas, conseguimos falar com uma das ginastas, a Catarina Lourenço. Tem 17 anos e conta-nos que entrou no mundo da ginástica aos 6, na modalidade de ginástica rítmica no Lisboa Ginásio Clube (LGC), mas com 8 resolveu experimentar a ginástica acrobática daquele clube. Entrou a meio da época desportiva, numa altura em que todas as categorias que poderia integrar (pares femininos, pares mistos ou trios femininos) já estavam todos completos. Tomou a decisão de sair do LGC e, através de uma amiga que praticava ginástica acrobática no CAA, entrou para a classe de pré competição aos 10 anos. Desde então, já passaram quase 7 anos.

Embora esteja atualmente a trabalhar como base de par feminino sénior base, Catarina ri-se enquanto diz que prefere trabalhar em trio, nomeadamente na execução de exercícios de ‘’dinâmico’’, face aos de ‘’equilíbrio’’. Catarina e a volante Laura Melo tiveram em Janeiro a primeira competição da época, na qual se classificaram em 3º lugar no exercício de equilíbrio, em 2º node dinâmico e em 2º lugar no ‘’All around’’.

A Catarina diz-nos que aprendeu muito com este desporto, pois ginástica ensinou-lhe o que é o espírito e o trabalho em equipa; a união; aprendeu a controlar o nervosismo e a ansiedade próprios antes de um campeonato, assim como as amizades que ficam para a vida.

Questionada sobre é difícil conciliar a vida académica com a desportiva, diz depender do horário escolar e a altura do ano letivo. A frequentar o 12º ano de escolaridade, e com os exames nacionais que se avizinham daqui a uns meses, a Catarina já sabe que quer estudar Bioquímica na faculdade. Não sabe até que idade pretende continuar a praticar ginástica, mas logo vê como irá correr o próximo ano.

Foto: Sofia Goulart

Um pouco mais ao lado, encontra-se a Rita Carvalho, de 16 anos. A Rita explica-nos que começou a praticar ginástica aos 8 anos na escola básica que frequentava. Devido à aptidão que apresentava – Executava pinos, cambalhotas e rodas com facilidade – e com o incentivo do professor, decidiu experimentar treinar numa classe de ginástica de competição. Escolheu a ginástica acrobática por considerar que seria aquela onde conseguiria evoluir mais, aliado ao gosto que já tinha. Atualmente a fazer trio feminino no escalão júnior base, Rita diz que sempre gostou muito de trabalhar em par feminino, na posição de volante. Para ela, os elementos de equilíbrio são os mais bonitos de se ver e fazer, em detrimento de alguns exercícios de dinâmico.

Desenvolver toda esta prática desportiva ao longo dos anos é ótimo, salienta Rita, pois passa-se a encarar como algo que gostas de fazer, e assim não vês o exercício físico com uma obrigação. ‘’E desenvolve-se também bastante orgulho próprio, porque treinas muito e, quando pisas o praticável de competição, não te queres desiludir, nem aos outros’’, acrescenta.

Num tom claro e decidido, a Rita conta que tem expetativas de chegar esta época ao campeonato nacional. Já foi a uma prova no dia 27 de Janeiro, o Open da Maia, na qual o trio que integra, juntamente com Madalena e Constança, se classificou em 3º lugar no exercício de dinâmico e na competição de ‘’All around’’. O mais importante é chegar lá e fazer um esquema limpo, sem falhas. É fazer o melhor que conseguirmos!

A Rita diz-nos ainda que, apesar de muitas vezes ser difícil gerir o cansaço, a ginástica nunca afetou a vida escolar, frequentando atualmente o 11º ano. ‘’Na ginástica de competição, temos que adaptar os treinos à vida. Na ginástica de alta competição, adapta-se a vida aos treinos’’, ressalva.

Confrontada com a pergunta ‘’Até que idade queres fazer ginástica?’’, a jovem responde que, caso pudesse, faria até ser velhinha. Mas ‘’o corpo não deixa. É difícil’’, responde mais séria. Talvez até aos 18/19 anos, depende. Por agora, vai mantendo esta rotina.

Ao lado da Rita, está a volante dela, a Constança, de 12 anos. Num tom mais tímido, a Constança diz-nos que começou a praticar ginástica acrobática em 2013, pois tinha uma amiga que também fazia. Gosta de competir e pretende evoluir mais. Diz adorar os exercícios de dinâmico, trabalhar em equipa com as bases, e não desistir nunca. O grande objetivo individual é conseguir fazer o elemento ‘’ângulo para pino’’, mas, à semelhança da sua base Rita, também tem como meta chegar aos Nacionais.

Foto: Sofia Goulart

Num canto do praticável, encontro a treinadora Liliana Marques que observa, atenta, o desenrolar do treino. Vai dando instruções aqui e ali, chamando a atenção para uns pés menos esticados, uns joelhos dobrados, ou simplesmente para corrigir a postura de alguma das ginastas durante a realização das figuras.

Perguntamos-lhe como têm corrido as coisas desde que se instalou no Clube Atlético de Alvalade. Liliana responde-nos que, em 2005, recebeu um convite da coordenadora e professora Teresa Sousa da classe de representação de dança ‘’GESTUS’’ do CAA, para colocar em prática um projeto de ginástica acrobática de raiz. Liliana aceitou o desafio e, em Setembro daquele ano, trouxe consigo 8 ginastas do Sporting Clube de Portugal, mais 12 que se lhes juntaram posteriormente. Nos primeiros tempos, treinaram no antigo ginásio do liceu Rainha D. Leonor, o que não constituíam as melhores condições logísticas para treinar. Contudo, no 2º ano no CAA, o número de alunos duplicou e, pouco a pouco foram conquistando espaço no clube, passando a treinar também aos Sábados de manhã.

No cargo de treinadoras da Escola de Ginástica do CAA, estão também Vanessa Marques, irmã de Liliana, e a ex-ginasta Elisa Medina. As três são responsáveis pelas classes Acro Bronze Team, Acro Silver Team e Acro Gold Team, e também pelas classes Acro Minis e Acro Iris, algumas com uma carga horária maior do que as outras, com alguns dias de treino diferentes e destinadas a ginastas com idades diferentes, consoante o respetivo nível e/ou idade.

Liliana olha para trás e faz um balanço positivo de todo o percurso realizado até agora. Na época 2017/2018, considera que o projeto de ginástica se encontra enraizado. Tem cerca de 120 ginastas inscritas, distribuídas pelas várias classes. Passaram a treinar também no ginásio da Escola EB 2/3 Eugénio dos Santos, arrendado para o efeito. Diz-nos que há dias em que chegam a ter 50 ginastas a treinar ao mesmo tempo, razão pela qual é sempre preciso mais espaço.

O número de atletas inscritos continua a aumentar, informa-nos. As estatísticas não mentem: De acordo com os dados de 2017 divulgados pela Federação de Ginástica de Portugal, o Clube Atlético de Alvalade ocupa a 6ª posição a nível nacional na lista de clubes com mais atletas filiados, e a 4ª posição na zona de Lisboa (pode consultar: estatísticas).

Liliana agradece os apoios institucionais que tem recebido: A Junta de Freguesia de Alvalade disponibilizou o autocarro para que se deslocassem até à prova na Maia, e a Câmara Municipal de Lisboa forneceu dois praticáveis ‘’air track’’, o que permite treinar elementos de solo em melhores condições.

A treinadora Liliana é, também, professora de ginástica em alguns infantários e escolas básicas ali perto. Liliana assume que um dos projetos futuros é tentar trazer os seus alunos do infantário para CAA, e apoiar alguns mais carenciados.

Ex-ginasta e mãe de dois rapazes com 17 e 13 anos, e de uma menina com 1 ano e meio, (o mais velho também é ginasta), Liliana vê com bons olhos o impacto que o gosto por uma competição saudável pode ter na vida das crianças e jovens. É precisamente estes valores que pretendo incutir nos meus ginastas, frisa. Quero que eles compreendam que podem praticar ginástica de competição sadiamente e fazer, ao mesmo tempo, o que qualquer jovem ou criança da mesma idade faz. ‘’É possível fazer as duas coisas’’, conclui.


One comment

  • Liliana Marques

    Março 7, 2018 at 9:39 pm

    Obrigada Sofia, foi óptimo ter te por cá!
    Até breve

    Reply

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