Jenö Konrad ou “Eugénio Conrado”: o Mestre resgatado por Szabo em Lisboa

João FreitasNovembro 24, 20194min0

Jenö Konrad ou “Eugénio Conrado”: o Mestre resgatado por Szabo em Lisboa

João FreitasNovembro 24, 20194min0
Jogador de futebol, treinador, florista, director de equipa, operário mas sobretudo um vencedor, é a forma de descrever Jenö Konrad um ícone em Nuremberga que passou por Lisboa e pelo Sporting CP

Para qualquer apaixonado pela história do futebol não é surpreendente a qualidade e a hegemonia que os magiares e austríacos detinham no dealbar do século XX. A figura que este texto aborda, Jenö Konrád – ou Eugen Conrad – nasceu nesse foco de tensões geopolíticas que marcaram de forma indelével a história mudial, os Balcãs.

Jenö nasce na cidade de Bácspalánka, na altura parte do Império Austro-Hungaro mas que altualmente se chama Bačka Palanka e faz parte da provincia autónoma da Vojvodina (Sérvia), e com oito anos de idade a sua família muda-se para Budapeste – onde o futebol consumia os corpos e as mentes dos jovens. Dotado de um talento que despertou a cobiça dos grandes clubes budapestinos, com apenas 14 anos assina pelo Budapest AK, segue-se o mítico MTK onde se sagraria campeão e em 1915 a primeira internacionalização.

Em 1914, o conflito mundial eclode e Jenö é destacado para defender o Império Austro-Hungaro na frente oriental onde foi capturado pelos soldados do Império Russo ficando dois anos em cativeiro. Teria sido durante este período de reclusão que Jenö teria tido contato com os ideais revolucionários comunistas.

Em 1919, regressa a Budapeste – agora capital da Republica Húngara – para envergar as cores do MTK e sagrar-se campeão. Mas, em Março de 1919 os comunistas Húngaros liderados por Bela Kun fundam a Republica Soviética da Hungria, procurando aproveitar o embalo da revolução soviética de 1917. Mas, a revolução dura apenas até Agosto de 1919, altura em Jenö e o seu irmão Kalman mudam-se para Viena, por estarem diretamente envolvidos na tentativa de revolução comunista.

Konrad I e Konrad II, como eram conhecidos, assinam pelo FK Austria Wien – na altura ainda com o nome Wiener Amateur SV – onde ajudam o clube a vencer a Taça Austríaca em 1921. Em 1925, por conta de uma lesão no joelho, Jenö abandona os relvados e dedica-se à carreira de treinador.

Treina o Austria Wien, onde lança um talentoso e jovem Matthias Sindelar, o Wacker Wien, o Chinezul Timisoara (na região da Transilvânia romena), o Wiener AC e o Hakoah Wien – clube da comunidade judaica de Viena, onde conhece aquele seria um dos seus grandes amigos do futebol, Bella Guttman . Em 1930, o FC Nuremberga – a altura o clube alemão mais bem sucedido – contrata Jenö para assumir os destinos do clube. Mas este casamento dura apenas dois anos, com Jenö a ser despedido em 1932. Não foram os resultados que ditaram o seu despedimento, mas as pressões, insultos e ameaças que os Nazis locais faziam ao treinador e à direção do clube.

Decide regressar a Viena, mas com os olhos postos na Roménia onde conquista o título de campeão nacional com o Timisioara (1933). No ano seguinte, estava à frente do Brno e depois do Austria Wien. Entre 1936-1938, dirige o Triestina onde atinge o 6º lugar na serie A, mas tem que abandonar o clube quando Mussolini promulga as leis raciais e expulsa os judeus de Itália. Foi para Paris, onde trabalhou como florista, mas cedo arranjou trabalho como treinador de futebol, conduzindo o Lille à final da Taça de França de 1939. Com o deflagrar da Segunda Guerra Mundial, Jenö – assim como milhares de pessoas – decide fugir para os Estados Unidos da América via Portugal.

Chega a Lisboa, mas as dificuldades em conseguir a obtenção do visto para os EUA, obrigam-no a ficar por algum tempo em Lisboa. Com as poupanças de uma vida a acabar e a fome e a indigência a se assumirem como um destino provável, o seu compatriota Joseph Szabo (treinador do Sporting Clube de Portugal), após o encontrar e reconhecer nas ruas de Lisboa, oferece-lhe um emprego como seu treinador adjunto. E, já a meio da época 1939/1940, uma nova figura emerge no banco da turma de Alvalade, o delegado técnico “Eugénio Conrado” – o nome aportuguesado do nosso.

Felizmente, em maio de 1940, Jenö consegue embarcar no com destino para os EUA, onde fixou residência em Nova York e trabalhou o resto da sua vida como operário, tendo falecido em 1978. Atualmente, o “Eugénio Conrado” é um dos símbolos maiores do Nuremberga, sendo sócio honorário e muito recordado pelos adeptos.

Jenö Konrad (Foto: Fusseball Legends)

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