23 Mai, 2018

Valeriy Lobanovskiy: O Cientista do Futebol

Francisco da SilvaOutubro 6, 20177min0

Valeriy Lobanovskiy: O Cientista do Futebol

Francisco da SilvaOutubro 6, 20177min0
O homem que uniu o futebol e a ciência construiu um legado imenso na União Soviética e para o Mundo. Conheça com o Fair Play o melhor treinador soviético de todos os tempos, Valeriy Lobanovskiy.

O Fair Play lança hoje uma nova rubrica denominada “Futebol Científico” que pretende mostrar a ligação do futebol a diversas áreas como a ciência, a economia, a política ou a geografia. No primeiro artigo desta rubrica, vamos contar a história de uma lenda soviética que revolucionou o mundo do futebol com a sua abordagem empírica e metódica, Valeriy Lobanovskiy.


No tempo em que a industrialização e o progresso científico entusiasmavam toda uma união tão vasta como heterogénea, nascia em Janeiro de 1939 na cidade de Kiev, então União Soviética, Valeriy Lobanovskiy. O seu primeiro e grande amor foi o Dínamo, clube onde viria a iniciar a sua carreira como futebolística com cerca de 20 anos. Ao serviço do Dínamo de Kiev, o extremo esquerdo Lobanovskiy impressionou pela estampa física (187 centímetros de altura), capacidade de drible estonteante, execução de bolas paradas teleguiada e precisão de remate cirúrgica.

Rezavam as crónicas que já na época o jovem Valeriy Lobanovskiy usava fórmulas da Física e cálculos matemáticos para aperfeiçoar o seu remate de “folha seca” e a sua execução de cantos ofensivos. Durante 7 longos anos em Kiev, Lobanovskiy conquistou o título de campeão da União Soviética (1961) e conviveu conturbadamente de perto com o técnico Victor Maslov, comummente apontado como o inventor do esquema tático 4-4-2 e da pressão alta. Seguiram duas aventuras amargas em Odessa e Donetsk.

Depois de pendurar as botas com apenas 29 anos, Lobanovskiy assumiu o comando técnico do modesto Dnipro, na altura perdido nas divisões secundárias da profunda União Soviética. O desejo de construir uma equipa capaz de chegar à principal liga soviética, levou-o a conhecer e a convidar para a sua equipa técnica Anatoly Zelentsov, professor da Universidade de Dnipro que argumentava ser capaz de melhorar a performance dos jogadores através da análise do seu desempenho.

Zelentsov propunha analisar com o recurso a um computador a velocidade de cada jogador, o tempo que os jogadores passavam em determinadas zonas do terreno de jogo, a forma como estes trabalhavam com e sem bola, bem como, a maneira como os jogadores se relacionavam e apoiavam em campo. À mestria e inteligência futebolística de Lobanovskiy, associava-se o brilhantismo estatístico e empírico de Zelentsov, nascendo assim o “Futebol Científico”.

Valeriy Lobanovskiy ao serviço do Dínamo de Kiev | Fonte: football-pitch.ru

 A Ciência do Futebol

O fundamentalismo de Valeriy Lobanovskiy convencionava que o jogo de futebol era constituído por 2 subsistemas (equipas) de 11 elementos que interagiam entre si numa área definida (terreno de jogo) e que estavam sujeitos a uma série de restrições (leis do jogo). Assim, se os dois subsistemas fossem iguais, o resultado provável era o empate, caso contrário, venceria o subsistema mais forte.

Fortemente influenciado pelo seu ex-técnico Viktor Maslov, Lobanovskiy argumentava que o que mais interessava no futebol não era a individualidade de um jogador mas a forma como este se ligava e relacionava com os restantes, ou seja, o sucesso de um subsistema (equipa) era determinada pela sua eficiência como um todo e não pela eficiência individual de cada um dos seus elementos (jogadores). Em suma, o futebol era também ele uma metáfora da quimera comunista onde a dinâmica coletiva era reflexo de todo o esforço individual e altruísta em prol da comuna.

Para colocar a sua ideia de jogo em prática, Valeriy Lobanovskiy desenvolveu conjuntamente com Anatoly Zelentsov todo um programa de dados meticuloso, imutável e revolucionário. Cada jogador via as suas capacidades inatas avaliadas ao detalhe em testes, resultados e medições com o intuito de perceber como cada futebolista reagiria ao treino físico, tático e psicológico. O objetivo era formar uma equipa invencível altamente preparada física e psicologicamente para não errar. Para tal, a preparação das equipas de Lobanovskiy compreendia 3 níveis:

Nível 1: Sessão individual de treino técnico para que os seus jogadores compreendessem na íntegra o seu papel e as tarefas que teriam de desempenhar durante o encontro;

Nível 2: Sessão específica de táticas e tarefas a executar de acordo com o adversário que a sua equipa iria defrontar, com o intuito de explorar as debilidades dos seus oponentes;

Nível 3: Cada competição tinha a sua própria estratégia, isto é, uma vez que seria impossível manter o nível máximo de execução do plano de jogo em todos os encontros, cada partida era colocada no devido contexto seguindo uma abordagem pragmática. Por exemplo, empatar em casa de um grande rival podia ser visto como um resultado positivo.

Na matriz de Lobanovskiy não havia espaço para a criatividade ou improvisação. Tudo era mecanicamente planeado e colocado em prática de forma impreterível. Durante 90 minutos, cada jogador sabia onde teria que estar e onde estaria cada um dos seus companheiros de equipa a cada momento do jogo, cada movimento ou jogada estava previamente ensaiada até à exaustão. Os “artistas da bola” tornaram-se “carregadores de piano” e ascenderam ao Olimpo soviético.

Valeriy Lobanovskiy a receber o seu 1º troféu no comando do Dínamo de Kiev | Fonte: football-pitch.ru

O Olimpo Soviético

Ao longo de 4 temporadas ao serviço do Dnipro, Valeriy Lobanovskiy catapultou e consolidou o modesto emblema na principal liga soviética, ganhando assim o passaporte para assumir o comando técnico do clube do seu coração. Entre 1973 e 2002, o técnico soviético esteve 18 anos em Kiev, deixando um ligado ímpar no seu Dínamo. Para além do estilo de jogo inconfundível, Valeriy Lobanovskiy somou ao seu currículo 13 ligas ucranianas/soviéticas, 9 taças da Ucrânia/União Soviética, 2 Taças das Taças e 1 Supertaça Europeia. Ao todo foram 31 títulos conquistados pelo lendário soviético em Kiev.

Para a história ficaria o facto de ter sido o primeiro homem a levar um clube soviético à conquista de uma competição europeia, mais concretamente, 1 Taça das Taças em 1975. Difícil de não mencionar é ainda a conquista da Supertaça Europeia por parte do Dínamo de Kiev frente ao poderoso Bayern de Beckenbauer também em 1975. A mestria de Valeriy Lobanovskiy revelou-se também ao serviço da sua pátria, primeiramente com a conquista da medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976 e, posteriormente, ao levar a União Soviética até ao 2º lugar no Europeu de 1988, apenas superada pela “Laranja Mecânica” de Rinus Michels que contava com Van Basten, Gullit, Koeman e Rijkaard.

O percurso vitorioso e a construção deste monumental mito só foi possível devido à forte personalidade de Lobanovskiy. Frio, disciplinador, cerebral, metódico, pragmático. O mestre de Kiev nunca abdicou da sua identidade futebolística, tão detalhada e minuciosa como a obra-prima de um artesão, tão mágica e intemporal como a curiosidade da existência humana. Valeriy Lobanovskiy, que desapareceu do mundo dos vivos em 2002, é hoje recordado como um dos maiores treinadores do Século XX, um profundo sábio do Desporto Rei que ligou o Futebol às folhas de cálculo, aos blocos de notas, às análises métricas e às leis da física, esbatendo cortinas de ferros e fronteiras que nem a política ousou quebrar.

Valeriy Lobanovskiy,o eterno cientista do Futebol | Fonte: zerozero.pt


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