O 11 da independência ou a Seleção Argelina Clandestina

João FreitasOutubro 25, 20204min0

O 11 da independência ou a Seleção Argelina Clandestina

João FreitasOutubro 25, 20204min0
Em 1958, contra o controlo da França, foi criado o 11 da independência, uma Seleção Clandestina da Argélia. Descobre esta história de resistência aqui!

A 13 de Abril de 1958, no auge das hostilidades entre a Frente de Libertação Nacional (Argélia) e a França, é apresentada ao mundo a Équipe du FLN de Fotball – conhecida entre os argelinos como Le onze de l´indépendance – o “11 da independência”.

Esta equipa desempenhava não só um papel desportivo, mas sobretudo psicológico. Visava mostrar à França que muitos dos futebolistas profissionais argelinos se encontravam solidários com a luta do povo argelino e, ao mesmo tempo, funcionar como uma importante ferramenta de propaganda da causa, muito pelo facto de o futebol ser o desporto mais popular entre os argelinos.

A estrela da companhia: Mekhloufi

Um dos jogadores que abraçou sem hesitação esta forma de luta foi Rachid Mekhloufi, astro do todo poderoso Saint-Etienne.

Rachid era natural de Sétif, e tendo testemunhado em criança o massacre perpetrado pelos franceses a 8 de Maio de 1945, a causa não lhe poderia ser indiferente. Se na Europa o dia 8 de Maio era um dia de rejubilo pela derrota do Nazi-fascismo e por termo II Guerra Mundial, na Argélia é um dia de luto e sofrimento.

Mekhloufi, o “menino de ouro” do Saint-Étienne e internacional pela selecção francesa, comprometeu a sua brilhante carreira futebolística, tendo na primavera de 1958 fugido de França com destino a Tunis – local onde estava marcado o encontro da Selecção da FLN – causando um enorme escândalo entre a imprensa desportiva francesa. Juntou-se a vários jogadores como Zitouni (AS Monaco) e Oudjani (Lens e um dos melhores marcadores da história do clube dos Haut-de-France).

Mekhloufi era a grande estrela desta equipa (Foto: Getty Images)

Convém destacar aqui o risco corrido pelos 33 jogadores que “saltaram” para esta celebridade clandestina: A FLN era um partido que havia sido ilegalizado e classificado como organização terrorista pela NATO e pela República Francesa. Desta forma, o acto cometido por estes atletas configurava um crime.

A Selecção da FLN nunca foi reconhecida pela FIFA, muito devido às pressões feitas por parte das autoridades Francesas. As únicas equipas que aceitaram jogar com a equipa da FLN foram os países do bloco de Leste (URSS, Jugoslávia, Bulgária, Roménia e Hungria), outros países norte africanos (Líbia, Marrocos e Tunísia) e o Vietnam do Norte.

A visita da equipa argelina ao Vietnam foi talvez a que mais polémica gerou entre os franceses, dado os franceses terem sofrido uma derrota militar em Dien Bien Phu em 1954 contra as tropas vietnamitas lideradas por Ho Chi Minh e pelo General Giap.

Nessa visita em Novembro de 1958, a selecção da FLN derrotou a selecção vietnamita por 5-0. No final do encontro o General Giap profetizou: “Nós derrotamos a França em Dien Bien Phu, e vocês derrotaram-nos no campo de futebol. Tenho a certeza, vocês vencerão a França!”.

A vitória do povo e a selecção Argelina

Mais tarde, em 1962, o povo Argelino conquistaria a sua independência da França, e a selecção da FLN daria lugar à selecção Argelina. Mekhloufi regressaria aos relvados europeus em 1962, representando o Servette, Saint-Étienne e terminando a sua carreira no Bastia.

Seleção argelina com o General Giap (Foto: Getty Images)

Esta seleção tinha uma média de idades de 25 anos, estes jovens atletas abdicaram das suas vidas de conforto material, abraçando a causa do seu povo pondo em risco as suas carreiras desportivas e a sua vida pessoal. É uma história de coragem que ilustra bem que a dimensão do futebol ultrapassa as barreiras desportivas, assinando uma das mais belas páginas da vertente desportiva da luta anti-colonial.


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