O ambiente tóxico do futebol português e as equipas de arbitragem

Ricardo João LopesJaneiro 4, 20265min0

O ambiente tóxico do futebol português e as equipas de arbitragem

Ricardo João LopesJaneiro 4, 20265min0
Ricardo João Lopes toca num tema delicado: as arbitragens e os ataques que têm sido alvos nos últimos tempos em Portugal

A arbitragem transformou-se na protagonista do futebol português das últimas semanas, com as equipas profissionais atentas a todos os lances e aos erros cometidos por quem deve reger o jogo. A Primeira Liga nunca foi uma competição com um ambiente saudável, principalmente pelas tensões entre dirigentes. Contudo, chegámos a um ponto em que será necessária uma mudança drástica e Pedro Proença (e Reinaldo Teixeira) terão que tomar uma decisão, para que se evite uma tragédia.

Desde a final da Taça de Portugal que os protestos passaram a ser semanais, com comunicados de todos os lados, recordando lances de um passado longínquo e outros bem mais recentes. Dirigentes a queixarem-se do mesmo VAR, em situações distintas, como no último Braga x Benfica.

É cada vez mais raro, quando não se trata de uma vitória folgada, uma equipa assumir que o adversário venceu de uma forma justa. Há sempre uma bicada às equipas de arbitragem, que são o elo mais fraco do futebol nacional. Não ganham milhões, não contam com adeptos, praticamente não têm direito a defenderem-se. E a reforma a ser feita teria que começar precisamente nesse ponto.

A Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal têm a oportunidade de serem uma das pioneiras do mundo a realizarem conferências de imprensa com as equipas de arbitragem. Tal como os treinadores têm o direito e dever de explicar as suas opções após as partidas, que podem resultar em sucessos ou fracassos, os árbitros deveriam ser questionados pelas decisões tomadas. Ficaríamos a conhecer o porquê de X e não de Y, sem ter que esperar pelo relatório, que poucos têm paciência para ler. A polémica seria resolvida no dia, quando ainda está quente, evitando desconfianças para as jornadas seguintes. O VAR naturalmente teria que dar explicações, já que continuam a existir lances que são de interpretação, mas que para alguns adeptos são ‘claros como a água’, de acordo com que lhes convém.

Nos últimos dias vários são os dirigentes que se comportam como adeptos, que se julgam donos da verdade e acusam o adversário de sair beneficiado por todo um sistema, mas que já não lhes cabe comentar lances em que o seu emblema alegadamente possa ter sido favorecido.

O que fazer? Castigar dirigentes? Punir árbitros? Não, o que se deve fazer é educar. A arbitragem portuguesa é muito pobre e é verdade que são cometidos erros básicos, mas há treinadores e jogadores que também os cometem. A formação é essencial, o corte de nomes que são insuficientes deve ocorrer. Porém, as autoridades competentes têm que ser mais pró-ativas. A conferência de imprensa do Conselho de Arbitragem foi uma boa medida, mas devia ocorrer em maior número, como uma vez por mês.

Portugal tem que dar voz à Arbitragem e a mesma não se pode esconder, porque tem o dever de ser criticada quando comete erros grosseiros, mas também merece ser elogiada quando se dirige uma partida complexa com qualidade. E isto é raro de acontecer. Só se fala do homem do apito quando o mesmo faz mal o seu trabalho. Já quando o craque da equipa faz uma exibição abaixo do esperado, há apenas uma frase solta a fazer referência a isso, nunca um debate inteiro.

Também se pode optar por contratar árbitros estrangeiros, seguindo exemplos de países que tanto são criticados no Ocidente como a Turquia ou a Arábia Saudita, que muitos consideram como do Terceiro Mundo do Futebol. Nesses contextos, pode fazer sentido. As equipas de arbitragem estão muito pouco desenvolvidas (bem menos que aqui em Portugal) e podem aprender com equipas mais experientes, que já tenham estado em outro tipo de palcos, como um Mundial, um Euro ou uma Champions League.

No contexto nacional, os árbitros exteriores também seriam bem vindos, mas numa perspetiva de lecionar, nunca de entrar dentro das quatro linhas. Possivelmente podia abrir-se uma exceção ao VAR, com elementos a auxiliarem a utilização do sistema, que tem estado sob fogo. Possivelmente haveria menos polémica que se um árbitro inglês (por exemplo) liderasse a equipa composto por portugueses, que absorveriam a sua experiência e as explicações para as decisões tomadas.

O FC Porto está em primeiro e a culpa não é apenas da arbitragem. Tal como o facto do Sporting ocupar o segundo lugar e o Benfica fechar o pódio, a 10 pontos dos nortenhos. A posição de cada um é fruto de vários fatores e colocar as culpas apenas de um lado da balança não é o correto. Há culpa própria nos maus resultados, por muito que se custe assumir, principalmente quando se perde por um golo, ou até mesmo quando se domina o encontro, mas sofre-se um tento no minuto final, fruto de um contra-ataque.

Em Portugal antevê-se o pior. Não há nenhuma reforma à vista, só ruído, sem a apresentação de qualquer tipo de soluções. Já faltou mais para uma desgraça, já que sabemos que todos os clubes têm fanáticos e que os mesmos se tornam perigosos quando o ambiente é tóxico, algo que ocorre neste momento.

Foto de destaque do SC Braga


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