25 Jun, 2018

À volta da primeira volta do Sporting Clube de Portugal

José DuarteJaneiro 12, 20188min0

À volta da primeira volta do Sporting Clube de Portugal

José DuarteJaneiro 12, 20188min0
A primeira volta já terminou, com o Sporting Clube de Portugal a 2 pontos do 1º classificado e a 3 do 3º. Há esperança para os Leões no sonho do título?

AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES

As primeiras 5 jornadas da Liga corresponderam a outras tantas vitórias, carimbando logo aí a seriedade da candidatura do Sporting ao título. Algumas das dúvidas relativamente à qualidade de alguns dos novos jogadores foram também por aí perdendo força. Apenas Coentrão confirmou a debilidade fisica que o fez sair de Madrid à procura da reafirmação e de um lugar no avião da selecção nacional para a Rússia, lá mais para o Verão.

Piccini entraria ainda com hesitações, que se tem encarregado de superar com distinção. Mathieu foi desfazendo os piores temores, sendo, de todo o quarteto defensivo, aquele que se revelaria a melhor surpresa, pela qualidade e equilíbrio das suas acções.

Mas a grande surpresa teria sotaque italiano pelo clube de origem, mas expressa-se em bom português: Bruno Fernandes. Uma das melhores aquisições do Sporting dos últimos anos e um dos melhores resgates do futebol nacional.

A maior visibilidade proporcionada por jogar num dos grandes nacionais retirou-o da penumbra a que desde muito cedo se havia recolhido em Itália. Pela qualidade de soluções que o seu jogo empresta – ligação entre sectores, equilíbrio, decisão, meia distância – dificilmente poderá ficar excluído das escolhas de Fernando Santos à partida para a concentração em Kratovo, nos arredores de Moscovo. No final desta primeira metade do campeonato é um dos nomes incontornáveis quando se pensa em fazer lotes dos melhores.

OS PRIMEIROS TROPEÇÕES

Estava tudo aparentemente bem encaminhado quando acontece o primeiro tropeção. Não se pode dizer que não estávamos avisados, pelo menos pelo historial de resultados surpreendentemente maus em Moreira de Cónegos. Mais surpreendente ainda que o resultado foi a exibição tristonha. Talvez se possa contabilizar este nulo (1-1) como os primeiros danos colaterais pela participação na Liga dos Campeões.

DANOS COLATERAIS 

A Liga dos Campeões tem uma factura que é paga por quase todas as equipas, mais tarde ou mais cedo, no campeonato. Seja por cansaço, seja pela dificuldade em manter foco e motivação permanentes. Talvez não tenha sido um acaso que o primeiro empate surja nesta viagem por tortuosas estradas no coração do Minho,  antecedendo a recepção à multitude de flashes que habitualmente acompanham as estrelas do Barcelona. Isto depois de já ter mostrado ao Steua de Bucareste o sinal vermelho no play-off da Liga dos Campeões e tomado de assalto a base do Olympiakos, no Pireu. Este jogo confirmaria uma das debilidades na construção do plantel: a ala esquerda da defesa fica exposta a cada ausência de Coentrão. A confiança na prontidão de Jonathan Silva é manifestamente infundada.

FRAQUEZA COM OS FORTES

Até o inicio de Dezembro, enquanto decorreu o ciclo europeu, o Sporting haveria de perder mais quatro pontos – que poderiam ser seis, uma vez que do jogo em Vila do Conde salvou-se o resultado… – todos eles com um ponto em comum que se voltaria a confirmar no derby da Luz: a incapacidade do Sporting em vencer os mais fortes do campeonato. Precisamente o oposto do que representou a chegada de Jorge Jesus a Alvalade, uma alteração que se associa também a uma outra ainda não totalmente confirmada: esta nova versão parece querer abordar os jogos de forma mais conservadora, expectante, cínica até, mas denota dificuldade na sua concretização.

SEIS DOS OITO PONTOS SÃO PERDIDOS

Seguindo a lógica que para ser campeão se é obrigado a ganhar todos os jogos com os pequenos em casa e fora e todos os jogos em casa e fora, chega-se à conclusão que, dos oito pontos que não conseguiu amealhar (Moreirense, FC Porto, SC Braga e SL Benfica), seis têm que ser dados como perdidos. Seguindo o mesmo critério, fica a vantagem relativamente ao SL Benfica para os jogos entre si, que podem ser importantes em caso de desempate, isto se cumprir a obrigação de ganhar o seu jogo em casa na volta do campeonato.

Uma equipa ainda com saudades de Adrien? (foto Sporting)

CURIOSIDADES ESTATÍSTICAS

Desde a longínqua época de 1994/95 que o Sporting não dobrava a primeira metade do campeonato invicto. Porém isso à época valeu-lhe de pouco, uma vez que Bobby Robson vingava-se então de um despedimento absurdo de Sousa Cintra e venceria o campeonato.

Há ainda uma outra interessante e desafiadora: nas últimas sete vezes que o actual comandante virou na frente à primeira volta, foi sempre campeão. Porém, na oitava vez foi precisamente o Sporting que o impediu de chegar ao titulo, numa outra coincidência: tal como então, o Sporting buscava interromper um longo período sem títulos.

Outro dado interessante para registo é que nos embates entre os principais candidatos nesta Liga ninguém logrou superiorizar-se na conquista de pontos.  Já no terreno jogo julgo ser inteiramente justo admitir que, no computo geral, o sinal mais foi dado pelo FC Porto nos jogos disputados entre candidatos.

E é aqui que surge alguma estranheza, que acentua a ideia de um Sporting diferente dos anos anteriores: na comparação entre rivais e contendores ao título o Sporting ostenta os número mais débeis em parâmetros importantes na análise de desempenho. Por exemplo, número de remates concedidos e efectuados, e os valores percentuais da posse de bola (dados GoalPoint).

E se houve algo verdadeiramente surpreendente no último dérby foi a apatia de Jesus no banco perante uma equipa sua tão distante daqueles princípios que tanto o notabilizaram: grande intensidade na pressão, quase sempre exercida em duas linhas, independentemente dela ser exercida alta ou com linhas mais recuadas. Muito critério na saída de bola no inicio de construção, sendo a proximidade entre sectores e as diversas soluções de passe que se oferecem ao portador determinantes para o sucesso da jogada.

Ao contrário, esta primeira volta revelou uma equipa demasiado permissiva com especial evidência no recente dérby. Viu-se um Sporting claramente partido entre sectores, onde um William demasiado encostado à linha defensiva compromete a qualidade das saídas para o ataque. Dessa forma, a bola ou chega raramente à frente ou sem grande qualidade para permitir o êxito quando tal sucede. Mais estranho ainda foi constatar a inação de Jesus perante o desmontar de todos as cautelas e tracção traseira – Pizzi e Fejsa – sem que tivesse ocorrido uma resposta à altura a partir do banco contrário.

PARADOXO SPORTING

Para contrariar esta ideia de sinal negativo a equipa de Jesus vestiu o fato de gala para o encerramento da primeira volta, trucidando o Marítimo com uma mão cheia de golos. Por sinal, uma equipa cuja melhor virtude que lhe era apontada era a capacidade de defender. O Sporting é ainda uma equipa invicta, contrariando a ideia (que os números confirmam como uma das equipas que mais remates dentro da área concede) de equipa permissiva e os seus números de golos marcados (38) e sofridos (11) não estão distantes do que os seus rivais conseguiram: FC Porto 45M/9S e SL Benfica 40M/11S.

Ao contrário do que era a marca das equipas de Jorge Jesus, tem havido muito maior relevo para as acções individuais do que as de cariz colectivo. Aqui sobressaem Patricio, a realizar uma época no auge das suas faculdades, alcançando finalmente tudo aquilo que se lhe augurava. A eficácia de Bas Dost, mas muito dependente da capacidade que a equipa tem de lhe colocar a bola na área, onde é sibilinamente letal. Bruno Fernandes surge como a argamassa que une as diferentes pedras e o trio  Piccini, Coates e Mathieu como muro que tudo sustenta quando à frente tudo falha.

Não menos paradoxal é o comportamento até ao momento no mercado de Janeiro. Apesar da qualidade indiscutível dos jogadores até agora contratados, aquelas que seriam as principais prioridades –  defesa esquerdo, número 8 “Adrien style”, avançado para jogar com Bas Dost – continuam por fechar. Ou haverá surpresa com Rúben Ribeiro e afinal Wendel este ano é que já é?

AS DÚVIDAS

É verdade que as equipas de Jorge Jesus tendem a crescer sob o seu comando e talvez ninguém tenha reparado que no recente jogo com o Marítimo, como na generalidade dos jogos realizados desde Agosto, Jesus tenha jogado com quatro titulares que chegaram este ano (Ristowski, André Pinto, Coentrão, Bruno Fernandes). Este número de jogadores sobe para sete considerando os suplentes utilizados (Acuña, Battaglia e Medeiros).

As perguntas que agora se colocam é se este registo até agora obtido é suficiente para chegar ao tão desejado campeonato. Confiando na sorte que tem protegido a equipa em alguns jogos e num eventual desaire futuro do actual comandante, claramente que sim. Parece-me no entanto demasiado ligeira este tipo de abordagem, por confiar em excesso em factores que lhe escapam ao controlo.

O ideal seria por isso eliminar as principais fraquezas acima descritas, o que não se afigura difícil para um técnico tão bem preparado e sagaz como Jorge Jesus. Ainda assim atrevia-me a um vaticínio: a equipa não se sente confortável num registo mais calculista. Ou então, além de uma maior reacção à perda, a melhor organização após posse e as transições deveriam ser melhor trabalhadas.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter