Estavam todos preparados

Pedro PiresJulho 25, 20208min0

Estavam todos preparados

Pedro PiresJulho 25, 20208min0
O atletismo já teve as suas primeiras provas internacionais, e há boas e notícias para os fãs das várias variantes envolvidas na prática, contadas no Fair Play

Por esta altura, todos esperávamos que os Jogos de Tóquio já tivessem começado (seria a 23 de Julho). O Atletismo, esse, sempre reservado para ser a cereja no topo do bolo, iniciaria e concluiria o seu programa apenas na 2ª semana do evento, sendo que a 31 de Julho seria a primeira vez que iriamos ver a modalidade em competição.

No entanto, escusado será dizer que este tem sido um ano totalmente atípico. Nada garante que fique por aqui, os receios de que Tóquio 2021 não se realize ou que se realize em moldes pouco comuns – a possibilidade de não existir público ao vivo é real – aumentam conforme o tempo passa e a situação pouco melhora em todo o mundo.

Ainda assim, o Atletismo regressou. Timidamente, é certo. Em moldes pouco usuais, com várias experiências novas, atletas a tentar novas coisas, mas sempre com algum receio de comprometerem a sua preparação e condição física para a próxima época.

Foi por isso com alguma surpresa que assistimos durante as últimas semanas a algumas performances surpreendentemente boas. Com as notícias de vários campeões mundiais preventivamente suspensos, e em risco de falhar os Jogos Olímpicos, todos precisávamos disto. Ao demonstrarem este nível num ano em que o seu planeamento e preparação ficaram seriamente afetados, os atletas que competem, estão a passar uma mensagem ao mundo: esperem para quando for a valer!

O que tem corrido mal

Comecemos por falar do que tem corrido mal nesta temporada de Atletismo. Além do óbvio (o Coronavirus tem afetado a vida de todos, desportistas ou não), existiu alguma confusão na mensagem passada. Seja a nível nacional ou internacional, assistimos a vários avanços e recuos. A várias calendarizações que não se puderam cumprir. De qualquer forma, temos que perdoar tudo isso, pois nunca se viveu uma situação do género.

O facto de este ser um ano zero (ou outra designação que encontrem, que ainda vá além disso), tem levado a que muitas das caras conhecidas, não tenham ainda aparecido. Sem citar nomes – são demasiados – há vários campeões nacionais sem qualquer registo de competição nesta temporada e vários campeões mundiais e olímpicos, que se encontram exatamente na mesma situação. Não é uma crítica a estes atletas.

Cada um trabalha agora assente numa nova planificação e, talvez, vejamos esses resultados quando for “a valer”. No entanto, para os fãs do desporto, é sempre desapontante passarmos meses ou uma temporada completa sem ver os nossos ídolos.

Para agravar a situação, o doping não tem dado tréguas. É sempre complicado perceber se suspensões por doping são boas ou más notícias. Mancha a imagem do desporto, é certo, mas também é verdade que sempre que se pune quem viola as leis, estamos a dar um passo em frente. Talvez estejamos sempre um passo atrás, mas é preferível que os casos sejam conhecidos do que sejam abafados ou que se esconda a realidade com a existência de poucos controles, como acontece na maioria dos mais populares desportos do mundo.

Que não se enganem os casuals, o Atletismo tem mais suspensões por violações do anti doping porque testa mais e porque é mais rígido para quem infringe as regras. Nunca nos poderemos esquecer das palavras de personalidades conceituadas de outros desportos – como, por exemplo, do conceituado técnico, Arsène Wenger, no futebol, quando o mesmo referiu que o problema do doping é bem maior do que o assumido nesse desporto.

Ainda assim, dói ver um dos maiores maratonistas da história, o queniano Wilson Kipsang, suspenso ou promessas como a sprinter norte-americana Deajah Stevens, suspensa por 18 meses (falha os Jogos).

E num plano diferente – mais grave pela dimensão dos atletas, embora sem terem acusado nada proibido – ver o norte-americano Christian Coleman (atual campeão mundial dos 100 metros), um ex-campeão mundial dos 1.500 metros – o queniano Elijah Manangoi – e a atleta do Bahrein, Salwa Eid Naser (atual campeã mundial dos 400 metros), suspensos por não terem atualizado os seus dados de localização e por isso terem falhado a presença em três controlos anti doping. Os três correm o sério risco de falhar os Jogos de Tóquio, uma vez que confirmada que a falha foi por parte dos atletas, os mesmos incorrem numa suspensão de até dois anos.

Foto: World Athletics

Mas os que estão, têm-se esmerado!

Agora falando da parte positiva, as grandes performances que temos assistido nas últimas semanas! Sim, antes da paragem, já nomes como o sueco Mondo Duplantis (novo recordista mundial da Vara), o ugandês Joshua Cheptegei (recordista dos 5km em estrada) e a venezuelana Yulimar Rojas (recordista mundial indoor do Triplo) tinham feito das suas. Mas falemos do pós-COVID.

Neste último fim-de-semana, Shaunae Miller-Uibo foi um dos grandes destaques. A atleta das Bahamas, que é a atual campeã olímpica dos 400 metros, tem-se mostrado bastante desagradada pelo facto do calendário dos Jogos tornarem quase impossível competir nos 200 e nos 400 metros em simultâneo. Entretanto, passou uma mensagem.

Este sábado, em Clermont, correu os 100 metros em 10.98 segundos (pouco tempo depois de um 11.03)! Com vento legal (um dia depois, a jamaicana Elaine Thompson correu em 10.73 segundos, mas com vento acima do regulamentar, +3.0), a atleta sobe a nº1 do ranking mundial, numa distância em que nunca tinha demonstrado ter tamanho potencial. Miller-Uibo tornou-se na quarta atleta da história a correr os 400 metros abaixo dos 49 segundos, os 200 metros abaixo dos 22 segundos e os 100 metros abaixo dos 11 segundos. Aliás, um dia depois, a atleta confirmou esse estatuto, ao estabelecer a marca líder mundial do ano nos 200 metros, com 21.98 (+2.0).

Mas os homens também não desiludiram em Clermont. O grande destaque foi o regresso de Trayvon Bromell, o norte-americano, que era uma das maiores promessas dos 100 metros (foi Bronze nos Mundiais de 2015 e o primeiro júnior a correr abaixo dos 10 segundos), passou por um longo calvário de lesões graves, mas voltou, agora, para correr em 9.90 segundos, batendo, por exemplo, Noah Lyles!

Convém, ainda assim, referir que Bromell não é o líder mundial por causa de…Michael Norman! Sim, o jovem quatrocentista norte-americano, provou que tem velocidade para o sprint mais curto e há menos de uma semana correu os 100 metros em 9.86 segundos (!), tornando-se apenas no 2º atleta da história (depois de van Niekerk) a correr os 100 abaixo dos 10 segundos, os 200 abaixo dos 20 segundos e os 400 abaixo dos 44 segundos. Já na prova de 200 metros, foi a vez de outro norte-americano, Noah Lyles (o campeão mundial da distância), subir a líder mundial com a marca de 19.94 (+0.8).

Na Europa, o grande destaque foi Ciara Mageean que bateu o recorde irlandês dos 800 metros (1:59.69), tornando-se a mais rápida europeia do ano. A meia e a longa distância têm, ainda assim, demonstrado falta de maior profundidade de grandes resultados este ano. Tal pode ser explicado pela falta de provas e também por várias inovações a nível de distâncias, que tem levado a recordes em distâncias pouco corridas. Ainda assim, nas distâncias mais habituais, é nos 5.000 metros que os melhores resultados se têm registado. O canadiano Mohammed Ahmed, em 12:47.20, bateu um recorde continental que pertencia a Bernard Lagat, enquanto que Shelby Houlihan bateu o recorde norte-americano feminino, em 14:23.92.

Se os Saltos parecem, também, estar a reservar os melhores resultados para as próximas semanas, já nos Lançamentos, há muito bons resultados a registar. No Disco, setes homens já ultrapassaram os 68 metros, incluindo dois acima dos 70 metros.

Se um é o habitual – e campeão mundial – sueco, Daniel Stahl, o outro é o colombiano Mauricio Ortega, que, com os seus 70.29 metros, feitos em Portugal, assumiu a liderança mundial. No Peso, uma disciplina em grande destaque em 2019, o norte-americano, Ryan Crouser (atual campeão olímpico), já lançou a enormes 22.91 metros, mostrando que estava preparado para Tóquio.

Agora, falando no feminino, sabem que é a líder mundial do Peso? Pois é, a portuguesa Auriol Dongmo tem sido a grande sensação do ano. O seu mais recente recorde nacional, de 19.27 metros, é a melhor marca alcançada este ano em todo o mundo, a par com a bielorrussa Aliona Dubitskaya.

Mesmo num ano totalmente atípico, e com muitas disciplinas praticamente paradas a nível da elite, os bons resultados começam a aparecer e a surpreender. As próximas semanas, com vários meetings internacionais (adaptados aos tempos), podem dar-nos ainda mais.


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