Um Manchester United nem de corpo nem de alma

Francisco IsaacJaneiro 11, 20265min0

Um Manchester United nem de corpo nem de alma

Francisco IsaacJaneiro 11, 20265min0
Com a saída de Ruben Amorim, o Manchester United atingiu o número redondo de 11 treinadores em 13 anos e Francisco Isaac analisa a situação

11 treinadores. Este é o pecúlio do Manchester United desde a saída de Alex Ferguson após a conclusão da Premier League de 2012/2013, e que nos próximos meses passará à dúzia quando o emblema de Manchester anunciar novo treinador principal que vai pegar numa equipa cada vez mais pobre, desfeita e longe da época dourada que o clube viveu entre os anos 80 e inícios da segunda década do novo milénio.

Os Glazer entraram e o clube devagar devagarinho desceu ao ‘inferno’ de não conquistar Premier Leagues e só de ter contestado o 1º lugar por duas vezes nos últimos 13 anos, num cenário dantesco e completamente contrário ao que foi a realidade do clube quando Ferguson estava no comando,

A família Glazer adquiriu o clube em 2005, e apesar de até ter começado com o pé direito, no espaço de seis anos começou a colecionar erros de casting, optando por dar o lugar de director técnico a indivíduos não preparados para o cargo e a desinvestir na academia ou no própria estrutura sénior. Contudo, o insucesso dentro de campo não desvalorizou a marca Manchester United, que continua avaliada nos 6 biliões de dólares, com o sector comercial a levar a maior fatia neste índice da valorização (2,26 biliões de acordo com a Forbes). Porém isto pouco alimenta o público que apoia os Red Devils, pois esses querem, mais que tudo, títulos, bom futebol e crença que o seu clube de coração consiga desafiar os seus rivais do City, Arsenal, Liverpool e Chelsea na luta pelo poderio do futebol inglês.

Não querendo falar em nomes de jogadores, a verdade é que a larga maioria dos treinadores queixou-se do mesmo: que não tinham palavra e voz na hora de contratar atletas ou, pelo menos na maioria das contratações. Ou seja, Ed Woodward e Jason Wilcox, o passado e presente da direção para o futebol do clube, eram júri, juiz e carrasco no que toca a chegadas e saídas, com os treinadores a inicialmente a participarem das discussões para no final serem colocados de lado e num canto.

E o que isto resultou? Numa roda-viva de treinadores que chegaram e saíram. David Moyes chegou… e partiu. Van Gaal aguentou duas temporadas… e partiu. Mourinho idem. Solskjaer conseguiu enganar bem o público, fazendo uso da sua imagem mítica enquanto jogador do United mas acabou empurrado para fora. Ten Hag e Amorim foram os seguintes, adicionando a estes nomes todos os treinadores interinos como Giggs, Carrick, Rangnick, van Nistelrooy e, agora, Darren Fletcher.

José Mourinho, que na altura foi extremamente criticado pela forma como saiu do United e especialmente pelas críticas que fez tanto ao plantel, estrutura e posicionamento da direção, acertou na muche, com as várias conferências de imprensa de entre 2016 e 2018 a terem feito todo o sentido – curiosamente, e para os mal dizentes, foi o melhor período do clube nos últimos 13 anos, com uma Liga Europa, Taça da Liga Inglesa e Supertaça, para além de um 2º lugar na Premier League.

Ruben Amorim na conferência de imprensa que assinou a sua saída do clube, disse que não veio para o clube ser só um ‘treinador’ mas sim ‘manager’, querendo isto dizer que o treinador português sentia que não era ouvido e respeitado pela direção que gere o clube. Wicox foi e é um dos principais problemas do United (o treinador tem uma boa parte da responsabilidade na triste posição do final da temporada passada), um problema escolhido a dedo pelo CEO Jim Ratcliffe, que, depois de viver uns tempos como o ‘messias’, agora é apelidado de monstro e palhaço por antigos jogadores e adeptos.

A chegada do brexiteer Jim Ratcliffe trouxe exactamente o que o Brexit oferceu ao Reino Unido: uma mão cheia de nada, mundos e fundos falsos e um aumentar de problemas. O bilionário britânico juntou-se aos Glazer inicialmente numa tentativa de guiar o clube de volta à glória, anunciando na altura que iria fazer guerra à forma como o clube tinha sido gerido até à sua chegada, para agora ser uma das caras do fracasso total, estando cada vez mais longe dos holofotes de modo a não se expor em demasia.

O United que fez tremer a Europa e o Mundo, que dominou a Premier League e que lançou alguns dos melhores jogadores de todos-os-tempos é agora uma simples casca do que foi, com os proprietários a fazerem essa carcaça rodopiar e dançar ao seu som, espremendo o que podem e deixando os adeptos sem nada. Isto não tem a ver com o futebol moderno ou a profissionalização, tem a ver com a formo como a grande parte dos bilionários não querem saber de nada nem ninguém, olhando para clubes como o Manchester United como um brinquedo que tem o seu valor no que toca à imagem comercial e marketing. Enquanto alguns clubes desaparecem da existência – o caso do Bordéus por exemplo -, outros como o United são quase obrigados a se humilhar publicamente ano após ano, sem que o fim esteja à vista.


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