O declínio da Taça Intercontinental na década de 70

João Ricardo PedroJaneiro 3, 20205min0

O declínio da Taça Intercontinental na década de 70

João Ricardo PedroJaneiro 3, 20205min0
O Campeonato do Mundo de Clubes actual foi substituído durante largos anos pela Taça Intercontinental que teve um período menos positivo nos anos 70 do século XX. O porquê e alguns detalhes interessantes desta competição

Os primeiros esforços para encontrar um campeão do Mundo de clubes foram feitos na Copa Rio de 1951 e 1952 organizada no Brasil. O Sporting foi representante português em ambas as edições. A “Pequena Taça do Mundo” (1952 – 1957) organizada na Venezuela também competiam equipas sul-americanas e europeias, Benfica (em 1955) e FC Porto (em 1956) foram os representantes portugueses, e os vencedores na competição foram: Real Madrid (2 vezes), Barcelona, São Paulo, Corinthians e o Milionários de Di Stefano.

O Real Madrid que até então dominava a Taça dos Campeões Europeus fez vários amigáveis contra as melhores equipas do “novo continente”, e estes jogos foram sempre vistos como uma espécie de Mundial pela imprensa local que fazia a cobertura destes jogos.

A UEFA juntamente com a CONMEBOL finalmente decidiu organizar em 1960 a Taça Intercontinental (ou a Taça Europeia/Sul Americana) que colocava frente a frente, os vencedores da Taça dos Campeões Europeus e da Copa Libertadores. O primeiro campeão do Mundo foi o Real Madrid de Di Stefano, Puskas e Gento que atropelaram no Santiago Barnabéu o Peñarol de Alberto Spencer com uma vitória por 5-1. A competição rapidamente passou para a ribalta e as grandes equipas da história do futebol como o Santos de Pelé ou o Inter de Helenio Herrera figuraram entre os vencedores da competição.

Mas o entusiasmo e o prestígio da competição foi afetado pelos episódios de violência nos jogos, sobretudo as partidas realizadas na América Latina. A vitória do Racing sobre o Celtic na finalíssima no Estadio Centenário em Montevideu em 1967 ficou conhecida como a “Batalha de Montevideu”. O jogo foi marcado por vários episódios de violência extrema por parte das duas equipas, e após o final do jogo, e durante a volta olímpica do Racing, os adeptos uruguaios que apoiavam a equipa da Escócia atiram tudo o que tinham a mão contra os argentinos e foi necessária a intervenção policial para acalmar os ânimos.

Na edição da Taça Intercontinental de 1969 entre o Estudiantes e o AC Milan, o problema da violência voltou a ser tema de discussão, e as imagens da agressão bárbara de Ramon Aguirre Suarez a Néstor Combin que fraturou o nariz e o osso malar do avançado do AC Milan percorreram o Mundo, e o jogo ficou conhecido como a “Batalha da Bombonera”.

Entramos na década de setenta e a situação continuava a não ver quaisquer melhoras nos jogos entre equipas sul americanas e europeias. Na edição de 1971 o Ajax recusou enfrentar o Nacional devido aos episódios de violência e hostilidade em edições anteriores. Os gregos do Panathinaikos, vice da Taça dos Campeões Europeus, representaram o continente europeu, e o título de campeão do Mundo ficou para os uruguaios, ainda assim um jogador do Nacional saiu no primeiro jogo em Atenas com uma perna partida, e o médio Yiannis Tomaras foi expulso.

Na edição seguinte, o Ajax de Cruyff enfrentou o Independiente, e na chegada dos holandeses ao aeroporto de Buenos Aires, os adeptos locais rapidamente se prontificaram a fazer várias ameaças de morte a Cruyff. O jogo foi realizado em Avellaneda num clima de grande hostilidade, e a partida terminou com um empate a um golo, o golo dos holandeses foi da autoria de Johan Cruyff que não se deixou intimidar.

Em 1973, o Ajax voltou a renunciar ao lugar de representante europeu na competição, desta vez alegou problemas financeiros em pagar os custos de uma deslocação à América do Sul, os holandeses foram substituídos pela Juventus, e pela primeira vez na história da competição a competição foi decidida num jogo único em Roma, e a vitória foi do Independiente. Foi também 1973 que o jornal desportivo francês, L’Equipe tentou organizar uma verdadeira competição mundial de clubes (para ser realizada em 1974) com a participação de equipas de outros continentes, mas a UEFA rejeitou a ideia dos franceses apesar do sinal positivo dado pela CONMEBOL.

O Bayern Munique que havia conquistado a sua primeira Taça dos Campeões Europeus recusou participar na Taça Intercontinental e para o seu lugar foi escolhido o finalista, o Atlético de Madrid. Os espanhóis venceram o Independiente, e de forma bizarra o Atlético de Madrid tem no seu historial o título da Intercontinental sem ter vencido qualquer Taça dos Campeões Europeus ou Liga dos Campeões. Na edição seguinte venceram os mesmos clubes as competições continentais, Bayern Munique e Independiente, mas quis o destino que não se voltassem a encontrar, desta vez a competição nem sequer aconteceu. No entanto, o Bayern Munique venceria a Taça Intercontinental em 1976 contra o Cruzeiro e voltou a vencer em 2001 em Tóquio.

A Taça dos Campeões Europeus a partir de 1977 passou a ser dominada pelos clubes ingleses e estes também não viam com bons olhos a Taça Intercontinental, sobretudo as deslocações complicadas à América do Sul. O Liverpoool venceu as edições de 1977 e 1978, e por duas vezes recusou enfrentar o Boca Juniors, em 1977 os ingleses foram substituídos pelo Borussia Mönchengladbach, e em 1978, os argentinos após nova rejeição do Liverpool, recusaram também enfrentar o Club Brugge, e a competição não foi realizada.

A Taça Intercontinental iria bater no fundo em 1979, desta vez o campeão europeu era o Nottingham Forest de Brian Clough e cedeu a vaga ao finalista, desta vez o Malmö da Suécia. Esta foi a primeira e única vez que uma equipa da Escandinávia andou por estas “andanças”, e  ainda assim os adeptos do Malmö trataram a Taça Intercontinental como uma competição amigável, no primeiro na Suécia apenas estavam nas bancadas pouco mais de quatro mil adeptos. Os vencedores do “Mundial de 1979” foram os paraguaios do Olimpia com vitórias em ambos os jogos.


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