“Temos campeão do Mundo!” – a prestação portuguesa no Campeonato do Mundo de Judo

João CamachoSetembro 6, 20199min1

“Temos campeão do Mundo!” – a prestação portuguesa no Campeonato do Mundo de Judo

João CamachoSetembro 6, 20199min1
Jorge Fonseca, Bárbara Timo, Joana Ramos e Patrícia Sampaio foram os maiores destaques do Campeonato do Mundo de Judo e o Fair Play analisa a prestação lusa no seu conjunto. Nota máxima?

A prestação da equipa Portuguesa, nos Campeonatos do Mundo de Tóquio, superou os prognósticos mais otimistas e ambiciosos, terminando, globalmente, na terceira posição do ranking de medalhas e com um campeão do Mundo dos 100Kg, Jorge Fonseca, e uma vice-campeã do Mundo dos 70Kg, Barbara Timo.

JORGE FONSECA

O dia 30 de Agosto de 2019 ficará marcado na história do Judo e do desporto Português, como o dia em que, pela primeira vez, um Judoca Português conquistou o título de Campeão do Mundo.

No artigo que escrevi em Julho, onde fiz uma antevisão destes campeonatos do Mundo, escrevi que estes mundiais poderiam surpreender pela positiva, dado o momento atual do Judo Português. Não que tenha uma bola de cristal, ou recorra aos serviços de especialistas na área da astrologia, mas o facto é que os resultados têm aparecido, com diversos pódios nas provas do circuito Mundial, e estes Campeonatos do Mundo são a prova inequívoca de que o Judo Português, no que respeita ao escalão principal, está a atravessar um bom momento.

Jorge Fonseca, nascido em São Tomé e Príncipe, veio para Portugal aos 11 anos de idade, para viver junto da sua mãe, na Damaia, arredores de Lisboa. Uma infância e adolescência atribuladas, onde as aulas de Judo, que decorriam numa escola perto da sua residência, lhe despertaram a curiosidade, tendo sido desafiado pelo treinador responsável na altura, e ainda hoje o homem que se senta no banco reservado aos treinadores, a orientar, a corrigir e a incentivar Jorge, sempre que este entra em ação, Pedro Soares.

Pedro Soares, que como atleta tem um currículo repleto de resultados de relevo, com uma carreira no alto rendimento de mais de 10 anos, onde destaco a conquista do Titulo de Campeão da Europa de Juniores ou o facto de ter sido o primeiro Português a vencer a mais prestigiada competição do circuito Mundial, o Grand Slam de Paris (na altura Torneio de Paris), tendo sido, no inicio da década de 90, juntamente com Michel Almeida ou Filipa Cavalleri, entre outros, a primeira fornada de atletas que mostraram que era possível chegar aos pódios em campeonatos da Europa e do Mundo.

Jorge Fonseca mostrou aptidão para o Judo desde cedo, e terá sido, provavelmente, o Judo que lhe terá dado a resiliência e a capacidade para superar um cancro, em vésperas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, ou para abraçar a experiência e os desafios da paternidade aos 17 anos. Tudo isto será, certamente, objeto de aprofundada e detalhada dramatização, numa biografia ou, quem sabe, num filme sobre a vida do atleta, que, aliás, faria todo o sentido, especialmente num período em que escasseiam exemplos de superação e em que o facilitismo impera… .

Jorge provou que o sacrifício, a resiliência, o trabalho e a humildade são fundamentais para o sucesso de um atleta. Jorge provou que com a atitude correta e com uma estrutura forte, atenta e experiente por detrás, é possível chegar ao topo do Mundo. Aqui temos de destacar, mais uma vez, Pedro Soares, cuja contributo tem sido fundamental, tal como o do Sporting Clube de Portugal por todas as condições e apoio que dá aos atletas e pela aposta de investir no Judo, além do dos vários patrocinadores que possibilitaram ao atleta ganhar a rodagem e a experiência que permite chegar à hora da decisão e não vacilar.

O percurso imaculado de Jorge Fonseca, neste campeonato do Mundo, foi longo, e, apesar do resultado final, muito adverso. Depois de na 1ª e 2ª rondas ter derrotado adversários menos cotados, tendo tido inesperadas dificuldades no 1º combate frente ao Chileno Thomas Briceno, encontrou logo na 3ª ronda o Irlandês Benjamin Fletcher, com quem já tinha experienciado o sabor da derrota por 3 vezes, em 10 combates disputados. Nos quartos-de-final teve pela frente o líder do ranking Mundial, vice-campeão do Mundo e Vice-campeão Olímpico (da categoria abaixo dos -90Kg), o Georgiano Varlam Liparteliani. Nas meias-finais defrontou outro vice-campeão Olímpico, o Azeri Elmar Gasimov, e na final, derrotou o Russo Niyaz Ilyasov, medalha de bronze nos campeonatos do Mundo de 2018.

Jorge Fonseca fez o que para muitos seria impossível, conseguiu ser o primeiro Português a ouvir a Portuguesa e a colocar a bandeira do nosso país no lugar mais alto do pódio de uns campeonatos do Mundo de Judo. Parabéns Jorge!

BÁRBARA TIMO

Quando pediu a nacionalidade Portuguesa, para ir atrás do sonho de participar nuns Jogos Olímpicos, Bárbara nunca imaginou que 8 meses depois de receber o passaporte Português subiria ao pódio de uns Campeonatos do Mundo, com a medalha de prata ao peito.

Como já tive oportunidade de escrever, Barbara Timo é uma talentosa atleta, com a atitude correta e com humildade que caracteriza as grandes campeãs. Trabalhadora incansável, como é reconhecido pelos técnicos e colegas da seleção, Bárbara entrou em 2019, já com o dorsal de Portugal nas costas, com uma medalha de Bronze na prova rainha do circuito Mundial, o Grand Slam de Paris e, um mês mais tarde, venceu o Grand Prix de Tbilisi.

O percurso de Bárbara Timo foi extraordinário, derrotou a campeã do Mundo de 2018, a Japonesa Chizuru Arai, na 3ª ronda, tendo sido a atleta surpresa do dia! Na meia-final derrotou a campeã da Europa deste ano, a Francesa Margaux Pinot, tendo caído só na final frente à Francesa, vice-campeã do Mundo de 2018, a jovem Marie Eve Gahie. Parabéns Barbara!

A prata nos campeonatos do Mundo é a prova que a atleta tomou a decisão certa, ao aproveitar a conjuntura que permitiu a sua naturalização para perseguir o sonho Olímpico, dado que as portas a uma corrida ao apuramento Olímpico, pelo Brazil, estavam fechadas.

Foto: Federação Portuguesa de Judo

JOANA RAMOS E PATRÍCIA SAMPAIO

Joana Ramos provou que velhos são os trapos, e chegou à luta pelo bronze, frente à campeã Olímpica dos 52Kg, a Kosovar Majlinda Kelmendi, num combate que ficou marcado pela cabeçada de Kelmendi a Joana, logo nos primeiros segundos do combate, o que veio a revelar-se altamente penalizadora para a Joana, que acabou derrotada mas de cabeça erguida (e um grande penso no nariz!).

Patricia Sampaio, a “miúda” da equipa, por ser a mais nova atleta da equipa, que ainda está no escalão Júnior, foi também ela uma campeã, já quesó depois de uma maratona frente à experiente atleta Holandesa Marhinde Verkerk, caiu nos quartos-de-final frente à Japonesa, campeã do Mundo de 2018, Shori Hamada. Na luta pelo Bronze, foi derrotada pela atleta que mais admira, que segue apaixonadamente, que idolatra, a Brasileira Mayra Aguiar, atleta com 5 medalhas em Mundiais (duas de ouro) e duas medalhas de bronze Olímpicas no seu vasto curriculo, e que lhe segredou ao ouvido, no final, que “ela também a admirava, que fez uma grande competição e que juntas vão conquistar o Mundo”.

A equipa Portuguesa, para além destes 4 atletas, contou com mais 14 atletas: Destaco a fantástica Telma Monteiro (57Kg), que esteve muito bem, tendo caído na 3ª ronda, num combate emocionante e equilibrado, frente à Campeã Olímpica Rafaela Silva; Catarina Costa (48Kg), derrotada na 2ª ronda frente à atleta que se sagrou bicampeã Mundial, a Ucraniana Daria Bilodid; O experiente Carlos Luz, também em destaque, ao ser derrotado na 3ª ronda frente ao campeão do Mundo de 2018, o Iraniano Saeid Mollaei (prometo um artigo sobre este fantástico judoca antes do final do ano), tal como Rochele Nunes, que caiu, na segunda ronda, frente à campeã do Mundo de 2018, a Japonesa Asahina, num emocionante combate, que só se resolveu no golden score; Joana Diogo (52Kg), Wilsa Gomes (57Kg), Yahima Ramirez (78Kg), Miguel Pisco (60Kg), Rogério Lopes (60Kg) João Crisóstomo (66Kg), Sergiu Oleinic (66Kg), Jorge Fernandes (73Kg), Nuno Saraiva (73Kg) e Anri Egutidze (81Kg), foram derrotados na fase preliminar e eliminados da competição.

Os campeonatos do Mundo terminaram com a prova de equipas mistas, onde Portugal tinha o estatuto de equipa surpresa dos campeonatos da Europa de 2019, numa emocionante e polémica final contra a Rússia, que viria a perder, ficando com a prata, o que soube manifestamente a pouco, face à fantástica prestação que tivemos oportunidade de ver. Portugal defrontou a poderosa equipa do Azerbaijão, e acabaria de perder, no combate de desempate, depois de, nos 6 combates disputados, estar empatado a 3, devido à lesão de Rochele Nunes.

Apesar da prestação na competição de equipas mistas ter ficado aquém do esperado, o balanço deste Mundial é muito positivo, com Portugal a terminar no 3º lugar do quadro de medalhas da competição individual, só superado pelas super potências da modalidade Japão e França. Fica provado que há talento, há uma estrutura capaz de potenciar este talento, e “apenas” é preciso muito trabalho, humildade e espirito de sacrifício para atingir o patamar mais alto deste desporto!

É fundamental continuar a apostar na formação, área onde, na minha opinião, algo terá de ser feito com urgência, aproveitando este ambiente de vitórias e conquistas, para angariar uma base de praticantes sólida e que garanta a continuação destes resultados no futuro!

O Judo Português está de Parabéns!

Jorge Fonseca e Pedro Soares (Foto: FPJ)

One comment

  • Pedro Lopes

    Setembro 8, 2019 at 8:38 am

    Fantástico resultado para Portugal e parabéns por podermos perceber o incrível esforço e dedicação destes atletas e conhecer um pouco das pessoas que são e não só dos seus resultados.

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