Um belo filme de terror: Julen Lopetegui no Real Madrid

Bruno DiasNovembro 2, 20189min0

Um belo filme de terror: Julen Lopetegui no Real Madrid

Bruno DiasNovembro 2, 20189min0
O Real Madrid contratou Julen Lopetegui para comandar a equipa no Verão, mas cedo se arrependeu. Vamos perceber melhor o “making of” deste autêntico filme de terror, com o técnico espanhol como protagonista.

Chegou ao fim, esta semana, o percurso de Julen Lopetegui como treinador do Real Madrid. O técnico espanhol – tão bem conhecido dos portugueses pela sua passagem pelo FC Portonão resistiu a uma autêntica humilhação no “El Clásico” em Camp Nou (derrota por 5-1), e Florentino Pérez avançou já para a sua demissão e consequente procura de um novo técnico sendo que, para já, é Santiago Solari, ex-jogador dos “merengues” e que até agora comandava a equipa B – num percurso semelhante ao de Zinedine Zidane – que orientará a equipa principal.

Comecemos… pelo início. Finais de Maio. O Real Madrid tinha vencido, há poucos dias, a sua terceira Champions League consecutiva. Um feito inédito neste formato da competição.

O “timoneiro” era o francês Zinedine Zidane, que provava assim ser tão bem sucedido enquanto treinador, como foi igualmente enquanto jogador. No entanto, Zidane provocou um choque geral no mundo futebolístico quando, inesperadamente, anunciou a sua saída do clube. Saía assim pela porta grande do Santiago Bernabéu, com 3 Champions League em 3 temporadas.

Após o choque inicial, muitos foram os nomes que imediatamente surgiram para lhe suceder. Uma herança pesadíssima esperava o escolhido por Florentino Pérez. A escolha recaiu então em Julen Lopetegui, que à data era o seleccionador espanhol.

Dada a urgência em acalmar as hostes e começar a preparação da próxima temporada, Florentino queria Lopetegui no imediato. Todas estas negociações surgiram na imprensa, e Lopetegui acabou mesmo por ser despedido pelo presidente da federação espanhola, no dia anterior (!) ao primeiro jogo da selecção espanhola no Mundial, precisamente contra Portugal.

Começava assim o “reinado” de Lopetegui em Madrid.

A saída do pilar, e o desabamento que se seguiu

De imediato, mil questões se levantaram. Como jogaria o Real com Lopetegui? Manteria o estilo camaleônico e adaptativo que Zidane celebrizou nas fases decisivas da Champions League, ou passaria a ser uma equipa com uma identidade muito própria e bem definida? Como se daria Lopetegui com a gestão de um grupo extremamente complexo do ponto de vista das relações inter-pessoais? Como potenciaria Cristiano Ronaldo?

E eis que, não muito tempo depois de Lopetegui assumir o comando da equipa, outra “bomba” surgia: Ronaldo estava insatisfeito com a contínua falta de reconhecimento do clube (e, mais especificamente, de Florentino Pérez, tal como afirmou recentemente numa entrevista) e dizia “basta!” de uma vez por todas, ao requisitar a saída do clube.

Para Itália rumou então o “game changer” dos “merengues”, para alinhar pela Juventus, que pagou cerca de 100 milhões de euros pela sua contratação. A “vecchia signora” ganhou um craque planetário, mesmo aos 33 anos, e o Real Madrid perdeu o seu “abono de família”, o seu goleador prolífico de uma década e, discutivelmente, o melhor jogador da sua história.

Com Ronaldo, saiu muito do que tornava o Real de Zidane extremamente eficiente. A equipa perdeu uma estratosférica capacidade de finalização (sobretudo em termos de eficácia), perdeu objectividade e perdeu alguém que, apenas pela sua presença em campo, atraía grande atenção dos adversários em termos defensivos e libertava, muitas vezes, os seus colegas com a sua inteligência na movimentação, especialmente na área e nos terrenos mais próximos da baliza adversária.

Não saberemos nunca qual seria a ideia de Lopetegui para Ronaldo, dentro daquilo que são as suas ideias. Mas a verdade é que aquilo a que se assistiu depois (nas últimas semanas) foi um descalabro de grandes proporções. Tal como havia acontecido no FC Porto, o Real passou a procurar dominar o jogo através da posse de bola, baixando o ritmo das partidas e jogando, principalmente, em organização ofensiva e no meio-campo adversário.

No entanto, rapidamente se percebeu que isso seria receita para o desastre. A equipa jogava a toda a largura do campo, e a capacidade de associação entre jogadores – aspecto-chave para a forma como o Real de Zidane controlava os jogos depois de estar em vantagem – desapareceu por completo, deixando as individualidades expostas a boas organizações defensivas adversárias.

As perdas de bola sucederam-se, e os contra-ataques adversários feriram de morte, numa percentagem muito significativa, a defensiva “blanca”. Defensiva essa que sempre se apresentou como o “calcanhar de Aquiles”, e que com Lopetegui atingiu  novos níveis

Também o ritmo lento das equipas de Lopetegui prejudicou imenso as suas maiores referências. O Real transformou-se numa equipa inconsequente e que apresenta dificuldades para criar oportunidades de golo em volume e qualidade suficientes para uma equipa da sua dimensão. O perigo do Real de Lopetegui chegou, quase sempre, através de rasgos individuais ou de combinações pelas laterais, através das incursões dos laterais, mas que normalmente resultavam em cruzamentos para a área, em situações pouco vantajosas para a finalização. Mesmo na construção, o que se viu foi uma equipa perdida, sem ideias, sem padrões bem definidos, e muitas equipas aproveitaram isso para retirar a bola ao Real e conseguir, inclusive, controlar e manipular o jogo da forma que pretendiam.

Um autêntico filme de terror, que rapidamente se percebeu ser sustentável por muito pouco tempo.

Cristiano Ronaldo brilha agora em Itália, com a camisola da Juventus (Foto: acritica.com)

O que sobra?

A saída de Ronaldo trouxe danos irreparáveis à estrutura da equipa. Tal como Pep Guardiola afirmou há alguns dias atrás, o Real perdeu 50/60 golos por época com a saída do português, e perdeu também um jogador “insubstituível”. Mesmo aos 33 anos e a caminhar para o final da sua carreira (sendo que, no entanto, o português não dá sinais de abrandar no seu extraordinário rendimento), Ronaldo era a estrela maior do Real Madrid e um fenómeno em torno do qual a equipa espanhola construiu todo o sucesso que atingiu na última década.

No entanto, o Real Madrid continua a ser um colosso europeu, um clube com recursos praticamente inesgotáveis e que conta, nos seus quadros, com uma qualidade individual ao nível dos melhores clubes do mundo.

Para além de inúmeros jogadores consagrados e que já venceram tudo o que há para vencer no futebol, os “merengues” têm procurado recolher, nas últimas épocas, um conjunto de jovens talentos que apresentam talento e potencial para estarem no top mundial a curto/médio-prazo, com destaque aqui para o espanhol Marco Asensio (que, de certa forma, já pertence a essa categoria) e para a jovem estrela brasileira Vinícius Júnior que, a espaços, foi já lançada por Lopetegui na equipa principal.

Também pelo nível individual reconhecido ao plantel, de resto, o trabalho de Lopetegui se revelou lastimável, pela forma como não só não conseguiu maximizar o potencial de muitos atletas (a excepção será, talvez, Karim Benzema que, com a saída de Ronaldo, recuperou preponderância na manobra ofensiva da equipa), como inclusive limitou e denegriu a noção que os adeptos possuem da qualidade individual dos mesmos.

Isco – que terá sido, provavelmente, a peça-chave do início da formação do imparável Real de Zidane – transformou-se num criativo sem grande peso na criação da equipa, pela forma como muitas vezes se encontra longe do centro do jogo, recebendo a bola afastado dos seus colegas de equipa. Toni Kroos tornou-se inconsequente nas suas acções. Luka Modric, recentemente eleito melhor jogador do mundo neste ano (numa atribuição, no mínimo, discutível), não demonstra a mesma capacidade de impactar e dinamizar o jogo de antes, ele que sempre se destacou por ser um médio de altíssimo nível em todos os momentos do jogo.

Na defesa, Sergio Ramos e Raphael Varane estão, provavelmente, a realizar o pior início de época dos últimos anos das suas carreiras, com sucessivos erros individuais e exibições de muito baixo nível. E no ataque, Gareth Bale parece não conseguir sequer chegar perto do nível necessário para que possa tentar fazer esquecer Ronaldo, aos olhos dos adeptos no Santiago Bernabéu.

Sobra Marcelo, que será talvez a excepção que confirma a regra destes meses horrendos de Lopetegui. O lateral brasileiro é cada vez mais preponderante no processo ofensivo da equipa e, aos 30 anos, parece não parar de evoluir e de subir o seu nível qualitativo. Conta já com 3 golos em 10 jogos nesta temporada, tem realizado exibições de grande nível – tanto ofensivas como defensivas – e tem assumido, cada vez mais, o papel de líder da formação “blanca”, brilhando nos jogos de maior importância. Um atacante em pele de defesa, que constrói um legado cada vez maior no futebol mundial.

Apesar da La Liga se encontrar ainda no seu início, o Real Madrid conta já com um atraso considerável na sua luta de sempre, pelo título de campeão. Existirá ainda possibilidade de recuperação, ou estará a época condenada ao fracasso? Este é apenas mais um motivo de interesse de uma liga que tem tido doses industriais de emoção e imprevisibilidade.

Marcelo é um dos símbolos do Real Madrid na última década (Foto: fourfourtwo.com)

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