Sevilha, capital do bom futebol

Bruno DiasAgosto 27, 201817min0

Sevilha, capital do bom futebol

Bruno DiasAgosto 27, 201817min0
Por estes dias Sevilha é o palco ideal para assistir a duas grandes equipas a jogar futebol seja o Bétis de Sétien ou o Sevilla de Machín. O que há para saber sobre os dois?

Sevilha é, esta época, uma das capitais do bom futebol na Europa. Ponto de referência de duas excelentes equipas, comandadas por dois dos mais interessantes e competentes treinadores espanhóis da actualidade. Vamos conhecê-las um pouco melhor.

Pela primeira vez nos últimos anos, Sevilha terá não uma, mas duas das melhores equipas espanholas. Real Betis e Sevilla apresentam esta temporada projectos desportivos sólidos, bem comandados por dois entusiasmantes treinadores. Quique Sétien (primeiro no Las Palmas e depois já no Betis, na época transacta) e Pablo Machín (no Girona) são dois técnicos espanhóis com provas dadas numa das principais ligas do planeta, e os clubes de Sevilha tudo têm feito para lhes proporcionar todos os recursos necessários para que possam voltar a fazer as suas respectivas equipas brilhar pela positiva.

Ambas as formações se reforçaram convictamente e em todos os sectores com jogadores de craveira internacional e de grande qualidade e potencial. Ao Betis chegaram talentos como o ex-Sporting e internacional português William Carvalho – que trocou o clube de Alvalade por uma outra camisola verde e branca -, mas também elementos de capacidade inquestionável como Sergio Canales (ex-Real Sociedad) ou Takashi Inui (ex-Eibar). Já no plantel “rojiblanco” entraram jogadores como André Silva – também ele internacional português e que chega agora à La Liga, depois de uma passagem algo fracassada por Itália, ao serviço do AC Milan -, Ibrahim Amadou (médio defensivo francês, ex-Lille) ou Aleix Vidal, que assim regressa à casa de onde partiu em 2015 rumo ao Barcelona. Plantéis apetrechados e que vão de encontro às ambições europeias que ambos os emblemas assumem sem receio.

O Sevilla de Machín

Depois de uma temporada de alguma desilusão (7º lugar, com 58 pontos, atrás do rival Betis), tendo em conta o sucesso conseguido num passado recente (3 Ligas Europa conquistadas com Unai Emery e um 4º lugar conquistado através de um futebol altamente espectacular, com Jorge Sampaoli), Pablo Machín foi o escolhido pela direcção do Sevilla para devolver a qualidade de jogo e os bons resultados ao clube. Uma escolha justificada pela prestação obtida ao comando do Girona, que Machín conduziu ao 10º lugar na liga, com 51 pontos.

No Girona, Pablo Machín dispunha a equipa no mesmo 3x4x3 em que o Sevilla tem jogado neste início de temporada, quer na Liga Europa, quer no campeonato. No entanto, tendo no Sevilla maior qualidade individual, notam-se já algumas diferenças ao nível do perfil dos jogadores em algumas posições, dos seus posicionamentos e até de algumas ideias distintas daquelas que caracterizavam o seu Girona na temporada passada. Os princípios de base de Machín mantêm-se, com a procura pela verticalidade a ser uma constante, bem como a preocupação em fazer a bola chegar o mais rapidamente possível ao último terço do terreno, mas a forma como este Sevilla chega ao ataque é algo distinta da forma como o Girona o fazia na temporada passada.

A saída de bola faz-se entre os 3 centrais, com os alas a darem largura máxima e a abrirem o campo para que existam possibilidades de fazer a bola entrar nos médios ofensivos, que jogam por dentro e procuram agressivamente o espaço entre linhas. As variações de flanco são frequentes, seja circulando por fora do bloco adversário ou recorrendo à qualidade e visão de jogo de Éver Banega, que é o médio organizador. Ao seu lado, Roque Mesa é um médio que garante qualidade e fluidez na circulação de bola, bem como segurança na posse, mesmo em espaços curtos.

A resistência à pressão é, de resto, uma característica da maioria dos jogadores sevilhanos. Alternativamente, o Sevilla de Machín troca a saída de bola apoiada por bolas longas na frente, nas costas dos laterais, à procura do avançado que serve de referência para guardar a bola e permitir a subida dos companheiros. Nesse sentido, é importantíssima a chegada de André Silva ao clube, pela inteligência na movimentação e capacidade de associação que oferece ao jogo.

No plano defensivo, é notória uma boa reacção à perda da bola e uma boa organização defensiva, num bloco médio-alto e que permite ao Sevilla condicionar facilmente a saída de bola e o início da construção adversária, recuperando assim várias bolas numa zona bem alta do campo. O Girona de Machín já se caracterizava por ser uma equipa muito bem organizada e compacta do ponto de vista defensivo, concedendo muito pouco espaço entre linhas aos seus adversários, bem como estando sempre em posição de evitar que a bola entrasse na profundidade, nas costas da sua linha defensiva.

Para além disso, uma das marcas de Machín é a flexibilidade táctica, e será talvez esse o principal factor para que o seu Girona conseguisse condicionar seriamente a construção de qualquer equipa, por maior que fosse a sua qualidade individual. Aquilo que se tem visto do Sevilla nestes primeiros jogos dá a entender que essa ideia terá continuidade, mas com um bloco mais subido e com outra agressividade (e consequente exposição e risco) nos momentos imediatamente seguintes à perda da bola.

Individualmente, Machín começou por reformular a defesa. Na baliza, abdicou de Sergio Rico (que saiu para o Fulham) e apostou no checo Tomas Vaclik, titular da selecção e um guardião bastante seguro e lesto na reacção às diversas acções do jogo. Depois, apostou numa linha de 3 centrais, com o dinamarquês Simon Kjaer a comandar o sector no meio.

A seu lado, jogam normalmente Gabriel Mercado e Sergi Gómez, central espanhol de 26 anos que chegou do Celta de Vigo. Nas alas, Jesús Navas (à direita) e Sergio Escudero (à esquerda) têm dominado as opções, e contribuem com largura máxima e um largo manancial de recursos ofensivos, aspectos essenciais na manobra ofensiva do conjunto “rojiblanco”. Há ainda o brasileiro Guilherme Arana para a lateral esquerda, jovem muito talentoso e com uma enorme margem de progressão. No sector intermédio, para além de Banega e Roque Mesa, chegaram também Amadou e Gonalons, dois médios que actuam preferencialmente mais recuados no meio-campo, mas de perfis distintos.

Gonalons equiparar-se-á mais a Roque Mesa na forma como pensa o jogo e faz a equipa “respirar” através do passe, enquanto que Amadou acrescenta a capacidade física e defensiva que N’Zonzi (entretanto transferido para a Roma) garantia anteriormente.

Já no ataque, Machín procura para já, acima de tudo, aproveitar o talento já existente. Em relação à época passada, saiu o argentino Joaquín Correa, mas mantiveram-se nomes como Franco Vázquez, Nolito ou Ben Yedder. Chegou apenas André Silva – que até teve uma estreia de sonho, com um “hattrick” frente ao Rayo Vallecano -, “avançado-alvo” que Machín preconiza para o seu jogo. Existe ainda a possibilidade de chegar um outro reforço para a frente de ataque e os rumores são mais que muitos, mas até à data desta publicação nenhum se concretizou.

No entanto, aqui, há um nome que emerge de forma indiscutível: Pablo Sarabia. O espanhol, de 26 anos, apontou 20 golos e 32 assistências nas duas últimas temporadas ao serviço dos “rojiblancos, e assume cada vez mais o protagonismo nesta formação. Certamente um dos melhores jogadores do campeonato espanhol, pela forma como consegue construir, criar, desequilibrar e ainda finalizar com muita qualidade, sendo simultaneamente um jogador que nunca vira a cara ao capítulo defensivo do jogo. Com Machín, assumirá o papel de principal desequilibrador, partindo de uma ala para jogar no corredor central e no espaço entre linhas, zona do terreno onde atinge a sua maior dimensão, pela forma confortável como consegue guardar a bola e definir com qualidade mesmo nos espaços mais curtos. Do seu rendimento esta temporada, sairá muito do que será o sucesso deste Sevilla.

A fluidez é já bastante agradável, para o tempo de trabalho da equipa. Cada jogador sabe aquilo que tem de fazer em campo, e já se vê uma marca de Machín no futebol da equipa. Um futebol personalizado e que promete ganhar, com toda a justiça, o devido reconhecimento ao longo da temporada.

Pablo Machín promete devolver qualidade ao futebol do Sevilla (Foto: Goal)

O Betis de Sétien

Uma equipa de ideias fixas, princípios imutáveis e espectáculo garantido. É, provavelmente, uma frase que resume e descreve com grande precisão este Betis. Quique Sétien chegou, viu e venceu em Sevilha, e no espaço de uma época transformou os “verdiblancos” numa das mais vibrantes e atractivas equipas espanholas da actualidade, com um futebol emocionante e de qualidade indiscutível, que captou a atenção de adeptos não só em Espanha, mas um pouco por toda a Europa. O 6º lugar da temporada passada foi a melhor classificação do clube em 13 anos, e foi também a primeira vez nos últimos 5 anos em que o Betis terminou o campeonato à frente dos eternos rivais.

Perante estes resultados – aliados à qualidade de jogo apresentada, e que permitiu uma vitória no Santiago Bernabéu, frente ao Real Madrid, e um nulo no recente Wanda Metropolitano, casa do Atlético Madrid, por exemplo -, a direcção do clube sevilhano apostou forte neste mercado, e Sétien tem hoje um plantel claramente à sua medida, em praticamente todas as posições. Ao Betis chegaram 8 contratações, e todas elas prometem ter a sua importância no desenrolar da época. Com o mercado ainda em aberto, é ainda possível que possa chegar mais um médio de características ofensivas, tendo em conta os últimos rumores na comunicação social.

Também a identidade desta equipa transita da temporada passada – ao contrário do que acontece com o Sevilla, por razões óbvias -, e a expectativa é de que Sétien possa continuar a evolução de uma equipa que se destaca pela forma como procura ditar sempre o ritmo a que se joga e as zonas do terreno em que se joga, lutando sempre pelo domínio da posse de bola, independentemente do adversário que defronta.

Sétien acredita que, quanto mais tempo os seus jogadores tiverem a bola nos seus pés, em seu controlo, maior será o comprometimento na altura de trabalhar para a recuperar do adversário. Quanto maior for a felicidade e a confiança dos jogadores, maior será a qualidade que colocam nas suas acções. Quanto mais tempo tiverem a bola em seu poder, maior será a capacidade para escolherem como jogar. Definir a forma como cada jogo é jogado é um dos pilares fundamentais deste Betis.

Tacticamente, o Betis dispõe-se num 3x4x3 na maioria dos momentos do jogo (embora Sétien tenha alguma facilidade em variar o sistema de jogo, podendo por vezes alinhar com uma linha de 4 defesas –  tal como começou por fazer quando chegou ao clube – e procure também adaptar uma ou outra nuance em função do oponente que tem pela frente), com 3 centrais bem abertos na saída de bola para permitir que a bola possa entrar com segurança em qualquer corredor, pelo chão e de forma apoiada.

Os alas (Francis na direita e Junior Firpo na esquerda) encontram-se constantemente bem abertos e projectados, actuando muitas vezes quase como extremos. No miolo, um dos médios (William) permanece mais fixo no corredor central, à frente dos centrais, para servir como referência para a circulação de bola pelos 3 corredores, sempre por fora do bloco. A superior visão de jogo e capacidade de definição do português serão armas que poderão catapultar a construção e criação do Betis para um outro patamar, pela facilidade com que o médio quebra linhas, atrai e movimenta a oposição e liga sectores.

Ao seu lado, joga Andrés Guardado, o dínamo da equipa e o médio mais móvel, que possui liberdade para se mover a toda a largura do campo, sendo fundamental para ajudar a equipa a criar superioridades numéricas nos corredores laterais.

Fundamentais também são os médios ofensivos neste modelo de jogo. Normalmente, Sétien irá alinhar com dois jogadores de perfis claramente distintos, pela variabilidade de opções que essa possibilidade oferece à equipa. De um lado, jogará Sergio Canales, chegado esta época da Real Sociedad. Um magnífico médio que, infelizmente, tem tido uma carreira irregular por conta das várias lesões que já o assolaram. A sua criatividade e visão de jogo em terrenos mais adiantados são uma mais-valia tremenda para uma equipa que, por vezes, denota algumas dificuldades em conseguir “desmontar” adversários que se remetem ao seu próprio meio-campo.

Do outro lado, o titular (ou, pelo menos, o jogador mais utilizado) deverá ser o japonês Takashi Inui. Uma das estrelas da sua selecção no recente Mundial realizado na Rússia, Inui parte tendencialmente da ala esquerda para o meio, procurando regularmente o 1×1 contra o opositor directo e a finalização, normalmente para o canto contrário da baliza. De resto – e aqui em clara semelhança com o Sevilla de Machín – Sétien coloca os seus médios ofensivos em posições interiores, procurando ao máximo que estes consigam explorar o espaço entre linhas da oposição e, dessa forma, desequilibrar a sua organização defensiva e criar condições para que o último passe entre com qualidade em zonas de finalização.

Já na frente de ataque, e apesar das lesões estarem também a atrasar a sua evolução, a aposta deverá recair em Antonio Sanabria, avançado paraguaio de 22 anos que procura esta temporada “explodir” em termos daquilo que é o seu rendimento. Bastante completo, Sanabria é um finalizador nato, que no entanto também possui alguma qualidade na condução, bem como um remate poderoso. Se conseguir manter-se a 100% fisicamente, poderá ser uma das revelações desta equipa e da própria liga, até porque o seu talento permite sonhar com voos ainda mais altos.

No que diz respeito ao plantel em geral, esta é uma temporada de algumas modificações e ajustes. Desde logo, na baliza. Antonio Adán, o dono da baliza nas últimas 4 épocas, saiu para o Atlético Madrid, e para o seu lugar chegaram duas opções: Pau López (ex-Espanyol) e Joel Robles (ex-Everton), ambos espanhóis, sendo que o titular deverá ser o primeiro, sobretudo pela maior margem de progressão e pela superior qualidade na distribuição, aspecto bastante valorizado por Sétien.

Na defesa, o plantel conta com 4 centrais: Marc Bartra, jogador originário da famosa “La Masia” – academia de formação do Barcelona – e esteio da defesa do conjunto sevilhano; Feddal, Aissa Mandi e o recém-chegado Sidnei, brasileiro de 29 anos que já passou pelo Benfica e que promete acrescentar critério na saída de bola. Para a ala direita chegou Antonio Barragán, experiente lateral que vem competir com o “canteranoFrancis. Já do lado esquerdo, saiu o anterior titular, o dinamarquês Riza Durmisi, para a Lazio. Uma saída que, no entanto, pouco será sentida, porque permitiu abrir a porta da equipa ao jogador que merece o maior destaque actual neste conjunto. Júnior Firpo é um lateral espanhol de 22 anos, também ele “canterano”, que começa cada vez mais a ganhar uma dimensão europeia em termos do que é a sua qualidade de jogo.

Uma autêntica locomotiva pelo flanco esquerdo, Júnior combina uma superlativa capacidade atlética e alta propensão ofensiva com uma qualidade técnica e de desequilíbrio que o transformam num elemento diferenciador deste Betis. Sem dúvida, um dos jogadores que mais valerá a pena seguir nesta edição da La Liga.

No centro do terreno, para além dos já referidos William Carvalho e Guardado, há ainda Brasanac, médio sérvio que esteve emprestado ao Leganés em 2017/18, e que pode servir como alternativa mais directa ao português. Como alternativas a Canales e Inui, há Cristian Tello (bem conhecido dos portugueses pela sua passagem pelo Porto) e Ryan Boudebouz, dois jogadores repentinos e de desequilíbrio puro, que podem ter a sua importância em períodos do jogo que peçam um maior número de duelos individuais. Há ainda o mítico capitão Joaquín, actualmente com 37 anos, e que apesar da idade ainda apresenta um nível bastante aceitável. Com o passar dos anos, o fulgor que antes possuía foi dando lugar a um jogador cerebral e extremamente capaz na definição, e são essas características que ainda lhe poderão garantir minutos nas escolhas do treinador.

Já no ataque, Sétien possui 3 opções de qualidade, sendo que cada uma delas pode aportar diferentes aspectos positivos ao colectivo. Para além de Sanabria, já anteriormente mencionado, o Betis tem ainda Loren Morón (que foi promovido por Sétien da equipa B a meio da temporada transacta) e Sergio León, talentoso avançado de 29 anos que já deu provas da sua qualidade na La Liga e que certamente será muito útil ao longo da temporada, tanto a nível interno como nas competições europeias. Golos e, consequentemente, entretenimento serão coisa que não faltará nos jogos do conjunto “verdiblanco”.

O bom futebol regressou a Sevilha. Pela primeira vez nos últimos anos, tanto Betis como Sevilla possuem dois projectos desportivos bastante apelativos e com potencial para resultados muito positivos e espectáculos de grande qualidade. Graças ao trabalho e à qualidade de Sétien, Machín e muitos outros elementos de ambos os clubes, Sevilha volta a ser uma das capitais do bom futebol na Europa.


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