Itália, Anos de Chumbo e Futebol – Parte I

João FreitasDezembro 26, 20193min0

Itália, Anos de Chumbo e Futebol – Parte I

João FreitasDezembro 26, 20193min0
Os Anos de Chumbo tiveram um impacto sem precedentes em Itália e o futebol não fugiu a esse facto. A explicação do que se tratou este período para o Desporto-Rei em terras transalpinas

Os “Anos de Chumbo” (em italiano “Anni di Piombo”) foi a designação dada pelos Italianos ao período histórico compreendido entre o pós- II Guerra Mundial e o final dos anos 80.

Foi um período marcado por fortes tensões sociais, que deixaram marcas muito vincadas na sociedade italiana – muitas delas visíveis hoje, especialmente no futebol.

Muito se deve à ação da NATO (OTAN), que numa estratégia de contenção – a “Operação Gládio” – de uma potencial invasão soviética na península italiana financiou grupos de extrema-direita, um dos quais um grupo francês que operou por toda a Europa, inclusivamente em Portugal pós-revolução dos cravos, de nome Aginter Press – dirigida por Yves Guérin-Sérac, que lutou na Guerra França-Indochina, na Coreia e na Argélia.

Este período ficou marcado por operações de “bandeira falsa” (fazer atentados culpabilizando o opositor). Grupos neo-fascistas italianos fizeram 3 atentados (Milão 1969, Peteano 1971 e Bolonha 1980) onde morreram vários civis, com o intuito de culpabilizar o Partido Comunista Italiano e grupos de Extrema-Esquerda. Convém recordar que a primeira ação internacional da CIA foi realizada em Itália, aquando da eleição geral de 1948 com a criação de um partido de direita (Democrazia Cristiana) e com o recurso ao assassinato de figuras de esquerda no sul de Itália recorrendo aos serviços da Ndrangheta e Cosa Nostra.

Essas tensões acabariam por chegar ao futebol, em que os adeptos da Lazio foram aqueles em mais visível se tornou. O primeiro grupo conotado com ideologias de extrema direita a surgir entre os laziali foram os Vikings em 1978, mas seria de uma cisão entre membros deste grupo que nasceriam os atuais “donos” da curva norte do Olímpico – os Irrudicibili. Estes grupos tinham ligações umbilicais com os grupos fascistas (especialmente o NAR – Núcleo Armado Revolucionário) que batiam em operários em greve, em políticos de esquerda, jovens estudantes, etc.

Os Irrudicibili sempre se apresentaram como politicamente facistas, no seu reportório musical constam o hino fascista “Giovinezza”, “Faccetta Nera” uma música racista que narra a história da invasão italiana da Etiópia e “Avanti Ragazzi de Buda” que fala do levante contrarrevolucionário feito por fascistas húngaros em 1956. Cruzes celtas, suásticas e outra simbologia fascista fazem parte do seu cenário.

Por forma a combater o aparecimento e o crescente peso de grupos neonazis no futebol italiano, várias claques decidiram juntar-se e formar um grupo alternativo, que será narrado no próximo capítulo…

Foto: RT

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