Sporting CP e Bruno de Carvalho entre a crise e futuro

José DuarteAbril 16, 201811min0

Sporting CP e Bruno de Carvalho entre a crise e futuro

José DuarteAbril 16, 201811min0
Um problema complicado de resolver que parece estar a desaparecer... mas será que ficará tudo bem em Alvalade? Uma reflexão em relação aos problemas do Sporting CP

Assim de repente, sem nada que o fizesse prever ou sem qualquer aviso prévio, o Sporting apressou-se a mergulhar numa crise profunda. Quase tão rapidamente também parece agora que não aconteceu nada, mas aconteceu e só por ingenuidade se poderá pensar que não haverá consequências próximas dos dias que recentemente sacudiram o clube de alto a baixo.

Vive-se um curto período de tréguas, mas é bem claro que o choque institucional entre Marta Soares e Bruno de Carvalho é uma factura com o pagamento ainda em aberto. E falta saber ainda o mais importante: o que pensam os adeptos.

QUEM É O ELO MAIS FRACO?

É muito provável que a corda parta do lado mais fraco que neste caso é Marta Soares. Nunca foi um nome consensual, não tem a popularidade de Bruno Carvalho, não se sabe até que suporte terá dentro do órgão a que preside.

De forma quase irónica poderá sair quando proferiu a sua declaração mais consensual, pelo menos no momento em que foi dita:

“Bruno de Carvalho não tem condições para continuar. Com Bruno de Carvalho não há paz no Sporting!”

Acontece que depois destas declarações, Marta Soares remeteu-se ao silêncio e, sem se saber exactamente que iniciativas possa ter tomado entretanto, sabe-se apenas que terá realizado algumas auscultações de sensibilidades. Manterá a vontade de convocar uma nova assembleia geral?

Da parte do Conselho Directivo foi particularmente notório o silêncio inicial. Nem declarações, nem palavras de circunstância, apenas um silêncio tremendo de quem nada pode fazer, mas percebe a gravidade do ocorrido. Depois o silêncio tornou-se estratégico. Jogava-se com o tempo, esperando que os ânimos esmorecessem e a memória do sucedido se fosse esbatendo, mas sem se notar qualquer estratégia para controlo de danos.

Esse seria feito pelos actores do costume. Os mesmos de sempre, os mesmos nomes, as mesmas ideias, os erros de sempre: os mesmos estafados e já descredibilizados Barrosos, Zeferinos, Pedro Madeira Rodrigues, etc, etc. Naquele momento foram os melhores aliados de Bruno de Carvalho, ao chamar a si o foco das atenções, poupando-o ao fogo em que se consumia cada vez que saía a terreiro a proferir uma declaração pior do que a anterior.

Foram eles a abrir caminho à relativização e à indiferença e ajudaram a transformar Bruno de Carvalho de autor da crise em vitima. No que foram coadjuvados  por uma comunicação social cujo único objectivo, nos infindáveis programas sem grande conteúdo, parecia ficar-se pelo fazer render o triste espectáculo que lhes havia sido servido em bandeja.

A anunciada vontade de convocar nova AG parece ter perdido o interesse para todos os intervenientes. De Marta Soares já falamos. Bruno de Carvalho, pela interposta pessoa do vogal do CD Bruno Mascarenhas, já fez saber que pelo menos a demissão e eleições são cenário que só será colocado se a isso forem obrigados.

Aguarda-se o que pretende fazer para concretizar a ameaça de apear Marta Soares, o que só não acontecerá se for de todo impossível, o que também é fácil de prever. E, ao ao contrário do que é muitas vezes anunciado pela comunicação social e aceite estrategicamente pelo Conselho Directivo, não há uma oposição constituída e com força para desencadear um processo que leve até à convocação de uma assembleia, apenas vozes isoladas e sem grande representatividade colectiva.

Marta Soares (Foto: Lusa)

O Sporting está agora ainda na fase de controlo e contenção de danos. Primeiro foi o abandono do Facebook por parte do presidente, seguido do recuo na intenção de processar disciplinarmente a quase totalidade do plantel.

Mas nem uma nem outra medida parecem ter sido tomadas com grande convicção, como se percebe pelas declarações efectuadas a este propósito pelo próprio Bruno de Carvalho:

“Se o Sporting CP fica mais forte desta forma, seja feita a vontade da maioria. Para mim ficará a missão de gerir o Clube da forma que acham melhor. Erradíssima mas o Clube é vosso.”

Talvez ainda mais sintomático seja o facto de que Bruno de Carvalho não ter percebido as consequências que os seus posts no Facebook estavam a produzir, o que é particularmente notório ao afirmar

“Vamos novamente perder todo o respeito que aos poucos estávamos a ganhar em alguma comunicação social e em muitos Stackholders. Isso vai morrer.”

Ora questão era exactamente a  oposta e de maior gravidade: o problema não estava na ferramenta (o Facebook), mas sim no utilizador. Assim, com ou sem Facebook, e sem ter percebido o essencial, é muito provável que o que aconteceu no triste episódio pós-Madrid se volte a repetir.

Essa é agora a questão principal, juntamente com outras igualmente pertinentes: como ficarão agora as relações nas três frentes de batalha que Bruno de Carvalho abriu? Será Bruno de Carvalho capaz de restaurar a confiança perdida junto do treinador, do plantel e dos adeptos em simultâneo? Estará ele interessado em fazê-lo?

O treinador é aqui o elo mais fraco. Jorge Jesus subiu na consideração geral pela ponderação, sangue frio e acção na preservação do interesse colectivo revelado na gestão de uma situação para a qual não há capítulos escritos nos manuais de formação de treinadores. Falta saber se Bruno de Carvalho lhe perdoará o protagonismo por ter agido também como o presidente que ele deveria ter sido e não foi.

Quanto ao plantel é certo que não pode ser refeito de um dia para outro sem que o mercado fareje o sangue e compareça aos saldos. Mas em ano de Mundial é muito provável que Bruno de Carvalho aproveite a oportunidade para se desfazer dos rostos que são reconhecidos como lideres do balneário e cuja relação parece estar já exposta a profundo desgaste.

QUAL É O POSICIONAMENTO DOS SÓCIOS NO MEIO DO “FURACÃO”?

Mas claro que a mais importante de todas as frentes é frente interna, a dos sócios do clube. Se é certo que a maioria não deseja uma crise institucional e o regresso a eleições, quando ainda há pouco o actual CD foi investido e confirmado por maiorias esmagadoras, parece também certo que ninguém quer reviver o actual pesadelo ao virar de cada esquina.

A confiança em Bruno de Carvalho está seguramente abalada pelas suas acções recentes, em particular pelo paulatino afastamento do que eram as melhores qualidades que lhe eram reconhecidas.

O Bruno de Carvalho que quando apareceu declarava que não seria preciso que lhe mostrassem lenços brancos e insultos, porque antes disso seria o próprio a tomar a iniciativa de se retirar, é o mesmo que hoje afirma ser preciso muito mais do que isso para o fazer.

No meio dos “seus” (Foto: Lusa)

A ideia de que parece estar mais preocupado com preservação do seu poder do que em exercê-lo em prol dos que o elegeram e do bem geral do clube é uma das acusações que terá que dificuldade em rebater.

Especialmente quando se lhe juntam as imagens das sucessivas assembleias gerais que agitaram o clube, num momento em que a equipa da modalidade mais representativa parecia confortável e segura de si na disputa da liderança do campeonato.

Assembleias que emperraram justamente pelos pontos que denunciavam o reforço e ampliação do seu poder, que não parecia satisfazer-se com o apoio ractificado pelos sócios de forma arrasadora. Assembleias que acabariam também por coincidir com o pior período da equipa e, falta ainda a história fechar definitivamente, o adeus ao ambicionado titulo.

Esta é uma crise imposta ao clube por Bruno de Carvalho. Foi assim que foi percepcionada pelos adeptos que por isso o invectiveram. Não foi ingratidão, mas sim por imposição do próprio presidente  na sequência da catadupa de post no Facebook. Entre um e outro os adeptos quiseram dar conta da sua escolha.

LÍDER DE TRANSIÇÃO… OU ERROS DE UM JOVEM PRESIDENTE?

Desta feita não foram os “sportingados”, a de quem ele se valeu para agitar fantasmas para a aprovação das alterações que pretendia ao regulamento disciplinar.

Não foi uma das muitas facções ou “sensibilidades” tantas vezes mencionadas como causa das entropias que impede o avanço do clube. Não foram os inimigos externos nem os poderes ocultos do futebol. Por isso terá que ser ele a demonstrar que aquela que parece ser agora a justificação escolhida “foi um erro, e quem nunca errou que atire a primeira pedra” é justa e não uma desculpa circunstancial.

De outra forma a imagem de que tem apenas perfil de um líder de transição, o ideal para tirar o clube do marasmo, mas incapaz da indispensável consolidação do clube acabará por vingar.

Mas esta justificação de um erro sem repetição tem três problemas: o próprio Bruno de Carvalho, pelo trajecto e passado recente. E por tardar em reconhecer que errou e sobretudo, como vai deixando no ar, a cada intervenção que faz, que não se perderá pela demora. Estará ele a fazer o número daquele que se faz de morto e vai dizendo entre dentes: deixa-os pousar?…

 Um segundo, que é o da identidade e da representatividade. O discurso de Bruno de Carvalho é cada vez mais pontuado pelo “eu” e cada vez menos pelo nós.

Não são apenas as alterações estatutárias desnecessárias e inoportunas apenas para controlar o clube. São as suas declarações impensadas e inconsequentes, o  “mau gosto” do discurso e dos comportamentos, a depreciação de uma marca centenária que se construiu em volta de valores, e que por isso tem subsistido aos períodos de mingua dos resultados.

Há cada vez mais quem não se reveja e não se sinta representado por esta conduta, o que é um problema se atendermos a que o presidente é ou deveria ser não só a figura de proa mas também o maior guardião dos valores do clube.

O outro é o diagnóstico de “burnout” do seu amigo e mentor, Eduardo Barroso. Ou o clínico se enganou, pelo que a tentativa de minimização do sucedido cai por terra e continua a ser necessária a explicação e prestação de contas.

Ou então o presidente precisa quanto antes de repousar e de se refazer, até porque o futuro imediato do clube vai requer – requer sempre! – uma luta incansável e sem tréguas . Ao fim e ao cabo a pergunta que nasce daqui e cuja resposta tentam muitos Sportinguistas obter há dias para cá é essa: o que este episódio nos revela sobre Bruno de Carvalho é o seu feitio e por isso não há lugar a qualquer esperança de mudança ou tratou-se de um mero acidente (defeito) de percurso?

Unidos… mas até quando? (Foto: Lusa)

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