Ana Caldas. “Cumpri um sonho ao ir aos Crossfit Games por Portugal”

Cláudia Espirito-SantoSetembro 19, 20188min0

Ana Caldas. “Cumpri um sonho ao ir aos Crossfit Games por Portugal”

Cláudia Espirito-SantoSetembro 19, 20188min0
A atleta Masters participou nos Crossfit Games numa experiência única que nunca mais se vai esquecer. Fica a saber mais sobre Ana Caldas!

A MULHER PORTUGUESA QUE ROMPE COM TODOS OS ESTERÓTIPOS NO CROSSFIT

Depois de uma prestação memorável nos CrossFit Games 2018 enquanto Master, com dois primeiros lugares em WODs dos Games e um extraordinário 8º lugar geral na sua categoria, é um orgulho poder falar com a nossa atleta portuguesa Ana Caldas sobre a sua experiência deste ano, o passado que a trouxe até aqui e o futuro que se avizinha.

2018 foi o primeiro ano em que a bandeira portuguesa esteve oficialmente presente nos CrossFit Games e promete ser o primeiro de muitos.

O teu desporto original era natação, como começou o teu percurso no CrossFit?

AC. O Crossfit entrou nos finais de 2011 quando cheguei a um ponto na natação que tinha estagnado. Busquei modalidades diferentes de treino “seco” para me ajudar com a natação. Os resultados foram impressionantes e fui continuando, até ao ponto em que a natação ficou para trás e comecei a dedicar-me exclusivamente ao CrossFit. 

És antítese do estereótipo de atleta que apenas se dedicou ao desporto a vida toda. Atingiste o ponto mais alto do desporto que praticas e tens um percurso académico notável também. Ajuda-nos a quebrar com as ideias pré-concebidas e fala-nos um pouco dessa fase da tua vida e se tem algum impacto na tua vida hoje enquanto atleta.

AC. Para ser sincera, uma vez terminada a faculdade e com um emprego “normal”, especialmente na minha área, foi impossível coordenar os dois. Acabei por fazer uma escolha, e escolhi o desporto (na altura natação, hoje em dia CrossFit).

É algo que me permite fazer coisas que gosto (desporto e viajar), mas ao mesmo tempo consigo continuar a ter influência sobre a vida de muitas pessoas. E claro que a minha vida anterior tem impacto hoje em dia, alias qq experiência passada dá-nos algo para o futuro. No entanto não tenho nenhuma intenção em voltar à vida académica. 

Foste também atleta de GRID. Como descreverias este desporto de equipa e como foi a tua experiência enquanto atleta?

AC. GRID foi algo espetacular, que tenho pena que não tenha continuado da forma que merecia. Era um desporto em equipa em que cada membro tinha a sua função (algo diferente do CrossFit), o que tornava um espetáculo super interessante de assistir. Alem disso éramos todos remunerados, e tínhamos condições de treino e convívio que ate hoje não presenciei no CrossFit. 

Fazes o teu próprio planeamento? Tens algum treinador que te acompanha?

AC. Até aos Games segui o programa da Invictus (não o público), e as últimas semanas treinei lá mesmo em San Diego com a equipa Invictus X, que ficou em 2 lugar nos Games. Ao mesmo tempo um amigo Português residente em Macau, António Barrias começou a ajudar-me com uns problemazitos que tinha, e hoje em dia é ele quem faz a minha programação a 100%. Acredito 100% nele como Coach, tem um filosofia diferente de vários Coaches, não é tão conhecido e tal, mas acho que para mim, é exatamente o que preciso. 

Foto: Getty Images
Quais são as maiores dificuldades que enfrentas enquanto mulher nesta área? 

AC. Uma das grandes dificuldades são estereótipos, sou grande, pesada, bastante músculo, não sou exatamente o padrão. Além disso como mulher no CrossFit, em Portugal notei muita diferença! Por exemplo em varias competições nacionais apuram muito menos mulheres que homens; notei também quando fui aos Regionais várias publicações que só falavam da participação masculina, e algumas que ainda aludiam as lacunas no setor feminino. No entanto eu qualifiquei-me para 7 regionais, mas não sou a única, temos também a Sonia Alves que nos representou várias vezes. Já por várias vezes tentei organizar coisas para valorizar mais as mulheres no CrossFit em Portugal, mas até agora ainda não consegui concretizar nenhuma em grande parte por falta de apoio. Mas tenho várias ideias em mente e quem sabe em breve consigo realizar uma ou duas!

Já foste como atleta Elite aos Regionais e em Equipas aos Games. Sentiste uma grande diferença enquanto Master?

AC. Sem dúvida há diferenças. No Games como Master temos muito menos atenção que os Elites ou Equipas, somos quase um after thought so para dizer que estávamos la. No entanto a experiência em si continua a ser tao magnífica e orgulhante.

A tua preparação específica para os Games nesta categoria foi muito diferente da de anos anteriores?

AC. Sim bastante. Primeiro porque entre os Regionais e os Games tive alguns problemas graves de saúde que requereram tratamento. Depois porque tive que trabalhar em regime full time para poder pagar as minhas despesas. Isso significa que não só fisicamente não estava no meu melhor mas também tinha muito menos tempo para treinar. As ultimas semanas em San Diego foram muito muito duras mas necessárias na minha preparação. 

O ambiente dos Games e o espírito de Comunidade, é algo que de facto se vive lá ou existe um ambiente extremamente competitivo entre os atletas e as boxes?

AC. Pelo menos entre os Masters foi um ambiento incrível! Nunca em nenhuma competição experienciei o que vivi nos Games com o grupo de 20 atletas na minha categoria.Todas éramos competitivas mas sem “espertezas” ou tentativa de prejudicar as outras. O espírito de Comunidade verdadeiro e todas nos mantemos em contacto depois dos Games. 

Tens alguma regra alimentar ou suplementação que consideres essencial na tua performance ou recuperação?

AC. Depende da fase. Tenho seguimento profissional de nutrição. Mas também desfruto de momentos que como o que me apetece. Faz bem a alma 🙂 

Nestes Games qual foi o WOD que mais gostaste de fazer e porque e qual foi o maior desafio que enfrentaste?

AC. O meu WOD preferido foi o Core couplet (GHD situps com bola e sandbag over shoulder). Gostei da minha estratégia e de como me mantive calma durante o WOD todo, sem deixar influenciar a minha estratégia pelas outras e acabei por ganhar o wod, algo totalmente inesperado. 

 O maior desafio… tenho 2 momentos…  O primeiro e o ultimo wod.  O primeiro apresentou-me algo que sabia ser um problema. Alturas! Tenho pavor. Hoje em dia subo a corda sem problemas, talvez porque ja me habituei. Os muros no obstacle course foram impossíveis para mim. Subir subi, mas não consegui passar para o outro lado por medo extremo. 

 O último wod foi um desafio porque uns dias antes agravei uma lesão no ombro antiga. No aquecimento tive muita dificuldade em fazer bar muscle ups, e quando cheguei a arena as dores eram tantas que não conseguia puxar o corpo e acabei por não fazer nenhuma rep nesse wod. Era um wod que normalmente seria excelente para mim. 

Quais são os teus objectives futuros no CrossFit e que sonhos tens ainda por realizar na modalidade?

AC. O meu objectivo é continuar a competir ate o meu corpo me permitir. Uma vez que competi nos Games em Masters nos ano passado gostava de voltar e tentar melhorar a minha classificação do ano passado. Sonhos vão aparecendo. Um deles era ir aos Games sem ser em equipa e representar Portugal, e aconteceu! 

És portuguesa de origem, tens alma lusitana, dupla nacionalidade e és uma cidadã do mundo. Vês-te a assentar em algum país no futuro próximo ou tens como objectivo manter o teu percurso mais internacional?

AC. Sinceramente eu sigo a vida mediante as oportunidades que se me apresentam! O importante para mim é eu fazer o que gosto e ser feliz. Seja em Portugal, nos EUA, na Suíça, No Brasil ou na China 🙂 Nada mudara o facto de eu ser Portuguesa, independentemente de onde eu esteja!*

*Gostava de fazer um agradecimento especial a Ana Caldas por partilhar connosco insights que nos levam mais perto da arena dos CrossFit Games.  É um orgulho ter-te lá.  Beijos e abraços de Portugal e uma excelente época 2018 – 2019!

Foto: Crossfit Games

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