Burocracia vs Mérito: qual o vencedor?

Guilherme CatarinoMarço 21, 20214min0

Burocracia vs Mérito: qual o vencedor?

Guilherme CatarinoMarço 21, 20214min0
O caso de Rúben Amorim levanta uma questão relevante no mundo do futebol: deve um treinador ter um curso para poder treinar? Discute aqui!

Num país onde a preocupação estatal extravasa – na minha humilde opinião – muitas daquelas que deveriam ser as suas balizas, ficamos na recente semana a saber que um profissional português competente, mais uma vez, corre o risco de enfrentar a justiça pela “falta de competência legal para o exercício do cargo”. Falo de Rúben Amorim, uma das melhores surpresas que o nosso futebol nos deu num período tão conturbado como o atual, mas que, pela aparente falta do curso de nível IV de treinador, não poderia ter orientado o Sporting nas competições nacionais como “treinador principal”, nem demonstrar-se como tal.

A Associação Nacional de Treinadores – ente queixoso neste processo – descreveu como uma situação fraudulenta Amorim fazer-se passar por treinador-adjunto do clube de Alvaldade, quando internamente se assume claramente como o principal. Ora, algumas questões surgem perante esta temática, não só por não ser – de todo! – uma coisa anormal ao futebol português, mas igualmente por nos remeter para uma dicotomia interessante e digna de interpretação: burocracia ou mérito? Amorim não tem certificado, mas será que isso se deve sobrepor ao conhecimento que o português tem exposto semanalmente em Alvalade, com resultados dentro e fora das quatro linhas?

Não vou entrar, nesta exposição, nas claras deficiências administrativas dentro das organizações que ministram e formam os treinadores através do famosos “cursos da UEFA” – até porque toda essa questão daria tempo de antena a uma discussão prolongada e minuciosa – porém aquilo que pretendo retirar desta referência é que, pela demora no cumprimento dos níveis exigidos, muitos jovens treinadores (muitos deles antigos jogadores profissionais) acabam por embarcar em projetos de menor dimensão – ou maior até, veja-se o exemplo de Costinha no Beira-Mar em 2013 – para aprimorar o conhecimento que durante largos anos como profissionais de futebol tiveram oportunidade de adquirir.

Villas-Boas é um exemplo de treinador de sucesso sem passado como jogador (Foto: Sic Notícias)

Perguntam-me agora: mas será necessário ter sido jogador profissional para ser um bom treinador? Naturalmente que a resposta tem de ser negativa. Veja-se aliás o exemplo de André Villas-Boas e o fantástico trabalho que tem desenvolvido na sua (ainda) curta carreira. É, contudo, para nós indissociável que as inúmeras palestras táticas e treinos pormenorizados que um jogador profissional recebe durante os (habituais) 15/20 anos de carreira oferecem, na prática, uma aprendizagem sobre a modalidade que na teoria poucos papéis conseguem. E não é por acaso que a vasta maioria dos treinadores profissionais de futebol, um pouco por todo o mundo, têm um passado ligado à modalidade.

Não podemos, contudo, esquecer as certificações legais que habilitam estes treinadores. Existem por uma razão clara: a transparência. Senão que balbúrdia esta a que viveríamos! É verdade que um passado profissional prático na área oferece muita coisa que os livros não expõem, mas, como profissão, existem certos pressupostos a cumprir. Falamos de futebol mas poderíamos falar de qualquer outra profissão. Vejamos Medicina ou até advocacia, áreas cuja intervenção – sem desrespeito qualquer pelas outras áreas – exige uma preparação maior e um estudo mais aprofundado.

É consensual, creio até, que um conceituado médico que se venha a descobrir inabilitado legalmente para exercer, perde de certa forma uma credibilidade entre os seus pacientes. Deverá, porém, ser-lhe retirado todo o mérito que anteriormente teve por não ter um papel que o habilite? Não nos esqueçamos que existem outros métodos de aprender que não numa escola, e que qualquer um o pode fazer caso queira. Será raro? Talvez, mas é uma realidade que não pode ser desprezada! Rúben Amorim está a tirar o curso exigido, à medida que aprende e ensina aqueles que, no presente, estão onde outrora teve o treinador leonino, numa situação a par de todos e, especialmente, da entidade que o emprega e que, por isso, sabe do risco envolvido. Deve-lhe ser retirado o mérito de um 1º lugar destacado, com uma equipa surpresa e sem derrotas até este momento?

É uma questão que deixamos em aberto mas que, no nosso entendimento, deve atentar a cada caso específico. Admitamos que, casos de sucesso como o de Rúbem Amorim, um pouco por Portugal fora, são de relevo obviamente, mas traduzem uma realidade rara e portanto, a debater.


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