A desafiante carreira de um treinador de Judo

João CamachoMaio 2, 20198min0

A desafiante carreira de um treinador de Judo

João CamachoMaio 2, 20198min0
Kiyoshi Kobayashi foi o grande mestre do judo português tendo inspirado uma evolução de mais de 50 anos. Um artigo sobre a necessidade e a importância dos treinadores no judo nacional

O Inicio

O treinador é frequentemente tratado pelos seus alunos por “Mestre” ou “Professor”. Tal denominação vem da denominação Japonesa Sensei (“pessoa que nasceu antes da outra”), o que é interpretado por alguém que ensina baseado na sabedoria adquirida nos anos de experiência.

Na longa carreira de um treinador de Judo, este assume diversos papéis. Desde o do “Mestre” que ensina a apertar o cinto aos seus jovens atletas, que organiza jogos para desenvolvimento e aperfeiçoamento da motricidade dos jovens atletas e, que promove treinos abertos aos pais e amigos que, frequentemente, não têm qualquer conhecimento da modalidade, até ao de elemento fundamental no acompanhamento de um atleta de alto rendimento, que se senta na lateral da área de competição, enquanto esta disputa uma medalha nos jogos olímpicos, o ponto alto da carreira de um desportista.

O treinador de Judo tem um papel crucial e óbvio na formação do Judoca, não só da formação técnica, física, mas na formação cívica, de caráter e de valores. A vasta maioria das pessoas que tiveram uma experiência de prática de Judo recordam, com reverência, esse papel, destacando sempre o “mestre”, as suas conquistas, a sua autoridade e liderança no treino.

Kiyoshi Kobayashi, o “primeiro” Mestre

O Japonês Kiyoshi Kobayashi chegou a Portugal no ano de 1958, inserido num projeto previsto para durar dois anos, cujo principal objetivo era o desenvolvimento da prática do Judo, mas que na verdade se traduziu em praticamente 50 anos de permanência no nosso país.

Com efeito, a fundação da Federação Portuguesa de Judo em 1959 teve como um dos principais responsáveis o Mestre Kiyoshi Kobayashi, tendo sido também um dos grandes responsáveis pelo crescimento e desenvolvimento da modalidade em Portugal. Kiyoshi Kobayashi formou a maioria dos treinadores de Judo em atividade entre a década sessenta e o início da década de noventa. Foi Selecionador e Treinador das Equipas Nacionais, tendo integrado a comitiva Nacional em Campeonatos da Europa e do Mundo, assim como nos Jogos Olímpicos de Montreal (1976), Los Angeles (1984) e Seul (1988).

O mérito do Mestre Kiyoshi Kobayashi foi por diversas vezes reconhecido por instituições nacionais e estrangeiras e é considerado o Pai do Judo em Portugal.

Kiyoshi Kobayashi com Mestre Bastos Nunes (Foto: Arquivo do Autor)

Da formação ao alto rendimento

O treinador ou “Mestre” assume hoje um papel substancialmente diferente comparando com o que acontecia nas décadas de sessenta a oitenta.

Se é verdade que o treino de Judo engloba diversas abordagens, desde a introdução, formação, manutenção, treino técnico de “katas” (formas), alto-rendimento e Judo para pessoas portadoras de deficiência, o facto é que o expoente máximo da carreira de um treinador, sem desvalorizar a enorme importância das diversas etapas atrás descritas, é ter um atleta com projeção competitiva, Nacional e internacional.

A realidade do treinador de Judo em Portugal é dar aulas, mal remuneradas, ou mesmo sem qualquer tipo de remuneração, ter de montar e desmontar os tapetes de Judo (Tatami) para orientar os treinos, sujeitar-se a horários impróprios para a pratica da modalidade, acompanhar os atletas às provas, estágios, concentrações usando na maioria das vezes a sua viatura ou a dos pais dos atletas. Resumindo, muita precariedade que assume proporções ainda mais preocupantes quanto mais nos deslocamos para o interior do nosso País.

O Judo é cada vez mais um desporto complexo, com muitas varáveis que obrigatoriamente terão de ser contabilizadas e consideradas. O Judo é um desporto que exige ao treinador formação constante, estar atualizado no que respeita a abordagens de treino, atividades complementares de suporte ao treino, conhecimento do trabalho de condição física, nutrição, psicologia.

No fundo, todas as componentes relevantes para formar um atleta completo e bem estruturado. Tudo isto deverá ser suportado por um competente departamento médico de que façam parte médicos fisiatras e ortopedistas, fisioterapeutas, massagistas e, como nas seleções oriundas do leste da Europa, especialistas em osteopatia.

Países como o Japão, Rússia, França ou Alemanha, entre outros do topo do Judo Mundial, organizam equipas multidisciplinares com treinadores específicos para cada uma destas componentes, inclusivamente, a titulo de exemplo, a equipa Japonesa tem inclusive elementos da equipa técnica a gravar e visionar os combates do seus atletas registando todos pormenores e dados estatísticos para melhor entender as lacunas, ou seja, as áreas de melhoramento dos atletas. Aliás, os potenciais adversários dos atletas Japoneses, são também, acompanhados ao detalhe, para identificar vulnerabilidades e conhecer os pontos fortes o que permite definir estratégias e planos táticos para os tentar derrotar.

O Judo de competição, ou alto-rendimento, é hoje um desporto altamente organizado e com uma abordagem totalmente profissional, especialmente quando falamos das grandes potências. Em Portugal, no que respeita a esta vertente, o modelo tem evoluído mas ainda há muito a fazer. Apesar dos resultados consistentes, somos uma das poucas modalidades com duas medalhas Olímpicas (Nuno Delgado em Sidney 2000 e Telma Monteiro no Rio 2016, tendo sido a única medalha para Portugal nestes jogos), ainda há muito a fazer e melhorar. Os fracos recursos económicos, apesar da crescente exposição mediática fruto de um conjunto resultados consistentes e de enorme relevo, não se tem traduzido em patrocínios relevantes, ao contrário do que acontece com outras modalidades com resultamos bem menos expressivos que o Judo.

A questão financeira é crítica no panorama atual e o exemplo de sucesso do Judo do Sporting Clube de Portugal (SCP) é de destacar. O clube tem uma estrutura multidisciplinar sólida, com um excelente departamento médico, treinadores adjuntos de grande qualidade e com muita experiência competitiva (onde se destaca João Pina, Bicampeão da Europa e presente em três Olimpíadas ou Joana ramos, treinadora da formação e atleta ainda em atividade, com um vastíssimo currículo e que tenta uma nova qualificação para uns Jogos Olímpicos, Tokyo 2020), conta com um importante patrocinador para esta modalidade que não hesitou em avançar quando os primeiros resultados começaram a surgir.

O Judo do SCP tem à frente do projeto Pedro Soares, antigo internacional Português, Campeão da Europa, diversas vezes medalhado em Europeus e em provas do circuito mundial, Campeão da Europa de Clubes ao serviço do clube Alemão TSV Abensberg, e com duas participações Olímpicas no seu vasto currículo.

A sua visão, em grande parte fruto da sua experiência internacional e grande conhecimento da realidade em países de topo como o Japão ou a Alemanha, tem sido crucial e a conquista da Golden League Europeia de Judo, o equivalente à liga dos campeões de clubes Judo, no final de 2018, depois de ter conquistado 3 bronzes em anos transatos, é a prova de que estão no bom caminho. Os resultados estão à vista, diversos atletas bem posicionados para a qualificação olímpica, depois de ter sido o clube mais representado neste desporto nos Jogos Olímpicos do Rio (2016), com 4 atletas (3 a representar Portugal e 1 atleta a representar a Guiné Bissau).

Pedro Soares representa um exemplo do que é atingir o topo da carreira de treinador de Judo, destacando que começou a sua carreira de treinador na associação dos amigos da Damaia (onde tinha de montar os tapetes nos dias de treino), e passou pelas diversas e desafiantes etapas que esperam um treinador de Judo em Portugal.

Não posso terminar este artigo sem destacar Michel Almeida, um ex-atleta com um enorme currículo desportivo, Campeão da Europa, diversas participações Olímpicas, e tal como Pedro Soares, Campeão da Europa de Clubes ao serviço do TSV Abensberg, que foi treinador e selecionador Nacional, tendo atingido diversos resultados de destaque, e hoje é o responsável máximo da equipa de competição do Canada!

Pedro e Michel são a exceção que confirma a regra num desporto que em Portugal necessita de mais treinadores, de mais qualidade nos treinos, mais formação de qualidade, de disponibilização de conteúdos para as diversas áreas do treino, com recurso a ferramentas digitais e maior e melhor acompanhamento aos jovens treinadores, pois são eles o elemento agregador e fundamental na construção de uma base sólida e numerosa de atletas de qualidade!

O caminho é longo, difícil, exige superação e muita capacidade de sacrifício. Mas nada a que um Judoca não esteja habituado…

O feito do Sporting CP e do judo português (Foto: Getty Images)

Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter