Uma crise à italiana

Pedro SousaSetembro 14, 20185min0

Uma crise à italiana

Pedro SousaSetembro 14, 20185min0
O que se passa com a seleção italiana? Será que vai repetir o falhanço de 2018? Terá jogadores de qualidade para dar um novo rumo à seleção transalpina?

Pedro Sousa é autor do projeto Bola na Relva e colaborador do Fair Play!


As minhas respostas assentam numa lógica. A seleção que conquistou o Mundo em 2006 está a passar por uma crise profunda na formação de jovens jogadores. Faltam Pirlos, Gatussos, Tottis, Del Pieros….

Todos sabemos que o futebol italiano, a nível de clubes, não respira os melhores ares há muitos anos. A chegada de Cristiano Ronaldo veio colocar o futebol transalpino nas bocas do Mundo. Mas o que é que isso contribui, no imediato, para a seleção do país Campeão do Mundo em 2006? Nada. Olhámos para a formação dos grandes clubes de Itália e não vemos jovens jogadores a destacarem-se. Tirando Donnarumma e Federico Chiesa, os italianos não contam com mais nenhum jovem prodígio no seu plantel.

Nestes últimos dois jogos para a Liga das Nações conseguimos ver a falta de qualidade, mais ofensiva, que esta seleção apresenta. Immobile é um bom jogador, mas não chega ao patamar de Totti ou Del Piero. Estou a exagerar na comparação? Não. As seleções de topo mundial têm avançados da mesma qualidade destes dois craques que já penduraram as botas. Mas para alimentar estes jogadores é preciso alguém a fornece-los. Jorginho é craque, mas parece que nesta equipa está muito distante do “ultimo passe”.

Jorginho é uma das esperanças desta nova Itália (Foto: Sporting News)

Verratti ainda não “explodiu”. Cristante, Bonaventura, Lorenzo Pellegrini são bons jogadores, mas não passam disso. Para não ser duro na comparação e não comparar com os campeões do mundo de 2006, estes três jogadores, nem sequer cabiam nos convocados para o Euro 2016.

A reformulação alemã que a Itália precisa

Quem não se lembra do hat-trick de Sérgio Conceição frente à Alemanha no último jogo da fase de grupos do Euro 2000? A seleção germânica saiu nessa fase e iniciou um plano de reformulação do seu futebol. Começou pelos clubes.

A Federação Alemã de Futebol obrigou todos os clubes da primeira divisão e segunda a terem um centro de formação certificado. Isto foi uma medida de sucesso e teve o impacto que todos conhecemos. Para além disso, os clubes foram obrigados a apostar nos jovens que eram formados nessas academias.

Desde a geração de Pirlo que a Itália nunca mais conseguiu sucesso (Foto: Shaka Tribune)

No futebol italiano isso não acontece nos dias de hoje. Podem ter academias de formação, mas será que tem o modelo certo para fazer crescer os jovens italianos? Não parece. Os atletas que saem da formação não apresentam qualidade suficiente para fazer crescer novamente o futebol italiano, o que faz com que os emblemas transalpinos recorram ao estrangeiro para recrutar jogadores.

Esta lei do mercado prejudica, claramente, a seleção de futebol. Por isso, a Federação Italiana de Futebol tem de tomar medidas drásticas para levar, novamente, a sua seleção ao patamar que chegou em 2006. A concorrência está cada vez mais forte e isso faz com que a reformulação seja uma obrigação.

O futebol italiano parou no tempo e tarda em mudar

Ninguém pode culpar os treinadores da Serie A por não apostarem em jovens. Eles lançam novos jogadores? Não. Tem culpa? Também não. As camadas jovens dos clubes pararam no tempo. Já ninguém forma um Totti, um Del Piero, um Maldini, um Nesta e muitos outros. Já ninguém coloca uma equipa cheia de italianos a jogar na Serie A. Preferem investir no “anónimo”.

Um jogador de qualidade duvidosa que chega e começa a ganhar balúrdios. Quem sofre com isso? A seleção italiana. Temos o caso dos grandes de Milão. Inter e AC Milan estão a passar por crise de identidade. O emblema neurazuri, desde de Mourinho, não tem expressão no Calcio e muito menos na Europa.

O seu rival direto já sofre deste mal desde da saída de Pirlo para a Juventus. Esta seca de títulos por parte destes dois clubes levou os presidentes a investirem muito, mas mal. A prioridade deixou de ser apostar no italiano.

Está a Itália pronta para atacar o Euro 2020?

A Liga das Nações é uma prova nova, mas que está a ser muito valorizada pelas federações dos países europeus. A Itália arrancou a competição com um empate em casa frente à Polónia e uma derrota frente a Portugal. Apostar na conquista desta competição parece arriscado. Por isso, como diz o ditado, mais vale dar um passo atrás para dar dois em frente.

Voltarão os italianos ao sucesso de outrora? (Foto: Hindustan Times)

Aproveitar esta prova para criar uma equipa parece ser medida mais correta. Roberto Mancini terá de formar um núcleo duro para atacar a qualificação para o Euro 2020. Não será tarefa fácil, pois falta matéria prima para isso. O futebol italiano tem de refletir e preparar-se para a mudança.

O Euro 2020 pode ser algo muito prematuro e depois destas duas amostras na Liga das Nações, comprova que será muito cedo apontar baterias para 2020. É a Itália? Sim. É um colosso? É. Tem história? Tem. Mas falta-lhe mudar e recuperar a identidade italiana.


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