Onde Está o Bigode?

Francisco da SilvaAbril 19, 20204min0

Onde Está o Bigode?

Francisco da SilvaAbril 19, 20204min0
Em mais um artigo da rubrica Futebol Popular, o Fair Play debruça-se sobre a história do bigode no futebol português e as suas principais mascotes.

A barba é um dos elementos da personalidade masculina mais enigmáticos e simbólicos, especialmente pela sua enorme capacidade de projetar ideologias políticas, ocultar jogos de poderes e formular preconceitos sociais estratificadores.

De símbolo de riqueza no Egito Antigo, a divisa de sabedoria na Grécia Antiga, a barba foi inclusive utilizada para diferenciar crenças religiosas na Idade Média. Seguiu-se um período conturbado no final do século XIX que quase “extinguiu” a barba na sociedade de então, devido à introdução de regras sanitárias que limitavam a pilosidade facial. Curiosamente, o ressurgimento da barba, em especial do bigode, está intimamente ligado a dois acontecimentos mundiais devastadores e de má memória para a Europa: a I Guerra Mundial e a II Guerra Mundial. Após o primeiro conflito global, o bigode ressuscitou como ícone da liberdade, enquanto que na última grande guerra, o bigode era visto como divisa de bravura e coragem.

O pensamento de Friedrich Nietzsche, a genialidade de Albert Einstein, o delírio de Salvador Dalí, a expressividade de Charlie Chaplin ou a energia de Freddie Mercury foram essenciais para consolidar o bigode como uma extensão da própria personalidade. Assim, a palavra portuguesa “bigode” é claramente insuficiente e demasiado corriqueira para traduzir a riqueza cultural e histórica deste adereço masculino.

No século XX, o reaparecimento das barbas e dos bigodes em Portugal está profundamente conectado com as convicções políticas da época, nomeadamente, com distinção entre monarcas, republicanos e anarquistas, como também ao período após o 25 de Abril onde a barba e o bigode são símbolos incontornáveis de liberdade e irreverência.

O período dourado do bigode na sociedade portuguesa dá-se por excelência na década de 80, num tempo de elevada turbulência social, política e económica, e estende-se até à década de 90, momento a partir do qual a sociedade portuguesa acaba por sofrer uma profunda revolução cultural.

Nos relvados portugueses eram inúmeros os ilustres que se aperaltavam com o bigode perfeitamente aparado como uma extensão da sua própria qualidade futebolística. Manuel Bento, Humberto Coelho, António Veloso, Frasco, Carlos Manuel, Carlos Vermelhinho ou Fernando Chalana acabaram por ser expoentes máximos deste movimento que marcou o futebol da década de 80. O pináculo do bigode lusitano dá-se no Europeu de 1984 realizado em França onde os “Patrícios” comandados por Fernando Cabrita alcançaram as meias-finais da competição, perdendo somente perante a equipa da casa composta por Platini, Tigana, Le Roux, Giresse, Férnandez e companhia. O sucesso desta campanha europeia, 18 longos anos após o Mundial de 1966, catapultou novamente o bigode na sociedade portuguesa até porque uma parte das principais figuras da seleção nacional ostentavam orgulhosos bigodes, entre eles os já citados Bento, Veloso, Frasco, Carlos Manuel, Vermelhinho e Chalana.

Fora das quatro linhas o final da década de 80 pontificou um dos principais impulsionadores do bigode em Portugal, Artur Jorge. O técnico português, campeão europeu pelo FC Porto em 1987 e adepto incondicional de um bigode volumoso, lançou as bases para o ressurgimento de um vasto conjunto de jogadores e técnicos nacionais que utilizaram este adereço masculino como imagem de marca dentro e fora das quatro linhas. Toni, João Alves, António Oliveira, Nelo Vingada e Carlos Queiroz acabam por ser as figuras mais relevantes de uma década de 90 de profunda transformação do futebol português, mas onde o bigode continuou a desempenhar um papel importante na afirmação da personalidade e do estatuto destes elementos.

O início do século XXI foi devastador para a sobrevivência do bigode no futebol português, sendo que a sua extinção tem vindo a ser adiada por alguns técnicos e jogadores mais revivalistas. Manuel Machado, Vítor Oliveira e José Viterbo continuam a não dispensar o tradicional adereço no banco de suplentes, já dentro das quatro linhas, somente alguns “corajosos” como William de Carvalho, Hugo Almeida ou Paulo Machado ousam romper com o status quo da elite futebolística portuguesa.

A riqueza e a simbologia deste adereço masculino não encontra paralelismo no Futebol Popular. A nostalgia dos domingos de futebol, a energia das romarias aos santuários da bola ou o grotesco dos insultos ao homem do apito reporta-nos invariavelmente para uma paisagem revivalista onde pontifica o bigode, na bancada, no terreno de jogo, no banco de suplentes ou inclusivamente na extensão da nossa própria personalidade.


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