Quatro argentinos em Kiev num ano de má Memória para o país das Pampas

João FreitasSetembro 15, 20194min0

Quatro argentinos em Kiev num ano de má Memória para o país das Pampas

João FreitasSetembro 15, 20194min0
Kiev, Lenin e as lendas Ardiles, Menotti, Gallego e Carrascosa numa história intensa que a Enciclopédia do Desporto em Português foi em busca. Mais uma História do Futebol peculiar!

Vladimir Lenin, César “El Flaco” Menotti, Osvaldo Ardiles, Américo Gallego e Jorge “El Lobo” Carrascosa em Kiev no ano de 1976 – um ano de má memória.

A Argentina realizou a 20 de Março um amistoso frente a URSS, apenas 4 dias depois (24 de Março) a presidente Isabel Perón seria deposta num golpe militar de direita. Entre 1976 e 1983, viveu-se um regime ditatorial militar, que foi denominado pelos próprios militares como “Processo de Reorganização Nacional” – no qual se registaram perseguições, repressão, tortura e assassinato de milhares de sindicalistas, ativistas políticos, trabalhadores e estudantes. Jorge Videla – que desprezava o Futebol – seria o presidente da Argentina entre 1976-1981, liderando o triunvirato que compunha a Junta Militar golpista.

Dos 5 grandes alinhados nesta fotografia, narrarei parte da história de 3: Menotti, Ardiles e de Carrascosa.

Foto: Arquivo Futbol

César Menotti seria o grande timoneiro do Húracan que conquistaria o campeonato metropolitano em 1973 – no qual Carrascosa alinhava como lateral esquerdo – e da seleção Argentina campeã mundial em 1978. Durante a sua juventude, foi militante da Federácion Juvenil Comunista e sempre manteve a sua ligação aos ideais socialistas por toda a sua vida, mesmo durante o período ditatorial.

Ardiles foi “apanhado” pela Guerra das Malvinas (1982) durante o período em que estava ao serviço do Tottenham Hotspurs – inclusivamente, o seu primo (José Ardiles) seria morto em combate. Devido à sua qualidade de jogo, Ardiles conseguiu colocar a torcida dos Spurs a gritar “Argentina! Argentina!”, em plena beligerância entre os dois países. Por conta da pressão sofrida, ele decidiu jogar uma temporada no Paris Saint-Germain (1982/83), tendo regressado aos Spurs e sido jogador chave na conquista da Taça UEFA na época de 1983/84.

Finalmente, falaremos daquele que ficou conhecido por rejeitar jogar na Copa de 1978, Jorge Carrascosa.

Lateral-esquerdo e capitão de equipa do Húracan. Carrascosa era um amigo íntimo de Menotti e já havia sido um dos eleitos para a Copa de 1974 na Alemanha. Aí, “El Lobo” da uma primeira prova do seu enorme caráter. O camisa 7 disputou os minutos finais da derrota frente ao Brasil e foi titular no empate a 1 golo frente a DDR. Porém, para passar a fase seguinte, era necessário que os Albicelestes vencessem o Haiti e a Polónia teria que, obrigatoriamente, vencer a Itália.

Surgiu a ideia de se planear o pagamento de um “prémio” aos poloneses para derrotar os italianos. Mas Carrascosa opôs-se veementemente a tal esquema. El Lobo sempre rejeitou a ideia de que “o importante é vencer a qualquer custo”, nas suas palavras “¿Te parece lindo saber que vas a salir campeón porque el árbitro te va a dar un penal?”.

A sua forma de estar em campo e na vida, a sua entrega, generosidade e princípios, o tornaram o capitão da seleção Argentina nos anos seguintes.

Quando em 1976 se da o golpe militar, Carrascosa (amigo e o homem de confiança de Menotti) já havia cogitado abandonar o futebol, muito por conta da detenção e tortura de Claudio Tamburrini (guarda redes do Almargro) e do “desaparecimento” de Carlos Alberto Rivada do Huracán Tres Arroyos.

No ano de 1978, com todo o desejo de a ditadura capitalizar com um vitoria desportiva nacional, Carrascosa (sempre fiel aos seus ideais) diz não e rejeita participar na competição, apesar de Menotti ter colocado o seu nome na lista enviada à FIFA. Era demasiado integro para receber a taça de campeão das mãos de Videla. Foi a Daniel Passarella que coube essa tarefa. Em 2009, numa entrevista ao NosDigital afirmou que “não podia ir a um Mundial sabendo o que se estava a suceder”.

Termino com mais uma declaração de El Lobo numa entrevista:

“O desporto deve proteger a personalidade de cada ser humano e também servir para que se aprenda a ganhar e a perder. Por que é preciso ganhar sempre? Competir com dignidade e lealdade muitas vezes capitaliza mais na derrota do que no triunfo. Hoje é tudo competição e desafio, seja numa escola ou nas categorias de base”.

Cesar Menotti (Foto: Getty Imaes)

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