Club Sport Marítimo: a história na Madeira e Portugal do início do séc. XX


Club Sport Marítimo: a história na Madeira e Portugal do início do séc. XX

Um dos emblemas mais icónicos do futebol português volta a celebrar mais um ano de aniversário. O Club Sport Marítimo e a sua História ligada ao início do futebol em Portugal

O INÍCIO DO FUTEBOL PORTUGUÊS LIGADO À MADEIRA

As origens do futebol em Portugal estão umbilicalmente ligadas à ilha da Madeira, está devidamente documentado que o primeiro jogo de futebol disputado no território português ocorreu em 1875 no Largo da Achada, situado na Camacha – zona sul da Ilha.

As explicações para que este pioneirismo encontram-se na história política portuguesa, o arquipélago da Madeira, situado a meros 600 km da costa africana e 1000 km da plataforma continental portuguesa, sempre foi uma importante base para o regime colonial português. E Portugal, a nível da sua política externa, sempre seguiu a máxima de se aliar à maior potência naval, dada a sua incapacidade de defender a sua extensa área marítima.

O seu primeiro aliado foi o Reino Unido – durante aquele período que Hobsbawm define como a “Era do Império” (1875-1914), ou como é conhecido na historiografia mundial Pax Britaninca -, pelo que se seguiram os Estados Unidos – aqui na fase em que o Reino Unido com o desgaste de duas grandes guerras perdeu a hegemonia dos mares.

Para período de fundação do Club Sport Marítimo interessa-nos a fase pré-Primeira Guerra. Estando Portugal aliado ao Reino Unido, para quem o domínio do atlântico era essencial para a boa fluência dos seus “negócios”, a Ilha da Madeira constituía um verdadeiro entreposto comercial e de abastecimento da sua frota – para além de se encontrar muito perto do Marrocos Francês, zona potencialmente conflituosa, pois era altamente cobiçado por todas as potências imperiais europeias. Desde o século XIX, que podemos verificar na ilha da Madeira a presença de uma comunidade britânica pujante economicamente e socialmente.

E o “responsável” por esse primeiro jogo foi Harry Hinton, filho de dois ingleses radicados no Funchal (William Hinton e Mary Wallas). Harry nasceu no Funchal em 1859 e deslocou-se para Londres para estudar, porém regressava à ilha para passar as suas férias de verão. Seria, precisamente, numa dessas férias que trouxe uma bola de Futebol para alegria de todos, espalhando uma febre que se difundiu de forma muito rápida por toda a Ilha e, principalmente, pela enorme comunidade inglesa que por lá se encontrava fixada.

Surgiram, imediatamente, equipas de futebol formadas pela comunidade inglesa que disputavam jogos contra as tripulações navios mercantes – ou de guerra – que pelo porto do Funchal paravam. Ao mesmo tempo, as classes populares que residiam e viviam de trabalhos da zona portuária do Funchal assistiam atentamente e com entusiasmo aos jogos e, em breve, formariam a sua própria equipa – o Club Sport Marítimo.

Aponta-se a data de fundação do Marítimo como 20 de Setembro de 1910, porém já havia registos de uma equipa a se apresentar com o nome de Marítimo antes desta data, que disputava jogos contra a comunidade inglesa ou as tripulações dos navios que pelo porto do Funchal atracavam. Segundo o historiador madeirense Deodato Rodrigues, “a 27 de Agosto de 1910 aparece a organizar e a vencer um match de foot-ball com uma equipa do republicano cruzador português Adamastor, que a 5 de Outubro seguinte haveria de bombardear o palácio das Necessidades, em Lisboa”.

A história e nomenclatura do Marítimo ainda encontra explicações na história política portuguesa e da Madeira. A fundação do Marítimo encontra a sua base sociológica nas camadas proletárias da ilha que viviam quer de atividades piscatórias, quer portuárias. Sendo o seu grupo fundador constituído por membros do sindicatos dos trabalhadores do porto do Funchal, daí a escolha do nome “Marítimo”. A escolha das cores verde e vermelho simbolizavam o “Progresso” e “Bem-Estar”, tal como na bandeira republicana portuguesa. O Marítimo encontrava-se envolto pelos ideais republicanos que viriam a se implantar a 5 de Outubro de 1910.

Os seus primeiros jogos foram disputados no “Campo da Almirante Reis”, no coração da zona mais popular do Funchal, que atualmente é designada como “Zona Velha”.

Os “Leões da Almirante Reis” conquistaram o seu primeiro e único titulo no ano de 1926, “Barrinhas” era o capitão e “Zé Pequeno” era a estrela da equipa, sendo, inclusivamente, o primeiro madeirense a jogar na seleção nacional (ambos foram jogadores de um clube só)

Mas o ano de 1931 marcaria de forma indelével a situação política e futebolística madeirense.

Notícia da final. (Foto: Arquivo)

A MUDANÇA DE 31… ATÉ O FINAL DO SÉCULO XX

No ano em que o Club Sport Maritimo se torna Campeão Nacional (1926), inicia-se em Portugal um golpe militar que colocava termo à recém formada Primeira República Portuguesa, com o intuito de instaurar uma Ditadura Militar – que mais tarde, com a constituição de 1933 se tornaria no Estado Novo de Oliveira Salazar (1933-1974).

Mas, tal como em todo mundo, a crise de 1929 sentir-se-ia de uma forma generalizada em toda a sociedade. A população da ilha da Madeira decidiu protestar contra o desemprego galopante e a fome, saindo às ruas no dia 29 de Janeiro de 1931 – num episódio que ficou conhecido como a “Revolta da Farinha”. Os estivadores do porto do Funchal juntam-se à revolta e o clima sobe de tensão. Como consequência, o regime militar deporta civis e militares revoltosos para estabelecimentos prisionais nas colónias portuguesas.

Apesar da dura repressão a esta revolta popular, poucos meses depois – mais precisamente a 4 de Abril de 1931 – começa a revolta da Madeira. Militares e civis deportados de Portugal continental encontravam-se na Ilha da Madeira presos, onde em conjunto com a população madeirense iniciam uma revolta contra o regime político militar. Durante alguns momentos, conseguem instaurar a República da Atlântida, que acaba em 20 de Abril de 1931 com a chegada de tropas de elite vindas de Lisboa para tomar o controlo da ilha.

Entre as deportações e prisões, uma das formas que o regime militar encontrou de punir a população madeirense foi a restrição das deslocações desta ao Continente – viagem já por si difícil na altura. Ao mesmo tempo, afastou as equipas da Madeira na nova competição formada em 1934, o Campeonato da I Liga. As equipas da Madeira foram obrigadas a disputar o Campeonato da Madeira – organizado entre as equipas da ilha – até 1974.

Em 1977, já na democracia, o Marítimo tornaria-se na primeira equipa das Ilhas a regressar à primeira liga, superando um afastamento de 46 anos.

Numa tarde de festa na Ilha, a 15 de Maio de 1977, o Marítimo carimba o passaporte de entrada com uma vitória por 4 bolas a 0 frente ao Olhanense.

41 anos depois, o “campeão das ilhas” (único campeão insular português) ainda segue no mais alto escalão do futebol português, apresentado sempre como um forte candidato à conquista dos “lugares Europeus”.

O festejo do regresso à Primeira Liga (Foto: Arquivo)

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