Os Segredos do Sporting – Do Presidente ao Treinador

José Nuno QueirósFevereiro 17, 20218min0

Os Segredos do Sporting – Do Presidente ao Treinador

José Nuno QueirósFevereiro 17, 20218min0
O Sporting CP mudou de uma época para a outra e aqui contámos os segredos desta mudança que começou em Varandas e terminou no treinador, Rúben Amorim.

O Sporting é neste momento líder da Liga NOS e de forma muito isolada para os principais rivais, Amorim fez algo que não só parecia impossível como o está a fazer pulverizando records e de uma forma avassaladora. Até onde conseguir chegar o Sporting com este seu treinador.

Mas afinal, o que mudou para que o Sporting passasse de uma equipa que não conseguia competir com Benfica e Porto para uma equipa que atinge vantagens de 2 dígitos no início de uma segunda volta para esses mesmos adversários?

Política de Transferência e Aposta na Formação

O Sporting é, e será sempre um clube formador, e que vive muito da sua academia, no entanto nas duas primeiras épocas de Frederico Varandas (e nas últimas de Bruno de Carvalho), não haviam jogadores a sair da academia com a frequência de outros tempos.

Neste sentido a atual direção decidiu mudar o modelo formativo e identificar desde cedo quais os atletas que tinham capacidade para poder chegar à primeira equipa, colocá-los a jogar em níveis competitivos superiores aos da sua idade e preparar a sua afirmação quando fossem chamados à equipa A.

Ora este tipo de projetos precisa de um treinador que não tenha medo de apostar, que confie e que faça os jovens crescerem, potenciando os seus atributos.

Foi isto que o Sporting pediu a Ruben Amorim quando pagou 10M€ de euros por ele. Era mais do que um homem para treinar taticamente a equipa, era o homem que ia identificar os jogadores que estavam prontos para avançarem dos juniores e sub-23 para a equipa principal!

Neste sentido Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Tiago Tomás, Joelson Fernandes e Matheus Nunes juntaram-se a Maximiano e Plata como apostas na principal equipa dos leões, a que se juntaria Daniel Bragança regressado de empréstimo.

Este tipo de gestão permite logo moldar a atividade no mercado. Consoante as opções que eu tenho em casa eu posso priorizar a compras que vou fazer lá fora.

Aliado a isto foi feita uma “limpeza” do plantel, identificando quais os atletas que não correspondiam à exigência do treinador, ou cujas características não encaixam no modelo, ou cuja atitude não era apreciada, ou jogadores que poderiam ser substituídos no clube por jovens sem perda de qualidade e dando poder de compra ao leão.

Assim sendo, Renan, Ilori, Bruno Gaspar, Ristovski, Camacho, Doumbia, Diaby, Eduardo Henrique e Rosier juntaram-se a Bolasie e Jesé no lote de jogadores que foram dispensados por falta de qualidade/empenho e Battaglia, Acuna, Vietto e Wendel foram jogadores que foram vendidos por se entender que havia alternativas melhores na formação como Matheus Nunes, Nuno Mendes e Tiago Tomás.

Tendo feito este processo primeiro, o treinador pode depois partir em busca de jogadores para as posições que faltam, ou seja, pedir jogadores com características específicas para posições onde o técnico entendeu que os atletas que tinha não davam garantias e que na formação não havia ninguém capaz de desempenhar aquelas funções.

Chegamos ao fim do mercado e faltava apenas substituir Borja, contratar um avançado e uma alternativa a Porro, algo que já foi alcançado.

Este tipo de trabalho retirou responsabilidade a Hugo Viana que passou apenas a ser o homem que traz os atletas pedidos pelo técnico. Sendo que “dentro de portas”, jogadores como Pedro Gonçalves e Nuno Santos são pedidos expressos do treinador, ao passo que Feddal e Porro, terão ao que tudo indica sido sugestões do Scouting (com base nas características pedidas pelo técnico) e que receberam o OK de Rubén Amorim.

Uma mudança de paradigma de um ano para o outro e que terá que ser para manter.

Foto: Sporting Clube de Portugal

Inovação Tática

A inovação tática quando aperfeiçoada traz sempre muitas complicações aos adversários que a enfrentam. Foi assim que Jorge Jesus galvanizou no Benfica ao apresentar um 4x4x2 que contrariava o clássico 4x3x3 que era usado por praticamente todas as equipas.

Hoje em dia vemos que uma grande parte das equipas adotou este modelo do 4x4x2 ou a sua variante do 4x2x3x1, em detrimento do clássico 4x3x3 que começou a desaparecer, o que significa que hoje já não é fácil surpreender taticamente com este modelo, uma vez que técnicos e atletas o treinam durante toda a semana e já há largos anos.

Amorim ao trazer o 3x4x3 no Braga apanhou toda a gente de surpresa, apenas o Chelsea de Conte tinha utilizado este sistema com regularidade e foi campeão. (Este sistema foi baseado em equipas de 3 defesas da liga italiana e dos tempos de Cruijff, mas nos tempos modernos foi Conte quem a introduziu no futebol de alto nível com esta variante).

Com a ideia de ter 3 centrais puros e dois alas muito ofensivos Amorim criou uma dinâmica muito difícil de bater e começou a explorar novamente a dinâmica do falso 9 que não é usual em Portugal quando chegou aos leões.

Na tentativa de se continuar a adaptar, Amorim começou também a utilizar o 3x5x2 que coloca o médio Pedro Gonçalves numa posição mais central e com outra qualidade para servir os homens da frente, mas é na facilidade com a equipa se desdobra dentro da própria ideia que reside este sucesso. A equipa não mexe quase nada na posição das peças, mas mexe nas dinâmicas consoante os atletas que estão em campo.

Comunicação

Ficou para o fim mas é, muito provavelmente o fator mais importante dos três. Finalmente o Sporting acertou na comunicação. Foram muitos anos em que o Sporting se anunciava como “candidato ao título” no início de cada temporada e ano após ano ia ficando longe do título, depois longe da Champions, mas mesmo assim o discurso era sempre o mesmo “Sporting é sempre candidato”. Isto não é assim!

O Sporting é e vai ser sempre um grande do futebol português, mas isso não lhe permite ser um candidato ano após ano, quando a qualidade do plantel, da equipa técnica e do coletivo não o corroboram.

Os adeptos criavam uma ambição desmedida quando recebiam o “selo de aprovação” das direções aos plantéis medíocres que compunham e com largas diferenças qualitativas para os verdadeiros candidatos. Isto levava a que, inevitavelmente, os adeptos ficassem frustrados e desiludidos quando começavam a perceber que a distância para a frente já era muito grande.

Este ciclo vicioso de não ser campeão, não entrar na Champions e fazer menos dinheiro que os rivais criou um fosso que não permitia ao Sporting ser candidato a nada.

Ora este ano tudo mudou! A direção assumiu como objetivo principal a entrada na Champions, não por achar o Sporting enquanto instituição inferior aos rivais, mas porque este é que era o objetivo realista e necessário para um desenvolvimento a longo prazo do clube! Só quem joga a Champions com regularidade pode aspirar a ser campeão nacional várias vezes.

Claro que pode acontecer de uma equipa ser campeã sem estar na Champions, mas isso será uma “wonder season” como foi o caso do Leicester em Inglaterra e não um projeto consolidado para poder ser competitivo ao alto nível época após época como são Porto e Benfica.

Isto aliado ao habitual frenesim dos adeptos que fartos de esperar ficam muito eufóricos com qualquer vantagem na liga leva a que Rúben Amorim ponha um travão e fale no “jogo a jogo”! Não vale a pena estarmos a pensar em Maio quando ainda vamos em Fevereiro, esse tipo de pensamento leva à derrota e ao insucesso e a uma queda anímica ainda maior e mais dolorosa.

O próximo jogo é com o Portimonense e o treinador só pensa “Podemos ganhar ao Portimonense? Claro que podemos!” e o importante é pensar em como o fazer para somar mais 3 pontos, sem pensar nos mais de 40 que ainda faltam disputar, porque os outros pontos só são importantes, quando conquistámos os pontos anteriores.

Foto: Getty Images

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