Não há vencedores antecipados!

Diogo PiscoAgosto 17, 20209min0

Não há vencedores antecipados!

Diogo PiscoAgosto 17, 20209min0
Bastou um dia fatídico para que todas as certezas abrissem a porta a uma série de dúvidas. Ficou provado que não há vencedores antecipados e a época de ciclismo ficou novamente em aberto.

No início da semana passada as certezas eram muitas. Egan Bernal e Primoz Roglic, junto das suas grandes equipas, Team INEOS e Jumbo-Visma respetivamente, eram os dois nomes apontados à vitória do Tour de France. Parecia muito difícil outro nome intrometer-se na luta pela vitória, pois qualquer outra equipa parece fraca a comparar com a conjugação de estrelas que integram estas duas formações.

Remco Evenepoel (Deceuninck – Quick Step) era o dominador das corridas que apareciam no calendário paralelo às provas do pelotão que está em preparação para o Tour. O jovem Belga também parecia impossível de derrotar e depois do espetáculo dado na Volta à Polónia era o nome forte para vencer o 2º monumento da temporada, Il Lombardia. Começava também, a afirmar-se como o grande nome para vencer o Giro d’Italia, mesmo que persistindo a dúvida da sua resistência às 3 semanas.

Sábado, dia 15 de Agosto, seria o dia fatídico que transformaria todas as certezas em dúvidas.

Rumo ao Tour

A caminho do Tour, no seguimento do Tour de l’Ain, onde Roglic e a Jumbo-Visma foram imperiais sobre Bernal e a Team INEOS, esperava-se agora novo embate no Critérium du Dauphiné com resposta por parte dos derrotados. No entanto as coisas continuaram a não correr bem à Ineos.

Apesar de na 1ª etapa, Bernal conseguir bonificar 4 segundos com o seu 3ª lugar, a vitória sorriu a um gregário de luxo, que se juntou à Jumbo – Visma vindo da campanha italiana. Wout Van Aert, não só venceu a primeira jornada, como veio acrescentar muita consistência ao comboio da equipa.

Na 2ª e 3ª etapa, a INEOS tentou mostrar a força de outrora fazendo o seu comboio funcionar montanha a cima por forma a asfixiar todo um pelotão com um ritmo que não permite grandes movimentos. O comboio estava lá, o ritmo era forte e não permitiu grandes ataques, mas para além de se mostrar incapaz de asfixiar os adversários, mostrou-se forte de mais para os homens de trabalho da própria equipa. Bernal ficou sozinho muito cedo e quando atacou não conseguiu fazer diferenças. Acabou por ver de longe a vitória de Roglic. O líder da Jumbo voltou a afirmar a sua superioridade perante todos os adversários.

Primoz Roglic dominou o Critérium Dauphiné, mesmo que tenha abandonado na última etapa. É espectável que se apresente ao mesmo nível daqui a 2 semanas no Tour. Fonte: 24.sapo.pt

A 3ª etapa revelou um resultado do trabalho realizado pela Ineos ainda mais desastroso. Chris Froome e Geraint Thomas abandonaram o comboio ainda mais cedo do que nos dias anteriores e Bernal voltava a perder frente a Roglic, que chegou em 2º, e os restantes homens fortes na luta pela geral.  A vitória sorriu ao homem da fuga do dia, Davide Formolo.

O dia fatídico chegou com a notícia do abandono de Bernal, devido a uma dor nas costas. Jogada táctica ou não por parte da Ineos, a verdade é que tiraram o homem forte da corrida num dia que se viria a mostrar azarado para o pelotão.

No dia da primeira vitória como profissional do jovem Lennard Kämna (Bora-Hansgrohe), o que mais marcou os adeptos foram as quedas que levaram ao abandono de Steven Kruijswijk, homem forte no apoio a Roglic, que também caiu. Apesar da queda o esloveno levou a jornada até ao fim, mostrou-se em condições de responder aos adversários e chegou junto dos adversários. No entanto o abandono seria anunciado antes do inicio da última etapa. Entre os nomes envolvidos nas quedas e abandonos, de salientar o de Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe), que terminou o Tour do ano passado em 4º lugar da geral e vê a sua participação posta em causa na presente temporada.

O útlimo dia de competição arrancou com Thibaut Pinot (Groupama – FDJ) na liderança da geral, com um top 7 separado por apenas 21 segundos. Apesar de perder o seu líder, a Jumbo-Visma quis continuar a mostrar a sua força dando liberdade a Sepp Kuss de lutar pela vitória. Sem ter de trabalhar para proteger o seu líder, o americano confirmou o grande momento de forma e venceu com relativa facilidade.

Na luta pela a geral, foi o jovem colombiano da EF Pro Cycling, Daníel Martinez, a levar a melhor sobre os nomes que melhor aguentaram os ritmos impostos pelos patrões do pelotão, Jumbo – Visma e Ineos. Martinez alcançou a maior vitória da sua carreira, levando para casa a vitória na geral e na juventude.

A vitória antecipada estava entre Roglic e Bernal, mas no final foi Daniel Martinez a levar a Camisola Amarela para casa. Fonte: digitalcycling.com.br

O restante top 10 ficou composto por Thibaut Pinot, Guillaume Martin (Cofidis, Solutions Crédits), Tadej Pogačar (UAE-Team Emirates), Miguel Ángel Lopéz (Astana Pro Team), Romain Bardet (AG2R La Mondiale), Tom Dumoulin (Jumbo – Visma), Lennard Kämna (Bora-Hansgrohe), Warren Barguil (Team Arkéa Samsic), e Sepp Kuss (Jumbo – Visma).

Apesar de não parecer nada de grave, ninguém sabe ao certo como estão Roglic e Bernal. Sem dúvida que as suas equipas foram vítimas do azar e os blocos estão mais frágeis, ainda que se mantenham fortes. As certezas têm agora muitas dúvidas, Pavel Sivakov (Team INEOS) caiu na última etapa e embora tenha terminado junto dos mais fortes tem agora semanas em que o treino será condicionado rumo à sua confirmação com braço direito de Bernal em França. Froome está longe de aguentar o ritmo dos mais fortes e Thomas garante que estará pronto para o Tour, mas neste momento não é o Thomas dos dois últimos anos.

Do lado da Jumbo- Visma, Sepp Kuss está numa forma invejável mas será capaz de aguentar este momento durante as 5 semanas que tem pela frente? Kruijswijk vê a fase final da sua preparação para o Tour posta em causa, podendo ser baixa de última hora. Toda a equipa parece estar um nível à frente na sua preparação o que levanta também a duvida se todos conseguiram estar ao mais alto nível nas últimas etapas do Tour.

Clássicas, Monumentos e Giro

Com um calendário sobrecarregado e com a sobreposição de provas importantes, as clássicas e monumentos italianos têm decorrido simultaneamente às provas de preparação para o Tour. Este pelotão é maioritariamente apontado ao Giro d’Italia e tem feito uma campanha não menos espetacular que os colegas em França.

Do “pelotão do Tour” saltaram nomes importantes que viriam enriquecer as provas italianas. George Bennet (Jumbo – Visma) teve autorização para aproveitar o seu grande momento de forma e pôde comandar a equipa na Gran Piemonte e na Il Lombardia. Bauke Mollema (Trek – Segafredo) veio para defender o titulo de campeão da Lombardia e João Almeida (Deceuninck – Quick Step), que após liderar a equipa no Tour de l’Ain, voltou para junto de Remco Evenepoel (Deceuninck – Quick Step), de quem tem sido fiel escudeiro.

Bennet não desiludiu, a meio da semana, perante um pelotão de onde se notava a ausência dos grandes nomes, venceu a Gran Piemonte.

Grande vitória de George Bennet, num dia complicado para a prática de ciclismo. Fonte: cyclingweekly.com

Confirmou o seu grande momento de forma e o seu nome surgia na lista de favoritos ao 2º monumento do ano, Il Lombardia. Entre os restante favoritos estavam Jakob Fuglsang e Aleksandr Vlasov (Astana Pro Team), Vincenzo Nibali (Trek Segafredo), Mathieu Van der Poel (Alpecin- Fenix), Maximilian Schachmann (Bora-Hansgrohe), Richard Carapaz (Team INEOS), entre outros. Nenhum destes nomes parecia sonante ao pé do grande Remco Evenepoel (Deceuninck – Quick Step), que pelo domínio aplicado em todas aprovas que participou até ao momento, era dado como vencedor antecipado.

Mas o 15 de Agosto de 2020 estava destinado a ser um dia fatídico para o ciclismo. O vencedor antecipado sofreu uma terrível queda, sendo atirado para fora de competição quando tentava seguir o ataque que lançou na frente os homens que discutiram a vitória.

Na frente ficaram os 2 líderes da Astana, os 2 líderes da Trek Segafredo protegidos por Giulio Ciccone, e George Bennet. O vencedor da Gran Piemonte não tremeu perante a inferioridade numérica e fez partir o grupo sendo seguido primeiro por Fuglsang e depois por Vlasov, conseguindo deixar para trás os homens da Trek.

Em Itália, Bennett e Fuglsang foram sinal de espectáculo. Aqui no momento em que um ataque de Bennett fazia descolar Vlazov. Fonte: pezcyclingnews.com LB/RB/Cor Vos © 2020

Já sozinho com Fuglsang, Bennet foi vítima da experiência e sabedoria do dinamarquês que escondeu bem a sua força e só atacou uma vez em direção à vitória. Um recital de como correr um monumento, que fez o líder da Astana juntar o segundo ao seu currículo.

Já depois de se conhecer o vencedor mais um azar viria a acontecer neste dia. Um automóvel entrou no percurso da prova e Maximilian Schachmann viu a sua participação no Tour estragada por um acidente que devia ser impossível de acontecer. O campeão alemão embateu contra a viatura que parou no meio do caminho do ciclista quando este se encontrava nos kms finais para a meta. O ciclista acabou a corrida com uma fratura da clavícula.


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